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Dra. Adriana Mello
Eu.
Germana Soares
Sou Germana Soares, tenho 34 anos. Sou mãe do Guilherme Soares, que em 19 de novembro de 2025 completa 10 anos.
Natuzan Nery
Essa história é feita de nomes e de vozes de mulheres.
Germana Soares
Ele nasceu com a microcefalia e nós vivemos um dia de cada vez e todos os dias eu enxergo.
Natuzan Nery
Germana deu à luz a seu filho mais velho poucos dias depois de o Brasil decretar a epidemia de Zika vírus. Era novembro de 2015. Quando Guilherme veio ao mundo, Germana e o filho ficaram quase dez dias no hospital. Antes de terem alta, ela ouviu o seguinte de um médico.
Germana Soares
Ele só chega a um ano, virou.
Natuzan Nery
E saiu Germana mora no Recife, capital de Pernambuco Dez anos atrás, a região Nordeste foi o epicentro da epidemia de.
Marcelo Isetúbal
Zika no país Eu tive zika com.
Germana Soares
12 semanas, ou seja, três meses de gravidez E meus sintomas foram muita, muita coceira Eu tive, através de sorologias, confirmado.
Natuzan Nery
Que era zika Em um período de dois anos, cerca de duas mil crianças tiveram o mesmo diagnóstico do Guilherme. Uma síndrome associada ao vírus que pode fazer com que o cérebro das crianças não se desenvolva como esperado. Meninas e meninos que demandam cuidados por toda a vida.
Germana Soares
Usa alimentação especial, tem bexiga neurogênica e tem dificuldade para fazer xixi. A gente tenta tratar Guilherme o mais próximo de um cotidiano considerado comum. Eu não gosto dessa palavra normal. Dentro do cotidiano comum, a gente tenta tratar ele como uma criança comum, sabe? Dentro das limitações dele, que a gente enxerga como limitações que qualquer criança tem. Então ele vai pra escola, lazer, viagem, enfim. A gente leva ele pra tudo que é canto e a gente tenta promover o máximo de lazer para ele. Dez anos depois, a gente aprendeu como lidar com tudo isso e a melhor forma de lidar com ele, né? Para não frustrá-lo e nem alimentar uma regressão nele, mas sim que a gente conseguisse tiblar as dificuldades para o avanço dele e assim a gente vai vivendo um dia de cada vez.
Natuzan Nery
Além das dificuldades provocadas pela doença, essas mães e essas crianças enfrentam o abandono.
Germana Soares
Saí do hospital com o pai do Guilherme, sendo que uns meses depois ele nos deixou e foi viver a vida dele, né? Enfim, aí eu faço parte das estatísticas de abandono paterno. Eu falo do abandono porque é o motivo que o homem encontra pra não encarar uma realidade que é pesada, não é um fardo, sabe? O fardo não é ter um filho com deficiência, o fardo é o sistema. Que o sistema só nos diz não, né? Não pode, não dá, não tem, tem que esperar, enfim.
Natuzan Nery
Germana é fundadora da associação União Mães de Anjos, criada para dar o suporte que ela própria não teve.
Germana Soares
Eu estou como presidente pelo terceiro mandato. Hoje acolhemos 471 famílias no estado de Pernambuco e através desta associação estadual eu ajudei a fundar em alguns outros estados e ajudei a fundar uma nacional que é a Unesica Brasil, qual eu estou como vice-presidente. E nós estamos em 22 estados e ao todo ajudamos 1.589 famílias nesses 22 estados que foram acometidos pelos Uma década.
Natuzan Nery
Depois, essas mães e essas crianças começaram, enfim, a ver uma mudança nas políticas públicas.
Marcelo Isetúbal
No começo de julho, foi promulgada a lei que prevê o pagamento de indenização de R$ 50 mil por danos morais e materiais para responsáveis por crianças com síndrome congênita associada à infecção pelo Zika vírus. Além disso, está previsto o pagamento de pensão vitalícia com valor do teto da Previdência a todos os bebês nascidos com a doença entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2024.
Dra. Adriana Mello
Da.
Natuzan Nery
Redação do G1, eu sou Nathuzan Nery e o assunto hoje é.
Dra. Adriana Mello
Zika.
Natuzan Nery
10 anos, as mães da epidemia. Neste episódio, eu converso com a médica e pesquisadora Adriana Mello, pioneira na identificação da infecção do vírus da Zika em grávidas. E com Marcelo Isetúbal, repórter da Globo News, que produziu a série Zika, 10 anos depois.
