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Natuza Nery
Era pouco mais de duas horas da manhã de sábado, 3 de janeiro, quando explosões começaram a ser ouvidas em Caracas, a capital da Venezuela.
Repórter do G1
Estava.
Natuza Nery
Em curso uma forte ofensiva lançada pelo governo dos Estados Unidos contra Nicolás Maduro. Foram pelo menos sete estrondos ouvidos na cidade em um intervalo de pouco mais de 30 minutos. Moradores de diferentes bairros relataram tremores, barulho de aeronaves e correria nas ruas.
Repórter do G1
O relato.
Natuza Nery
Que você acabou de ouvir é do venezuelano Gerardo Pico. Ele é dono de uma produtora audiovisual e vive em Caracas. Do bairro onde ele vive, não era possível ver nada. Apenas as janelas vibravam.
Repórter do G1
Em relato.
Natuza Nery
Enviado com exclusividade ao assunto, Gerardo contou que a ofensiva caracas durou cerca de duas horas. Depois do ataque, veio a incerteza.
Oliver Stunkel
Porque existe uma incertidumbre com respeito a qual é a situação atual.
Natuza Nery
Gerardo falou da preocupação para conseguir comida com filas de três a quatro horas para comprar itens básicos. Segundo ele, há poucos mercados funcionando. Comerciantes ficaram em dúvida sobre se abririam ou não as portas. E apesar de algumas falhas no sinal de celular, o acesso à internet continuava.
Oliver Stunkel
A gente está muito preocupado com O.
Natuza Nery
Ápice de uma tensão que escalou e muito nas últimas semanas Ninguém mobiliza toda.
Leonardo Trevisan
Aquela tropa que os Estados Unidos mobilizaram.
Natuza Nery
Com o maior porta-aviões do mundo, submarino nuclear, 25 mil homens ali perto do Caribe, tropas, navios, 10 navios, para não fazer nada. Uma ação militar repudiada mundo afora e que abre precedentes preocupantes.
Repórter do G1
Ele inicialmente foi levado para um navio, mas chegou de avião a uma base militar do estado de Nova York. Ele vai para um centro de detenção e, na semana que vem, deve ser conduzido a uma corte federal. Gustavo Petro, hoje ele disse que não está preocupado com nada acontecer com ele depois da operação. Qual é a sua mensagem? Bom, ele tem usinas de produção de cocaína, fábricas de produção de cocaína. Ele está fabricando cocaína e levando para os Estados Unidos. Então, ele tem realmente que se preocupar. Existe alguma mensagem para Cuba no momento? Nós vamos terminar falando de Cuba, porque Cuba atualmente é um país em falência. Nós queremos ajudar as pessoas em Cuba, mas também queremos ajudar os cubanos que foram expulsos de Cuba. Marco, você quer dizer alguma coisa a respeito? É, eu dei uma declaração alguns minutos atrás, eu disse que quando o presidente fala, você deve levar a sério, e é suficiente dizer que Cuba é um desastre. Bom, eu ficaria preocupado no lugar deles.
Natuza Nery
Da redação do G1, eu sou Nath Uzaneri e o assunto hoje é a intervenção de Trump e a deposição de Maduro na Venezuela. Neste episódio especial, dois convidados. Eu converso com o Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM. Depois, falo com Oliver Stunkel, professor de Relações Internacionais da FGV, pesquisador da Universidade de Harvard e do Carnegie Endowment. Sábado, 3 de janeiro. Professor, a despeito do que se pensa de Maduro, e ele é de fato um ditador, eu queria te pedir para nos explicar por que essa ação foi tão e está sendo tão questionada por gente muito séria em relação ao direito internacional.
Leonardo Trevisan
Primeiro de tudo, a primeira questão que está sendo colocada é por ninguém mais, ninguém menos do que o Congresso americano, que fez uma pergunta muito simples para Trump e nós. E a Constituição? chefe de estado de outro país é um casus belli. Ele precisava da autorização do congresso, que ele não teve. Quando cobrado pela imprensa na coletiva de hoje, ele respondeu de forma ainda pior. O congresso não era confiável.
Repórter do G1
Os democratas estão falando justamente que ele fez essa operação sem o aval do Congresso. Exatamente, esse é um outro ponto, porque muitos congressistas estão destacando que haveria necessidade para uma operação como essa da aprovação do Congresso americano e Trump não fez isso. A gente teve aqui, eu acho que um exemplo claro de tradução do imperialismo. Foi uma decisão unilateral, nem o Congresso foi consultado.
Leonardo Trevisan
Nunca houve uma coisa dessa. O presidente americano disse que o Congresso não era confiável. Nós estamos ultrapassando barreiras. A primeira delas, no âmbito do direito internacional, é não interferência nos assuntos internos. Sabe de quando é isso, Natuza? É de 1648. Eu vou repetir porque algumas pessoas podem pensar que eu viro mal. 1600. É tratado de vestifália. Nós estamos falando disso. Nós estamos falando do nascimento de duas concepções sobre política externa. Desde então, não interferir no estado do outro, não avançar na fronteira do outro era matéria consolidada. Se nós não vamos a isso, nós podemos olhar a carta da ONU, do qual os Estados Unidos não só foram o signatário, como a sede. e toda desenhada na lógica...
Repórter do G1
O presidente doméstico Cláudia Schembaum condenou o ataque e publicou um trecho da Carta das Nações Unidas que diz o seguinte, os membros da organização e suas relações internacionais se absterão de recorrer à ameaça ou ao uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer estado ou de qualquer outra forma incompatível com os propósitos das Nações Unidas. E o secretário-geral da ONU, António Guterres, que declarou que essa ação dos Estados Unidos na Venezuela abre um precedente perigoso.
