O Assunto – “Venezuela invadida por Trump e a deposição de Maduro”
Data: 4 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidados: Leonardo Trevisan (ESPM), Oliver Stunkel (FGV, Harvard, Carnegie Endowment), repórteres G1
Duração: ~52 minutos
Visão Geral do Episódio
Neste episódio especial, “O Assunto” destrincha a surpreendente ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura e deposição de Nicolás Maduro. Sob mediação de Natuza Nery, especialistas e testemunhos diretos explicam o contexto, as motivações e as consequências desse marco geopolítico sem precedentes para a América do Sul, o Brasil e o mundo. O episódio discute ainda a legitimidade da intervenção, interesses econômicos, repercussão internacional e o impacto para a ordem global.
1. A Noite da Invasão: O que aconteceu em Caracas
[00:02 – 03:58]
- Explosões e caos: Nas primeiras horas de 3 de janeiro, a população de Caracas foi surpreendida por explosões, barulho de aeronaves e pânico nas ruas.
- Relato do morador Gerardo Pico, sobre incerteza, filas para comida, dúvidas de comerciantes se abririam, falhas no celular.
- Ofensiva dos EUA: Aviões, porta-aviões, submarino nuclear, mais de 25 mil soldados e 10 navios envolvidos.
- “Ninguém mobiliza toda aquela tropa... para não fazer nada. Uma ação militar repudiada mundo afora e que abre precedentes preocupantes.” – Natuza Nery [02:24]
- Maduro capturado: Levado para Nova York; deve prestar contas em corte federal. Trump justifica usando discurso do narcoterrorismo.
2. Direito Internacional Rasgado: As rupturas jurídicas
[03:58 – 08:56]
- Crítica ao procedimento: Leonardo Trevisan destaca que o Congresso americano não foi consultado, violando a Constituição dos EUA.
- “Nunca houve uma coisa dessa. O presidente americano disse que o Congresso não era confiável. Nós estamos ultrapassando barreiras.” – Trevisan [05:58]
- Princípio de não-interferência: Cita o Tratado de Vestefália (1648), base do direito internacional moderno.
- ONU e condenação global: Trecho da Carta das Nações Unidas lido, e o secretário-geral António Guterres chama a ação de “precedente perigoso”.
- Trevisan traça paralelos com o desrespeito ao direito internacional nos anos 1930 pela Alemanha nazista.
- “Me chamou muita atenção... a frase, a paz construída pela força.” – Trevisan [08:38]
3. Motivações Reais: Narcotráfico, petróleo ou política?
[09:52 – 17:18]
- Acusação de narcoterrorismo desmontada: Não há provas de que Maduro é chefe do tráfico; Venezuela é rota de passagem, não produtora.
- “Maduro tem todas as penas para ser respondidas como um ditador... Mas talvez seja um pouco difícil fazer esse vínculo com o narcoterrorismo.” – Trevisan [11:51]
- Distração de problemas domésticos dos EUA: Popularidade de Trump em baixa, inflação alta e “show de mídia”.
- “Maduro caiu do céu como um inimigo que pudesse promover a cena de hoje...” – Trevisan [13:35]
- Petróleo no centro: Venezuela tem a maior reserva do mundo (303 bilhões de barris, 17% do total global).
- “Venezuela é igual petróleo. Venezuela tem a maior reserva petrolífera do mundo, eu vou repetir, é maior do que a da Arábia Saudita.” – Trevisan [15:45]
- Interesses das petrolíferas americanas: Chevron voltou à Venezuela após alívio das sanções. Petróleo pesado venezuelano é estratégico para refinarias americanas.
- Dinâmica militar e política doméstica venezuelana: Militares controlam setores-chave (incluindo PDVSA). “Os militares venezuelanos são literalmente os donos do país.” – Trevisan [19:37]
4. A Estranha Queda de Maduro: Entregue ou capturado?
[20:43 – 23:20]
- Teoria de “Maduro entregue”: Insegurança da operação sugere que parte dos militares permitiu (ou negociou) sua captura para sobreviverem e manterem o poder.
- “Será que Maduro não foi entregue em vez de capturado?” – Trevisan [20:45]
- Sucessão e papel dos militares: Vice-presidente Delcy Rodrigues assume — mas sob ampla desconfiança da oposição e da população.
- Delcy e Jorge Rodrigues, irmãos e figuras históricas do chavismo radical.
5. E agora? O futuro político da Venezuela e do chavismo
[23:34 – 25:47]
- Trump promete administrar a Venezuela diretamente: Rejeita oposição tradicional (Maria Corina Machado e Edmundo González).
- “Os Estados Unidos disseram, através do seu presidente, que vão colocar alguém, vão governar junto com alguém que ninguém sabe quem é.” – Repórter G1 [24:31]
- Oposição enfraquecida: Principais líderes fora do país ou proibidos politicamente, eleições não reconhecidas internacionalmente.