Germana Soares
Segunda-feira.
Natuzan Nery
17 de novembro. Doutora Adriana, você viu bem de perto os primeiros casos das mães infectadas com zika. Vou te pedir para relembrar aqui pra gente como as informações naquele momento eram super escassas, como é que foram os primeiros diagnósticos, o que fez você ligar o alerta naquela ocasião?
Dra. Adriana Mello
Olha só, falar de Zika hoje ainda é difícil, mas falar de Zika 10 anos atrás, a gente não tinha nada. O que a gente tinha eram alguns casos de Guillain-Barré, que era uma doença neurológica que acontecia em adultos, mas nada de infertos. Então, o que me chamou a atenção foi o caso de uma fisioterapeuta que tinha se programado para endividar, um caso de clínica privada, e quando eu olho o cérebro desse bebê, tem uma alteração no cerebelo que fica por trás, na realidade, do cérebro, estrutura, pelo equilíbrio, e era uma alteração que não era comum em nada que a gente já tinha visto em cérebro de bebês, em cérebro de fetos, porque parecia uma alteração de doença genética, mas ao mesmo tempo não parecia. E aí eu trabalho com fetos naturais há mais de 25 anos, então eu vejo cérebros, sei lá, quantos por dia. E aquele cérebro me chamou a atenção. Eu pedi para ela voltar em duas semanas. Quando ela voltou, a cabeça não tinha crescido nada. E o que me chamou mais a atenção é que tinha aparecido calcificações. E aí abandonou tudo, porque o que eu tinha visto antes era mais típico de doença genética, que pode causar também com alterações de cérebro. E as calcificações são muito sugestivas de infecção, porque é um agente que chega, causa lesão e depois tem um reparo. E aí nada batia com o que ela achava. E começou aquela investigação e eu conversei muito com essa paciente. E ela que me deu o alerta, que tinha tido zika com sete semanas, que inclusive tinha passado por obstetra, mas como não tinha nada na literatura falando de risco fetal, ela não tinha se preocupado muito.
Marcelo Isetúbal
Numa região de picos de microcefalia no Nordeste. Cerca de 40% dessas mães entrevistadas apresentavam desintuição proteica. Então a gente foi testar isso no laboratório. que realmente a desnutrição proteica em animais aumentava a suscetibilidade da sílbia congênita. A vulnerabilidade alimentar pode aumentar, sim, as chances dessa mãe que foi infectada passar o vírus para o seu feto. Uma coisa que a gente postulou foi a questão da saxitoxina, que é essa toxina que é produzida por cenobactérias que são bactérias que se acumulam em reservatórios de água. Então o Nordeste passou por uma seca muito severa antes da síndrome congênita explodir.
Dra. Adriana Mello
E aí começou, né? pesquisar para saber e na literatura, passei o sábado inteiro na literatura fazendo pesquisa e não achei artigo nenhum, mas achei um artigo em modelo animal que tinha injetado, inoculado um vírus da mesma família do Zika em ovelhas e em vacas. E os bebês desses animais tinham nascido com as mesmas malformações que eu estava vendo naquele bebê. E aí foi bem assustador aquilo.
Natuzan Nery
E aí qual foi a tua providência ao se deparar com aquele artigo? Como é que era dar o diagnóstico nessa época? A gente tá falando de 2015 ainda, né?
Dra. Adriana Mello
2015, isso era setembro para outubro, o primeiro caso começou em setembro aqui nos fetos. A primeira coisa que eu fiz foi entrar em contato com a Secretaria Estadual de Saúde para avisar desses casos que tinham aparecido em especial. Aí começou a ter um zum-zum-zum que Pernambuco estava tendo crianças nascendo, mas nada oficial. A Secretaria de Saúde disse que ligou para lá e que disseram que era rubéola, não falaram nada em zika. E aí começou aquela... mas não parece com rubella, porque a alteração de rubella a gente é acostumado, então não parecia com rubella, então não fiquei muito satisfeita com essa resposta. E aí a gente comecei a ligar para amigos, colegas pesquisadores de São Paulo, de João Pessoa, todo mundo que eu tinha na minha lista, até que encontrei um amigo de João Pessoa que conhecia uma pesquisadora do Rio de Janeiro, doutora Lúdia Maia, da área de vacina da Fiocruz. que é paraibana, e aí me colocou em contato com ela, eu conversei com ela, isso já era final de outubro, tinha começado em setembro, já era final de outubro, eu já estava desesperada porque começou a aparecer outros casos da maternidade pública. E aí ela me pediu para fazer um resumo, eu mandei, no dia... Recebe meu e-mail, passa para o pessoal do laboratório, e o pessoal do laboratório de arvorvírus me liga, isso no dia 5, eu sei porque era meu aniversário, 5 de novembro, e a gente combinou aí como fazer. A gente coleta o líquido porque dá índice das doenças que o feto tem. E aí foi quando a gente combinou essa coleta. Mas não foi fácil, porque foi quase um mês até chegar a Fiocruz. E foi um período bem caótico, porque a gente queria dar resposta às grávidas principalmente, porque começou um desespero, vendo essas crianças nascerem sem resposta.
