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Ana Tuzaneri
A empresa USA Rare Earth vai pagar 2 bilhões e 800 milhões de dólares por essa mina que fica em Minasul, no norte goiano. A mineradora brasileira é controlada por investidores privados e fundos internacionais. O pagamento será feito em dinheiro e ações e deve ser concluído no terceiro trimestre deste ano.
Lantânio, neodímio, promécio, sério, Esses nomes fazem a gente lembrar das aulas de química e da tabela periódica na escola. Lembra disso? Pois é. A gente nem dava muito importância e ainda se perguntava. Para que mesmo eu estou estudando isso? Só que esses elementos químicos que a gente não dava muita bola e mais outros 13 componentes da tabela periódica renderam recentemente um negócio de quase 3 bilhões de dólares e colocou o Brasil no centro das atenções. Afinal, este é um mercado em que o nosso país detém a segunda maior reserva do mundo, o mercado das terras raras. Eles também são chamados de minerais críticos. São 17 no total e agora voltam para mais um round na disputa geopolítica global. Uma mineradora em Goiás, que era controlada por fundos privados e internacionais, agora foi vendida para uma empresa americana.
Narrator/Host
Mas afinal, o que são essas tais terras raras que mexem com a geopolítica do mundo inteiro? Elas são um grupo de 17 elementos da tabela periódica entre os mais de 100, e são fundamentais em diversas áreas da tecnologia. Um dos mais cobiçados é o neodímio, que é usado para fazer ímãs superpotentes, essenciais na fabricação de carros elétricos, geradores eólicos e até de armamentos.
Ana Tuzaneri
o que voltou a preocupar o governo brasileiro. Enquanto os negócios avançam no mercado, no Congresso o tema ainda patina. A proposta, que cria regras para a exploração de terras raras, teve análise adiada a pedido do próprio governo, que quer analisar mais todos os aspectos dessa regulação, para entender melhor como organizar esse setor. A expectativa agora é que o texto seja apresentado e votado só no início de maio, depois de novas negociações.
Jonathan Colombo
O Brasil ainda não tem uma legislação específica sobre o assunto, mas projetos de leis que estão no Congresso defendem a criação de uma política nacional para minerais estratégicos. Um deles prevê que se levante uma lista de minerais que será revisada periodicamente. É importante a gente ter uma segurança jurídica e uma segurança tributária para que se tenha confiança para investir. São investimentos muito altos, de maturação muito longa e que dependem dessas ferramentas para que se venham esses investimentos para o país.
Ana Tuzaneri
Em paralelo à venda da mineradora, o governo de Goiás também assinou um financiamento com o governo americano para avançar na exploração dessas terras raras. Só que isso levou o Brasil a um outro impasse.
Legal Expert/Government Official
A competência para regulamentar é da União. Esse subsolo pertence à União. Nós temos aqui no país uma regra constitucional que defere ao Poder Central e à União esse papel de interlocução com outros países e com outro Estado. Nós precisamos legislar logo e regular logo esse tema, porque ele suscita não apenas dúvidas, mas insegurança sobretudo. Muita gente leu essas notícias nos últimos dias e ficou imaginando que nós estávamos perdendo ali um ativo importante, uma quantidade muito grande de minerais críticos, etc., para uma empresa que não é um grupo econômico brasileiro.
Ana Tuzaneri
Mas também há discussão no Supremo Tribunal Federal. Os ministros analisam uma ação do Partido Rede Sustentabilidade que questiona se o negócio envolvendo a mina, localizada em Minas Sul, no norte de Goiás, fere ou não a Constituição. O ponto aqui é saber como e de que maneira o Brasil vai entrar nesta corrida que definirá a nova fronteira tecnológica do mundo. A extração de terras raras não é simples e tudo tem que ser bastante estudado. Envolve processos químicos complexos que podem provocar impactos ambientais significativos se não forem observados com atenção. E o Brasil conhece bem esse tipo de impacto em regiões de mineração. Quando a mineração falha, por falta de cuidados devidos, a conta chega e não fecha. Até hoje, o Brasil tem famílias lidando com as perdas irreparáveis de Mariana e de Brumadinho. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é o desafio da exploração sustentável de terras raras no Brasil. Neste episódio, eu converso com Jonathan Colombo, engenheiro e professor de transição energética da FGV. Terça-feira, 28 de abril. Professor, o documento que foi divulgado pela empresa americana sobre a compra da Serra Verde aponta que a mineradora brasileira é a única produtora em larga escala, hoje fora da Ásia, de elementos que são essenciais para a indústria, sobretudo a indústria de alta tecnologia. Eu queria que você nos explicasse o que torna essa jazida tão especial e por que ela é o centro dessa batalha.
