O Assunto — “Trump, paracetamol e autismo”
Data: 25 de setembro de 2025
Host: Natuza Nery (G1)
Convidados:
- Laura Marisi, doutora em Biociências e Biotecnologia, divulgadora científica
- Dr. Rômulo Negrini, vice-presidente da Comissão de Parto da FEBRASGO, coordenador médico de obstetrícia do Hospital Albert Einstein
Visão Geral do Episódio
Neste episódio, Natuza Nery aprofunda a polêmica levantada após o então presidente dos EUA, Donald Trump, sugerir em pronunciamento público uma ligação entre o uso de paracetamol (Tylenol) na gestação e o aumento do número de casos de autismo em crianças americanas. Com base em dados, especialistas convidados, e análise de contexto, o episódio explica o que se sabe (e o que não se sabe) sobre o autismo, os riscos da desinformação científica, e as consequências práticas destas declarações para grávidas e para a saúde pública.
Principais Pontos e Discussões
1. O Anúncio de Trump e as Teorias Sem Embasamento
- [00:45] Trump faz anúncio ao lado de Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde dos EUA, conhecido por posturas anti-vacina.
- Ele relaciona o aumento de diagnósticos de autismo a um “medicamento que todos usam: paracetamol”.
- Trump afirma que é "um progresso científico" ainda não totalmente compreendido.
- Citação:
- “Contrariando evidências científicas, Trump disse que o Tylenol está associado a um risco maior de autismo.” (A/Natuza Nery, 01:32)
2. O Que a Ciência Sabe Sobre Autismo
- [03:37-04:43]
- Laura Marisi: Explica o autismo como neurodivergência com origem multifatorial (componente genético forte + fatores ambientais).
- Mais de 100 genes relacionados e nenhum fator único causador.
- Fatores ambientais possíveis: poluição, saúde materna e infantil, etc.
- Citação:
- “A gente tem uma combinação desses genes com fatores ambientais.” (C/Laura Marisi, 03:47)
- “Mesmo depois de décadas de estudo... a gente não tem uma noção clara do que causa.” (C/Laura Marisi, 04:43)
3. O Aumento dos Diagnósticos: O Que Explica?
- [05:01-07:05]
- O que aumentou foi o número de diagnósticos, não necessariamente a prevalência.
- Expansão dos critérios médicos e mais ferramentas diagnósticas.
- Diagnósticos de casos mais leves (como grau 1).
- Mudança de nomenclatura: Síndrome de Asperger agora dentro do espectro.
- Citação:
- “A definição da condição se ampliou com critérios médicos mais abrangentes.” (B/Especialista, 05:09)
- “Em 2013 só teve a denominação de espectro.” (C/Laura Marisi, 06:00)
4. Paracetamol na Gravidez: Há Relação com Autismo?
- [07:05-11:28]
- Estudos mencionados são observacionais, indicam correlação (não causalidade), e têm muitos fatores de confusão.
- Consenso global (OMS, Agência Europeia de Medicamentos): paracetamol é seguro para grávidas, quando utilizado corretamente.
- Outras opções para dor (ibuprofeno, por exemplo) não são recomendadas na gestação.
- Citação:
- “Pesquisa existe, mas que sustentam a afirmação, não.” (C/Laura Marisi, 07:28)
- “O consenso mundial é que o Tylenol, o paracetamol como um todo, é seguro para uso na gestação.” (C/Laura Marisi, 10:47)
5. A Diferença Entre Associação e Causalidade
- [08:43-10:38]
- Demonstração didática: “No dia que quebrei o pé, tomei sorvete. O sorvete não causou a fratura.”
- Para provar causalidade seriam necessários estudos controlados impossíveis de serem feitos em gestantes.
- Citação:
- “Eu posso dizer que no dia que quebrei o pé, tomei sorvete. O sorvete não causou a quebra do meu pé.” (C/Laura Marisi, 09:10)
6. Leucovorina e Terapia para Autismo
- [11:28-13:26]
- Leucovorina (ácido fólico) só mostra melhora em raros casos de mutações específicas.
- Não pode ser generalizado para todo o espectro autista.
- Suplementação de ácido fólico é padrão para gestantes pela importância no neurodesenvolvimento, não como tratamento de autismo.
- Citação:
- “É realmente uma coisa muito ousada de se fazer com a quantidade mínima de evidências que se tem.” (C/Laura Marisi, 13:19)
7. O Impacto da Desinformação
- [13:26-15:39]
- Fake news sobre autismo cresceram 15.000% no Telegram na América Latina e Caribe em 5 anos (dado FGV).
- Alerta para desconfiança de explicações simplistas sobre fenômenos complexos.
