Loading summary
A
Este podcast é apoiado pelas redes sociais do Reino Unido. At the BBC, we go further so you see clearer. Through frontline reporting, global stories and local insights, we bring you closer to the world's news as it happens. And it starts with a subscription to bbc.com, giving you unlimited articles and videos, ad-free podcasts, the BBC News channel streaming live 24-7, plus hundreds of acclaimed documentaries. Subscribe to trusted, independent journalism and storytelling from the BBC. Find out more at bbc.com.
B
A história de São Francisco de Assis, o santo que via irmãos em todas as espécies. Reportagem de Edson Veiga, publicada pela BBC News Brasil em 4 de outubro de 2025. Lida por Thomas Papon. Em 4 de outubro é celebrado o Dia de São Francisco de Assis. Um dos santos mais reverenciados da Igreja Católica, ele se tornou símbolo de luta ambiental por meio da popularização da ideia de irmãos na criação. Segundo pesquisadores, a preocupação com a natureza é uma construção muito recente, já que essa não era uma demanda do mundo medieval. Ainda assim, o santo passou a ser associado com a ecologia e os animais, diante do respeito que tinha por todos os seres. A relação de Francisco com a natureza é fraterna, no sentido de que nós, os animais e as plantas, fomos feitos por Deus e somos, portanto, irmãos", afirmou a BBC Brasil o Frei Mário Tagliari, reitor do Santuário São Francisco, em São Paulo. De acordo com a tradição, São Francisco morreu na noite do dia 3 para o dia 4 de outubro de 1226 e, por isso, seu dia é celebrado pelos católicos em 4 de outubro. Nascido em 1181 ou 1182 na cidade de Assisi, atual Itália, ele foi batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone e era filho de uma família relativamente bem-sucedida. Seu pai, Pietro di Bernardone dei Morricone, Era um comerciante têxtil que tinha bom tráfego entre a burguesia estabelecida na época. Sua mãe, Pika Bourlemont, era uma mulher de raízes francesas. Não há consenso sobre o seu apelido Francisco. Provavelmente era uma referência à França. Para alguns biógrafos, porque desde pequeno o menino tinha encantamento pelo idioma, pela música e pela cultura francesa. Para outros, seria uma homenagem da família aos parentes franceses da mãe. O que parece não deixar dúvidas é que se trata de um nome que foi assumido antes da vida religiosa. Ou seja, ainda na juventude, Giovanni já era chamado de Francesco, em português, Francisco, pelos seus amigos. e teria sido uma juventude bastante ajeitada. Visto como excêntrico e indisciplinado, Francisco gostava de festas, bebida e não economizava o dinheiro do pai na hora de se divertir. Por volta dos 23 anos, ele passou a ter uma série de visões místicas. Aos poucos, passou a se desinteressar pelos prazeres mundanos e convenceu-se de que o melhor seria adquirir hábitos mais frugais e próximos dos pobres. Depois de um retiro em uma caverna, decidiu que não queria se casar, mas sim abraçar a vida religiosa. Sonhos com mensagens avaliadas por ele como divinas passaram a ser recorrentes. E certa vez ele, ao ouvir os sinos que os leprosos eram obrigados a usar para alertar as pessoas do risco de contágio, em vez de se afastar, se aproximou. A repulsa deu lugar ao cuidado. Francisco deu seu manto ao homem que sentia frio e sentiu um prazer inexplicável ao ver em seus olhos a gratidão. Para os seus biógrafos, esse foi o ponto de virada em sua biografia, quando ele realmente decidiu se dedicar aos pobres. Em seguida, Francisco pegou o estoque de tecidos do seu pai, os vendeu a preços módicos no centro da cidade e doou todo o dinheiro para a igreja. Pietro se revoltou e descobriu o filho escondido em um celeiro. Levou-o para casa e deixou-o preso, acorrentado no porão. Com a ajuda da mãe, Francisco conseguiu escapar e foi procurar abrigo junto ao bispo. O pai seguiu os