Jonathan Colombo
Historicamente, quando a gente fala em terras raras, são substâncias, minerais que foram descobertos no século XIX e eram pouco conhecidos na época e de difícil identificação. Então se associou o termo raridade a esses elementos. Mas a questão de raridade não está associada à baixa abundância desses elementos, mas a dificuldade tecnológica e econômica de a gente conseguir extrair e processar esses minerais. Então, na verdade, quando a gente fala de terras raras, são um grupo de 17 minerais e elementos químicos, que são encontrados misturados entre si. Tem um processo caro de extração, que é a separação e a purificação que está por trás desse processo.
Environmental Expert
Apesar do nome, elas não são nem terras nem raras. São relativamente abundantes na crosta terrestre. É mais comum encontrar terras raras do que ouro, por exemplo. O problema é que elas costumam aparecer dispersas em pequenas quantidades e misturadas a outros minerais. Separá-las é caro e complexo.
Narrator/Host
A produção é concentrada exclusivamente em Goiás. Outro desafio é o refino. De cada tonelada de minerais retirados, só se extrai um quilo de terras raras. É um processo caro.
Jonathan Colombo
Cada um tem uma característica específica, então eles andam junto, vamos dizer assim, é um grupo que anda junto, cada um com a sua característica. Mas eles não são separados, então você não vai achar uma pepita de um mineral raro. Eles estão sempre juntos e combinados. Então aquele provérbio lá, tudo junto e misturado, é um pouco a característica das terras raras. Quando a gente fala da jazida, nesse caso, a gente está falando de quatro elementos principais que estão em torno dessa jazida. E ela é composta por minerais que estão associados a uma composição de argila. Na verdade, ela é uma mina a céu aberto. de operação rasa e eu gosto de fazer essa comparação para a gente desmistificar um pouquinho os pré-concepções que a gente tem quando a gente fala de mina. A gente traz muito dessa questão do histórico das minas de ouro, do que foi isso de impacto ambiental para o Brasil, mesmo a questão das minas tiveram os impactos de barragem. Então, no caso dessa mina da Serra Verde, ela é uma mina que vai tratar, então, de uma remoção significativa de uma argila. Então, você não usa reagentes químicos perigosos, na sua maioria, e também não há uma geração muito grande de resíduos úmidos, que é aquilo que a gente viu na questão das barragens. Então, você tem outras características, você não vai ter perfurações muito grandes, você não vai ter detonações, como a gente vê em minas de ouro e de cobre. E a questão que a gente viu de resíduos líquidos, minério de ferro.
Ana Tuzaneri
Quando a gente fala em mina, eu já penso naquelas minas, lá nas minas gerais, em que você desce num trenzinho, num carrinho, vai até lá no fundo pra conseguir fazer a extração.
Jonathan Colombo
A gente traz essa concepção da nossa vivência. histórica, dos livros de história ou aquilo que a gente viu nos documentários. Então ela não tem essa característica de profundar para ser escavada. Você vai retirar uma argila e aí você vai fazer um processo de separação. Há sim um impacto ambiental, porque você vai ter que trabalhar numa terra grande, mas você não tem esse afundamento da exploração.
Ana Tuzaneri
Há necessidade de desmatamento dessas áreas ou essas áreas já são áreas desmatadas, por exemplo?