Marcelo Isetúbal
A rotina da Jaqueline nunca mais foi a mesma desde que o filho Caçula nasceu com microcefalia. O Daniel pesa mais de 50 quilos. O banho é uma dificuldade. Muito pesado, muito pesado mesmo. Daniel é uma das 337 crianças com a síndrome congênita do vírus da Zika que recebem atendimento em Pernambuco. No Brasil, são cerca de 1.500.
Natuzan Nery
Quero aproveitar então a tua presença para nos explicar o que o Zika vírus faz no feto em desenvolvimento e, além da microcefalia, o que ele pode causar.
Dra. Adriana Mello
Na Tuz, a gente já tinha muito medo do citomegalovírus, era considerado o pior agente infeccioso que poderia cometer um feto. O Zika é muito pior. Ele causa dano cerebral porque ele atua justamente na fábrica de neurônios. Ele entra ali na fábrica de neurônios e ele impede tanto a multiplicação quanto a proliferação desses neurônios. Então, os neurônios não conseguem chegar nos seus locais de trabalho. Fora isso, a gente já descobriu que tem muito mais coisa. Então, na realidade, a microcefalia não é a doença. A doença é o dano cerebral. E esse dano cerebral faz com que o cérebro fique pequeno, e por esse cérebro ficar pequeno, a cabeça fica pequena. Então, a microcefalia é uma consequência de um cérebro pequeno, então de uma microencefalia. E aí o que acontece? Hoje a gente já sabe mais, a gente já sabe que esse vírus também atrapalha na miogênese, ou seja, na proliferação das células musculares. Então, onde tem nervo e músculo pode ter sequela, ou seja, todos os órgãos. O órgão que é menos atingido até aqui. Essa idade é o coração, mas visão, audição, cérebro, deglutição, respiração, motor da parte de andar, coluna, todos, bexiga, intestino, todos os órgãos dessas crianças são afetados.
Natuzan Nery
E não tem vacina até hoje ou algum remédio que possa bloquear os efeitos desse vírus?
Dra. Adriana Mello
Eu sei que a gente sabe de alguns trabalhos publicados sobre a vacina que está em fase de desenvolvimento na Fiocruz, mas é muito lenta a vacina. Por quê? É até interessante depois fazer um comparativo com o Covid, porque o Covid como atingiu a economia, né, e atingiu países ricos foi muito rápido. Claro que a gente sabe que já tinham vacinas lá da época do Sars-CoV-1, do MERS, então por isso também foi mais rápido, mas tinha dinheiro pra isso acontecer. Como o Zika atingiu países pobres, pessoas em situação de vulnerabilidade, a gente nota que é muito mais lento, então a gente ainda, infelizmente, não tem nenhuma vacina. A única proteção que a gente tem hoje ainda é a proteção individual, porque os casos continuam acontecendo em menor escala, espalhados pelo Brasil, mas continuam acontecendo. A gente tem uma unidade de atendimento a crianças em Campina Grande, que nossa criança mais nova tem sete anos, mas em Belo Horizonte a gente tem crianças com menos de um ano. O grande problema é que também a gente não teve verba só para pesquisa, não foi só tratamento. A gente tem muitas perguntas que não foram respondidas. E para você ter uma ideia, mesmo eu sendo pioneira, mesmo eu tendo dois doutorados, eu só fui receber verba para pesquisa em 2017, que os casos de Zika já tinham praticamente acabado. E mesmo assim foi muito pouco e a gente não conseguiu responder todas as perguntas. Eu ainda tenho dúvidas. Os dois primeiros casos que eu selecionei para investigar, eu fiz o lictaminótico, eu levei essas pacientes para São Paulo, foram examinadas pelos maiores especialistas em sério e fetal do mundo. E, assim, eu escolhi porque eram dois modelos totalmente diferentes. Eu ainda não aceito que um seja totalmente igual ao outro. Pra mim, um tem um cofator, mas que cofator é esse que foi um caso tão diferente? Então, a gente tem dois padrões diferentes de dano cerebral, diferente de todas as infecções que você encontra, geralmente um padrão mais único. sabe, de gravidade diferente, mas mais único. Mas a Zika tinha dois padrões totalmente diferentes. E eu sempre perguntei se tinha algo a mais. Do mesmo jeito que eu não sei ainda, e a literatura também não sabe, se esse vírus continua no sistema nervoso dessas crianças. Porque a gente teve um óbito de uma criança com cerca de 5 anos, a gente fez uma avaliação pós-morte e ainda tinha um vírus. Então, a gente não sabe se esse vírus continua e se encontra uma fase anistrada. Mas infelizmente, recentemente eu mandei um projeto ao CNPq e disseram que não era prioridade, que o projeto estava bom, mas que não era um assunto prioritário de pesquisa.
