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Narrator
Este podcast é apoiado pelas redes sociais do Reino Unido.
Medicaid/CHIP Announcer
Os seus filhos poderiam receber cobertura de saúde gratuita ou baixa custos do Medicaid ou CHIP. Mesmo se você já aplicou antes, eles podem ser elegidos agora. Filhos até os 19 anos de idade são cobertos por inspeções, vacinas, visitas dentistas, cuidado hospitalar e mais. E se eles já têm Medicaid ou CHIP, lembre-se de renovar todos os anos. Visite insurekidsnow.gov ou chame 877-KIDS-NOW. Pagado pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.
Kristen Bell
Oi, eu sou a Kristen Bell, e se você conhece meu marido Dax, então você também sabe que ele adora comprar um carro. Vender um carro? Não tanto.
BBC Narrator/Reporter
Estamos realmente fazendo isso, hein?
Kristen Bell
Graças a Deus, Carvana faz isso fácil. Responder algumas perguntas, colocar no seu carro ou licença e pronto. Nós vendemos o nosso em minutos esta manhã, e eles vão pegar e pagar a gente esta tarde.
BBC Narrator/Reporter
Tchau, truqueiro.
Kristen Bell
Claro, nós guardamos o favorito.
BBC Narrator/Reporter
Olá, outro truqueiro.
Kristen Bell
Venda seu carro com Carvana hoje. Termos e condições aplicam.
BBC Narrator/Reporter
BBC lê A médica brasileira que é segunda esposa de muçulmano em Dubai Não sou submissa Reportagem de Giulia Granchi publicada pela BBC News Brasil em 28 de julho de 2025 Lida por Camila Costa A neurologista Ana Vieira chegou a Dubai em 2024 Aos 45 anos, já havia morado em diversos países e se preparava para iniciar um estudo na sua atual área, a psicologia profunda, voltada ao tratamento de pacientes com quadros considerados difíceis, como depressão refratária, ideação suicida persistente e transtornos de personalidade complexos. Pouco mais de um ano após a mudança, Ana conta que conquistou mais do que os objetivos profissionais que a trouxeram ao Oriente Médio. Fez amiga de diferentes nacionalidades e, em poucos meses, encontrou amor. Casou-se com um egípcio, muçulmano como ela, em um tipo de casamento pouco convencional para a maioria dos brasileiros. Aceitou ser sua segunda esposa. Há dois meses, ela começou a responder, em sua conta no Instagram, perguntas sobre essa diferença cultural para o matrimônio tradicional brasileiro E tem atraído olhares curiosos, muitas vezes respeitosos, mas também muitas críticas Ana relata que muitas pessoas demonstram surpresa ou até espanto ao descobrir que ela é médica, com uma carreira consolidada, duas graduações, nove pós-graduações e um segundo doutorado em andamento. Na avaliação dela, existe uma ideia pré-concebida do que seria uma segunda esposa, e quando vêem que ela é uma mulher independente e estudada, essa imagem cai por terra. Acham que eu sou submissa, que eu não me valorizo, que sou uma escrava Se eu não fosse médica, se me enquadrasse no padrão de beleza, se fosse uma Barbie, iam me chamar de prostituta Iam dizer que entrei nessa por interesse, por futilidade, diz ela Na verdade, já fui chamada de prostituta. Já teve homem comentando o que o dinheiro não faz. Ou, também com uma Ferrari na garagem, eu seria até a décima esposa. Olham tudo pela ótica do dinheiro, acrescenta. Ana também aponta que, se não atacam sua escolha por esse viés, muitos partem para a crítica sobre sua aparência Dizem, cuidado, você tá muito gorda, ele vai arrumar a terceira Ou comentam que estou desleixada, que minhas roupas são feias É como se houvesse uma vigilância constante sobre minha imagem Na cultura muçulmana, a poligamia é permitida em alguns contextos, e embora não fizesse parte dos planos de Ana, o casamento acabou se tornando parte da sua nova vida Ela já havia sido casada e enfrentado uma grande perda anos antes, quando o marido e um de seus filhos morreram em um acidente Entendo que, para