Jonathan Colombo
Na verdade, você tem uma cobertura vegetal em cima de parte dela, você sim vai ter que fazer um certo impacto ambiental, tanto para questões de acesso, para a questão da exploração. Então sim, você tem aí uma remoção e uma, o que a gente chama mais tecnicamente, de mudança de uso do solo. Esse solo vai ter que ser mudado para você poder transformar isso em uma mina realmente como a gente trata da questão.
Ana Tuzaneri
E essa jazida da Serra Verde, ela é importante porque ela nos dá que tipo de elemento?
Jonathan Colombo
São quatro grandes minerais que hoje são importantes para questões, que nem você comentou, não só da transição energética, E aí quando a gente fala da mineração crítica, mas também a mineração estratégica, que vai garantir questões inclusive de segurança nacional. Então a gente está falando desde desenvolvimento de equipamentos tecnológicos como eletricidade, mobilidade, quando a gente vai querer fazer mais motores de veículos elétricos, mais turbinas eólicas. mais giradores, mas também quando quiser desenvolver novos celulares, fones mesmo de ouvido, tem questões de mecanismos de indústrias e também mecanismos de defesa e aeroespacial. Então a gente está falando desde minerais que são utilizados para desenvolvimento de sistemas de rastreamento de mísseis, para questões de drone, para questões de radar. Então essa mina, na verdade, ela tem essa característica de dar acesso a quatro elementos, é o neodímio, o praseodímio, o dispróxio e o térbio. E, de novo, como a gente comentou no começo, eles são tudo junto e misturado.
Ana Tuzaneri
Me lembro agora, me desculpe, eu me lembro agora do meu professor de Química, Emanuel Maresco, lá em Recife, e eu ficava me debatendo, dizendo para que eu preciso decorar a tabela periódica. Está aqui a resposta nessa entrevista, professor.
Jonathan Colombo
Pois é, então essa aqui é a grande diferença. Então um desses elementos, ele vai garantir o quê? Que eu vou conseguir desenvolver motores maiores com menos uso de material. Ou seja, quando eu uso o neodímio na concepção de um motor, ele vai ser um motor mais leve e mais eficiente. Consequentemente, eu vou gastar menos energia. Um outro desses minerais, a maioria desses outros três combinados, eles vão garantir que o neodímio vai conseguir performar com um desempenho térmico e magnético mais resistente.
O mais importante desses minérios raros hoje é o neodímio, que é usado para fazer ímãs superpotentes, resistentes a altas temperaturas, absolutamente fundamentais para a indústria da tecnologia hoje. Eles servem para fazer desde fones de ouvido até armas de guerra, mas são fundamentais para um grande setor da indústria mundial. É quase impossível fazer um carro hoje sem esses ímãs.
eram aqueles pequenas letras que tinham na tabela periódica, e quando a gente entende a significância, você consegue trabalhar de forma mais eficiente.
Ana Tuzaneri
Cada elemento desse é importante para um tipo de produto tecnológico, é isso?
Jonathan Colombo
O principal ponto é que você não trabalha eles desconexos, até porque, como eu comentei, você não tem um veio ou uma pepita de neodímio, ele vai estar sempre combinado com o outro, e é essa combinação que vai fazer a diferença.
Ana Tuzaneri
Mas no processo de refino não há separação desses elementos todos?
Jonathan Colombo
Quando a gente pega a terra rara como conjunto de 17, sim, eu vou criar subdivisões, mas esses quatro normalmente são grupos que trabalham mais junto dentro dos 17. Então não é que sempre eu vou trabalhar com o mesmo coletivo dos 17, eu vou trabalhar com subconjuntos desses 17, e normalmente esses quatro trabalham junto. Então por isso que essa mina, localizada no estado de Goiás, é justamente porque você vai conseguir, num único espaço, explorar quatro elementos da cadeia de minerais raros, que tem uma combinação conjunta e pode ser ali melhor aproveitado.
Ana Tuzaneri
Como é que a China saiu na frente nessa história? Conta um pouquinho, faz esse recuo histórico pra gente, por favor.
