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B
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Como é viver em um dos lugares mais quentes e úmidos do planeta? Reportagem de Suttik Biswas e Neetu Singh, da BBC News, publicada pela BBC News Brasil em 7 de junho de 2026. Lida por Thomas Papon. Às seis horas da manhã, o sol sobre o distrito de Banda parecia não ter se dado conta de que o meio-dia ainda não havia chegado. A luz tinha o brilho intenso de uma tarde de verão. As sombras já encurtavam antes do café da manhã. Em maio, esse distrito poerento do estado indiano de Uttar Pradesh passou dias no topo de um ranking nacional nada invejável, o lugar mais quente do país. As temperaturas ficaram entre 47 e 48 graus Celsius por mais de uma semana, algo extraordinário até mesmo para os padrões locais. O que chamou atenção, porém, foi a forma como as pessoas se adaptaram. Os mais de 2 milhões de habitantes de Banda, que dependem da agricultura, da construção, do transporte e de outros trabalhos ao ar livre, não tinham alternativa senão suportar o calor. Então, reorganizaram a vida em torno disso. A 30 quilômetros do centro do distrito, o mercado de hortaliças de Atara estava fechando as portas bem antes das feiras de rua no resto do mundo. Os agricultores chegavam ao amanhecer com tomates, abóboras, pimentas, limões e melões. Queriam vender rápido e voltar para casa antes que o calor se intensificasse. Olhem o sol, disse Himanshu, comerciante em pé ao lado das caixas de tomates. São apenas seis e quinze da manhã, mas parece que são oito ou nove horas. O calor encurtava a vida útil dos produtos e o expediente do mercado. Uma caixa de tomates precisa ser vendida hoje ou amanhã. Com esse clima, eles não duram, diz o comerciante. onde antes a movimentação se estendia até o fim da manhã, agora começava a esvaziar às 8 horas. Às 10 horas, o mercado estava quase deserto. A redução de horários de funcionamento é norma em banda. Entre o céu incandescente e o solo escaldante, as pessoas fazem o que o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski observou certa vez em outra paisagem ardente da África. dedicar a energia à busca por sombra e brisa. Papo Verma é pedreiro e agora trabalha das sete da manhã ao meio-dia e depois das quatro da tarde às sete da noite. As quatro horas no meio do dia são para esperar o pior do calor passar. Ainda assim, você tem que cumprir oito horas, afirma. Trabalhe sem parar no sol ou pare e recomece depois. O pagamento é o mesmo. O descanso o livra de dores de cabeça e tontura provocadas pelo calor, mas estica o horário de trabalho para doze ou treze horas. Se não fizesse assim, comenta dando de ombros. O que eu ganho se lhe acasto com remédios. Em um dia da semana passada, por volta das duas da tarde, quando a temperatura em banda chegou a 46 graus Celsius, três trabalhadoras se abrigaram embaixo de um caminhão-pipa em uma rodovia sobre a ponte do rio Ken para almoçar à sombra do chassi do veículo. Uma delas, Shanti Devi, caminha seis quilômetros até o trabalho todas as manhãs e mais seis na volta. O almoço dela era pão com cebola, sal e picles. Se a gente levar legumes, estragam antes do meio-dia, explicou. O abrigo dela sobre o rio Ken era apropriado. O rio está no coração da luta de banda contra o calor. Pesquisadores afirmam que a extração de areia e o esgotamento das águas subterrâneas enfraqueceram a capacidade do rio de refrescar a paisagem ao redor, criando um círculo vicioso no qual a escassez de água e as temperaturas extremas se reforçam mutuamente. Os efeitos econômicos do calor são visíveis por toda parte. Os motoristas de tuk-tuk elétrico enfrentam tardes sem passageiros. Os comerciantes abrem antes do nascer do sol e fecham entre o meio-dia e as quatro da tarde. O número de clientes caiu