o olhar ocidental, a poligamia pareça algo absurdo Mas, curiosamente, ela é mais comum do que se imagina Só que não é assumida Os homens traem, e quase todo mundo conhece alguém que fez isso Um pai, um irmão, um amigo No Brasil, é comum o homem ter mais de uma família E, às vezes, só se descobre isso quando ele morre Na hora de dividir a herança, aparecem filhos de outro relacionamento A diferença é que aqui isso é feito com clareza, dentro de regras, sem engano, diz Ana. Quando a neurologista chegou ao novo país, refazer a vida amorosa parecia fora de questão. Mas, incentivada por uma amiga que viveu uma história romântica feliz, Ana acabou criando um perfil e um aplicativo voltado a casamentos islâmicos e cedeu a possibilidade de tentar de novo. A médica sentiu uma conexão com seu atual marido, M, de 41 anos, logo nos primeiros encontros Ele havia dito que era divorciado, o que Ana descobriu mais tarde que não era totalmente verdade Ele e a primeira esposa não são mais um par romântico, dormem em locais separados Mas se mantém legalmente casados por respeito às tradições impostas pelas famílias e pelos filhos deles Conta a ela que admite ter tido resistência à ideia em um primeiro momento Ela prefere não expor o marido em fotos nas redes sociais e pediu que seus detalhes mostrados à reportagem não fossem compartilhados para preservar a privacidade dele e de sua primeira família Natural de São Paulo, Ana cresceu com pais cristãos e conta que sua filha, que hoje tem 20 anos, escolheu por seguir a Umbanda A religião nunca foi algo imposto dentro da minha família Mas foi seu avô libanês que plantou nela a semente do islã, uma escolha que permeia todas as áreas da sua vida desde que escolheu a conversão aos 17 anos Minha mãe sofreu um acidente de carro grave, algo que me abalou muito, lembra? Na época eu frequentava a igreja evangélica e comecei a buscar respostas espirituais para o que estava vivendo Foi então que o conhecimento do meu avô sobre o Islã conseguiu me oferecer as respostas que eu procurava. Ele, que sempre admirei muito, conseguiu me fisgar. Ana vivia em Salvador quando o avô sugeriu que ela participasse de um acampamento islâmico em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. A experiência foi transformadora. Ali foi meu primeiro contato com a comunidade Adolescentes árabes que nasceram muçulmanos Outros brasileiros convertidos E a minha vida virou, conta a Ana Comecei a estudar, fui fazer aulas de árabe Já conheci algumas palavrinhas do dia a dia Porque meu avô sempre usava em casa Então eu me converti Quando completou 20 anos, seu avô sugeriu que ela se casasse Disse que era a hora, senão ele ia me perder para o mundo Lembra, bem-humorada? Ele chegou até mim com três opções de pretendentes E eu tinha mesmo essa vontade Tudo que aconteceu com a minha mãe me marcou muito Eu queria ir embora, não queria mais ficar no Brasil No início dos anos 2000, Ana se casou com um homem sírio e se mudou para Damasco, a capital do país Naquela época não tínhamos WhatsApp, não tínhamos aquela internet rápida Tinha um horário específico para usar A gente conversava muito por e-mail, porque ele estava em Damasco e eu em Salvador Imagina a distância, a diferença difuso Mas a gente ultrapassou tudo isso e ele me pediu em casamento Como ele estudava Sharia Islâmica, uma escola para a formação de professores religiosos, ele não podia sair da Síria e eu tinha que ir até ele E assim eu fiz Ela conta que foi difícil convencer os pais, mas eles sabiam do meu objetivo e respeitaram minha vontade. Assim eu fui para a Síria me casar. Foi como um déjà vu para mim. Me encontrei naquele momento. Digo que foi a fase em que eu fui mais feliz em toda a minha vida Foi uma mudança gigantesca de cultura Estamos falando do início dos anos 2000, tudo era muito diferente A