Leonardo Trevisan
Então, quando nós olhamos para esse quadro, quantas rupturas estão sendo feitas? Já quando tudo isso começou com os ataques a barcos, sem prova, Mesmo que eles estivessem traficando droga, não existe pena capital no direito internacional. Então, esse primeiro, essa primeira movimento já era complexo. Os demais movimentos desse processo ferem diferentes itens do direito internacional consolidados. Se alguém quiser consultar a história, perceba que parte desse discurso de desrespeito ao direito internacional foi praticado em 1938 e em 1939 por um determinado país. É melhor pensar nisso.
Natuza Nery
Ou seja, o senhor está falando da Segunda Guerra Mundial, do que gerou a Segunda Guerra Mundial.
Leonardo Trevisan
Exatamente. E da concepção da Alemanha nazista sobre o fim do direito internacional. Me chamou muita atenção, Natuza, mas muito, muito, muito atenção uma frase, a paz construída pela força.
Repórter do G1
Isso se trata de América, em primeiro lugar. Isso se trata da paz através da força, e o Departamento de Guerra dos Estados Unidos tem orgulho de ajudar a entregar isso.
Leonardo Trevisan
A paz construída pela força? Nesse contexto, talvez, a gente encontre pedaços da história que não são convenientes de serem repetidos. Todas as vezes que isso aconteceu. Sabe, Natuza, quando a gente olha para esse quadro e tem esse tipo de preocupação, talvez a gente tenha que colocar isso no campo da desconfiança. Será que Trump realmente, e todo esse aparato político, realmente estava interessado exatamente no quê?
Natuza Nery
Essa é a minha pergunta para você. A justificativa formal do Trump foi dizer que Maduro é um narco terrorista. Mas eu sei que tem muito mais por trás dessa motivação e eu queria muito te pedir para nos explicar.
Leonardo Trevisan
A primeira coisa é que não há provas suficientes sobre narcoterrorismo envolvendo Maduro. Não há provas. Vários organismos internacionais fizeram isso. Sabe, quando a gente fala de Venezuela, a gente precisa ponderar algumas informações. Eu vou dar a fonte, quem tiver curiosidade, leia o artigo inteiro. A American Quarterly, que é uma revista americana especializada em América Latina, cujo editor-chefe é o Brian Walter.
Natuza Nery
É o Brian Winter.
Leonardo Trevisan
Brian Winter, desculpe. A produção de coca nos últimos 10 anos, ela triplicou, sem qualquer problema de aumento é preço, ou seja, ela está atendendo uma demanda crescente nos Estados Unidos principalmente. Dois, os dois países responsáveis pela produção de cocaína, de coca, principal, 95% é Colômbia e Peru. A Venezuela, quando muito, é passagem. A Venezuela, quando muito como outros países latino-americanos, inclusive o Brasil, como todos nós sabemos, é só olhar o volume de crimes na região norte do Brasil, a explosão dos assassinatos na região norte do Brasil, e se fazer uma pergunta por quê, que Amapá e Amazônia explodiram desse jeito. Talvez a gente tenha que é o mesmo quadro da Venezuela. Passagem. Ah, o cartel de Los Soles. Não, não, não. Vamos devagar nesse cartel. Isso foi um nome criado. É muito mais a ver com o modelo venezuelano de corrupção de Estado e não diretamente com narcotráfico. Então, não é bem uma acusação que cabe para Maduro. Maduro tem todas as penas para ser respondidas como um ditador, como outros. Mas talvez seja um pouco difícil fazer esse vínculo com o narcoterrorismo, da onde se faz uma pergunta óbvia. Por que Maduro chamou tanta atenção? Talvez a gente tenha que responder que ele é apenas e tão somente um alvo fácil.
Repórter do G1
Os ataques foram em Caracas e em diferentes pontos do norte da Venezuela. O caos das guerras longínquas chegou à América do Sul. Às 4h21 da madrugada, horário de Washington, 5h da manhã em Caracas, o presidente americano Donald Trump foi às redes sociais confirmar. Os Estados Unidos conduziram com sucesso um ataque em grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado com sua mulher e levado para fora do país. Apoiadores de Maduro saíram às ruas. O cartaz da manifestante dizia, devolvam o nosso presidente. Nenhuma gota de petróleo para os Estados Unidos. Eu sinto raiva. Ninguém vem de outro país levar embora um presidente só porque está com vontade, disse essa mulher. O Renato contou que está com um pouco de medo do que pode acontecer. Mas, afirmou, existe esperança de que algo melhor venha pela frente. Por enquanto, o horizonte é de incertezas.
Leonardo Trevisan
Quando nós olhamos para as pretensões de Trump de usar o cenário externo para acalmar o cenário interno, não vamos nos esquecer que a popularidade caiu para 37% e a inflação ainda não sabemos o valor dela inteiro. por motivo do shutdown. Quando nós olhamos para esse quadro, talvez a gente tenha que olhar que Maduro caiu do céu como um inimigo que pudesse promover a cena de hoje e promover um troféu como foi feito. Maduro foi uma situação bem fácil de ser executada para promover um show de mídia e que vai continuar. Foi o que nós vimos hoje.