passos, pretendendo tirar satisfações não só com o filho, mas também com o líder religioso da região. Para a surpresa de todos, Francisco debateu com o pai, tirou todas as suas vestes e as devolveu a ele. Renunciou a qualquer direito que teria como herança e partiu, nu, para uma vida entre os pobres. O bispo teria abençoado o jovem e admirado sua postura. Isso teria ocorrido provavelmente em 1208. No ano seguinte, Francisco fundaria seu grupo religioso, a Ordem dos Frades Menores, com princípios claros de servir só aos pobres, humildade e uma profunda ligação com a natureza. Essa postura de Francisco, com boas doses de rebeldia nas condutas para conseguir realizar seus ideais humanitários, faz com que muitos vejam seu papel como de um verdadeiro reformador dos valores da Igreja Católica. Em minha visão, ele foi um homem estupendo que, mesmo antes de Martinho Lutero, que rompeu com a Igreja e fundou o Protestantismo, questionou a Igreja. Alguns pesquisadores dizem que ele foi um reformador sem sair da igreja, pois questionava a riqueza e via a pobreza como algo significativo, afirma o estudioso de agiologias Tiago Merck, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, associado da Radiography Society dos Estados Unidos. Francisco tinha uma postura humilde, era o santo da alegria e fazia tudo pela paz. Pensava nos outros, tinha empatia, se preocupava com aqueles que sofrem, comenta. E sua atualidade também reside nesse fato. A preocupação com os que sofrem é uma pauta contemporânea. Ele falava isso na Idade Média, criticando a miséria, o poder, o status do clero, que não ligava para os que necessitavam. Foi um santo extremamente complexo, analisa Tiago Merck. Suas ideias vão ao encontro daquilo que geralmente se prega no mundo contemporâneo, cada vez mais capitalista, material, e do eu sem pensar no outro", acrescenta. Para o pesquisador, a figura de Francisco de Assis se tornou extremamente simbólica, justamente porque em uma época em que muitos defendiam a riqueza, inclusive a hierarquia eclesiástica, ele acabaria em sua ordem, decretando que os frades tinham de habitar casas mais simples, ter uma vida mais simples. O hábito franciscano era a roupa das pessoas pobres da época, exemplifica. Ele era uma pessoa antissistema, uma pessoa desconcertante, estava sempre ao lado dos pobres, mas conseguia dialogar e trazer essa vida para o seio da igreja, analisa o Frei Marcelo Toyansky Guimarães, da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Frades Capuchinhos e assessor da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Pesquisar sobre a vida e a obra de São Francisco é mergulhar em uma seara de múltiplas facetas. Por um lado, muitos de seus contemporâneos escreveram sobre ele, com as primeiras hagiografias tendo sido feitas pouco tempo após sua morte, em 1226. Contudo, os primeiros franciscanos também se viram em meio a uma guerra de narrativas. A vida de Francisco está envolta em polêmicas e isso perpassa toda a sua trajetória, diz Tiago Merck, que dedica sua trajetória acadêmica, da graduação ao pós-doutorado, ao estudo de textos sobre São Francisco. Ele conta que o primeiro relato sobre a vida do santo foi escrito pelo frade Tomás de Celano, que viveu aproximadamente entre 1200 e 1265. Sua obra se torna uma espécie de legenda oficial da vida de Francisco, mas outras vão surgindo, escritas por outros companheiros de Francisco, inclusive por Frades, que eram muito próximos a ele e conheciam muito bem a vida dele. São várias hagiografias e escritos que começam a apresentar versões e outras facetas do santo. O que a gente conhece hoje é fruto de uma tradição, uma construção de muitos Franciscos, avalia ele. Tiago Merck recorda que havia grupos internos dentro da ordem franciscana que disputavam uma certa narrativa. E por isso, em 1260, o religioso João Boaventura, depois canonizado como