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a morte do desejo sexual e o grande debate sobre o uso da testosterona para resgatar a libido Reportagem de Ruth Clegg, da BBC, publicada pela BBC News Brasil em 15 de fevereiro de 2026 Lida por Silvia Salek Hoje, coach de fitness e de estilo de vida em Londres, Alan Reeves começou a fazer terapia de reposição de testosterona e diz que o tratamento lhe devolveu a libido. De um velho rabugento, como ele mesmo diz, ele se transformou em alguém que se sente como se tivesse voltado aos 20 anos. A sensação é fenomenal, diz ele. Mulheres também estão recorrendo à testosterona. Rachel Mason, uma blogueira de 37 anos que escreve sobre temas relacionados à menopausa, diz que o hormônio tem sido incrível para manter altos os seus níveis de energia, concentração e libido. Em países como o Reino Unido, onde as estatísticas apontam uma redução do apetite sexual de forma geral, as prescrições de testosterona têm crescido expressivamente. Os dados mais recentes da NHS Business Authority, órgão ligado ao Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, compilados pela Care Quality Commission, apontam um aumento de 135% entre 2021 e 2024. Em 2010, pessoas entre 16 e 44 anos no país relataram fazer sexo, em média, três vezes por mês, conforme os dados compilados pela Pesquisa Nacional de Comportamento Sexual e Estilo de Vida, realizada a cada 10 anos com mais de 10 mil entrevistas. O número é menor do que o registrado no ano de 2000, quando britânicos afirmaram fazer sexo quatro vezes por mês, e também menor do que na década de 1990, quando a média era de cinco vezes por mês. Os próximos resultados estão previstos para serem divulgados no fim deste ano e os pesquisadores esperam que a tendência de queda continue, embora não apontem um motivo isolado para o declínio. Nesse contexto, um debate está ganhando força. Aumentar a testosterona pode melhorar a libido? Ou grande parte da atenção dada ao assunto é apenas propaganda, busca por lucro e efeito placebo? A experiência de Alan Reeves com a diminuição da libido é apenas um exemplo de uma tendência que, segundo pesquisadores, está se tornando cada vez mais comum. Ao longo dos anos, notamos uma queda em todos os grupos demográficos, diz Soazic Clifton, diretora acadêmica da pesquisa. Há menos casais vivendo juntos do que na década de 90, por exemplo, o que poderia ajudar a explicar a redução do desejo sexual. Mas quando analisamos especificamente esse grupo, houve uma diminuição. Há menos casais vivendo juntos do que na década de 90, por exemplo, o que poderia ajudar a explicar a redução do desejo sexual, mas mesmo quando analisamos especificamente esse grupo, os casais, houve uma diminuição. Acrescenta. De fato, algumas das quedas mais acentuadas na frequência sexual foram observadas entre casais mais velhos. A pesquisadora afirma que é difícil dizer de maneira conclusiva porque o desejo sexual parece estar diminuindo. Nenhum dado que temos até agora pode realmente nos dizer com segurança porque, como população, não estamos mais fazendo sexo com tanta frequência, diz ela. Um fator destacado entre estudos sobre o tema é o mundo digital e hiperconectado no qual vivemos e do qual é difícil se desligar. E aí Os níveis de estresse também são hoje, de forma geral, mais altos do que eram há 30 anos, o que pode contribuir, pontua Ben Davis, clínico geral e terapeuta sexual. As pessoas têm tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Há a tecnologia, obviamente, mas também há um aumento no estresse, na depressão, na solidão, e tudo isso contribui para a redução do desejo sexual. Analisa. E há ainda a tendência de diminuição nos níveis de testosterona, um tema que tem gerado muito interesse online e se converteu em um grande negócio. Os níveis de testosterona nos homens estão definitivamente diminuindo, diz o professor Geoffrey Hackett, urologista e membro da Sociedade Britânica de Medicina Sexual. o aumento da obesidade, diabetes tipo 2, o número crescente de pessoas que levam vidas mais sedentárias, tudo isso reduz os níveis de testosterona. E a queda nos níveis de testosterona vai ser um fator na diminuição do nosso desejo sexual. Explica. Diversos estudos abrangentes realizados