Repórter do G1
Donald Trump, ele disse basicamente o seguinte, o principal, é que ele acompanhou a operação em Caracas ao vivo. O sinal estava sendo enviado diretamente para ele e ele chegou até a dizer que acompanhou como se fosse um show de televisão.
Leonardo Trevisan
Se nós tratássemos com alguma seriedade isso, não poderíamos ter incluído ou ouvido o que nós ouvimos do presidente e depois do general. De que o que aconteceu em Washington, o que aconteceu em Chicago e em Los Angeles é a mesma coisa do que aconteceu em Caracas. Um brilhante ato do exército americano. Desculpe? Nós estamos misturando essas realidades com Caracas? Quanto tempo da fala de Trump ele expôs problemas internos quando devia estar falando de Maduro?
Natuza Nery
Eu entendo que o Trump é dado a esse tipo de show. A gente fez, inclusive, um episódio recente chamado Show de Trump, que mostra essa dinâmica dele da economia da tensão. Mas isso sozinho não é capaz de explicar o que ele fez hoje na Venezuela. E ele próprio talvez tenha dado pistas, não é, professor? Quando ele diz que as petroleiras americanas vão voltar a explorar o petróleo na Venezuela ou da Venezuela.
Leonardo Trevisan
É esse o momento, é o momento em que você tem que trazer os adultos para a sala. Lembra da expressão do primeiro governo Trump? Quando você fala dos adultos na sala, agora vamos falar sério, petróleo, quando a gente fala Venezuela, Venezuela é igual petróleo. Venezuela tem a maior reserva petrolífera do mundo, eu vou repetir, é maior do que a da Arábia Saudita. desperta cobiças.
Repórter do G1
São 303 bilhões de barris. Isso dá cerca de 17% de todas as reservas globais ficando na frente, inclusive da Arábia Saudita. E apesar desse potencial, a produção ainda está muito abaixo da capacidade, justamente por isso. Pela falta de capacidade de investimento, má gestão, sanções econômicas também internacionais, claro, muito afetadas pelos Estados Unidos. E na década de 70, a Venezuela chegou a produzir até 3 milhões e meio de barris por dia. Isso dá 7% da produção mundial na época, numa década aí que foi crucial com a questão do petróleo. No ano passado, a média foi de pouco mais de 1 milhão de barris por dia. A Venezuela se converteu em uma peça fundamental no xadrez geopolítico nos últimos anos. Detém em seu território riquezas importantíssimas, não só as maiores reservas de petróleo do planeta, mas também reservas em ouro, em gás natural, terras raras e todos esses elementos têm sido disputados pelas grandes potências que estão presentes no território venezuelano. Com esse ataque, certamente essas outras potências vão ter muito mais dificuldade de ter acesso a esse recurso.
Leonardo Trevisan
Mas sabe o que acontece, Natuza? O petróleo não respeita fronteiras geográficas. Ele está lá embaixo da terra e ele forma um lençol petrolífero. A Guiana, que é um estado pequeno, bem pequeno, começou a explorar petróleo pelo lado dela, sugando o petróleo venezuelano. Para você ter uma ideia da violência e da rapidez dessa... dessa exploração, o PIB da Venezuela, entre 23 e 24, cresceu 69 vezes. Quem tiver alguma dúvida, por favor, dê um Google. 69. Ele multiplicou por quase 70. Por quê? Petróleo. Quem? Petrolíferas europeias, do lado da Goiana. Petrolíferas chinesas, até a Petrobras está lá. Sobrou, quase que nesse lençol, que é o futuro, as petrolíferas americanas estavam meio perdendo parte da festa. imediatamente foi recomposto, permitindo, porque as sanções americanas não deixavam as petrolíferas entrarem. Uma semana antes dos barcos entrarem no Caribe, em agosto, a Chevron foi autorizada, por ato do presidente Trump, a negociar de volta com a Venezuela, petróleo, sem sanções. A última fala do Maduro se refere a isso. Chevron está tirando petróleo. É pouco uma companhia só. Quando nós olhamos para esta fúria sobre a Venezuela, nós temos que olhar para a necessidade de petróleo pesado por certas empresas da Flórida. por certas refinarias da Flórida. Nós temos que olhar para a oferta de petróleo pesado nos Estados Unidos do Texas, que está menor. Nós temos que olhar para os interesses reais americanos. Isso tudo é composto na verdadeira fogueira de vaidades que tem dentro da realidade venezuelana, Natusa. Como qualquer país, a Venezuela não é um só. Nesse quadro, nós temos que olhar, porque iria um petróleo, e nós temos que olhar para uma outra situação que é mais complicada ainda dentro da Venezuela. A Venezuela é o único modelo de governo militar desse tipo na América Latina inteira. De que tipo? Não há nenhuma empresa na Venezuela, nenhuma, média ou grande, em qualquer setor, serviço, primário, secundário, que não tenha dois ou três militares no seu board. nenhuma. A PDVS inteira é uma empresa dirigida por militares. Os militares venezuelanos se imbricaram na economia, isso desde Chaves. O maior erro de Maria Corina foi não sentar com os militares para conversar, porque eles são literalmente os donos do país.
Natuza Nery
Os militares passaram a controlar parte importante.
Repórter do G1
Da economia venezuelana, principalmente do petróleo. Então, eles foram comprados, as forças armadas.
Natuza Nery
Foram compradas por essa atuação do governo Chávez para se manter no poder e, ao mesmo tempo, armou a população, fez.
Repórter do G1
Milícias, concentrou milícias e tal, e aí.
Oliver Stunkel
Ele foi se mantendo no poder.