- “Na verdade, eram quase 38 [milhões]. Aqui, 8 milhões está no exílio.” – Trevisan [26:06]
6. O Momento Global: Do mundo das regras para o mundo das esferas de influência
[29:02 – 34:02]
- Detalhamento da operação militar: Operação “Resolução Absoluta”, meses de infiltração CIA, uso de drones, força-tarefa Delta Force, 40 mortos segundo fontes.
- Doutrina Trump: “America First” passa a ser “as Américas primeiro”, retomando ideia de “quintal americano”.
- “Na visão de Trump, America First, ou seja, América Primeiro, também significa para ele as Américas em primeiro lugar.” – Oliver Stunkel [32:38]
- Esferas de influência: Analistas apontam para um retorno a uma lógica de grandes potências dominando regiões, à moda do século XIX (Ucrânia x Rússia, Taiwan x China, América Latina x EUA).
7. A Reação Internacional e o Precedente para a América do Sul
[38:04 – 46:14]
- Reações regionais e globais:
- Muitos líderes condenam (México, França, ONU, Lula).
- Lula: “Ataque dos EUA ultrapassou linha inaceitável, em flagrante violação do direito internacional.” [38:50]
- Rússia e China condenam ação como agressão; alertam para riscos de escalada.
- Precedente perigoso: Nunca antes um governo sul-americano foi alvo direto de invasão dos EUA.
- “Isso, obviamente, pode criar um precedente, inclusive, para outros países da América do Sul.” – Stunkel [41:17]
- Reação de direita e estratégia dos governos: Em público, direita celebra queda de Maduro; nos bastidores, preocupação com vulnerabilidade estratégica.
8. Geopolítica, China, Rússia e o Fim da Hegemonia de Regras
[46:14 – final]
- Dois pesos, duas medidas: Intervenção americana enfraquece legitimidade de EUA/Europa para criticarem Rússia (Ucrânia) e China (Taiwan).
- “A principal crítica de Washington contra a invasão russa à Ucrânia sempre foi que nós vivemos hoje em um mundo em que se respeita a soberania... Essa argumentação hoje não funciona mais.” – Stunkel [46:28]
- “A ação do Trump na Venezuela é uma boa notícia tanto para a Rússia quanto para a China.” – Stunkel [46:14]
- Novo mundo: mais instável e menos multilateral:
- “Estamos em meio à transição para o mundo de esferas de influência...” – Stunkel [49:04]
- “Um mundo mais instável... onde a geopolítica se impõe sobre assuntos econômicos.” – Stunkel [50:02]
Notas e Citações Memoráveis
- “A paz construída pela força? Nesse contexto, talvez, a gente encontre pedaços da história que não são convenientes de serem repetidos.” – Leonardo Trevisan [09:09]
- “Venezuela é igual petróleo. ... maior do que a da Arábia Saudita.” – Leonardo Trevisan [15:45]
- “Os militares venezuelanos são literalmente os donos do país.” – Leonardo Trevisan [19:37]
- “Será que Maduro não foi entregue em vez de capturado?” – Leonardo Trevisan [20:45]
- “Isso cria um precedente muito perigoso... afeta a forma como a região é vista no mundo...” – Oliver Stunkel [39:31]
- “America First, ou seja, América Primeiro, também significa para ele as Américas em primeiro lugar.” – Oliver Stunkel [32:38]
- “A ação do Trump na Venezuela é uma boa notícia tanto para a Rússia quanto para a China.” – Oliver Stunkel [46:14]
Timestamps — Segmentos Principais
- [00:02 – 03:58] — Invasão e o relato das primeiras horas
- [03:58 – 08:56] — Debate jurídico e críticas: Vestefália, ONU, direito internacional
- [09:52 – 17:18] — Debates sobre as verdadeiras motivações: narcotráfico e petróleo
- [20:43 – 23:20] — A questão militar interna e o papel dos militares venezuelanos
- [23:34 – 25:47] — Perspectivas para o chavismo e para a oposição
- [29:02 – 34:02] — Operação, doutrina Trump e esferas de influência
- [38:04 – 46:14] — Reação do Brasil, liderança internacional e precedentes regionais
- [46:14 – 50:58] — Geopolítica global, implicações para China e Rússia
Conclusão
O episódio revela que a intervenção americana na Venezuela marca um divisor de águas, tanto pela quebra de paradigmas do direito internacional quanto pelo retorno da lógica das esferas de influência. Para analistas e convidados, a ofensiva não se resume a Maduro ou à defesa da democracia, mas a interesses estratégicos (especialmente petróleo) e à dinâmica interna dos EUA. O mundo caminha para um contexto de insegurança jurídica e política, com possíveis consequências imprevisíveis para a América Latina e o sistema internacional.
