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BBC lê. Como os divórcios grisalhos afetam a vida dos filhos adultos. Reportagem de Molly Gorman, da BBC Future, publicada pela BBC News Brasil em 21 de setembro de 2025. Lida por Silvia Salek. O divórcio está envelhecendo. Os Estados Unidos são um dos países com o mais alto índice de divórcios do mundo, mas nas últimas quatro décadas esse índice vem caindo entre os casais mais jovens. Paralelamente, os adultos de meia-idade e mais idosos assumiram a liderança. Os adultos com 65 anos ou mais passaram a ser a única faixa etária que sofre aumento da taxa de divórcio nos Estados Unidos. Entre as pessoas com mais de 50 anos, o índice de divórcios também aumentou por décadas, mas agora se estabilizou. Atualmente, cerca de 36% das pessoas que se divorciam têm 50 anos ou mais, em comparação com apenas 8,7% em 1990. Esse fenômeno é conhecido como o divórcio grisalho. Essa tendência para o divórcio com mais idade tem se verificado por uma série de razões, segundo estudos. Para começar, as pessoas estão vivendo mais do que no passado e os casais mais idosos podem estar menos dispostos a enfrentar casamentos insatisfatórios. No Brasil, segundo dados do IBGE, na faixa acima dos 50 anos, o número de separações triplicou nos últimos 10 anos. O número de divórcios de pessoas em 2022 nessa faixa representou entre as mulheres 31% dos rompimentos e entre os homens 23%. Por outro lado, os jovens estão se casando mais tarde e ficaram mais seletivos na escolha do parceiro. Nas palavras de um pesquisador, os Estados Unidos estão caminhando para um sistema em que o casamento é mais raro e mais estável do que no passado. O aumento do divórcio grisalho não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos. Ele também acontece em populações envelhecidas de todo o mundo. Um provérbio coreano afirma que o casamento deve durar até que o cabelo preto se transforme na raiz de cebolinhas, ou seja, a união é um compromisso para toda a vida. Mas desde os anos 2000, mais adultos coreanos com mais idade vêm passando pelo divórcio hwanghong, o chamado divórcio no crepúsculo. Com a expectativa média de vida de mais de 80 anos para homens e mulheres na Coreia, As pessoas na casa de 50 e 60 anos de idade podem esperar viver por mais 30 ou até 40 anos e o divórcio grisalho pode oferecer a chance de um novo capítulo na vida, afirma um estudo. O Japão também observou um aumento dos divórcios maduros desde 1990 e os divórcios grisalhos hoje representam 22% de todas as separações no país. Em meio a essa tendência, um aspecto do divórcio grisalho começa a receber mais atenção. Os surpreendentes impactos profundos e abrangentes que a separação pode ter sobre os filhos adultos e o relacionamento familiar, especialmente com os pais. Os pesquisadores estudam profundamente como o divórcio dos pais afeta as crianças pequenas, mas o impacto sobre os filhos adultos é negligenciado há muito tempo, talvez por considerarmos que eles são mais maduros e capazes de lidar com a situação. Ainda assim, já no final dos anos 1980, surgiram pesquisas concluindo que, da mesma forma que as crianças pequenas, os filhos adultos podem reagir ao divórcio dos pais com raiva, surpresa e tristeza prolongada. Muitas vezes, ouvi filhos adultos dizerem, parecia que a rocha que era minha família, o sistema de rede de apoio com que cresci, foi sugado por um terremoto, afirma a terapeuta familiar e de casamentos Carol Higgs, do sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Ela é uma das autoras do livro Home Will Never Be the Same Again, A Guide for Adult Children of Grey Divorce. um guia para filhos adultos do divórcio grisalho em tradução literal. Refletindo sobre as recordações compartilhadas com a família, os filhos adultos podem se perguntar, era tudo uma simples ilusão? Eles algum dia foram realmente felizes? Diz a terapeuta. Ela conta que alguns dos seus clientes encerraram relacionamentos e noivados devido ao divórcio dos pais ou questionaram sua própria identidade e autoestima. O divórcio dos pais pode ser uma experiência difícil para qualquer indivíduo, independentemente da idade e da duração do casamento. A experiência ou transição simplesmente é diferente, explica a professora de sociologia Jolene Greenwood, da Universidade de Kutztown, no estado americano da Pensilvânia. Ela conta que os filhos adultos podem, por exemplo, se sentir obrigados a ajudar o pai ou a mãe que eles considerarem injustiçado, ficando ao lado dele ou dela, por exemplo, fornecendo apoio social, emocional ou até assessoramento jurídico. Ela entrevistou 40 filhos adultos de casais divorciados e um tema comum foi a sensação de ficar preso entre os dois lados. Os pais podem ver seus filhos como companheiros iguais, confidentes e colocá-los no meio, explica ela. Isso não quer dizer que alguns pais não façam isso com filhos menores de 18 anos, mas é mais provável quando os filhos são adultos, maiores de 18 anos. As filhas mulheres são particularmente mais propensas a fornecer apoio emocional do que os filhos homens, segundo as pesquisas. Carol Hughes também destaca que os filhos adultos podem ter dificuldade com a falta de limites com os pais após o divórcio. Por exemplo, se os pais os procurarem em busca de conselhos sobre encontros ou aconselhamento sexual, algo que eles não fariam com os filhos mais jovens. É claro que nem todos os pais agem assim, mas os filhos adultos não têm ideia de como lidar com isso, afirma. Para Jolene Greenwood, o divórcio grisalho também pode potencialmente afetar o relacionamento dos pais com os irmãos e membros da família ampliada, os feriados, os rituais familiares e os próprios relacionamentos amorosos dos filhos adultos. Alguns filhos de casais divorciados tomam o