Leonardo Trevisan
Agora vem a situação mais complexa. A revista Economist, no artigo de bate-pronto que fez hoje, ela faz um comentário muito interessante e usa verbos bem claros. Será que Maduro não foi entregue em vez de capturado?
Natuza Nery
Essa foi a nossa suspeita número um aqui no grupo quando a gente estava preparando esse episódio.
Leonardo Trevisan
Nós, eu, você e a Economist. É meio estranho, né? Você deixar o presidente da república numa situação de tensão como a desta semana desprotegido. Como é que aconteceu isso? Ah, o grupo Delta entrou e tomou... Desculpa, os militares venezuelanos não são tão jejunos, eles não são tão neófitos na arte de proteger gente.
Natuza Nery
Mas qual seria a lógica nesse caso? Perder um anel para manter os dedos?
Leonardo Trevisan
Algo precisava ser entregue a Trump. Que tal Maduro? Maduro não é militar. Maduro é um sindicalista, motorista de ônibus. Foi escolhido por Chávez exatamente por isso, porque não lhe fazia sombra. Lembra a escolha? Entre os diferentes grupos políticos dentro dos militares venezuelanos, Maduro era uma saída e tanto. Nenhum deles tinha projeção poder. Quando você olha para a sucessão de Maduro, a situação fica complexa.
Repórter do G1
Internamente, quem fica a cargo, quem está agora no comando vice-presidente, era vice-presidente de Maduro, então que na linha de sucessão ela teria que estar agora no comando do país. Mas ela foi notícia tempos atrás quando os jornais de Nova York haviam comentado, citando fontes, que Delcy Rodrigues e seu irmão estavam negociando de forma clandestina com o governo Trump para preparar uma espécie de transição. E agora Trump, que declarou que Delcy Rodrigues estava em contato com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e que ela se colocou à disposição da Casa Branca, segundo Trump, para, abre aspas, faremos o que for necessário, fecha aspas. Então, inclusive, Trump depois comentou, ela não tem outra opção. Ao ser empossada como presidente interina, ela adotou um tom desafiador ao se dirigir à nação. Disse que os Estados Unidos lançaram uma agressão militar sem precedentes. Uma agressão militar sem precedentes contra a.
Oliver Stunkel
República Bolivariana de Venezuela.
Repórter do G1
A vice-presidente concluiu, só existe um presidente nesse país e seu nome é Nicolás Maduro Mouros. Único presidente de Venezuela, o presidente Nicolás Maduro.
Natuza Nery
Agora, professor, para a gente terminar, diante de tudo isso, independentemente de parte do exército venezuelano ter entregue a cabeça de Maduro ou não, porque a gente não tem essa confirmação, não temos Não temos essa certeza. Mas e a situação política na Venezuela? Fica como? O que sobra, por exemplo, para o chavismo? Porque Trump me impressionou muito quando declarou que nós vamos administrar. Ele disse, nós vamos administrar a Venezuela. Ele não deu declarações como quem está disposto a fazer uma ação cirúrgica e sair de cena.
Leonardo Trevisan
Primeiro de tudo, nessa pergunta, a gente precisa olhar que Trump escolheu o dia de hoje e a imprensa internacional toda para dizer que Maria Corina não serve, que ela não tem respeito do povo.
Repórter do G1
Ele mandou um recado que também, se eu fosse a Maria Corina e os próximos dela, ficaria preocupado, porque ele disse que ela não tem condições de governar o país. Se ela não tem o Edmundo Gonzalez, que é o nome da Maria Corina, que foi escolhido para ser o presidente, fica nas entrelinhas que talvez tampouco tenha. Os Estados Unidos disseram, através do seu presidente, que vão colocar alguém, vão governar junto com alguém que ninguém sabe quem é.
Leonardo Trevisan
Então, essa parte, aliás, a parte que ganhou a eleição, porque todos nós sabemos que eles ganharam a eleição.
Natuza Nery
Exato, o Edmondo, né?
Leonardo Trevisan
No ano passado, mais uma eleição contestada.
Repórter do G1
O Tribunal Supremo impediu a principal líder da oposição, Maria Corina Machado, de concorrer. Ela apoiou outro nome, o ex-diplomata Edmundo Gonzalez, declarado derrotado na eleição. O Instituto Carter e a ONU acompanharam a votação e denunciaram irregularidades. Brasil, Estados Unidos, Europa e dezenas de países não reconheceram a vitória de Maduro. Gonzalez virou alvo de um mandado de prisão por conspiração e hoje está exilado na Espanha. Mais uma vez, Maduro ficou no poder.
Oliver Stunkel
Até hoje.
Leonardo Trevisan
Com quem ele quer negociar? Quando nós olhamos para essa parte de com quem ele pretende abrir uma negociação, nós temos que pensar um pouco nos exemplos. Sabe, história é uma coisa que às vezes amola a paciência da gente, amola a cabeça da gente. Nos Estados Unidos, o presidente Bush fez a mesma frase se referindo ao Iraque. Nós lembramos do Afeganistão? Os dois países, os Estados Unidos, prometeram administrar e salvar. Lembra no que deu? Se a gente quiser brincar com as ideias, a gente pode ir mais lá para trás, quando eu era criancinha, e falar de Vietnã. Então, ah, mas a Venezuela é outro país. Por que é outro país? Ele tem um país grande, são 30 milhões de pessoas. Na verdade, eram quase 38. Aqui, 8 milhões está no exílio. Então, tem 30 milhões de pessoas com uma consciência política muito fortalecida. Aquilo será um pântano, para usar a expressão clássica, de uma ocupação. Do que realmente nós estamos falando? Talvez seja mais apenas um discurso de mídia. um discurso de vitória, um discurso que confunde Chicago, Washington com Caracas e, principalmente, um discurso para fazer esquecer o que se está vivendo. De algum modo, é claro que nós temos um xadrez geopolítico que mudou o mundo. China de um lado, Estados Unidos do outro. E na nova política, a nova estratégia de segurança nacional, a América Latina é dos americanos.