nos últimos 20 anos, que mediram os níveis de testosterona em homens, sugerem que esses níveis diminuíram. Jeffrey Hackett ressalta, no entanto, que o quadro é complexo. Ter baixa testosterona aumenta a probabilidade de se ter baixa libido, mas isso não significa que todos aqueles que têm baixos níveis de testosterona terão baixo desejo sexual. Apesar dessa complexidade, em países como o Reino Unido e nos Estados Unidos, estações de metrô, pontos de ônibus e redes sociais estão repletos de anúncios com frases de efeito como baixa libido, confusão mental, cansado, hora de verificar seus níveis de testosterona. Seu parceiro perdeu o brilho, podem ser os hormônios. no Brasil, é proibida a publicidade de medicamentos que exigem receita, como é o caso da testosterona. Ela pode ser administrada por vias injetáveis, gel, adesivo, implantes subcutâneos ou via oral. Mas, afinal, a terapia de reposição de testosterona pode realmente oferecer uma solução milagrosa para a baixa libido? Melissa Green toma testosterona há quase um ano. Ela diz que isso não só lhe devolveu o entusiasmo pela vida, como também salvou o seu casamento. Aos 43 anos, ela afirma que sua baixa libido estava tendo um grande impacto no relacionamento. Por estar na perimenopausa, o seu médico já havia prescrito estrogênio e progesterona por meio de terapia de reposição hormonal. Mas ela diz que o profissional se recusou a verificar seus níveis de testosterona, alegando que ela não precisava de suplementação do hormônio. Mulheres produzem testosterona em pequenas quantidades e as diretrizes do Serviço Nacional de Saúde Britânico, o NHS, indicam que a testosterona pode ser prescrita para mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo, caracterizado por pouco ou nenhum desejo sexual. O problema pode afetar mulheres de qualquer idade, mas tende a atingir o pico por volta da menopausa. Posteriormente, Melissa Green foi a uma clínica particular, fez exames de sangue e foi informada de que seus níveis estavam baixos. Depois de levar os resultados ao clínico geral, ela agora recebe testosterona pelo sistema de saúde britânico em um pequeno complemento por meio de uma receita particular. Isso me devolveu a vida. De certa forma, eu sinto que voltei aos meus 20 anos. Tenho mais energia, me sinto mais alerta e meu desejo sexual voltou", diz. Enquanto algumas pessoas são efusivas sobre o impacto da testosterona na libido, outras dizem que ela teve efeitos menos desejáveis. Cheryl O'Malley fez terapia de reposição de testosterona por um ano. Ela diz que embora possa ter ajudado a recuperar parte da energia que havia perdido durante a menopausa, ela também aumentou demais o seu desejo sexual e a deixou com sentimentos intensos de raiva. Eu estava muito excitada, eu queria fazer sexo com meu marido, mas ao mesmo tempo eu o odiava. E aí que você percebe que não está bem, que não sou eu, estou fora de controle", disse. Rachel Mason diz que quando publica postagens sobre a terapia de reposição, percebe que muitas mulheres têm medo de começar a terapia de reposição de testosterona porque temem se tornar masculinas, desenvolver pelos faciais, de se perderem. Ela diz que tem uma parte particularmente mais peluda no pulso, onde aplica o gel de testosterona diariamente, mas que os benefícios que obtém com o hormônio valem a pena. Além do aumento de pelos no corpo, a reposição pode causar uma série de outros efeitos colaterais. Para as mulheres, os efeitos mais comuns são crescimento excessivo de pelos, acne e ganho de peso, que são geralmente reversíveis com uma redução da dosagem ou interrupção do tratamento. Alopecia e engrossamento da voz são raros. Para os homens, os efeitos colaterais podem variar entre ganho de peso, ereções dolorosas e prolongadas, calvície e alterações de humor. Também pode levar à diminuição da produção de espermatozoides, o que pode afetar a fertilidade. Existem tratamentos que podem ajudar, mas recomenda-se aconselhamento médico. Alguns médicos, clínicos gerais e especialistas do NHS disseram à BBC que clínicas privadas estão lucrando com a venda da reposição de testosterona como uma solução rápida para um problema complexo. Paula Briggs, que é consultora do NHS em Saúde Sexual e