Tiago Rodrigues (33:36)
Eu acabo de voltar da reunião do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que foi em Manaus, e tenho pesquisado bastante intensamente a questão do crime organizado brasileiro projetado para a nossa Amazônia e para a Pan-Amazônia. A presença de grupos da Venezuela no extremo norte do Brasil, no estado de Roraima, tem sido detectada pelos nossos estudos. mas de uma forma ainda bastante lateral. Os contatos, se existem, são contatos ainda muito pontuais. O que a gente tem documentado é que os venezuelanos atuando no lado brasileiro atuam, às vezes, dividindo alguma infraestrutura em regiões de exploração ilegal de ouro, por exemplo, e nas periferias de boa vista sobre população de origem venezuelana. Então, ainda é muito limitada, apesar do discurso do governo do estado de Roraima destacar muito que o perigo dos venezuelanos é imenso. Mas o fato é que, estando na ilegalidade, é muito usual que grupos ilegais usem recursos parecidos, às vezes até os mesmos recursos. Por exemplo, os mesmos bancos para fazer lavagem de dinheiro, os mesmos vendedores de ouro para comprar ouro lavando dinheiro. Então, investigações brasileiras ou estrangeiras podem chegar, é como tem chegado, à indicação de que, por exemplo, um determinado doleiro vendia, fazia transações com dólares, etc., ou um determinado operador de cibermoeda fez tanto para o trem de Arágua quanto para o PCC. E isso é possível, o que não quer dizer que PCC e Tren de Arágua estejam associados diretamente. Agora, falando sobre a questão mais política e geopolítica, como você menciona, eu acho que o plano de fundo é a atual situação tensa, diplomática e comercial entre o Brasil e os Estados Unidos. Diretamente, o governo Trump não tem sinalizado que vá avançar com a acusação sobre narcoterrorismo para o Brasil. Mas como nós temos organizações que se fortaleceram nos últimos anos, especialmente o PCC, que é o que mais tem projeção internacional, É claro que menor ainda do que comparada com outros grupos, principalmente os mexicanos ou alguns grupos europeus, asiáticos, etc. Mas tem essa projeção. E sabendo que há uma parte da extrema-direita brasileira que já vem fazendo essa, há muitos anos inclusive, a vinculação de uma narrativa entre a esquerda brasileira e grupos do crime organizado, Não seria de se estranhar que essa carta estivesse na manga de Trump se ele achar que isso vai ajudá-lo de alguma maneira nas negociações difíceis com o Brasil em termos do tarifaço. O pano de fundo disso é a China. a China na América Latina, os BRICS, o papel do Brasil nos BRICS e o incentivo a que o universo econômico dos BRICS negocie sem o dólar. Acho que isso está no pano de fundo direto para entender, aparentemente, a impressão é que não está tão diretamente ligado, a gente está falando de narcotráfico, crime organizado, eu vim falar de comércio internacional e desdolarização, mas essas coisas estão diretamente ligadas quando a questão é pressionar por todos os modos. E me parece que pressionar com a ideia de que o Brasil pode sofrer sanções, eu acho muito difícil que chegue próximo de uma ameaça, uma intervenção armada. Acho difícil isso até mesmo na Venezuela, porque como eu disse agora, uma coisa é falar, outra coisa é agir. A Venezuela não é um estado falido, a Venezuela tem forças armadas que são totalmente pró-governo e que são bem equipadas. Mas do ponto de vista político e do ponto de vista de pressão internacional e pro seu próprio público interno, essa é uma jogada que pode render dividendos pro Trump. A mais longo prazo, e dependendo de como fiquem as relações entre Brasil Estados Unidos, pressões podem existir sim, tentando vincular o PCC a dinâmicas mais transnacionais, do narcotráfico, etc. E até mesmo porque já tem uma recepção aqui no Brasil, a gente não pode esquecer que aqui no Rio, por exemplo, É sempre comum que após alguns episódios de queimas de ônibus, tiroteios, ataques a delegacias, que apareçam discursos de narcoterrorismo também. Então essa expressão é muito fácil de vir à tona. E num contexto turbulento como esse, ela pode ser instrumentalizada para alguma pressão internacional. Bom, levando em consideração a história diplomática do Brasil e as posturas tradicionais do atual governo com relação a temas de conflito internacional, numa eventual intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, me parece que haveria de pronto um repúdio internacional, um repúdio do Brasil nos fóruns internacionais, tanto na OEA quanto na SELAC e na ONU, e depois, quer dizer, do ponto de vista mais específico, menos genérico, haveria tentativas de mediar esse processo de violência para que a intervenção se revertesse de alguma maneira. No atual cenário, em que as relações não estão tão próximas assim, o Brasil ganha uma certa neutralidade nesse processo, o que pode ajudar a evitar que as acusações de favorecimento ou de narcoterrorismo resvalem para o lado do Brasil e que também pode favorecer que o Brasil seja um articulador de um grupo multilateral. O Brasil não tem tradição de agir unilateralmente. Eu acredito que haveria essas duas reações de imediato.