Natuza Nery
Ok.
Leonardo Trevisan
Ninguém discute isso. Assim como a China tem a Ásia e parte da Europa do Leste é a Rússia. É só pensar no trato que está sendo dado, principalmente, A Ucrânia, ao caso Ucrânia, e ao caso Taiwan. Então, a América Latina é algo que ficou bem para os Estados Unidos, na nova divisão do xadrez geopolítico, com as devidas cautelas. Voltamos ao começo da nossa conversa, voltamos ao tratado de veste e falha. Não dá para avançar na terra do outro. Não dá para desprezar o direito internacional.
Natuza Nery
Professor, que prazer imenso conversar contigo neste dia que é um dia que nós não vamos nos esquecer. O senhor já respondia isso quando a nossa conversa, um pouco antes da nossa conversa começar. Muito obrigada pela entrevista e espero contar contigo novamente para traduzir para a gente o que está acontecendo por lá. Muito obrigada.
Leonardo Trevisan
Eu que agradeço o convite e a excelente conversa, as boas perguntas. Perguntas fazem pensar. Isso é muito importante. Muito obrigado, Natuzzi e a todos que organizaram a nossa conversa.
Natuza Nery
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Oliver Stunkel. Oliver, quero começar nossa conversa falando de uma reportagem, uma apuração do jornal americano The New York Times, dando conta de que a CIA monitorou Nicolás Maduro nos momentos que antecederam a intervenção dos Estados Unidos, como é praxe em situações como a gente viu acontecendo hoje na Venezuela. O que a gente sabe sobre as últimas horas de Maduro no poder? O que dá para nos contar ou nos rememorar a respeito disso?
Oliver Stunkel
O que a gente sabe é, a princípio, que Maduro não sabia que um ataque, o seu sequestro, seria iminente. Obviamente, ele tinha noção do perigo, mudava de local para dormir, então tinha todo um esquema para evitar uma situação dessa, mas muito recentemente chegou a falar publicamente que estaria disposto a negociar com os Estados Unidos. O que a gente sabe agora é que desde agosto teve uma presença de pessoas colaborando com a CIA na Venezuela que ajudaram ao governo americano a acumular informações sobre os padrões de movimento do presidente Maduro, o que também explica que os Estados Unidos conseguiram capturar, sequestrar o presidente Venezuelano, a princípio, o homem mais bem protegido do regime em uma questão de horas apenas.
Repórter do G1
O general Dan Cain, chefe do Estado-Maior americano, diz que a operação foi batizada de Resolução Absoluta. Levou meses de operação e colaboração entre todas as forças armadas e a inteligência dos Estados Unidos. De acordo com a agência de notícias Reuters, a CIA infiltrou espiões, um deles próximo a Maduro, para monitorar cada movimento do ditador. Depois de passar por uma região montanhosa, soldados da tropa de elite do exército americano, a Delta Force, chegaram de helicóptero ao Forte Tiuna. Os americanos furaram o bloqueio e começaram a percorrer a fortaleza atrás de Maduro. Trump diz que o ditador e a esposa correram para entrar num bunker. Segundo Trump, eles não conseguiram fechar a porta a tempo. Foram presos e levados de helicóptero. Uma autoridade do alto escalão da Venezuela divulgou sob anonimato o número de mortos na operação de hoje. Segundo essa autoridade informou ao jornal The New York Times, 40 pessoas morreram, entre militares e civis.
Oliver Stunkel
Isso mostra que, por meio de pessoas dentro da Venezuela, mas também pelo uso de drones, a CIA conseguiu obter informações muito valiosas para viabilizar essa operação militar.
Natuza Nery
Em que momento a gente está agora? Olhando um pouco para a entrevista que o Trump deu, ele fala que a gente já passou da doutrina moral, a gente está fazendo além do que estabelece a doutrina. Ele próprio voltou a citar nessa fala que o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado. O que dá para a gente dizer a esse respeito? Qual é a leitura que você faz dessa fala, em particular, do presidente americano?
Oliver Stunkel
Fica muito claro que, na visão de Trump, America First, ou seja, América Primeiro, também significa para ele as Américas em primeiro lugar. Isso é um pensamento clássico de esferas de influência, muito diferente do mundo que a gente viveu ao longo das últimas décadas. Um mundo marcado pela soberania das nações, por sistemas multilaterais em que invasões eram raras e geralmente condenadas por boa parte da comunidade internacional. O tipo de mundo que Trump vislumbra e por meio desse ataque agora parece estar implementando é um mundo mais parecido com o século XIX, quando as grandes potências tinham suas respectivas esferas de influência. Algo da retórica de Trump sobre a Ucrânia também sugere isso, ele parece dizer que de alguma forma a Rússia tem interesses legítimos no leste europeu, desconsiderando a soberania ucraniana. E do mesmo jeito, da forma como ele vem falando sobre a Venezuela, sugere que ele considera que a Venezuela faz parte do quintal dos Estados Unidos, da esfera de influência dos Estados Unidos, o que justifica uma intervenção desse tipo e chegou a dizer que ele gostaria de governar a Venezuela.
