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BBC Lê. Como era o Brasil holandês, território no Nordeste que ficou por 25 anos sob domínio dos Países Baixos. Reportagem de Cristina Orgaz, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil em 11 de dezembro de 2024. Lida por Silvia Salek. Em 14 de fevereiro de 1630, uma esquadra com cerca de 60 navios de guerra foi avistada na costa de Pernambuco. Há quem diga que transportava até 8 mil mercenários. As bandeiras de cor branca e laranja, hasteadas na popa, pertenciam às províncias unidas dos Países Baixos, atual Holanda. Eles estavam preparados para tomar esses territórios dos portugueses que, nessa época, faziam parte da União Ibérica e eram súditos do monarca espanhol Felipe IV. Os habitantes mal conseguiram se defender. A resposta da Espanha foi lenta e, logo, os holandeses conseguiram capturar a então capital da capitania de Pernambuco, Olinda, e, mais importante, o porto do Recife. Durante quatro anos, eles, os holandeses, praticamente não puderam sair das fortificações, mas pouco a pouco conseguiram ocupar mais território e permaneceram por 24 anos, afirma Jorge Cabral, professor de História Colonial do Brasil na Universidade Federal de Pernambuco. A colônia, fundada pelos holandeses no nordeste do Brasil, consumia muito dinheiro. Ela precisava de defesa, mercenários e navios, mas também era chave para negócios lucrativos. Durante o século XVII, Pernambuco foi o polo de um enorme poder econômico graças ao comércio de açúcar, uma atividade quase tão lucrativa quanto a extração de prata que o Império Espanhol dominava com as minas de Potosí, na atual Bolívia, e de Zacatecas e Guanajuato, no México. A ocupação dessa parte do Brasil permitiu que a Holanda, por meio de sua companhia das Índias Ocidentais, comercializasse também tabaco, especiarias, madeira brasileira e pessoas escravizadas. Não havia nada comparável no Brasil. Naquela época, Pernambuco era a região mais rica, o maior produtor de açúcar do mundo, e foi por isso que os holandeses invadiram, explica José Manuel Santos Pérez, diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, na Espanha. Os colonizadores britânicos chamavam o açúcar de ouro branco. Sua extração e refino foram a força motriz por trás do tráfico de escravizados que levou milhões de africanos para as Américas. Mas esta era a segunda vez que os holandeses tentavam invadir o Brasil. Entre 1624 e 1625, eles ocuparam Salvador. Foi um ano de dominação até serem expulsos, mas que já mostrava suas intenções em relação ao Brasil. Havia um grande interesse na Europa em explorar esse vasto território ainda desconhecido. Para os historiadores, a invasão holandesa de Pernambuco e de outras cinco capitanias no nordeste açucareiro teve como objetivo minar a capacidade econômica da monarquia espanhola e aumentar seu domínio sobre as rotas comerciais do Atlântico. Foi uma época em que as províncias unidas dos Países Baixos estavam emergindo como uma potência comercial mundial com a sua companhia das Índias Orientais Holandesa. Mas, no fundo, trata-se de um capítulo dos conflitos entre os holandeses e os espanhóis nos séculos XVI e XVII. Em 1580, Portugal ficou sem um sucessor. Aproveitando-se desse vácuo de poder, o rei Felipe II da Espanha reivindicou sua ascendência portuguesa e tornou-se Felipe I de Portugal, criando uma união dinástica que durou décadas. E durante anos, os holandeses foram parceiros dos portugueses no mercado de açúcar. Eles tinham uma participação importante no transporte, no financiamento e no refino do açúcar na Europa. E quando começaram as guerras entre Espanha e Holanda, e mais ainda quando houve a união das coroas de Portugal e Espanha, surgiram os problemas. Ressalta Cabral. Entre outras coisas, o lucro que os holandeses obtinham no comércio com os portugueses permitia que eles financiassem a guerra contra a coroa espanhola. Assim, em 1621, o rei Felipe proibiu as transações entre o Brasil-Colônia e a Holanda. Proibiu também a entrada de navios holandeses nos portos. O Império Espanhol simplesmente impôs um embargo a eles e, assim, cortou o acesso deles não apenas ao açúcar, mas a outras mercadorias, diz o historiador Bruno Ferreira Miranda, professor da Universidade Federal de Pernambuco. E é nesse momento que os holandeses elaboram seus planos para tomar as colônias das Américas da coroa espanhola e trataram de criar uma companhia comercial para financiar a invasão. Os holandeses queriam tomar todas as colônias da Espanha nas Américas, começando por Pernambuco, mas já estavam de olho no Peru, no México, no Caribe, em todo o resto, diz Cabral. Eles começaram pelos pontos que pareciam militarmente mais fracos, e assim chegaram a Pernambuco. Não foi fácil. Na primeira fase da presença holandesa, de 1630 a 1637, houve muitas escaramuças e confrontos para consolidar seu domínio. E apesar da tendência de glamourizar o período holandês, foi uma época marcada pela fome e pela violência. Explica Jorge Cabral. A fome constante atormentava os soldados dia após dia. E quando não era fome pelo fato de terem chegado poucas migalhas de pão da Europa, eram o escorbuto, a cegueira, varíola, a