Podcast Summary: O Assunto – "Zika, 10 anos: as mães da epidemia"
Date: November 17, 2025
Host: Natuza Nery (G1)
Guests:
- Dra. Adriana Mello (Médica e pesquisadora, pioneira na identificação do Zika em gestantes)
- Marcelo Isetúbal (Repórter, GloboNews, criador da série “Zika, 10 anos depois”)
- Germana Soares (Mãe, fundadora da União Mães de Anjos)
Main Theme
A década desde a epidemia de Zika no Brasil é revisitada a partir das vozes das mães, dos desafios diários, do impacto na vida das crianças afetadas e do lento progresso das políticas públicas. O episódio mergulha nas lutas dessas mulheres, nas limitações do sistema público de saúde, nas conquistas recentes e nos desafios ainda presentes.
Principais Tópicos e Insights
1. As Mães da Epidemia e o Cotidiano com os Filhos (00:05–03:56)
- Germana Soares relembra o nascimento do filho Guilherme, diagnosticado com microcefalia poucos dias após a epidemia ser decretada (19/11/2015).
- Destaca a rotina de cuidados especiais (alimentação, bexiga neurogênica, escola, lazer), e a tentativa de proporcionar uma infância plena.
- O fardo é mais o sistema do que a deficiência: “O fardo não é ter um filho com deficiência, o fardo é o sistema. Que o sistema só nos diz não, né?” – Germana Soares (02:45)
- Abandono paterno frequente: muitos pais deixam o lar, tornando as mães o pilar exclusivo da família.
- União Mães de Anjos: associação criada por Germana; apoio a 471 famílias em Pernambuco, 1.589 famílias no Brasil inteiro (03:24).
2. Políticas Públicas e Reconhecimento Tardio (04:02–04:32; 25:04–29:50)
- Nova legislação:
- Indenização de R$ 50 mil e pensão vitalícia no teto da Previdência para bebês com Síndrome Congênita do Zika nascidos entre 2015 e 2024 (04:02, 25:04).
- Pagamento escalonado: dificuldades de documentação retardam o acesso para algumas famílias.
3. Os Primeiros Casos e Resposta Científica (05:10–10:49)
- Dra. Adriana Mello relata o caos e incerteza de 2015, sem protocolos ou informações científicas:
- Primeira desconfiança ao notar malformações cerebrais inéditas (07:05–08:10).
- Correlação entre desnutrição materna e gravidade da síndrome; menção à saxitoxina (07:17).
- Descrição dos obstáculos para ter diagnóstico, articular pesquisas e comunicar autoridades – resistência das secretarias e falta de respaldo institucional.
- Falta de artigos científicos na época; pesquisa inicial com modelo animal ligando vírus da mesma família à microcefalia (08:10–08:41).
- Dificuldade de acesso a recursos para pesquisa: “Mesmo eu sendo pioneira, mesmo eu tendo dois doutorados, eu só fui receber verba para pesquisa em 2017.” – Dra. Adriana Mello (13:54)
4. Danos à Saúde das Crianças e Limitações do Sistema (10:49–13:06, 21:46–24:36)
- O Zika produz danos cerebrais severos, superando outros vírus (ex: citomegalovírus).
- Causa microencefalia (e não apenas microcefalia), afetando cérebro, visão, audição, deglutição, respiração, capacidade motora e órgãos internos.
- Não existe vacina ou tratamento específico até hoje; proteção depende ainda de cuidados individuais e prevenção de mosquito (Zika é negligenciado por não afetar grandes mercados ou países ricos).
- Longas filas e acessos limitados a terapias de reabilitação: centros de referência sobrecarregados, famílias viajam entre cidades.
- Regressão: Crianças perdem desenvolvimento quando perdem o acesso a cuidados multidisciplinares.