São Boaventura, foi incumbido de escrever uma nova vida de São Francisco para apaziguar os anônimos e chegar a uma biografia oficial. Então, houve um decreto que passou a desconsiderar todas as narrativas anteriores e, acredita-se, muitos textos tenham sido destruídos. Acabaram sobrevivendo os que estavam guardados em bibliotecas de outras ordens religiosas, por exemplo, ou que caíram em mãos de particulares que não seguiram o decreto franciscano, comenta Tiago Merck. Segundo o pesquisador, a versão oficializada foi a que predominou até o século XVII, quando estudiosos passaram a resgatar outros relatos antigos sobre Francisco a fim de compor um mosaico de sua vida. No momento, o próprio Merck está trabalhando em uma biografia de São Francisco escrita originalmente em português no século XVI. Em breve, uma edição da mesma, preparada pelo pesquisador brasileiro, deve ser lançada em livro. Trata-se da obra Crônicas da Ordem dos Frades Menores, escrita pelo franciscano Marcos de Lisboa em 1557. Ele comenta em uma espécie de prefácio que andou por praticamente toda a Europa em busca de textos acerca de Francisco de Assis e, com base neles, escreveu, conta. De certa forma, ele antecipou um caráter científico de construção da história. Não queria construir a história baseada em achismos ou naquilo que ouvia falar. Não queria depender da tradição oral. Se hoje São Francisco é visto como o santo mais ligado ao meio ambiente, é preciso lembrar que essa noção não encontra eco nos discursos de seu tempo. Muitas vezes ele é tomado como uma espécie de ícone para a causa ambiental, mas isso é uma construção muito recente, argumenta Tiago Merck. Obviamente que essa questão ambiental não era uma preocupação, uma demanda do mundo medieval, salienta. O que temos nas primeiras legendas sobre São Francisco é justamente esse respeito que ele tinha para com a natureza. Ele chamava toda a natureza de irmã. A lua era irmã, o sol era irmão, os pássaros eram irmãos, a terra uma grande mãe. Um dos biógrafos dele diz que ele tirava até a minhoca que estivesse passando no meio de um caminho para que quando viesse uma cavalaria ela não fosse pisoteada, diz o Frei Mário Tagliari, do Santuário São Francisco. Ele pregou aos peixes, aos pássaros, por isso tornou-se protetor da natureza e padroeiro da ecologia. Em carta apostólica, publicada em novembro de 1999, o Papa João Paulo II proclamou São Francisco como o celeste padroeiro dos cultores da ecologia. São Francisco faz um movimento muito forte de integração. Ele abre a ideia de sermos irmãos de toda a criação, explica o Frei Guimarães, assessor da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Um caminho intenso de ser fraterno, por isso ele é o santo das relações saudáveis e integradas, convidando-nos a um reajuste nas diversas relações com a sociedade, buscando uma vida com o próximo, com Deus e com toda a criação. Francisco de Assis deixou escritos de punho próprio. Sua obra mais conhecida é o famoso Cântico das Criaturas, também chamado de Cântico do Irmão Sol. O texto foi composto originalmente no dialeto da região da Úmbria e é apontado como um dos primeiros registros escritos no idioma italiano. Francisco é considerado por muitos teóricos como o primeiro poeta italiano e isso não é pouca coisa, lembra Tiago Merck. Esse reconhecimento não é algo apenas dos dias atuais. Considerado o maior poeta da língua italiana, Dante Alighieri dedicou a São Francisco todo o Cântico Onze, reservado ao paraíso de sua obra-prima, A Divina Comédia. Quando, em 13 de março de 2013, o cardeal argentino Jorge Bergoglio foi apresentado à multidão na Praça São Pedro como o papa eleito para suceder Bento XVI, houve um momento de expectativa. Que nome ele escolheria para ser a marca de seu pontificado? Pela tradição católica, papas assumem uma nova identidade quando chegam ao