pela metade. Vilarejos inteiros se refugiam em casa nas horas mais intensas e só voltam a sair à noite. Os celulares vibram repetidamente com alertas do governo sobre uma forte onda de calor. Fique alerta, seja cauteloso, advertem as mensagens. Os hospitais locais recebem um fluxo constante de pacientes vítimas do calor. Desde que a temperatura se intensificou, recebemos entre 15 e 20 casos por dia, em sua maioria crianças e idosos, afirma Kakumar, superintendente médico-chefe do Hospital Distrital da Mulher. Os sintomas mais comuns são diarreia, vômito e febre. Essa experiência difícil em banda é a expressão local de uma tendência mais ampla. Em toda a Índia, o calor vem chegando cada vez mais não apenas em forma de altas temperaturas, mas também como uma combinação de calor e umidade que pressiona ainda mais o corpo humano. Pesquisadores do clima consideram a planície indogangética, que se estende por boa parte do norte da Índia e inclui o Tarpradesh, um dos pontos críticos emergentes do mundo para esse tipo de calor perigoso que combina temperatura alta e umidade. A densidade populacional, a umidade abundante e o grande número de trabalhadores ao ar livre se combinam para criar condições em que até o trabalho rotineiro pode ser arriscado. Uttar Pradesh é especialmente vulnerável devido à enorme população exposta às condições climáticas adversas, à dependência do trabalho ao ar livre e ao acesso limitado a sistemas de refrigeração para milhões de domicílios, segundo o Centro de Estudos Climate Trends. Cientistas dizem que a geografia da região e decisões erradas tomadas para o desenvolvimento local se combinaram para piorar o quadro. Banda fica perto do Trópico de Câncer, latitude associada a alguns dos verões mais intensos do mundo. Os rios correm em níveis baixos e expõem leitos de areia, pedra e cascalho que absorvem e irradiam calor. O concreto substituiu a vegetação. A cobertura arbórea, ou seja, a proporção de uma área ou terreno que é coberta por copas das árvores quando vista de cima, caiu muito abaixo dos níveis recomendados. Um estudo da Universidade de Agricultura e Tecnologia de Banda concluiu que quase um sexto da densa cobertura florestal do distrito desapareceu entre 1991 e 2022, em grande parte por causa da expansão da mineração e da agricultura. Juntos, esses fatores tornaram Banda cada vez mais vulnerável ao calor extremo. Segundo Dinesh Sa, meteorologista da universidade, o distrito já registrou temperaturas entre 48 e 49 graus Celsius. Em 2024, o termômetro chegou a 49 graus Celsius em dois dias consecutivos. Mas o que tornou o verão deste ano incomum foi sua persistência. Por oito ou nove dias, as temperaturas de 47 a 48 graus Celsius se mantiveram sem interrupção, destaca o especialista. Essa é a novidade. Prem Singh, agricultor da região, afirma que a onda anual de calor extremo não é nenhuma novidade. O que o preocupa é a intensidade crescente. Ele culpa a redução da cobertura arbórea, a mineração em larga escala, o aumento do uso de combustíveis fósseis e o uso crescente do ar-condicionado. Isso tornou a vida mais difícil para os pobres, enquanto os ricos não foram tão afetados, diz ele. O calor persiste muito depois do pôr do sol. Parece que as manhãs e as noites não existem mais, afirma Dinesh Sa. Às sete ou oito da manhã, já parece que é tarde. As temperaturas durante a noite ficam em torno de 30 graus Celsius. O resultado é uma população que nunca se refresca por completo. No vilarejo de Acharaund, a 20 quilômetros da cidade de Banda, a luta não é tanto contra a temperatura, mas contra a falta de água. Um único poço fornece grande parte da água potável do vilarejo. Todos os dias, as mulheres formam fila com baldes sob um céu em chamas. Kranti Wiswakarma, de 18 anos, passa 4 ou 5 horas em busca de água para