- “O que essas mães contaram é que essas crianças, ao perderem esse acesso, começaram a voltar atrás naquilo que elas tinham conquistado.” – Marcelo Isetúbal (22:43)
5. O Impacto da Vulnerabilidade Social (17:04–21:03)
- Relatos de campo:
- Grande Recife: casas com acesso dificultado, falta de saneamento básico, esgoto a céu aberto, proliferação de mosquitos.
- Dificuldades de mobilidade: mães atravessam lama e esgoto com os filhos no colo para buscar atendimento.
- “Como a gente pode aceitar que ainda 100 milhões de pessoas... não têm rede de esgoto, quase metade de um Brasil.” – Marcelo Isetúbal (20:29)
6. A Realidade das Famílias após 10 anos (24:36–33:36)
- Indenizações e pensão vitalícia ajudam, mas estão longe de suprir gastos.
- Gastos mensais podem chegar a R$ 25 mil por criança, cobertos apenas parcialmente pelos benefícios.
- “Uma caixa da medicação que o senhor passou: 250, não pode ser genérico, então ele tem que fazer uso de três... Eu não tenho nem para uma...” – mãe entrevistada (29:00)
- Abandono e assédio:
- Pais ausentes retornam para reivindicar guarda após anúncio de benefícios (26:14–28:14).
- Mães relatam medo, denúncias anônimas ao Conselho Tutelar, pressão por interesse financeiro.
- O desgaste emocional dessas mulheres: vida dedicada integralmente aos filhos, abandono recorrente, depressão e sensação de invisibilidade.
- “Ela vive como mãe da Nicole. Foi um choque.” – Marcelo Isetúbal sobre Márcia (30:56)
- “Se eu parar e não reivindicar o direito dela, quem vai? Sou eu como mãe, mas ninguém.” – Márcia, mãe (32:15)
Memorable Quotes & Timestamps
- “O fardo não é ter um filho com deficiência, o fardo é o sistema. Que o sistema só nos diz não, né?” – Germana Soares (02:45)
- “Mesmo eu sendo pioneira, mesmo eu tendo dois doutorados, eu só fui receber verba para pesquisa em 2017.” – Dra. Adriana Mello (13:54)
- “Como a gente pode aceitar que ainda 100 milhões de pessoas... não tem rede de esgoto, quase metade de um Brasil.” – Marcelo Isetúbal (20:29)
- “Se eu parar e não reivindicar o direito dela, quem vai? Sou eu como mãe, mas ninguém.” – Márcia, mãe (32:15)
- “Ela vive como mãe da Nicole... já carrega no rosto... as marcas de uma vida de luta.” – Marcelo Isetúbal (30:56)
- “Eu não tive o prazer de ver minha filha fazer nada.” – Mãe entrevistada (19:25)
Tópicos com Timestamps Importantes
- [00:05–03:56] Depoimento de Germana Soares: rotina, abandono, mobilização.
- [04:02–04:32; 25:04–28:14] Políticas públicas e impacto das indenizações/pensões.
- [05:37–08:41] Relato de Dra. Adriana Mello sobre os primeiros diagnósticos e dificuldade em iniciar pesquisas.
- [10:49–13:06; 21:46–24:36] Danos causados pelo vírus; dificuldades de assistência pós-epidemia.
- [17:04–21:03] Relatos sobre vulnerabilidade social e falta de saneamento.
- [24:36–33:36] Realidade das famílias dez anos depois: dificuldades financeiras, novas ameaças, dedicação materna e saúde mental.
Reflexão Final
O episódio retrata, com profundidade e delicadeza, a luta diária de mães que enfrentam o peso do abandono social e estatal enquanto constroem redes de apoio e buscam reconhecimento, cuidado, e justiça para seus filhos. As vozes das mães, dos especialistas e dos repórteres se unem para mostrar que, apesar de avanços pontuais, a epidemia de Zika deixou marcas profundas – não apenas em diagnósticos médicos, mas em toda a estrutura social e familiar de uma geração.
Para ouvir:
A íntegra do episódio está disponível nas plataformas do G1, Spotify e no YouTube.
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