Repórter do G1
Quase tão surpreendente quanto o ataque em si foi a declaração de Trump horas depois. O presidente americano disse que os Estados Unidos vão passar a governar a Venezuela. Ele afirmou, nós vamos administrar o país até o momento em que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa. Trump não deu muitos detalhes sobre a duração ou a forma desse governo de transição. E não descartou a presença de tropas em solo venezuelano. E aqui na mansão de Mar-a-Lago, Trump ressaltou. Os americanos vão controlar a indústria do petróleo venezuelano. Donald Trump disse que, durante décadas, as empresas americanas é que construíram a indústria de petróleo da Venezuela, até verem suas instalações serem expropriadas pelos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Trump afirmou que a reforma da estrutura petrolífera da Venezuela custará bilhões de dólares e que esse valor será pago diretamente pelas empresas americanas. Elas serão recompensadas por isso.
Oliver Stunkel
É preciso ter muita cautela em relação a isso, porque isso exigiria um compromisso financeiro, militar, político enorme. E há também bastante resistência a uma coisa dessa nos Estados Unidos. Mas isso diz muito sobre a visão de mundo de Trump. E, de certa forma, também nos diz muito sobre o tipo de mundo no qual a gente está entrando. Um mundo de grandes potências que, de certa maneira, buscarão dividir o mundo entre eles. E claramente, na visão de Trump, o Caribe e a Venezuela também fazem parte de uma região onde os Estados Unidos projetarão poder e buscarão conter o poder de outras nações.
Natuza Nery
Eu quero te perguntar um pouco sobre os impactos do que aconteceu hoje, mas antes acho que vale a pena dar uma paradinha para olhar quais são os cenários possíveis para a Venezuela a partir de agora. Você fez uma publicação falando um pouco disso na sua rede social, no seu Instagram, mas isso foi antes da fala de Trump. Queria saber quais são essas possibilidades, essas avaliações de cenário e o que muda com o que disse o presidente americano.
Oliver Stunkel
A princípio, com Maduro nos Estados Unidos, ou seja, fora do poder, quem assume é a vice-presidente Delcy Rodrigues, ex-chanceler, que tem muita experiência diplomática, amplos laços com o Irã, Rússia, China, Cuba, e algumas outras figuras-chave no governo, o ministro do interior, também o irmão de Delci Rodrigues, que é o chefe do parlamento. Algumas pessoas que é preciso monitorar agora, acompanhar agora para saber o que vai acontecer.
Leonardo Trevisan
Os outros líderes do regime continuam em Caracas. Nesse momento, a Delci Rodrigues é a presidente da Venezuela. O Josdado Cabello, ministro do interior, historicamente uma figura poderosíssima no regime, também segue.
Repórter do G1
No cargo, dando declarações.
Leonardo Trevisan
O procurador-geral da Venezuela, o Tarek William Saab, também é mantido no cargo. Essas são três figuras fortíssimas no regime.
Repórter do G1
Delci Rodrigues, irmã de Jorge Rodrigues, são dois irmãos, figuras históricas do chavismo e são da ala radical do chavismo. Maduro é um moderado perto dos irmãos Rodrigues. Delci, que era vice, agora é presidente, e Jorge Rodrigues, que é o presidente da Assembleia Nacional, que é o parlamento.
Oliver Stunkel
É preciso, obviamente, aguardar também o que vai acontecer nas ruas de Caracas. Se tiver grandes manifestações, anti-governo, o cenário pode mudar, mas durante o dia de hoje não teve grandes manifestações. Muitos venezuelanos com medo de saírem às ruas diante do histórico das forças de segurança do país em reprimir manifestantes, inclusive usando força letal.
Natuza Nery
Eu quero olhar um pouco para os impactos disso aqui no Brasil. A gente viu do ponto de vista de líderes globais, muitos líderes globais se posicionando, a presidente do México, até mesmo uma líder de extrema direita francesa, Marine Le Pen, dizendo que a intervenção afronta o direito internacional, muitos líderes do campo de centro, do campo da direita, do campo da esquerda também, entre os quais o próprio presidente brasileiro, o presidente Irula, que repudiou o ataque dos Estados Unidos e disse que os bombardeios, a captura de Maduro, ultrapassaram uma linha inaceitável Presidente.
Repórter do G1
Lula se manifestou através de uma publicação.
Natuza Nery
Em uma rede social poucas horas após o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela e a captura de Nicolás Maduro. O presidente Lula condenou o ataque, afirmou que a ação desrespeita a lei internacional.
Repórter do G1
E colocou o governo brasileiro à disposição.
Natuza Nery
Para uma solução pacífica do conflito.
Repórter do G1
Lula afirma ainda que atacar países em.
Natuza Nery
Flagrante violação do direito internacional é o.
Repórter do G1
Primeiro passo para um mundo de violência.
Natuza Nery
Caos e instabilidade, onde a lei do.
Repórter do G1
Mais forte prevalece sobre o multilateralismo.
Natuza Nery
O que essa ação militar representa para o Brasil, Oliver, na sua opinião? O que você considera que o Brasil pode perder com essa intervenção?