casa. Quando há cortes de energia à tarde, o alívio vem da sombra de uma árvore. Não temos geladeira nem ar-condicionado, relata. Para nós, as árvores fazem esse papel. Perto dali, uma senhora de 80 anos, chamada Xunubadi, estava sentada ao lado de um ventilador todo remendado com barbante. Funcionava com dificuldade, soprando um ar seco e quente. O suor seca, observa, enquanto vê as pás girarem. Mas para um corpo velho, essas rajadas de calor são difíceis de suportar. Em seguida, faz uma reflexão mais sombria. Nos meus 80 anos, nunca vi um calor como esse. As pessoas mais velhas morrem em situações de frio ou calor extremos. Não sei se conseguirei suportar isso. Pelo vilarejo, os animais se viravam à sua maneira. Por volta do meio-dia, dezenas de búfalos estavam parados em um açude. Alguns pastores aguardavam que eles saíssem da água. Ali conhecemos Rameshwar Yadav, de 60 anos, antigo professor de escola particular que hoje vive da criação de búfalos. Curiosamente, ele vestia roupas pesadas, mais adequadas para o inverno do que para um dia de verão a 46 graus Celsius, e tinha um chale enrolado na cabeça. Usamos roupa grossa porque ela não deixa o calor do sol chegar ao corpo, explica. O tecido grosso nos protege do sol e dos ventos quentes. Sim, faz suar, mas também evita que a gente adoeça, diz ele. Como todos os outros moradores em banda, Yadav se adaptou. Mas adaptação e alívio não são a mesma coisa. Uma mudança no tempo finalmente trouxe tempestades de poeira e chuva. As temperaturas caíram entre 8 e 9 graus. O distrito voltou a respirar, mas o alívio foi temporário. As rotinas que os moradores de banda desenvolveram, começar a trabalhar antes do amanhecer, recolher-se em casa ao meio-dia, buscar sombra onde for possível, estão deixando de ser adaptações para se tornar uma necessidade. Um estudo de Piyush Narang e Ashok Gadgil, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, estima que Uttar Pradesh pode registrar mais de 8 mil mortes adicionais durante uma onda de calor intensa de cinco dias, mais do que muitos outros estados da Índia. O impacto recai de forma desproporcional sobre idosos, trabalhadores expostos ao calor e famílias sem acesso à refrigeração. Os moradores de banda, porém, parecem menos alarmados do que muitos cientistas do clima. Eles convivem com o calor há gerações. O que preocupa os pesquisadores não é o fato de o distrito ser quente, mas de estar ficando cada vez mais quente e por períodos mais longos, em uma paisagem que perde as árvores e a água, que antes ajudavam a manter as temperaturas sob controle. As trabalhadoras que haviam se abrigado sob um caminhão pipa na estrada pareciam ignorar o perigo. Estamos acostumadas, disseram. Você ouviu a reportagem Como é viver em um dos lugares mais quentes e úmidos do planeta, publicada pela BBC News Brasil em 7 de junho de 2026.
Este episódio da série "BBC Lê" traz a leitura da reportagem original de Suttik Biswas e Neetu Singh, publicada pela BBC News Brasil, sobre o cotidiano no distrito de Banda, no estado de Uttar Pradesh, Índia, uma das regiões mais quentes e úmidas do planeta. O episódio detalha os desafios diários enfrentados pelos moradores devido ao calor extremo, suas adaptações, as consequências econômicas e sociais, além de reflexões sobre as causas e possíveis tendências futuras.
O episódio mantém um tom jornalístico, objetivo, porém sensível ao sofrimento e às estratégias de sobrevivência dos habitantes de Banda. Embora haja uma atitude de resiliência entre os locais, o texto ressalta o perigo crescente das mudanças climáticas, ampliado pela desigualdade social e ambiental.
Recomendado para quem busca compreender, por meio de histórias reais e dados científicos, o impacto extremo das ondas de calor na vida das populações mais vulneráveis do planeta.