Jonathan Colombo
Acho que tem dois fatores que colocam a China como um ator importante na exploração de minerais raros. O primeiro é justamente a geolocalização do território chinês, ou seja, se você olhar embaixo do território chinês, você tem ali diversos recursos naturais e minerais que favorecem esse desenvolvimento tecnológico. Então a gente tá falando dessas questões de terras raras, também quando a gente fala do silício, que é mineral base para a produção de painéis solares, então você tem uma concentração muito grande no território chinês, então tem essa vantagem. E a segunda vantagem é que a China, ao longo da sua história, desenvolveu uma capacidade produtiva nesse país e tecnológica que permite, então, aproveitar aquilo que está no meu subsolo.
Ana Tuzaneri
Os chineses saíram na frente porque começaram a investir no setor ainda nos anos 80. Eles perceberam que se o Oriente Médio tem o petróleo, nós teremos as terras raras. Hoje, a China controla 70% da extração e 90% do processamento de minerais críticos e terras raras.
Jonathan Colombo
Então, a China se favorece desses dois elementos. Ela tem a matéria-prima, ela tem a tecnologia e ela tem, então, as pessoas para poder fazer tudo isso acontecer.
Ana Tuzaneri
Quando a China resolveu colocar esse tipo de mineração dentro da sua prioridade estratégica, não se preocupava com o meio ambiente, não se preocupava com o tipo de mão de obra que era usada. Eles foram fazendo num jeito muito peculiar, digamos assim. Jogando para os tempos atuais, que a China fez Se fosse feito hoje no Brasil, seria algo escandaloso e a própria legislação barraria.
Jonathan Colombo
Em 2014, se eu não estou enganado, você teve uma preocupação muito maior trazida pela OMC, a Organização Mundial do Comércio, que teve um processo movido pelos Estados Unidos, União Europeia e Japão justamente criticando a forma como toda a gestão da cadeia de terras raras acontecia dominada pela China. Então começou a se questionar desde a forma como ela fazia a definição de cotas e tarifas para exportação, e aí você tinha um protecionismo, não tô nem falando da parte ambiental, tô falando da parte econômica, industrial do mecanismo. E depois esses elementos que você falou, tanto da forma de exploração ambiental e social para chegar a esses elementos. Então você teve uma crítica da sociedade, isso movimentou uma organização mundial de comércio para criticar e fez com que a China mudasse a sua operação. Então mesmo a China hoje não é a mesma China de 2014. Então você já teve uma evolução porque mesmo a China já não pode fazer como ela fez no início do seu mercado como diversos outros países fizeram quando começaram a abrir suas explorações.
Ana Tuzaneri
Quando a gente olha para o mundo, tem algum outro país com condições semelhantes a da China? Lembrando que, em termos de reserva, a China está em primeiro lugar, o Brasil está em segundo lugar, a Rússia está em terceiro lugar. Tem algum país com ou não reservas desse tamanho que tem condição de disputar com a China, por exemplo, esse mercado?
Jonathan Colombo
Sim, na verdade eu vou te corrigir um pouquinho do seu ranking porque antes da Rússia a gente tem o Vietnã, então você tem a China mais ou menos com 40% das reservas, aí você tem Brasil com 20%, Vietnã com 20% e se não me engano a Rússia tá com 10%. Então se você junta Brasil e Vietnã já iguala a China em capacidade de reservas. A dificuldade aí é justamente para equiparar a China é a capacidade de avançar na cadeia de exploração. Então hoje a China tem 40% das reservas mas ela controla 70% da mineração e é evoluindo na cadeia. Depois você tem 90% do refino e separação feito na China e 90, 95% da produção de ímãs de alta performance feito na China. Então, por mais que ela tenha só, entre aspas, 40, ela detém 90% do resto da cadeia produtiva. Então, coloca ela num outro fator. Então, por mais que a Rússia ou os Estados Unidos também consigam extrair, muito acaba sendo enviado pra China poder fazer o final do processo. Então, tem esses dois momentos. Então, respondendo a sua pergunta pra igualar a China na questão de extração, Brasil mais Vietnã já igualam, mas a dificuldade está justamente nesses países darem o próximo passo e conseguirem equiparar a China na cadeia verticalizada.