Natuzan Nery
E as mães poderiam ter tido mais respostas, né? Se houvesse um olhar atento a isso. Doutora Adriana, eu vou agradecer a senhora por diversas razões, mas sobretudo por cuidar disso. e por ter topado conversar com a gente sobre isso e torço para que esse episódio possa ajudar a levar um pouco de recurso, de empenho, engajamento para que essas pesquisas consigam ser concluídas. Muito obrigada.
Dra. Adriana Mello
Obrigada, Natuza, sou sua fã de verdade.
Natuzan Nery
Muito obrigada, me honra muito. Um abraço para a senhora. Espera um pouquinho que eu já volto pra falar com Marcelle Setúbal.
Germana Soares
Marcelle.
Natuzan Nery
Pra fazer a série Zika 10 anos depois, que foi veiculada na Globo News, você viu de perto a realidade de mães que tiveram Zika na gravidez e cujos filhos apresentaram necessidades especiais em razão disso. Como é que essas mulheres estão hoje?
Marcelo Isetúbal
Natuza, eu acho que o que mais chamou a atenção da gente ao longo da produção dessa série foi que essas mulheres continuam em uma situação de extrema vulnerabilidade social, mesmo dez anos depois do início dessa epidemia, no ano de 2015. Então a gente visitou alguns lugares, principalmente ali na região do Grande Recife, na região metropolitana do Recife, e a gente viu cenários que deixou a gente perplexo no sentido de entender como o poder público permanece inoperante nessas regiões. Então a gente viu Por exemplo, um caso que chamou a atenção foi o caso da Fernanda, uma das mães com as quais a gente conversou, e ela, ao chegar na casa dela, a gente teve que ir pela rua de trás, dar a volta e entrar pelo quintal do vizinho, pular o muro do vizinho, passar por um beco cheio de esgoto, com algumas pedras para a gente conseguir pisar sem molhar os pés, e acessar, então, a parte da frente da casa da Fernanda. Isso tudo porque a rua que dá acesso à casa dela não pode ser chamada de rua. Estava completamente tomada pelo mato, apenas um caminho estreito, cheio de lama, para passar com muitas pedras. Toda vez que ela tinha que sair com a filha dela, que tem, A síndrome congênita associada ao Zika, para algum tipo de atendimento, alguma terapia, ela tem que deixar a cadeira de rodas da menina de lado, colocar ela no colo e fazer todo esse trajeto que a gente fez para acessar a casa dela, porque é o jeito mais rápido dela conseguir chegar numa rua que ainda não é pavimentada, mas um carro consegue acessar. Então ela atravessa todos esses obstáculos até conseguir chegar nesse ponto em que um carro pode fazer esse deslocamento da menina.
Dra. Adriana Mello
Eu pensei que ia ver minha filha.
Marcelo Isetúbal
Falar, andar, mas infelizmente foi tudo diferente, né? Eu não tive o prazer de ver minha filha fazer nada. Um outro lugar que também chamou muita atenção foi a casa da Márcia, uma outra mãe que a gente visitou também na região ali do Grande Recife. E lá é uma ocupação e tinha um chiqueiro clandestino, com porcos chafurdando no esgoto, o esgoto passando a céu aberto, um cheiro insuportável. e muitos mosquitos, muitos mosquitos em todos os lugares que a gente foi.
