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BBC lê. Charles Schultz, criador de Snoopy e Charlie Brown, sempre me intrigou que cães toleram crianças com quem brincam. É como se fossem mais inteligentes do que elas. Reportagem de Gretz McKevitt, da BBC Culture, publicada pela BBC News Brasil em 25 de dezembro de 2024. Lida por Thomas Papon. Charlie Brown, a imortal criação de Charles M. Schultz, pode ter sido um dos personagens mais populares da história dos quadrinhos, mas o cartunista era modesto em relação ao alcance de suas pequenas parábolas. Eu abordo apenas os pequenos problemas da vida diária. Liev Tolstoy lidava com os grandes problemas do mundo. Eu apenas trato da questão de por que todos nós temos a sensação de que as pessoas não gostam da gente", declarou ele em 1977 em entrevista à BBC. Mas isso não significa que ele sentisse estar abordando apenas assuntos triviais. Sempre fico muito ofendido quando alguém me pergunta, você já fez humor sobre condições sociais? Prosseguiu Schultz. Bem, eu faço isso quase todo dia. E eles dizem, mas você já tratou de assuntos políticos? Eu respondo, faço coisas mais importantes do que política. Estou tratando de amor, ódio, desconfiança, medo e insegurança. Acrescentou. Se Charlie Brown foi um eterno fracassado, os sentimentos universais canalizados por Schultz ajudaram a fazer The Peanuts, também publicada como Minduin no Brasil, um sucesso global. Schultz nasceu em 1922. Ele próprio desenhou todas as tiras de Charlie Brown, de 1950 até sua morte, em fevereiro do ano 2000. Sua criação ficou tão popular que a NASA batizou dois módulos da missão lunar Apolo 10, em maio de 1969, de Charlie Brown e Snoopy. Mais de 2.600 jornais de todo o mundo publicaram as tiras de Schultz. Elas inspiraram filmes, músicas e incontáveis produtos de merchandising. Para o escritor Humberto Eco, as tiras de Charlie Brown tiveram sucesso em parte porque elas funcionavam em diferentes níveis. Peanuts encanta crianças e adultos sofisticados com a mesma intensidade, como se cada leitor encontrasse ali algo para si próprio. E é sempre a mesma coisa, apreciada em dois tons diferentes, escreveu Eco. Por isso, Peanuts é uma pequena comédia humana para o leitor inocente e para o sofisticado, acrescentou Eco. O motivo inicial que levou Schulz a se concentrar em personagens crianças foi rigorosamente comercial. Em 1990, ele declarou à BBC, sempre odeio dizer isso, mas eu desenhei aquelas crianças porque era o que vendia. Eu queria desenhar algo, não sabia o quê, mas simplesmente parecia que, sempre que eu desenhava crianças, era delas que os editores pareciam gostar mais. Por isso, em 1950, eu mandei pelo correio um conjunto de desenhos para Nova York, para a United Features Syndicate. Eles disseram que gostaram e desde então estou desenhando crianças. Sobre a relação entre Snoopy e Charlie Brown, ele disse, sempre fiquei um pouco intrigado pelo fato de que os cães aparentemente toleram as ações das crianças com quem eles brincam. É quase como se os cães fossem mais inteligentes do que as crianças. Também acho que os meus personagens servem de bons veículos para uma ideia que eu possa criar. Nunca penso em uma ideia para depois concluir que não tenho como usá-la. Posso usar qualquer ideia em que pensar porque tenho a companhia teatral certa", contou ele. Schultz se inspirou em algumas de suas experiências de vida como uma criança tímida para criar a tira. Quando era adolescente, ele fez um curso de desenho por correspondência, já que era introvertido demais para frequentar a escola de arte. Eu não conseguia me ver sentado em uma sala onde todos os demais sabiam desenhar muito melhor do que eu", contou ele em 1977. Por isso, eu ficava desenhando em casa e simplesmente mandava meus desenhos pelo correio para serem avaliados. Eu queria ter tido melhor formação, mas acho que todo esse meu histórico me deixou bem preparado para o que faço. Se eu pudesse escrever melhor, talvez tivesse tentado ser escritor e poderia ter sido um fracasso", prossegue Schulz. Se eu soubesse desenhar melhor, poderia ter tentado me tornar ilustrador ou artista e teria fracassado ali, mas todo o meu ser parece ter se adaptado para que eu fosse cartunista. Peanuts foi claramente consistente ao longo do tempo, apesar do seu implacável cronograma de publicação. Schulz não permitia que as expectativas dos seus milhões de admiradores se tornassem uma distração. Você meio que precisa se inclinar sobre a mesa de desenho, silenciar o mundo e simplesmente desenhar algo que você espera que seja engraçado, explicou ele. O cartunismo ainda é questão de desenhar cenas engraçadas, sejam elas pequenas bobagens ou desenhos políticos significativos. É sobre desenhar algo engraçado, e é tudo que você deve ter em mente naquele momento, manter uma espécie de sentimento leve. Imagino que quando um compositor está em uma fase produtiva, a música venha mais rápido do que ele possa imaginar. Eu, quando tenho uma boa ideia, dificilmente consigo escrever as palavras com rapidez suficiente. Fico com medo de perdê-las antes de colocá-las no papel. Às vezes, minha mão literalmente se agita de entusiasmo enquanto desenho, porque estou me divertindo. Infelizmente, isso não acontece todos os dias", contou. Mesmo com a sua modéstia, Schulz insistia que sempre acreditou que Peanuts seria um sucesso. Quando você se inscreve para jogar em Wimbledon, você quer ganhar. Exemplificou, é claro que aconteceram muitas coisas que eu não previa, como Snoopy indo para a lua e coisas do tipo, mas sempre tive esperança de que seria algo grande. Charles Schultz geralmente trabalhava com cinco semanas de antecedência. Em 14 de dezembro de 1999, seus admiradores ficaram desolados quando souberam que ele iria parar de desenhar porque estava com câncer. Ele anunciou que a tira de 3 de janeiro do ano 2000 seria sua última publicação diária e que em 13 de fevereiro sairia a tira final para os jornais de domingo. Schultz morreu um dia antes da publicação da tira final. Nela ele escreveu, ao longo dos anos fiquei muito agradecido pela lealdade dos nossos editores e pelo maravilhoso apoio e amor manifestado pelos fãs da tira. Charlie Brown, Snoopy, Linus, Lucy, como eu poderia esquecê-los? De volta à entrevista de 1977, Schulz insistiu que o papel do cartunista é principalmente de indicar os problemas, não de tentar resolvê-los. Mas que havia uma lição que as pessoas podiam aprender com o trabalho dele. Imagino que uma das soluções é, como Charlie Brown, simplesmente continuar tentando. Ele nunca desiste. E se alguém deveria desistir, seria ele. Você ouviu a reportagem Charles Schultz, criador de Snoopy e Charlie Brown. Sempre me intrigou que cães toleram crianças com quem brincam. É como se fossem mais inteligentes do que elas. Publicada pela BBC News Brasil em 25 de dezembro de 2024.