Ana Tuzaneri
É muito impressionante que uma potência como os Estados Unidos não tenham olhado para isso de uma maneira estratégica e eles próprios corrido atrás de fazer o refino que a China faz, né?
Jonathan Colombo
E esse negócio é justamente para tentar tirar o atraso que os Estados Unidos têm. Então, os Estados Unidos têm a capacidade de separação dos minerais, que é a parte de refino, e também da produção dos ímãs de alta performance. o que eles não têm a questão de volume. Então agora com esse negócio junto com a Serra Verde, eles acabam tendo a cadeia mais verticalizada, ou seja, eles vão começar a contar com a extração do minério bruto no Brasil e seu beneficiamento sendo feito no Brasil, e aí eles têm capacidade de colocar isso dentro da sua cadeia produtiva para poder evoluir o mais refino em produção e aí tiraram o atraso em relação à China.
Ana Tuzaneri
E isso demora muito para eles tirarem esse atraso?
Jonathan Colombo
Demora porque na verdade a China está com uma capacidade produtiva muito mais instalada e os Estados Unidos não tinham essa matéria-prima para poder ser eficiente nesse processo. O que precisa avançar agora nesse modelo é o aumento de escala, ter uma logística eficiente e uma estabilidade regulatória entre os países, coisa que a China já consegue garantir porque tudo está na sua forma de gestão, tanto a parte regulatória quanto a cadeia no seu próprio território.
Ana Tuzaneri
E aí a gente volta então para o Brasil. Estamos, portanto, sentados sobre um minério que é considerado crucial para dar conta da revolução tecnológica, para a manutenção do desenvolvimento tecnológico, mas a gente não tem nada disso. A gente não tem uma capacidade de exploração em grande escala, a gente não tem condição de refino, a gente não tem muita coisa, a gente tem a matéria-prima. O que precisa haver na nossa regulamentação para que a gente não seja apenas um fornecedor de matéria-prima?
Jonathan Colombo
Acho que a gente tem algumas lições a aprender com o histórico da China. Nessa parceria de negócio que está acontecendo aqui entre a US Rare Earth e a Serra Verde, Correndo da forma com que está planejado esse conjunto vai até 2027 ter a capacidade de produção de 50 por cento das terras raras fora da China sendo feito entre Brasil e Estados Unidos. Então isso já coloca o Brasil numa outra circunstância de mercado geopolítico em relação a terras raras. E tem a outra vantagem também que você tem um mercado comprador desse produto até 15 anos. Então você já tem uma segurança de mercado para que o Brasil possa evoluir em outras frentes. Então, o que a gente pode aprender com a China? Então, tem toda uma questão que a gente tem uma certa limitação até pelo próprio modelo chinês. Então, o que a China fez? Ela transformou um modelo ambientalmente devastador, que é o que acontecia antes de 2015, para um modelo ambientalmente gerenciável.
Environmental Expert
Além da retirada da vegetação e da erosão do solo nas áreas de mina, também há risco com os produtos químicos usados na separação dos elementos. Se não forem manuseados corretamente, podem contaminar o solo e até se infiltrar em cursos d'água, afetando rios e comunidades do entorno. Em Baotou, cidade chinesa que explora esses elementos há décadas, moradores convivem com lagoas de rejeitos tóxicos e investigações apontam taxas mais altas de câncer, segundo uma reportagem do The Guard.