Reprodutiva, descreve isso como uma mina de ouro em que muitas pessoas acabam pagando muito dinheiro por algo de que não precisam. Está fora de controle. A indústria do bem-estar criou essa lacuna no mercado que está usando a seu favor. É abusivo, opina. Clínicas privadas, no entanto, afirmam que estão melhorando a vida das pessoas ao oferecer um serviço que a saúde pública não consegue oferecer. Jeff Foster, clínico-geral do NHS e diretor médico da VOI, que é uma clínica multimilionária especializada em saúde masculina, afirma que o setor privado está preenchendo uma lacuna no atendimento. No momento, o NHS não está preparado para diagnosticar ou tratar os milhares de homens que podem ter baixa testosterona, diz. Michael Coxes oferece terapia de reposição de testosterona por meio de sua empresa Balance My Hormones, desde 2016. Ele afirma que viu a demanda crescer exponencialmente nos últimos anos. Ele diz que alguns dos seus pacientes fizeram exames no NHS e foram informados de que não tinham níveis baixos de testosterona e que então decidiram procurar tratamento particular. Só porque o nível de testosterona deles pode estar um pouco acima do limite estabelecido pelo NHS, não significa que a reposição não possa ajudá-los. Não é uma questão preto no branco, é mais complexo do que isso, diz. Para os homens, a testosterona começa a diminuir em cerca de 1% entre os 30 e 40 anos. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido aponta a tendência como uma parte normal do envelhecimento. Alan Reeves recebeu inicialmente terapia de reposição de testosterona pelo NHS. Dois exames mostraram níveis de 10 e 12 nanomoles por litro. E ele recebeu um ciclo de quatro injeções com três semanas de intervalo entre elas. Mas após o quarto tratamento, ele foi informado de que não poderia mais continuar sem receber muitas explicações. Eu voltei a estacar zero. Foi então que eu decidi procurar um médico particular. Qual é então o nível saudável de testosterona para homens? A resposta varia a depender da organização consultada e da pesquisa. As diretrizes da Sociedade Britânica de Medicina, formuladas a partir de importantes estudos internacionais, sugerem que homens com uma taxa inferior a 12 devem ser considerados para terapia de reposição de testosterona e provavelmente apresentarão sintomas de hipogonadismo, uma condição na qual os testículos não produzem quantidade suficiente do hormônio. As diretrizes do NHS variam entre os hospitais, mas apontam que um homem com níveis abaixo de 6 a 8 nanomoles por litro pode ter deficiência de testosterona. Nas mulheres, a testosterona começa a diminuir entre os 20 e 40 anos, estabilizando-se com a entrada na menopausa. É normal que os níveis diminuam, mas a questão é o quanto essa redução impacta o desejo sexual e o bem-estar geral. Existem exames disponíveis, mas é difícil obter leituras precisas, porque embora a testosterona também seja vital para as mulheres, a quantidade necessária é muito menor. E mesmo que seja prescrito, precisa ser usado off-label ou fora da bula, já que atualmente não existem tratamentos licenciados para mulheres disponíveis no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido. Paula Briggs vê com cautela a repercussão em torno da terapia de reposição de testosterona. Ela diz ter observado um aumento significativo no número de pacientes que relatam precisar de testosterona porque se sentem deprimidos e sem vontade de fazer sexo. Eles me dizem que fizeram sua pesquisa. Muitas vezes isso significa que viram o impacto transformador que o hormônio teve na vida de alguém que publicou isso nas redes sociais. Continua. Só porque funciona para uma celebridade não significa que funcione para a população em geral. Acrescenta. Ela compartilha a experiência de médicos que se dizem inundados de pacientes que pedem exames de testosterona. Muitos saem com uma receita de reposição apenas para voltarem alguns meses depois e dizerem ter notado pouco impacto. Segundo ela, embora a testosterona ajude algumas pessoas, a proporção daqueles que dizem precisar de testosterona e que realmente se beneficiarão é pequena. As evidências clínicas até agora no que diz respeito às mulheres sugerem que a reposição só é eficaz no tratamento de