Podcast: BBC Lê
Host: BBC Brasil
Episode Date: April 3, 2025
Reportagem original de: Gretz McKevitt (BBC Culture)
Lida por: Thomas Papon
Tema: O legado de Charles Schulz, criador de Charlie Brown, Snoopy e as tiras "Peanuts"
O episódio mergulha na vida e obra de Charles M. Schulz, criador do icônico universo dos "Peanuts" — conhecidos no Brasil como "Minduin". A reportagem discute a simplicidade profunda das tiras de Schulz, sua inspiração biográfica, suas reflexões sobre humor, insegurança, e o impacto global de seu trabalho, além de insights sobre o relacionamento entre personagens e o legado deixado após sua morte.
“Peanuts encanta crianças e adultos sofisticados com a mesma intensidade... pequena comédia humana para o leitor inocente e para o sofisticado.” (Eco, 04:10)
"Sempre fiquei um pouco intrigado pelo fato de que os cães aparentemente toleram as ações das crianças com quem brincam. É quase como se os cães fossem mais inteligentes do que as crianças… meus personagens servem de bons veículos para uma ideia que eu possa criar.” (Schulz, 06:00)
“Às vezes, minha mão literalmente se agita de entusiasmo enquanto desenho, porque estou me divertindo. Infelizmente, isso não acontece todos os dias.” (Schulz, 10:30)
"Se eu pudesse escrever melhor, talvez tivesse tentado ser escritor... mas todo o meu ser parece ter se adaptado para que eu fosse cartunista.” (09:00)
“Quando você se inscreve para jogar em Wimbledon, você quer ganhar. Claro que aconteceram muitas coisas que eu não previa, como Snoopy indo para a lua, mas sempre tive esperança de que seria algo grande.” (Schulz, 12:00)
“Ao longo dos anos fiquei muito agradecido pela lealdade dos nossos editores e pelo maravilhoso apoio e amor manifestado pelos fãs da tira. Charlie Brown, Snoopy, Linus, Lucy, como eu poderia esquecê-los?” (Schulz, 14:00)
"Imagino que uma das soluções é, como Charlie Brown, simplesmente continuar tentando. Ele nunca desiste. E se alguém deveria desistir, seria ele.” (Schulz, 15:45)
| Tópico | Timestamp | |-----------------------------------------------------------|-------------| | A universalidade dos temas de Schulz | 01:10-02:30 | | Sucesso intergeracional & análise de Humberto Eco | 03:45-04:30 | | Motivos comerciais para personagens crianças | 05:00-06:00 | | Snoopy, Charlie Brown e a inteligência canina | 06:00-07:00 | | Schulz descreve seu processo criativo e disciplina | 09:10-10:30 | | Perspectiva pessoal de não ser escritor ou ilustrador | 09:00 | | Experiências com fãs e despedida final | 14:00 | | Reflexão final sobre persistência e o exemplo de Charlie Brown | 15:45 |
Sobre profundidade dos temas
“Faço coisas mais importantes do que política. Estou tratando de amor, ódio, desconfiança, medo e insegurança.”
— Charles Schulz, 02:10
Sobre inteligência dos cães nos quadrinhos
"Sempre me intrigou que cães toleram crianças com quem brincam. É como se fossem mais inteligentes do que elas."
— Charles Schulz, 06:05
Sobre seu processo criativo
"Você meio que precisa se inclinar sobre a mesa de desenho, silenciar o mundo e simplesmente desenhar algo que você espera que seja engraçado."
— Charles Schulz, 09:10
Mensagem final aos leitores
“Imagino que uma das soluções é, como Charlie Brown, simplesmente continuar tentando. Ele nunca desiste. E se alguém deveria desistir, seria ele.”
— Charles Schulz, 15:45
A linguagem do episódio é intimista, com um tom nostálgico porém factual, recheado de reflexões de Schulz sobre insegurança, a simplicidade do cotidiano, e a complexidade emocional de temas abordados pelas tiras. As citações de Schulz transmitem honestidade, autoironia e uma visão humilde sobre seu trabalho e influência.