Jonathan Colombo
Então por toda mudança que aconteceu na China eles conseguiram sair de um processo onde o custo está agora visto como um passivo ecológico e social histórico que outros países não querem repetir. Então acho que essa lição que o Brasil tem a aprender de fortalecer a sua estrutura. Claro que a gente não tem o mesmo mecanismo geopolítico e político institucional que viabilizou na China mas a gente tem algumas variáveis que a gente pode trabalhar. Uma delas é a questão da consolidação desses ativos. Então, a China evoluiu porque antes dessa crítica de 2014, ela tinha uma permissão de que a exploração era feita de forma ilegal e de forma desordenada. Então, você poderia ter pequenas minas que forneciam para o Estado e o Estado consolidava e exportava. Essa crítica fez com que a China revise seu modelo de negócio concentrar-se a seu processo de exploração de forma controlada pelo Estado nas diversas etapas. Então todo o processo de mineração, separação, refino, inclusive pesquisa e comércio é feito de forma consolidada pelo mercado chinês, matando a exploração ilegal dos minérios. E na questão de regulamentação, que aí é um pouco do cuidado que a gente tem que tomar de tentar espelhar, é justamente que as terras raras, então assim como o Brasil minério ele é ativo do Estado, você tem a questão de que não pode contar com o Estado protecionista, mas você tem aí controles que podem ser implementados. Então no caso da China, eles implementaram um sistema de rastreabilidade, então hoje vale para todo o processo da mineração, que nem eu comentei, mineração, separação, mitologia, inclusive reciclagem e exportação. e também aumentaram as exigências de conformidades com leis ambientais de segurança e de uso de energia. Então são esses pontos aí que a gente tem que tomar com o Brasil de não se espelhar num mercado que vai ser extrativista mas sim um mercado que vai conseguir evoluir por um processo de regulamentação e a regulamentação ela apoia o desenvolvimento industrial mas que ela não seja uma ferramenta de bloqueio de evolução de mercado.
Ana Tuzaneri
Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com o Jonathan Colombo. Pelo que você nos conta, tem algo que fica aqui ricocheteando na minha mente. Bom, se os Estados Unidos precisam dessa reserva, em outros assuntos de natureza geopolítica, eles vão ter que passar a respeitar mais o Brasil, porque essa produção é uma produção muito importante para garantir espaço nessa nova fronteira tecnológica. Mas o que na regulamentação brasileira, além das preocupações ambientais que você repisa bastante bem, a gente precisa ter no nosso debate de regulamentação.
Jonathan Colombo
Então tem um elemento que inclusive está no próprio acordo de negócio que foi firmado aqui, que é justamente você ter um pressupiso para esse minério para você não entrar num combate de menor preço de mercado, como a gente vê às vezes inclusive com influências negativas visto muito no petróleo, onde você derruba o preço do petróleo artificialmente. Aqui você tem justamente isso, que na minha visão, mais como pesquisador do que especialista de políticas públicas, é pensando que você pode ter não só o Brasil entrando nesse mercado, mas também o Vietnã. Então a gente tem China concentrando 40%, Brasil entra com 20%. E se Vietnã entrar com 20%, começa a querer jogar esse preço lá pra baixo. Então você vai ter que ter uma forma de que os atores não permitam, e a regulamentação não permita, essa guerra de preço predatória. Tem que buscar justamente esse oferta de produtos ao menor custo, mas limitado a um valor mínimo que não tenha ali um prejuízo grave na exploração de ambiente e sociedade para buscar ali uma oferta de menor custo. Então acho que esse é um dos pilares que a gente tem que ter na regulamentação, que já existe nesse acordo de mercado, mas que a regulamentação tem que reforçar, que é o que a gente chama de Race to the Bottom, que é justamente a corrida para você não buscar a regulamentação mínima e os controles mínimos para garantir um preço baixo.
Ana Tuzaneri
E aí eu imagino que o Vietnã tenha que fazer a mesma coisa, outros países com reservas tenham que fazer a mesma coisa, tem que ser uma coordenação internacional.
Jonathan Colombo
Isso, e aí inclusive você tem o que motivou essa mudança da China, que era o detentor de 90% da produção do produto finalizado, a interferência do OMC para garantir que isso não continuasse acontecendo no caso da China, funcionou. Você conseguiu implementar uma política que fosse mais eficiente, inclusive trouxe benefícios para a própria operação da China, mas não só pelo lado ambiental, mas econômico. Então isso é importante, você ter as políticas individuais, mas atores globais que vão ali buscar isso de forma não necessariamente equânime, mas equilibrada entre os diversos ofertantes dos produtos disponibilizados para o mercado como um todo.