hidropisia, a sífilis ou a tuberculose que enfraqueciam os homens. Dos muitos males sofridos pelo exército da Companhia das Índias Ocidentais durante seus anos de atividade no Brasil, poucos se comparam às doenças. Observa Bruno Ferreira Miranda. Nós chamamos de Brasil holandês, mas o fato é que os holandeses trouxeram para o Brasil um exército misto de holandeses, flamengos, franceses, ingleses, alemães, escandinavos, gente do exterior, acrescenta. Entre 1637 e 1644, houve um período mais tranquilo em que os conflitos diminuíram bastante. Nessa época, Pernambuco era governado por um nobre alemão contratado pela Companhia Holandesa. A missão de governar a Nova Holanda foi confiada a Maurício de Nassau, que chegou a Recife em 1637 e lá permaneceu até sua renúncia e partida em 1644. Maurício de Nassau transformou Recife em uma cidade verdadeiramente cosmopolita no litoral atlântico da América do Sul. Ele deixou um legado de pesquisas científicas, livros e produções artísticas que estão em museus da Europa. Recife tinha uma arquitetura especial e obras monumentais. Por exemplo, foram construídos dois grandes palácios. Um deles tinha torres de 60 metros de altura. Em outras palavras, era algo completamente diferente do que se conhecia até então. Houve também um pouco mais de liberdade religiosa, ou seja, os católicos podiam praticar sua religião, apesar de os holandeses serem protestantes calvinistas, e os judeus eram aceitos com o culto público, com sinagogas abertas e tudo mais. Explica Cabral. A memória é tão forte que ainda hoje, se você perguntar a qualquer pessoa na rua, ela vai dizer que o melhor prefeito que Recife já teve foi Nassau. Ele era um personagem muito diferente de outros administradores coloniais e deixou lembranças muito boas", afirma. O fim da ocupação holandesa no Brasil começou a milhares de quilômetros de distância dali, em Amsterdã. O mercado se viu inundado por açúcar e os preços caíram drasticamente. Os preços despencaram a tal ponto que muitos dos comerciantes de açúcar foram à falência. Isso teve um efeito dominó, diz José Manuel Santos Pérez. Quando as empresas de Amsterdã começaram a falir, elas exigiram urgentemente o pagamento de seus empréstimos. Não em parcelas, mas imediatamente. E essa onda de cobranças de dívidas, obviamente, chegou a Pernambuco, afirma o diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca. Na colônia brasileira, vários homens fizeram seus cálculos. Eram os proprietários de engenhos de açúcar que deviam grandes quantias de dinheiro à companhia holandesa. E, de alguma forma, eles chegaram à conclusão, ou os expulsamos ou vamos à falência. E assim começou uma rebelião. A impossibilidade de negociar facilmente suas dívidas e a cobrança de altos impostos por parte da Companhia das Índias Ocidentais, que administrava a colônia, levaram os portugueses e os pernambucanos a agir. Os moradores locais enfrentaram os holandeses que haviam se entrencheirado na cidade e os hostilizaram tanto que praticamente não os deixaram sair de lá, diz o especialista de Salamanca Até a derrota final dos holandeses em 1645, os homens que serviam no porto de Recife eram impedidos de deixar a cidade e aqueles que se aventuravam a sair eram frequentemente emboscados por tropas portuguesas. O que vemos ao longo desses anos é que os holandeses não tinham capacidade bélica suficiente, digamos assim, para combater essa resistência local. Quando os holandeses perderam sua colônia no Brasil, conquistaram outra parte do continente sul-americano na costa do Caribe. Escreveram Cabral e Santos Pérez no livro O Desafio Holandês à Dominação Ibérica no Brasil, no século XVII. Suriname, Esequibo e Belize podiam não ser ilhas como Barbados ou Jamaica, mas ofereciam os mesmos benefícios. Clima tropical, fácil acesso para embarcações, ventos alíseos para fazer funcionar os moinhos e um bom solo. Esses fatores fizeram desta área um local ideal para o cultivo de cana-de-açúcar, acrescentaram os autores. Os holandeses perderam Pernambuco, mas levantaram suas velas, zarparam e encontraram outros territórios desconhecidos para explorar Você ouviu a reportagem Como era o Brasil holandês, território no Nordeste que ficou por 25 anos sob domínio dos Países Baixos, publicada pela BBC News Brasil em 11 de dezembro de 2024.
Podcast: BBC Lê (BBC Brasil)
Episode Date: March 22, 2025
Read by: Silvia Salek
Original Article by: Cristina Orgaz (BBC News Mundo)
Main Theme:
This episode explores the little-known history of the Brasil holandês (“Dutch Brazil”) - a region in Northeast Brazil ruled by the Dutch from 1630 to 1654. It examines the causes of Dutch occupation, daily life in the colony, the economic and geopolitical context, notable leaders such as Maurício de Nassau, and the consequences of the Dutch defeat.
This episode masterfully recaps the tumultuous Dutch chapter in Northeast Brazil, contextualizing it within global conflicts, colonial ambitions, and economic imperatives. The podcast brings to life a period of hardship, cosmopolitan innovation, and enduring cultural memory, highlighting the far-reaching repercussions of the Brasil holandês for both Brazil and the Caribbean.