Síria ainda era a Síria, com seus desafios políticos e religiosos Mas era o país que existia antes da guerra civil que começou em 2011 Fiquei ali, casei, tive a primeira gravidez, perdi um bebê Depois engravidei da minha filha e começamos nossa vida juntos Ana passou cinco anos na Síria, mas com o agravamento dos conflitos no país, escolheu se mudar para a Europa A gente foi para Portugal e de lá meu esposo recebeu uma proposta para trabalhar no Principado de Andorra Eu fui morar lá, tive um segundo filho e recomeçamos Em 2011, porém, Ana perdeu o marido e o filho em um acidente Ela lidou com um luto profundo ao perder o marido e o filho enquanto enfrentava outro grande desafio, a saúde delicada da filha que tem a rara síndrome de Ehlers-Danlos, uma condição genética que afeta os tecidos conjuntivos e pode causar articulações extremamente flexíveis, dor crônica e fragilidade da pele. Foi um processo de ressignificação na minha vida. Durante muitos anos, eu pausei. Mesmo assim, tentei tocar minha vida, mas foi impossível porque ali foi o lugar que a gente recomeçou, onde tenho as minhas outras melhores lembranças e as piores também", diz ela. Naquela época, Ana decidiu voltar ao Brasil. Até descobrimos o diagnóstico, sofremos muito, porque ela tinha muitos sintomas que pioravam com o estresse emocional, o calor ou o frio extremos. Essas crises causavam inflamações severas no corpo, colocando sua vida em risco. Foram anos de busca por respostas. Rodamos o mundo, diz Ana, Chile, Itália, Estados Unidos, atrás de tratamentos para as dores e crises da minha filha. Foi durante uma pesquisa clínica nos Estados Unidos que Ana encontrou um médico que mudou sua trajetória. Ele a incentivou a voltar à clínica, reconhecendo tudo que ela já tinha feito pela filha. Ele disse, sua filha está viva por sua causa. Você pode ajudar outras crianças. Isso me fez acordar, me fez voltar com força Essa vivência intensa e a busca pela cura da filha abriram para a Ana um caminho além da medicina convencional Comecei a estudar terapias integrativas e holísticas, me aprofundei em xamanismo, nas medicinas da floresta e no uso da cannabis medicinal, que trouxe muita melhora para a saúde da minha filha Ela fez pós-graduação em Cannabis Medicinal e Química das Plantas Medicinais, descobrindo como diferentes plantas podem auxiliar em tratamentos. Esse percurso levou Ana a se dedicar à psicologia profunda, área que hoje exerce em Dubai, combinando sua experiência pessoal, conhecimento científico e práticas alternativas para tratar quadros complexos, especialmente aqueles marcados por traumas e sofrimento emocional. Ana encarou com resistência a ideia de dividir o marido com outra mulher, mas, considerando a falta de relação romântica de Amy com a primeira esposa e o forte sentimento que nutria por ele, aceitou. A decisão de aceitar esse arranjo veio também com limites claros. No contrato de casamento que firmaram, há uma cláusula explícita. Ana não aceita que ele tenha uma terceira esposa. Os contratos matrimoniais islâmicos, válidos em muitos países de maioria muçulmana, permitem esse tipo de personalização. Neles, a mulher pode estipular, por exemplo, que o marido não se case novamente, que ela tenha o direito de trabalhar, de continuar os estudos ou até de pedir o divórcio em determinadas condições. Há alguns meses, Emy trouxe a primeira família do Egito para morar nos Emirados Árabes Unidos. Antes, eu vivia uma vida com ele como se ele fosse solteiro Ele já estava morando sozinho em Dubai há anos e só via a esposa e os filhos nas férias, explica Depois, a esposa ficou doente e ele precisou trazê-los para cá Ana admite que não acha possível uma convivência com a outra esposa. Elas já conversaram por mensagem para ter certeza de que ela autorizava a Amy a ter uma segunda esposa e que estavam