Germana Soares
É um processo que não acabou.
Marcelo Isetúbal
A começar pela deficiência, pela falta de.
Germana Soares
Saneamento básico que permite a proliferação do Aedes aegypti e que viabilizou o vetor daquela epidemia com consequências na saúde de.
Marcelo Isetúbal
Brasileirinhos e brasileirinhas e um impacto brutal.
Germana Soares
Na vida dessas mulheres.
Marcelo Isetúbal
Como a gente pode aceitar que ainda 100 milhões de pessoas, em média, cerca de hoje em dia, 100 milhões de pessoas no país, não tem rede de esgoto, quase metade de um Brasil. mais de 30 milhões de pessoas sem água potável, água limpa. Então, chamou muita atenção como o poder público permite que essas mulheres que já foram vítimas dessa falta de ação lá atrás continuem da mesma forma.
Natuzan Nery
É, porque a gente está falando de muitas camadas de desigualdade, que vai desde a falta de saneamento básico até a precariedade de atendimento às gestantes, crianças, idosas e por aí vai. Você visitou muitos lugares, citou a região metropolitana do Recife, conversou também com mães no Rio de Janeiro, Olhando especificamente para os filhos dessas mães, que tipo de dificuldade de assistência essas crianças enfrentam desde o nascimento até agora, Marcele?
Marcelo Isetúbal
Natuzza, é muito difícil essas crianças conseguirem uma terapia, conseguirem atendimentos médicos que vão ajudar no desenvolvimento dessas crianças através do sistema público de saúde. A gente tinha todo um olhar voltado para a gente, então a gente tinha terapia duas, três vezes, quatro vezes por semana. A gente vivia saindo de casa. Hoje em dia a gente só sai de casa uma vez por semana. Num dos principais centros de referência no.
Natuzan Nery
Atendimento de crianças com a síndrome congênita.
Marcelo Isetúbal
Do vírus da Zika, a Fundação Altino Ventura, no Recife, existe uma fila de espera de mais de 100 crianças.
Dra. Adriana Mello
A gente tem crianças que vêm do interior, que não têm na cidade que moram esse centro de reabilitação, esse acesso.
Marcelo Isetúbal
Às terapias ou aos médicos, às consultas.
Dra. Adriana Mello
E elas precisam se deslocar para outras cidades. É triste, é doloroso de ver que ela poderia estar de uma forma que ela não está por uma questão de acesso mesmo à saúde.
Marcelo Isetúbal
O que a gente viu eram crianças que nasceram e andavam, crianças que falavam, ainda com a microcefalia, mas elas estavam se desenvolvendo quando, naquele período, em 2015, essas ações estavam mais presentes para essas mulheres. E o que essas mães contaram é que essas crianças, ao perderem esse acesso, começaram a voltar atrás naquilo que elas tinham conquistado com o desenvolvimento. desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento de motor. As crianças pararam de andar, passaram a andar nas cadeiras de roda, a serem independentes de cadeiras de roda. O que essas mulheres explicaram para a gente é que essas crianças têm muitos problemas respiratórios. uma grande dificuldade, refluxo, dificuldade para deglutição. Então, precisam usar acesso, sondas, que vão alimentar essas crianças diretamente no estômago. E aí, por conta de tudo isso, elas acabam ficando doentes com muito mais frequência e precisam ser internadas. E é nesse período que elas perdem as vagas nessas terapias, oferecidas por clínicas públicas, porque existem muitas pessoas na fila que precisam também acessar essa terapia, e quando uma criança falta por 15 dias, por exemplo, elas perdem esse acesso e voltam para o final da fila, e aí essas crianças não conseguem manter a frequência nessas terapias que trariam para elas um grande desenvolvimento para tudo, uma grande qualidade de vida.
Natuzan Nery
Nossa, o pouco que elas tinham conseguido logo na sequência da epidemia elas foram perdendo, né? O que torna a vida dessas mães e dessas crianças ainda mais difícil. Em julho último, Marcelo e o governo autorizou que essas mães recebam uma indenização de 50 mil reais e uma pensão e elas já estão recebendo esse dinheiro, imagino, né?