poder. Mais do que uma mera formalidade, o nome abraçado traz a mensagem que o líder católico pretende imprimir à sua época. Ibergoglio se tornou Francisco, o primeiro papa da história da igreja com esse nome. Sem dúvida nenhuma, naquele instante, o argentino estava apresentando sua proposta ao mundo, numa espécie de plano de governo, antecipando o que viria a ser a tônica do seu pontificado. O pontífice faleceu em 21 de abril de 2025, e foi substituído após um conclave de dois dias por Robert Prevost, dos Estados Unidos, que escolheu o nome Leon XIV. Durante seu papado, Francisco foi apontado como uma voz lúcida acerca da necessidade de proteção ecológica, do cuidado com a casa comum, como ele tanto clamava. E num momento de crise da humanidade, ele insistia também no acolhimento da caridade e da inclusão dos mais pobres. Dessa forma, o Papa Francisco ecoou, oito séculos depois, os princípios de São Francisco de Assis. O novo Papa, Leão XIV, parece estar dando continuidade ao trabalho de seu antecessor e, de certa forma, de São Francisco de Assis, em prol da natureza. No início de outubro, o pontífice conclamou católicos e cidadãos do mundo todo a continuarem a defesa ambiental do Papa Francisco e a não tratarem isso como uma questão divisiva. Leão XIV falou na cerimônia de abertura de uma conferência climática para comemorar o décimo aniversário da Laudato Si, documento papal inovador sobre a necessidade urgente de proteger a saúde do planeta. Em sua fala, o Papa reforçou que a ecologia integral não pode ser vista separada da justiça social e do cuidado com os mais pobres. E acrescentou, somos uma única família com um pai comum. Habitamos um mesmo planeta, do qual devemos cuidar juntos. O pontífice apontou ainda para a importância de que os próximos encontros internacionais, como a COP-30, a sessão da FAO sobre segurança alimentar e a Cúpula da Água da ONU em 2026, escutem o grito da terra e o grito dos pobres. Leão XIV foi convidado pelo Brasil a participar da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, que ocorrerá em Belém no mês de novembro. Você ouviu a reportagem A História de São Francisco de Assis, o santo que via irmãos em todas as espécies, publicada pela BBC News Brasil em 4 de outubro de 2025.
A
At the BBC, we go further so you see clearer. Through frontline reporting, global stories and local insights, we bring you closer to the world's news as it happens. And it starts with a subscription to bbc.com, giving you unlimited articles and videos, ad-free podcasts, the BBC News channel streaming live 24-7, plus hundreds of acclaimed documentaries. Subscribe to trusted, independent journalism and storytelling from the BBC. Find out more at bbc.com slash join.
Podcast: BBC Lê
Episode: A história de São Francisco de Assis, o santo que via irmãos em todas as espécies
Date: November 8, 2025
Narrator: Thomas Papon
Reportagem de: Edson Veiga (BBC News Brasil, publicada em 4 de outubro de 2025)
Este episódio apresenta a reportagem sobre São Francisco de Assis, um dos santos mais venerados da Igreja Católica, enfatizando sua relação com a natureza e a construção de seu legado como símbolo de fraternidade universal. O texto explora a vida, obra, escritos e a influência duradoura de São Francisco, abordando a maneira como ele foi apropriado como ícone ambiental e como sua história é permeada por disputas narrativas internas e externas à ordem franciscana.
O episódio da BBC Lê oferece um panorama profundo e acessível da vida e do legado de São Francisco de Assis, tornando claras as razões pelas quais seu nome e seus princípios seguem atuais, seja no campo da fé, dos valores sociais, da literatura ou do ambientalismo. Destaca a construção plural de sua imagem ao longo dos séculos e sua influência fundamental nas posturas contemporâneas da Igreja em relação à justiça social e à ecologia.