Ana Tuzaneri
Falando do ponto de vista ambiental, de que é preciso ter uma regulamentação que preserve o meio ambiente. A gente tem no Brasil um histórico de desastres horríveis com barragens de rejeitos. Eu queria que você falasse desse tipo de desafio para nós e para outros países que vão entrar nessa coreografia junto com o Brasil.
Jonathan Colombo
Então acho que aí é justamente um dos motivos de que essa etapa do processo não foi explorado por outros países. Então se a gente pega a cadeia de exploração que começa lá na mineração e extração, aí depois passa pelo beneficiamento, isso é o que o Brasil vai tender a evoluir nesse caso aqui do negócio entre a Serra Verde e a empresa americana US Rare Earth. As outras etapas que continuam, que é aquilo que está centralizado hoje na China, vai ser executada no ambiente americano, que é o refino, a purificação e a produção do ímã. Então, se a gente olha pelo lado econômico, o valor agregado acaba acontecendo mais nessa segunda etapa. Mas o principal gargalo ambiental é justamente na etapa de refino, que é o que não se pretende trazer nesse acordo para o Brasil. E é justamente onde você tem a maior disposição a ácidos fortes e solventes químicos no processo de refinamento, no gerenciamento de resíduos líquidos e sólidos tóxicos, acaba tendo mais concentrado nessa etapa. Então isso não exime a preocupação do Brasil, até porque o nosso objetivo depois progressivamente é começar a trazer essa parte da cadeia internamente, mas a gente tem que trabalhar isso de forma progressiva para que essa etapa, quando ela chegue no Brasil, a gente não traga essa externalização dos dados para as populações mais vulneráveis, que é justamente normalmente quem está no entorno dessas regiões.
Ana Tuzaneri
Ou seja, é preciso bastante investimento em pesquisa para se encontrar formas de fazer esse refino quando esse momento chegar no Brasil, com o menor impacto ambiental possível, com o menor risco possível, não só para o meio ambiente, mas para a população local, para as comunidades locais, para que isso não se vire contra nós. É isso que você está dizendo?
Jonathan Colombo
É isso mesmo. Na verdade, a gente tem que garantir que aquela extração que eu vou fazer não vai me deixar apenas com os desgastes ambientais e o processo de evolução também não vai gerar uma poluição crônica nas regiões industriais, não vai gerar uma exposição dos trabalhadores a substâncias perigosas, então eu preciso ter essa garantia de que a produção final que eu estou buscando não vai deixar esse passivo para trás, seja ele ambiental ou social. Por isso que hoje você tem essa evolução de processo onde eu vou aumentar a minha relevância econômica no processo, mas eu também tenho que aumentar as minhas proteções ambientais para que eu não traga esse peso negativo no meu processo também.
Ana Tuzaneri
Se o Brasil fizer tudo certo, em quanto tempo a gente também pode ter o nosso começo, meio e fim de maneira responsável?
Jonathan Colombo
Por esse acordo comercial, a gente já tem o horizonte de 2027, de colocando o Brasil e os Estados Unidos nesse acordo como um dos principais produtores fora a China, é um processo que vai levar mais tempo, então a gente demanda no mínimo nesse acordo aí quatro, cinco anos para a gente começar uma operação mais aprofundada, mas de novo não é uma coisa que a gente vai resolver no curto prazo e como a gente viu não é uma cadeia simples, então se a gente quiser fazer tudo vai demorar bastante. Eu recomendaria da nossa preocupação não ser o máximo mas fazer progressivamente bem feito com evoluções de tecnologia, com evoluções regulatórias e proteções sociais e ambientais nesse processo. Precisamos de diversos anos para que a gente consiga progressivamente ir aprendendo não a repetir os erros dos passados, mas construir os nossos elementos de camanhada com base nos sucessos positivos que vimos em outros mercados.
Narrator/Host
A primeira vez, a balança comercial de terras raras do Brasil está positiva, ou seja, o país vendeu mais do que comprou. Apesar dos números positivos, a exploração ainda está muito longe da capacidade máxima.