Marcelo Isetúbal
Sim, elas começaram a receber, o Ministério da Previdência explicou que esse pagamento está sendo feito em partes porque já existiam mães que tinham toda a documentação completa, laudos, então essas mulheres receberam primeiro e as demais estão atrás dessa documentação que falta para conseguir acessar essa indenização e também o pagamento da pensão vitalícia, a pensão mensal. O governo federal começou a pagar 8 mil reais por criança. A Pensão Especial Vitalícia ajuda a aliviar a pressão sobre mulheres que dedicaram uma década a sustentar os filhos quase sempre sozinhas. Mas o valor não permite que essas famílias dispensem outros benefícios e doações. O que a gente notou, Natuza, é que assim que esses pagamentos foram anunciados pelo governo federal, os genitores dessas crianças, que lá atrás abandonaram essas famílias, começaram a voltar.
Natuzan Nery
Não acredito, Marcele.
Marcelo Isetúbal
Exatamente, a gente também ficou assim.
Natuzan Nery
Eles começaram a voltar, eles abandonaram os seus filhos, as suas mulheres, quando eles foram diagnosticados com a microcefalia, eles abandonam essas mulheres e essas crianças, e aí quando elas vão receber, passam a receber a indenização, eles voltam?
Marcelo Isetúbal
E voltam pedindo a guarda das crianças. A nossa produtora, Lívia Bonar, que esteve comigo nessa série, ela começou a receber dessas mães um pedido de ajuda, até mesmo para não divulgar que essas indenizações começaram a ser pagas, porque elas estavam se sentindo ameaçadas, assediadas por pessoas no entorno delas. Uma das mães que a gente conversou, Natuza, depois disso tudo, nossa matéria já estava quase fechada, e a gente falou, não, a gente precisa ouvir essas mulheres. E aí, uma dessas mães, aqui no Rio de Janeiro, que não se identificou, disse que começou, de julho para cá, a receber visitas do Conselho Tutelar, visitas que ela nunca havia recebido ao longo desses 10 anos, e passou a receber, de julho para cá, pelo menos 4 visitas do Conselho Tutelar. E, em paralelo a isso, ela afirma que o pai da criança, o genitor da criança, entrou com pedido de guarda formalmente na Justiça. E ela associa isso, essas denúncias no Conselho Tutelar, o Conselho Tutelar não afirma quem fez essa denúncia, são denúncias anônimas, mas ela entende que tá tudo batendo, sabe? Tá tudo muito próximo. Um pai que não cuidava dessa criança, de repente pede a guarda e ela começa a receber denúncias, visitas do Conselho Tutelar com base em denúncias de maus tratos, coisa que nunca aconteceu ao longo desses anos todos.
Natuzan Nery
Nossa, Marcele, que paulada saber disso. Esse valor muda a vida dessas mães, dessas mulheres, dessas crianças, esse dinheiro dá conta do recado pro tamanho de desafio que elas têm pela frente.
Marcelo Isetúbal
É uma grande ajuda, é uma ajuda que essas crianças nunca tiveram, inclusive, porque muitas delas recebiam o BPC, né, e era um salário mínimo, então, o que dava pra praticamente nada, então essa pensão...
Natuzan Nery
O BPC que é o Benefício de Prestação Continuada, né, do Ministério da Previdência.
Marcelo Isetúbal
No valor de um salário mínimo, e aí agora elas passam a receber essa pensão maior e ajuda. Mas o que a gente viu dessas mulheres é que existem gravidades dessa síndrome congênita associada ao Zika. Então tem crianças que têm uma vida mais mais complicada, tem outras crianças que foram menos afetadas pela doença, com menos gravidade, mas de uma maneira geral, o cálculo que foi feito pela UMA, que é a União Mães de Anjo, que atua como uma associação dessas mães das crianças com a microcefalia por causa do Zika lá em Pernambuco, eles fizeram um levantamento e mostraram que cada criança, em média, gasta cerca de 25 mil reais por mês. Isso em alimentação através de sonda, cadeira de rodas, fraldas, alimentação especial, que é o leite especial que essas crianças precisam tomar, e fórmulas, enfim, entre tantas outras coisas, o gasto é muito alto. Eu fui pro médico hoje, eu tô com uma receita ali. Só uma medicação que ele vai tomar, porque ele ganhou. As outras ele não vai ter, porque eu não tenho como comprar e não vou comprar. Nesses dias eu voltei ao atendimento e o médico falou, e aí, fez o tratamento? Eu falei, não, ele, por quê? Eu falei, porque eu não tinha dinheiro. Uma caixa da medicação que o senhor passou. 250 não pode ser genérico, então ele tem que fazer uso de três. Eu não tenho nem para uma, eu conto mais para três. Então, sim, vem para ajudar, é ótimo, mas não é isso que vai mudar a vida dessas crianças.