- Resposta clara: se a solução fosse simples, já estaria nos jornais científicos do mundo inteiro.
- Citação:
- “Nunca aceite respostas simplistas para coisas complexas.” (C/Laura Marisi, 15:26)
- Recomenda prudência na avaliação de informações recebidas online.
Entrevista: Dr. Rômulo Negrini — Perspectiva da Obstetrícia
8. A Falta de Evidência: Paracetamol Continua Seguro
- [16:08-17:30]
- Não há dados suficientes, nem associações robustas entre paracetamol e autismo.
- Paracetamol é a medicação mais segura para gestantes e recomendada pelas sociedades médicas.
- Disseminação de informações erradas por líderes causa preocupação social.
- Citação:
- “Nós não temos dados suficientes para comprovar que o paracetamol seja a causa do autismo, muito pelo contrário.” (D/Dr. Rômulo Negrini, 16:18)
9. Riscos de Não Tratar Febre e Dor em Gestantes
- [17:42-18:18]
- Não tratar febre/dor pode colocar mãe e bebê em risco; paracetamol é importante para controle seguro.
- Citação:
- “A febre deve ter uma causa e ela precisa ser alcançada... a medicação mais segura para fazer o tratamento da febre é o paracetamol.” (D/Dr. Rômulo Negrini, 17:42)
10. Individualização da Prescrição Médica
- [18:28-19:17]
- Medicamentos em gestantes devem ser individualizados, avaliando riscos e benefícios.
- Consulta médica antes de qualquer uso é essencial.
- Exemplo: Mulheres com epilepsia precisam medicar para prevenir convulsões potencialmente mais perigosas que os riscos do remédio.
11. O Peso da Culpa Materna e Informação de Qualidade
- [19:19-20:44]
- Mães de crianças autistas frequentemente sentem culpa ao ouvirem essas notícias.
- Importância de explicar base científica e fatores reais para tranquilizar gestantes.
- A maioria dos abortos tem origem genética, não comportamental, e isso deve ser explicado para aliviar angústias.
- Citação:
- “A gente sempre tenta mostrar que, na verdade, a grande maioria dos casos tem a ver com genética... não havia nada que pudesse ser feito.” (D/Dr. Rômulo Negrini, 20:14)
12. Acesso à Informação e o Papel dos Profissionais
- [20:44-22:15]
- Aumento na procura de gestantes no consultório desde o anúncio de Trump.
- Importância do acesso à informação de qualidade, principalmente para populações com menos recursos.
- O papel da imprensa e dos médicos é garantir a disseminação de conteúdo claro e correto.
- Citação:
- “A informação chega distorcida... o papel nosso aqui é tentar levar essa informação da forma mais racional possível.” (D/Dr. Rômulo Negrini, 21:50)
Notáveis Citações & Momentos
- “Nunca aceite respostas simplistas para coisas complexas.” — Laura Marisi ([15:26])
- “O consenso mundial é que o paracetamol é um dos pouquíssimos medicamentos seguros para uso na gestação.” — Laura Marisi ([10:47])
- “Nós não temos dados suficientes para comprovar que o paracetamol seja a causa do autismo, muito pelo contrário.” — Dr. Rômulo Negrini ([16:18])
- “A grande, a enorme maioria dos casos tem a ver com a questão genética...” — Dr. Rômulo Negrini ([20:12])
Timestamps de Segmentos Importantes
- 00:45 — Anúncio de Trump e falsas associações
- 03:37 — Laura Marisi explica o autismo e fatores de predisposição
- 05:01 — Ampliação dos critérios e aumento dos diagnósticos
- 07:05 — A polêmica do paracetamol e qualidade dos estudos disponíveis
- 08:43 — Associação não é causalidade: diferenças fundamentais
- 10:47 — Consenso internacional sobre segurança do paracetamol
- 11:41 — Leucovorina (ácido fólico) e sua real indicação
- 13:26 — O boom das fake news e como desconfiar de desinformação
- 16:18 — Dr. Rômulo Negrini: paracetamol e segurança na gestação
- 17:42 — Perigos de não tratar sintomas em gestantes
- 19:19 — Culpa materna diante da desinformação
- 21:50 — Desigualdade de acesso à informação e importância do papel social dos especialistas
Conclusão
O episódio desmonta o mito recentemente viralizado por Donald Trump sobre o paracetamol e autismo, esclarecendo que não há embasamento científico para tal afirmação. Destaca ainda o papel da ciência, a necessidade de consultas médicas e a importância de buscar informações em fontes confiáveis, validando o papel social da imprensa e do médico frente às fake news e ao medo das gestantes.
Tom central: Informativo, acolhedor e enfático sobre a responsabilidade com o conhecimento científico.
