Podcast Summary: “Família de sangue nem sempre é o nosso lugar de apoio e confiança” – Vera Iaconelli | BBC Lê
Podcast: BBC Lê
Host/Interviewer: BBC Brasil
Guest: Vera Iaconelli (psicanalista e escritora, respostas lidas por Silvia Salek)
Date: 7 February 2026
Reportagem: Marina Rossi
Leitura: Laís Alegretti
Episódio em Resumo
Este episódio, fundamentado na reportagem de Marina Rossi e na entrevista com a psicanalista Vera Iaconelli, explora de maneira franca e sensível o papel da família, os desafios das relações familiares em datas comemorativas, as transformações nos tipos de arranjos familiares e a sobrecarga nas mulheres e mães. Vera também aborda temas como o impacto das redes sociais, o aumento do feminicídio e a importância da mudança de mentalidade sobre masculinidade. A conversa tem um tom reflexivo, empático e, ao mesmo tempo, crítico quanto às idealizações sociais e culturais.
Principais Temas e Insights
1. Famílias: Muito Além do Sangue
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Transformação dos laços familiares
- Vera observa que, hoje, a noção de família está menos atrelada ao sangue e mais ao cuidado mútuo, à convivência e à responsabilização compartilhada entre as pessoas ao longo do tempo, inclusive arranjos entre amigos que criam filhos juntos. (03:55)
- “Cada vez mais eu tenho me interessado e tenho escutado a nova geração falar de laços de família cada vez menos consanguíneos e cada vez mais ligados ao cuidado e à responsabilização ao longo do tempo.” – Vera Iaconelli [03:55]
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Família não é clube de amigos
- A diferença (de valores, hábitos, etc.) é frequentemente fonte de conflito, mas também de beleza: é um exercício de tolerância. (01:22; 07:12)
- “Família não é um grupo de amigos ou um clube que resolveu, por afinidade, se juntar... Olha que exercício interessante para você sair do seu clubinho, para você sair só do teu grupo de afinidades e exercitar um pouco essa tolerância à diferença.” – Vera Iaconelli [01:22], [07:12]
2. Festas, Tensões e Rupturas
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Desafios dos encontros festivos
- Datas como Natal (“curva de rio na clínica”) exigem da psique um balanço, uma fotografia das relações familiares. Podem gerar adoecimentos, devido à idealização desses momentos. (05:11)
- “Essas festas de fim de ano, elas são uma curva de rio na clínica [...] Muito frequentemente as pessoas adoecem porque é a hora de fazer uma certa contabilidade, um diagnóstico de como anda a relação com essa família.” – Vera Iaconelli [05:11]
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Polarizações políticas e rupturas
- A polarização, especialmente desde a eleição de Jair Bolsonaro, rasgou laços familiares, criando divisões muitas vezes definitivas; certas animosidades tornaram-se insustentáveis e revelaram o que não deve ser tolerado. (07:12)
- “Às vezes é melhor não ir mesmo. Você faz um grande serviço a si mesmo e à família se você denunciar algumas coisas intoleráveis. Mas são poucas as coisas que são de fato intoleráveis.” – Vera Iaconelli [07:12]
3. O que é "família", afinal? (Brasil no Espelho e universalidade)
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Família como referência universal
- A frase “família é a coisa mais importante da vida” é vista como verdadeira, mas não necessariamente o termo “família” é entendido do mesmo modo por todos. (10:38)
- “Esse núcleo de referência ao longo da vida [...] é fundamental mesmo. [...] Você precisa desse núcleo duro no qual você se finca.” – Vera Iaconelli [10:38]
- A ideia de “família” pode ir além da convencional (pai, mãe, filhos).
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A importância da intimidade
- Não basta ter popularidade ou uma rede de amigos; o ser humano necessita de um espaço seguro de compartilhamento. (11:21)
- “A gente precisa ter um lugar onde a gente compartilha coisas do sofrimento, onde a gente confia que as pessoas estão lá para a gente, um lugar de lealdade para onde você pode retornar, haja o que houver.” – Vera Iaconelli [11:21]
4. Redes Sociais: Entre o Trabalho e a Doença
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Redes sociais como trabalho e vício
- Vera critica a naturalização do uso das redes sociais, enfatizando que estamos trabalhando para as big techs, que somos o produto e que o uso constante é adoecedor, comparando com outras compulsões. (12:08)
- “A rede social é trabalho, a gente dá expediente. Além disso, ela é absolutamente adoecedora.” – Vera Iaconelli [12:08]
- “É que nem você parar de fumar, é como qualquer compulsão [...] A gente é estimulado, é incentivado a usá-las 24 por 7.”