Ana Tuzaneri
Esse acordo dos Estados Unidos é com o governo de Goiás, não é com o Brasil. O Brasil ainda está estudando a melhor forma de fazer isso acontecer. Não tem um problema aí de ter sido um governo de estado e não o governo brasileiro, isso pode dar problema lá na frente?
Jonathan Colombo
Pergunta um pouco fora da minha área de conforto aqui, mas sim, tem uma preocupação nesse processo justamente quando você define de quem é a responsabilidade em relação à gestão de minérios. Quando você tem a União como responsável pela gestão de minérios e isso interfere numa soberania nacional, você pode sim ter discussões de governança. precisaríamos ver como esse acordo foi firmado, porque com certeza algumas travas e proteções foram feitas para garantir aí uma segurança no negócio. Mas tem sempre uma preocupação, onde você está falando de extração de áreas públicas, ou pode ser inclusive definido como critérios de segurança nacional, então você pode ter alguns critérios, sim, que poderiam impactar o negócio no longo prazo.
Ana Tuzaneri
Quem não tiver terra rara no médio prazo, acontece o que?
Jonathan Colombo
Aquele que não tiver acesso à terra rara, ele vai estar fora de uma cadeia de fornecimento de materiais cada vez mais necessitado pela economia, que é para o desenvolvimento da transação energética, para o desenvolvimento de tecnologia, inteligência artificial, e vai estar apenas como consumidor daquilo que foi produzido, então você não participa da cadeia de fornecimento, você participa só da cadeia de compra. E aí você está num dos lados da balança apenas, do de comprador e não fazendo parte da formação de preço.
Ana Tuzaneri
Portanto, do lado mais fraco.
Jonathan Colombo
Do lado normalmente mais fraco, sim. Você perde também a questão não só da questão econômica, mas desenvolvimento da indústria, capacidade de formação de pessoas para atuar numa tecnologia de ponta. Então você acaba tendo uma menor aplicação desse mercado para você. Você acaba ficando mais no mercado de consumo de toda a tecnologia, seja para a produção do produto final, para o desenvolvimento dessa tecnologia e mais exposto aí o que vai ser feito nos outros países.
Ana Tuzaneri
Professor, foi ótimo conversar contigo. Tomara que os governos, este e os próximos, consigam aproveitar essa oportunidade com bastante responsabilidade do ponto de vista ambiental, sobretudo para que a gente não perca esse bonde. Te agradeço muito, foi ótimo te ouvir.
Jonathan Colombo
Muito obrigado a todos.
Ana Tuzaneri
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Felipe Turione. Eu sou Ana Tuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
This episode delves into the strategic importance, regulatory challenges, and environmental risks surrounding the exploration and exploitation of rare earth elements (terras raras) in Brazil. Prompted by the recent $2.8 billion acquisition of a Brazilian mine in Goiás by the US company USA Rare Earth, the discussion investigates what rare earths are, their geopolitical significance, Brazil's opportunities and vulnerabilities, and the path toward a sustainable regulatory framework.
Why rare earths matter:
“O mais importante desses minérios raros hoje é o neodímio... absolutamente fundamental para a indústria da tecnologia hoje. É quase impossível fazer um carro hoje sem esses ímãs.”
— Jonathan Colombo, [10:49]
On China’s dominance:
“Os chineses saíram na frente porque começaram a investir no setor ainda nos anos 80. Eles perceberam que se o Oriente Médio tem o petróleo, nós teremos as terras raras.”
— Ana Tuzaneri, [13:10]
On environmental legacy:
“Quando a mineração falha, por falta de cuidados devidos, a conta chega e não fecha. Até hoje, o Brasil tem famílias lidando com as perdas irreparáveis de Mariana e de Brumadinho.”
— Ana Tuzaneri, [03:33]
On the need for regulation:
“Nós precisamos legislar logo e regular logo esse tema, porque ele suscita não apenas dúvidas, mas insegurança sobretudo.”
— Government Official, [02:51]
On market risks:
“Tem que buscar... produtos ao menor custo, mas limitado a um valor mínimo que não tenha ali um prejuízo grave na exploração de ambiente e sociedade... para garantir um preço baixo.”
— Jonathan Colombo, [23:36]
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