divórcio dos pais de forma muito séria e pessoal, a ponto de interferir com a sua própria vida ou relacionamentos, conta. Eles podem começar a se preocupar com a longevidade dos seus próprios relacionamentos amorosos atuais ou futuros, acrescenta. Nossos relacionamentos evoluem ao longo da vida, incluindo o relacionamento com os nossos pais. Quando crianças, eles fornecem apoio emocional e financeiro. E conforme o tempo passa, esse relacionamento se torna gradualmente mútuo e às vezes se reverte com os filhos adultos cuidando dos pais mais idosos. Mas o divórcio grisalho pode transformar esse processo, causando uma drástica mudança no relacionamento com cada um dos pais, segundo a professora de políticas públicas Jocelyn Elise Crowley, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. Ela é autora do livro Grey Divorce, What We Lose and Gain from Midlife Splits. Divórcio grisalho, o que perdemos e ganhamos com as separações na meia-idade em tradução literal. Sua pesquisa se baseou em entrevistas com 40 homens e 40 mulheres que passavam por um divórcio grisalho. Ela concluiu que as mulheres enfrentam punição econômica após o divórcio, já que elas tipicamente se afastaram do mercado de trabalho para cuidar dos filhos. Já os homens enfrentam uma punição social após o divórcio, segundo ela. Isso ocorre porque as esposas muitas vezes são as guardiães da família no casamento, ou seja, elas investem tempo e energia no relacionamento com a família e os amigos, enquanto os maridos muitas vezes dependem das esposas para estabelecer sua vida social. As mulheres, basicamente, ainda são as diretoras sociais da família em 2025, e quando elas vão embora, os homens ficam como ilhas no mar, afirma Jocelyn Elise Crowley. Após o divórcio, os maridos perdem suas redes sociais e têm menos contato com os filhos, que costumam ficar do lado da mãe. Os homens entrevistados pela pesquisadora passaram por uma experiência de enorme luto após o rompimento. Eles expressaram muita tristeza, diz. Esse padrão em que filhos ficam do lado da mãe após o divórcio é conhecido como inclinação matrifocal. entre os filhos mais jovens pode ser consequência dos acordos de guarda que deixam os filhos com a mãe. Mas estudos em diferentes países por várias décadas também concluíram que essa inclinação matrifocal para longe do pai também se verifica nos divórcios grisalhos entre filhos adultos. Um estudo longitudinal na Alemanha, publicado em 2024 entre filhos adultos de 18 a 49 anos, por exemplo, concluiu que o divórcio grisalho aproximou esses filhos adultos da mãe em termos de contato e proximidade emocional, enfraquecendo o vínculo com o pai. O impacto foi mais forte sobre as mudanças na frequência de contato entre os filhos adultos e cada um dos pais, mas houve consequências moderadas para as alterações de proximidade emocional. Em última análise, o divórcio grisalho inclina a solidariedade dos filhos adultos em direção às mães e coloca os pais em maior risco de isolamento social. Conclui o estudo. Outras pesquisas também indicaram que o divórcio parental entre pessoas com mais idade resulta em menos contato entre os pais e seus filhos. Esse contato é reduzido ainda mais quando o pai encontra uma nova parceira. Por outro lado, quando a mãe dá início a um novo relacionamento, isso não parece alterar o contato entre ela e os filhos. E é interessante observar que as mulheres são quem mais pede o divórcio e as que menos se casam novamente após um divórcio grisalho. A inclinação para se afastar do pai após o divórcio pode acontecer mesmo se o pai apoiar os filhos adultos. Um estudo concluiu que após o divórcio, o contato frequente dos pais com seus filhos adultos diminui mesmo quando o apoio financeiro dos pais aos seus filhos aumenta, por exemplo. Alguns filhos adultos podem reduzir o contato para evitar serem pegos em conflito. Um estudo entre 930 pessoas que passaram por um divórcio grisalho demonstrou que 7% dos pais e mães não tinham contato com pelo menos um dos filhos. Essa ruptura da dinâmica familiar pode prejudicar o bem-estar dos pais e também dos filhos. Outro estudo concluiu que não ter contato com pelo menos um dos filhos adultos agrava o efeito negativo do divórcio sobre a saúde mental dos pais e das mães. Quando os filhos são adultos, a guarda deixa de ser um problema em um acordo de divórcio, mas alguns filhos ainda podem morar com seus pais no momento do divórcio. Em 2023, 18% dos adultos americanos com 25 a 34 anos de idade ainda moravam na casa dos pais. Alguns jovens adultos podem depender dos pais para apoio financeiro, por exemplo, se ainda estiverem estudando. E um filho adulto pode até retardar sua ida para a faculdade ou universidade se o divórcio grisalho afetar as finanças da família. Jocelyn Elise Crowley ressalta que os laços entre pais e filhos podem ser refortalecidos e alguns pais de fato se reconectam aos filhos posteriormente mesmo após longos períodos de ausência. Para os filhos, Carol Hughes afirma que procurar grupos de apoio com outras pessoas que estão passando pela mesma experiência pode ajudar a reduzir o sentimento de solidão e isolamento. Os especialistas também ressaltam que alguns relacionamentos entre pais e filhos não são prejudicados. Na verdade, alguns filhos adultos não ficaram surpresos nem chocados com o divórcio de seus pais e podem inclusive ser favoráveis à decisão. Tudo depende das circunstâncias de cada família. Muitos filhos adultos entrevistados por Jolene Greenwood, por exemplo, estavam aliviados pelos seus pais finalmente estarem se divorciando, muitas vezes devido a longos conflitos e brigas ao longo da vida. Você ouviu a reportagem Como os divórcios grisalhos afetam a vida dos filhos adultos, publicada pela BBC News Brasil em 21 de setembro de 2025.