de acordo com a divisão, mas nunca se encontraram pessoalmente. Somos mulheres maduras, mas é impossível não ter comparação. Só se eu fosse de gelo. Se eu estivesse ali só pelo dinheiro, pela posição, eu não estaria nem aí. Mas não é o caso. Ana e a outra família vivem em cidades diferentes e dividem uns dias da semana de forma alternada. O acordo era um dia de cada, mas minha rotina é extremamente corrida e eu gosto de ter um tempo para mim. Então deixo que ele fique durante a semana dois dias com a primeira família. Hoje, a médica sente que eles chegaram a uma dinâmica mais estável, embora admita que ainda é desafiador alinhar as diferentes expectativas moldadas por cada cultura com o estilo de vida que cada um deles está acostumado. Às vezes ele me vê cansada, estressada, e fala que o maior sonho da vida dele era que eu largasse tudo e fosse só esposa. Mas eu não consigo, e amo meu trabalho. Eu não sou a esposa submissa que fica aqui com a comidinha pronta. Também nunca cozinhei pra ele, e em vez de lavar as roupas que ele deixa aqui, mando na lavanderia Ana conta que passou a dividir com o marido tarefas que antes faria sozinha, como providenciar o conserto de eletrodomésticos ou carregar malas. Já da parte dele, houve uma abertura para o estilo de vida dela. Passou a frequentar o círculo de amigos de Ana, onde homens e mulheres conversam livremente, sem distinção entre casados e solteiros, e até comparece a eventos onde há consumo de bebidas alcoólicas, algo que não faz parte de seus costumes. Ele foi ao show da Marisa Monte comigo. Foi uma experiência muito legal. Lembra ela? Você ouviu a reportagem. A médica brasileira que é a segunda esposa de muçulmano em Dubai. Não sou submissa. Publicada pela BBC News Brasil em 28 de julho de 2025.
Narrator
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Podcast: BBC Lê
Host: BBC Brasil
Reportagem: Giulia Granchi (Lida por Camila Costa)
Data de Publicação: 28 de julho de 2025
Data do Podcast: 20 de setembro de 2025
Esta edição do BBC Lê apresenta a impressionante história da médica brasileira Ana Vieira, neurologista e psicóloga, que atualmente vive em Dubai como segunda esposa de um muçulmano egípcio. O episódio, com leitura da reportagem de Giulia Granchi, mergulha em desafios culturais, tabus e preconceitos enfrentados por Ana, abordando como ela alia sua trajetória profissional de sucesso e sua independência à vida pessoal em um casamento polígamo, algo ainda incomum e amplamente mal interpretado por muitos brasileiros.
Sobre julgamentos sociais:
"Acham que eu sou submissa, que eu não me valorizo, que sou uma escrava."
(Ana Vieira, 03:40)
Comparativo entre poligamia aberta e infidelidade não assumida:
"No Brasil é comum o homem ter mais de uma família [...] Aqui isso é feito com clareza, dentro de regras, sem engano."
(Ana Vieira, 05:10)
Sobre luto e a força para recomeçar:
"Foi um processo de ressignificação na minha vida. Durante muitos anos, eu pausei."
(Ana Vieira, 11:55)
Definição do próprio papel no casamento:
"Eu não sou a esposa submissa que fica aqui com a comidinha pronta. Nunca cozinhei pra ele."
(Ana Vieira, 14:15)
Sobre independência e diversidade religiosa:
"A religião nunca foi algo imposto dentro da minha família. Minha filha segue a Umbanda, minha origem é cristã, mas o Islã virou meu caminho."
(Ana Vieira, 08:10)
Esta reportagem oferece um retrato singular e sensível sobre a vida de mulheres brasileiras em contextos culturais muito distintos. Ana Vieira, longe de ser submissa, narra sua trajetória de autoconhecimento, resiliência, busca religiosa e reconstrução após perdas profundas, tudo isso enquanto desafia vários preconceitos sobre mulheres, religião e relacionamentos poligâmicos. Representa uma voz inesperada e autônoma dentro das novas dinâmicas familiares de brasileiros mundo afora.