Natuzan Nery
De tudo que você viu, de todas as histórias que atravessaram a sua reportagem, qual foi a que mais te tocou?
Marcelo Isetúbal
O relato que mais me tocou foi o da Márcia. A Márcia é uma mulher que mora em Ipojuca, na região metropolitana do Recife. Ela mora sozinha com a filha Nicole, que na época tinha nove aninhos, né? E ela mora no alto de um monte que é um morrinho, assim, de muito difícil acesso. São caminhos que levam até a casa dessas mulheres da Márcia, não é diferente. E, Natuza, a Márcia é uma mulher com menos de 35 anos de idade, mas que já carrega no rosto, no semblante, as marcas de uma vida de luta, sabe? É uma mulher batalhadora, guerreira, devota da própria filha. Ela vive pela própria filha. Ela não faz... Ela não vive enquanto mulher. Ela não vive enquanto cidadã. Ela vive como mãe da Nicole. Foi um choque.
Germana Soares
Quando ela nasceu, ela não queria ninguém. Só era eu, só fazia chorar.
Marcelo Isetúbal
Foi fácil, não.
Germana Soares
Aí começou as lutas a partir daí.
Dra. Adriana Mello
Então aqui tudo é dificultoso, tudo.
Germana Soares
Se a gente não correr atrás e brigar, quando a gente briga, a gente é errada, a gente não presta. Se eu parar e não reivindicar o direito dela, quem vai reivindicar? Sou eu como mãe, mas ninguém.
Marcelo Isetúbal
E ela entrou num quadro de depressão quando o genitor da criança abandonou a menina, deixou ela sozinha. E nesse quadro de depressão, ela até mesmo pensou em tirar a própria vida. naquele desespero dela, de tanta solidão e de tanta dificuldade, ela pensou nisso. E ela não o fez, e ela disse isso pra gente, que não o fez porque ninguém cuidaria da filha dela, ela não saberia o que poderia ser da filha dela. Então, são mulheres, Natuza, que elas vivem para aquilo, elas vivem para aquelas crianças, para aquela situação, para fazer essas crianças terem melhor qualidade de vida, e são mulheres que carregam isso no rosto. Isso chamou bastante atenção também, de como elas se entregam, abrem mão de si, por essas crianças.
Natuzan Nery
Marcele, te agradeço muito por você fazer esses relatos aqui. Parabéns pelo seu esforço de reportagem, por contar essa história. Muito obrigada.
Marcelo Isetúbal
Obrigada, Natuza. Prazer.
Natuzan Nery
Este episódio usou áudio da série Zika, 10 anos depois do documentário em nome dos filhos, 10 anos de Zika, ambos da Globo News e da TV Cultura. Se você ouviu o episódio até aqui, eu vou te fazer um convite. Baixar o aplicativo do G1 no seu celular. Por lá, você pode ouvir o assunto, claro, e pode também acompanhar todas as notícias do dia em tempo real e de graça. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Mônica Mariotti, Amanda Polato, Sara Rezende, Luiz Felipe Silva, Tiago Kazurowski e Carlos Catelan. Eu sou Natuzanera e fico por aqui. Até o próximo Assunto.
Date: November 17, 2025
Host: Natuza Nery (G1)
Guests:
A década desde a epidemia de Zika no Brasil é revisitada a partir das vozes das mães, dos desafios diários, do impacto na vida das crianças afetadas e do lento progresso das políticas públicas. O episódio mergulha nas lutas dessas mulheres, nas limitações do sistema público de saúde, nas conquistas recentes e nos desafios ainda presentes.
O episódio retrata, com profundidade e delicadeza, a luta diária de mães que enfrentam o peso do abandono social e estatal enquanto constroem redes de apoio e buscam reconhecimento, cuidado, e justiça para seus filhos. As vozes das mães, dos especialistas e dos repórteres se unem para mostrar que, apesar de avanços pontuais, a epidemia de Zika deixou marcas profundas – não apenas em diagnósticos médicos, mas em toda a estrutura social e familiar de uma geração.
Para ouvir:
A íntegra do episódio está disponível nas plataformas do G1, Spotify e no YouTube.
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