Oliver Stunkel
A intervenção da Venezuela cria um precedente muito perigoso, porque pela primeira vez na história, os Estados Unidos atacaram militarmente, de forma direta, um governo da América do Sul. Já houve, com muita frequência, ações para desestabilizar governos, já houve intervenções diretas na América Latina, mas sempre na América Central, ou no México, no Caribe, mas nunca na América do Sul. Então, em primeiro lugar, isso afeta a imagem da região como uma região sem conflitos geopolíticos, sem conflitos entre nações. Então, isso certamente afeta a forma como a região é vista no mundo. Além disso, obviamente, sempre foi independente. independentemente da orientação ideológica do Brasil e de outras nações da América do Sul, um dos objetivos sempre foi reduzir a presença militar de potências extra-regionais. Então, uma atuação militar americana na Venezuela, é um problema para o Brasil. Além disso, obviamente, é um precedente perigoso para o mundo inteiro, porque os Estados Unidos, ao intervirem militarmente, sem aprovação do Conselho de Segurança, cria-se um precedente que pode ser utilizado por outras grandes potências na hora de defender seus interesses. Me parece que as reações públicas dos presidentes podem, em grande parte, ser explicados, acima de tudo, à direita do espectro ideológico, por meio do flaflu no dia-a-dia na política latino-americana. Então, Millet celebrou a intervenção porque é um comentário que pode mobilizar a sua base.
Natuza Nery
A extrema-direita brasileira também celebrou, né?
Oliver Stunkel
Exatamente, também celebrou. Mas nos bastidores, falando, por exemplo, com diplomatas argentinos que fazem parte do governo Millet, há muita preocupação. Porque isso, obviamente, pode criar um precedente, inclusive, para outros países da América do Sul. Porque certamente o fato de Maduro ter fraudado as últimas eleições não foi o principal fator que levou Trump a intervir. Houve outras considerações, ou seja, seria um erro acreditar que só porque outros governos são possuem legitimidade democrática, estão seguros, não precisam se preocupar com uma possível pressão por parte dos Estados Unidos. Então, o Brasil precisa, obviamente, e foi correto ao meu ver, repudiar essa violação por parte dos Estados Unidos, mas o governo Lula também precisa lembrar que a normalização da relação bilateral com o governo Trump é uma das suas principais conquistas na política externa do ano passado. E não me parece, não vale a pena por isso o enrisco e, por exemplo, atacar frontalmente os Estados Unidos por causa dessa intervenção, pondo em risco as conquistas recentes com a normalização da relação depois da briga das tarifas. Agora, mesmo governos de direita e de extrema direita, nos bastidores, estão, e eu acompanho muitas dessas conversas, pensando sobre como reduzir sua vulnerabilidade estratégica perante os Estados Unidos, como diversificar parceiros, como aumentar sua autonomia estratégica. O Brasil faz parte dessa discussão, isso envolve questões de dependência tecnológica, militar, comercial, então essa conversa vem acontecendo E por isso me parece que, a médio-longo prazo, os Estados Unidos devem perder influência em outras partes da América do Sul, porque, em resposta a esse ataque, os países buscarão ampliar seus laços com outras grandes potências. Então, países como a China podem se beneficiar dessa situação.
Repórter do G1
Já o Ministério das Relações Exteriores da Rússia declarou que os Estados Unidos cometeram um ato de agressão armada contra a Venezuela, pediu esclarecimentos imediatos sobre as circunstâncias e defendeu que é importante evitar uma escalada e encontrar uma saída por meio do diálogo. Uma delegação da China, aliada estratégica da Venezuela, estava em Caracas ontem e se reuniu com o ditador Nicolás Maduro. No fim da manhã de hoje, o Ministério das Relações Exteriores chinês disse que está chocado e condenou os Estados Unidos por usarem força de forma imprudente contra um Estado soberano. E disse que as ações dos Estados Unidos violam o direito internacional à soberania da Venezuela e ameaçam a paz e a segurança da América Latina e do Caribe.
Oliver Stunkel
É um tanto chocante que vários países europeus não repudiaram o ataque de forma explícita, que também mostra que há muita preocupação em atrair a ira de Donald Trump na Europa, um continente ainda bastante dependente de Washington. Mas também é preciso ser pragmático. O governo Trump claramente prioriza a América Latina, pode ser que estará envolvido no processo de governar a Venezuela, um país que tem uma longuíssima fronteira com o Brasil. Então o Brasil precisa ter uma relação funcional com os Estados Unidos, apesar de rejetar de forma explícita a captura de Maduro, que é uma violação da soberania da Venezuela, um país vizinho do Brasil. Agora, governos de direita celebraram o ataque americano contra Maduro, acima de tudo, por questões partidárias, porque isso mobiliza as bases, porque Maduro é visto como um bicho-papau de esquerda, porque obviamente a direita em vários países busca associar líderes de esquerda com o Nicolás Maduro, fazendo essa comparação, isso acontece em muitos países. Mas os estrategistas nesses governos, mesmo nesses governos de direita ou extrema direita, estão muito preocupados com as consequências estratégicas do ataque americano contra a Venezuela. Então, mesmo no governo Milley, os diplomatas estão muito preocupados. E isso é uma dissonância interessante que, me lei, celebra a queda de Maduro publicamente, mas nos bastidores a Argentina também sabe que isso pode desestabilizar toda a América do Sul e que a Argentina também, independentemente da orientação ideológica do seu presidente, precisa pensar como aumentar sua autonomia estratégica e como se proteger contra essa nova situação que, sem dúvida, desestabiliza a América do Sul.
Natuza Nery
E para finalizar, Oliver, por que você diz que a ação do Trump na Venezuela é uma boa notícia tanto para a Rússia quanto para a China? Tem a ver com a Ucrânia e com Taiwan, com a operação desses dois países no seu próprio quintal?