mulheres que já passaram pela menopausa e têm baixa libido. Ela diz ainda que a publicidade das clínicas particulares exagera em tudo. Eu não sou contra a reposição de testosterona quando ela é necessária, mas o que me incomoda é vê-la tão exageradamente promovida, diz. O médico clínico-geral Ben Davis também alerta que a reposição de testosterona pode ter um efeito placebo, levando os pacientes às vezes a tomar e pagar por medicamentos dos quais não precisam. Cheryl O'Malley parou de tomar a testosterona. Ela diz que a raiva intensa e a excitação sexual exacerbada que sentiu durante o tratamento diminuíram. E sua libido retornou a um nível que lhe parece confortável. Eu estou aliviada, comenta. Para alguns, a medicação pode ser realmente transformadora, diz Ben Davis, acrescentando que se trata mais do que apenas prescrever medicamentos. Os médicos podem não ter tempo para discutir com o paciente o que está por trás da sua baixa libido. Pode ser o relacionamento com o parceiro, a forma como se vêem, ou que o sexo que praticam não mais os excita, diz. Ele afirma que existem muitos fatores que contribuem para a baixa libido e que a testosterona não é a única resposta. Alan Reeves, que faz terapia de reposição de testosterona há sete anos e recebe a prescrição de testosterona de uma clínica particular, afirma que sua vida melhorou drasticamente. Minha libido voltou de forma que no início eu queria fazer sexo todas as noites por 10 noites, mas agora isso se acalmou e eu estou bem." Ainda assim, ele acredita que a testosterona não é uma solução mágica e que não faz sentido tomá-la sem fazer outras mudanças no estilo de vida. Caso contrário, diz ele, é como colocar um motor de Ferrari em um carro velho. Eu caminho hoje com uma postura melhor e isso se deve, em parte, à testosterona e, em parte, a mim. Conclui. Você ouviu a reportagem A Morte do Desejo Sexual e o Grande Debate sobre o uso da testosterona para resgatar a libido, publicada pela BBC News Brasil em 15 de fevereiro de 2026.
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Podcast: BBC Lê
Host: BBC Brasil
Episode Date: March 7, 2026
Reportagem de: Ruth Clegg (BBC News Brasil, publicada em 15 de fevereiro de 2026)
Leitura: Silvia Salek
Este episódio do BBC Lê apresenta uma reportagem profunda sobre o declínio do desejo sexual (libido) e o debate crescente sobre a reposição de testosterona como possível solução para homens e mulheres. O programa traz dados de pesquisas, relatos pessoais, opiniões de especialistas, e examina tanto os benefícios quanto as controvérsias do aumento do uso de testosterona no contexto moderno, principalmente no Reino Unido.
[01:23] O episódio abre com relatos de Alan Reeves (coach londrino) e Rachel Mason (blogueira sobre menopausa), ambos relatando efeitos positivos da reposição hormonal na libido, energia e qualidade de vida:
Crescimento expressivo das prescrições de testosterona: aumento de 135% entre 2021 e 2024 no Reino Unido (dados da NHS Business Authority).
[03:40] Dados apontam queda da frequência sexual média no Reino Unido em todas as faixas etárias e grupos demográficos nas últimas décadas.
Soazic Clifton (pesquisadora):
[08:40]
Publicidade massiva sobre testosterona nos EUA/Reino Unido. No Brasil, é proibida a propaganda desse tipo de medicamento.
[13:10]
Efeitos colaterais comuns: crescimento de pelos, acne, ganho de peso (em mulheres); ereções prolongadas, calvície, alterações de humor (em homens); perda de fertilidade.
Paula Briggs (consultora, NHS):
Clínicas privadas defendem que preenchem lacunas deixadas pela saúde pública.
Michael Coxes (empresário):
O episódio mescla relatos emocionais, linguagem científica acessível e tom crítico, mantendo equilíbrio entre as experiências pessoais, argumentos médicos e debate social sobre bem-estar, medicalização e indústria.
A morte do desejo sexual é um fenômeno amplamente documentado, mas multifatorial. A terapia de reposição de testosterona pode ser eficiente em casos específicos, porém está longe de ser solução mágica — pode até trazer riscos e efeitos adversos — e precisa ser discutida com cautela médica, sempre levando em consideração o contexto individual, a saúde global e outros fatores emocionais e de relacionamento.