Oliver Stunkel
Sem dúvida. A principal crítica de Washington contra a invasão russa à Ucrânia sempre foi que nós vivemos hoje em um mundo em que se respeita a soberania. É claro que os Estados Unidos no passado também violaram a soberania de outros países, de forma mais visível, no Iraque, em 2003. Mas mesmo assim, apesar dessas violações, os Estados Unidos e outros países ocidentais sempre defendiam, pelo menos na retórica, o respeito da soberania de países, mesmo países pequenos. Essa argumentação hoje não funciona mais, porque a invasão americana da Venezuela, a captura de Nicolás Maduro, não teve aprovação do Códice de Segurança, uma violação muito clara do direito internacional que reforça a visão de esferas de influência, de que a princípio grandes potências podem fazer o que quiserem nos seus respectivos quintais, que nas suas zonas de influência a soberania não vale tanto. É exatamente a mesma retórica e a mesma lógica que Putin utiliza ao questionar a soberania da Ucrânia e será exatamente a mesma lógica que Pekín utilizará se em algum momento iniciará um ataque contra Taiwan. Em função disso, é uma boa notícia para Pequim, é uma boa notícia para Moscou. E, além disso, é uma boa notícia porque, a princípio, a situação na Venezuela agora estará no radar da Casa Branca, provavelmente demandará bastante tempo e atenção da Casa Branca e, com isso, os Estados Unidos têm menos tempo para se preocupar com a Ucrânia ou com Taiwan e isso é exatamente o que a China e a Rússia querem.
Natuza Nery
Embora eles tenham condenado a ação também.
Oliver Stunkel
Exatamente, faz parte do jogo. É óbvio que eles não vão dizer isso abertamente, mas a legitimidade dos Estados Unidos ou do Ocidente de forma mais ampla de condenar a violação da soberania ucraniana hoje é muito menor em função dessa ação americana na Venezuela.
Natuza Nery
Ou seja, a gente pode concluir ouvindo todo o episódio do assunto que o mundo está mais inseguro, o mundo está mais desorganizado e eu te questiono se esse é um novo momento. A gente pode classificar esse como um novo momento histórico da geopolítica global.
Oliver Stunkel
Sem dúvida, estamos em meio à transição para o mundo de esferas de influência e a invasão americana a Venezuela, o ataque de Trump contra Caracas apenas é um reflexo dessa nova realidade, aliás, muito explícita na estratégia de segurança nacional publicada no fim do ano por Washington. Está tudo lá.
Natuza Nery
A estratégia de segurança nacional apresentada pelo governo Trump. Um documento que tem como horizonte a ascensão da China, mas que no meio do caminho aponta a América Latina como região prioritária para os Estados Unidos numa retomada da doutrina moral.
Repórter do G1
O documento fala em políticas muito alinhadas com aquelas que o governo Trump já vem fazendo. Fala em garantir que o hemisfério ocidental, ou seja, as Américas, permaneça razoavelmente estável e com governos bons o suficiente para impedir e desencorajar a imigração em massa para os Estados Unidos.
Oliver Stunkel
Isso, aliás, mostra a importância desse documento e, obviamente, a China também respondeu publicando um documento de como buscará preservar a sua presença na América Latina. Então, certamente, um mundo mais instável, mais marcado pela geopolítica, não tanto pelo livre comércio, a livre circulação de bens e serviços, um mundo instável que representa um desafio muito maior para a política externa no Brasil, mas também para a economia global de forma mais ampla. Então, um mundo onde a geopolítica se impõe sobre assuntos econômicos muito mais do que foi o caso ao longo das últimas décadas.
Natuza Nery
Oliver, meu amigo, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Te ouvir no dia de hoje foi fundamental para entender um pouco mais do que está acontecendo aqui do nosso lado. Muito obrigada e bom descanso para você.
Oliver Stunkel
Obrigado pelo convite, Natuza.
Natuza Nery
E antes de terminar um aviso, o assunto volta com um episódio novo na terça-feira, 6 de janeiro. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Thiago Kazurowski e Carlos Catellan. Eu sou o Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Data: 4 de janeiro de 2026
Host: Natuza Nery
Convidados: Leonardo Trevisan (ESPM), Oliver Stunkel (FGV, Harvard, Carnegie Endowment), repórteres G1
Duração: ~52 minutos
Neste episódio especial, “O Assunto” destrincha a surpreendente ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura e deposição de Nicolás Maduro. Sob mediação de Natuza Nery, especialistas e testemunhos diretos explicam o contexto, as motivações e as consequências desse marco geopolítico sem precedentes para a América do Sul, o Brasil e o mundo. O episódio discute ainda a legitimidade da intervenção, interesses econômicos, repercussão internacional e o impacto para a ordem global.
[00:02 – 03:58]
[03:58 – 08:56]
[09:52 – 17:18]
[20:43 – 23:20]
[23:34 – 25:47]
[29:02 – 34:02]
[38:04 – 46:14]
[46:14 – final]
O episódio revela que a intervenção americana na Venezuela marca um divisor de águas, tanto pela quebra de paradigmas do direito internacional quanto pelo retorno da lógica das esferas de influência. Para analistas e convidados, a ofensiva não se resume a Maduro ou à defesa da democracia, mas a interesses estratégicos (especialmente petróleo) e à dinâmica interna dos EUA. O mundo caminha para um contexto de insegurança jurídica e política, com possíveis consequências imprevisíveis para a América Latina e o sistema internacional.