- Pressão social reforça a necessidade de coletividade no uso consciente ou na pausa digital (grupos que deixam o celular do lado de fora). (13:20)
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Propostas práticas
- Vera sugere novas etiquetas sociais, com horários e espaços livres de celulares, e compara a regulação necessária das redes à luta contra outros vícios ou danos à saúde pública. (14:41)
- “Durante uma refeição, que a pessoa pega o celular, é feio, não pegue o celular, o mundo não vai acabar.” – Vera Iaconelli [14:41]
5. Humanizando Pais e Mães
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Desromantizando a figura dos pais
- Falar do pai (no livro "Análise") foi ver o homem por trás da função paterna, o que é um processo contínuo, nunca totalmente resolvido, igualmente válido para a mãe. (15:39)
- “Colocar os pais em um lugar de exceção [...] isso nos apazigua profundamente. [...] Ver o adoecimento dos pais pode dar raiva, tristeza, depressão. Por quê? Porque é uma notícia de que eles não vão estar aqui mais para nós.” – Vera Iaconelli [15:39]
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O peso da idealização da mãe
- A demanda é que a mãe ame e se sacrifique incondicionalmente, enquanto para o pai espera-se carreira e certa liberdade. Vera questiona o mito da mãe origem de tudo, chamando atenção para o sofrimento e insatisfação dessas mulheres. (17:24)
- “Está suposto que a mãe, acima de tudo, ama os filhos, põe tudo em segundo lugar pelos filhos, o amor dela é incondicional... do pai não se espera isso.” – Vera Iaconelli [17:24]
- "Eu acho que é super possível para uma criança se orgulhar [...] da carreira de uma mãe, do fato dela ter conseguido bancar suas contas." [18:51]
6. A Experiência Pessoal de Vera como Mãe
- Maternidade apaixonada, porém realista
- Vera se declara apaixonada pela maternidade, relata afinidade, abertura, escuta mútua e reconhecimento mútuo de erros com as filhas. (19:13)
- “Temos milhões de questões que a gente debate, pensa e se critica mutuamente. Eu falho em várias coisas, elas também falham comigo, mas tem uma confiança mútua muito grande...” – Vera Iaconelli [19:13]
- Compartilha compaixão por mães “destruídas” que chegam ao consultório e acredita no direito a uma maternidade boa para todas.
7. Violência contra a mulher: Epidemia e novos desafios
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Feminicídio em pauta
- Vera vê uma epidemia de ódio às mulheres, principalmente negras e trans, e liga a escalada recente à quebra do pacto de silêncio e tolerância. (21:00)
- “O que está em jogo aqui é [...] uma certa identidade do masculino que só se fia na subalternidade da mulher. Quando a mulher diz não, o cara tem que refazer a própria prova de que ele é homem – e ele só sabe fazer isso com violência.” – Vera Iaconelli [21:00]
- O papel negativo das redes sociais: fomentam ódio e violência, incentivando o engajamento por meio do rage bait. (21:00)
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Novo papel dos homens no combate ao machismo
- Vera defende que homens precisam ser ativamente anti-machistas entre seus pares: “Os homens vão ter que se posicionar perante os outros homens [...] a gente quer nota de corte. Com quem você anda? Com quem você fala? Que piada você faz na presença dos seus amigos?” – Vera Iaconelli [22:50]
8. Masculinidade e a Criação de Meninos
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Pressões sociais sobre gênero
- Vera aponta a brutal diferença de permissividade para meninas e meninos em relação ao gênero, destacando que as cobranças sociais, e não apenas a mãe, impedem mudanças reais. (23:56)
- “Botar no plano privado, individual, de uma mãe e seu filho é uma loucura, porque a pressão social é gigantesca. Os meninos não são autorizados a cuidar, pegar uma boneca no colo...” – Vera Iaconelli [23:56]
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Ser homem não é não ser feminino
- Desconstrói a ideia de que ser aceito pelo feminismo exige comportamentos "femininos"; quer homens responsáveis, aptos ao cuidado e à intimidade, não necessariamente menos masculinos. (25:30)
- “Continuem sendo masculinos, mas aprendam a cuidar de si e do outro. Aprendam a amar.” – Vera Iaconelli [25:57]
Momentos e Frases Marcantes
- “Cada vez mais vou vendo essa mudança de perspectiva no âmbito público, as pessoas fazendo outros modelos bem interessantes de família.” – Vera Iaconelli [03:55]
- “A família, pela estrutura dela, acaba juntando pessoas muito diferentes. Isso é bom porque é um espaço de reflexão sobre a diferença.” – Vera Iaconelli [07:12]
- “A rede social é trabalho, a gente dá expediente. Além disso, ela é absolutamente adoecedora.” – Vera Iaconelli [12:08]
- “Colocar os pais em um lugar de exceção, não inteiramente homem e mulher, mas outra coisa, uma espécie de ente, isso nos apazigua profundamente.” – Vera Iaconelli [15:39]
- “O que está em jogo aqui é a própria identidade, uma certa identidade do masculino que só se fia na subalternidade da mulher. Quando a mulher diz não, o cara tem que refazer a própria prova de que ele é homem e ele só sabe fazer isso com violência.” – Vera Iaconelli [21:00]
- “Continuem sendo masculinos, mas aprendam a cuidar de si e do outro. Aprendam a amar.” – Vera Iaconelli [25:57]
Timestamps dos Segmentos-Chave
- [03:55] – O que é referência de família hoje?
- [05:11] – Por que o Natal e festas causam tensão e adoecimento?
- [07:12] – Efeitos da polarização política nas famílias brasileiras
- [10:38] – A importância e o significado da família
- [12:08] – Redes sociais como trabalho, compulsão e doença
- [14:41] – Práticas de etiqueta e limites para uso do celular
- [15:39] – Humanizando pais e o processo contínuo de análise
- [17:24] – Mito da mãe, diferentes cobranças para pai e mãe
- [19:13] – Vera falando sobre suas filhas e sua experiência como mãe
- [21:00] – Epidemia de feminicídio, ódio às mulheres e papel das redes
- [22:50] – O novo passo do feminismo: homens anti-machistas
- [23:56] – Pressões sociais sobre meninos e mudanças na masculinidade
Considerações Finais
Este episódio é valioso para quem busca refletir sobre os desafios contemporâneos das relações familiares, o papel das redes sociais, os dilemas de gênero e a reconstrução dos papéis de pais, mães e homens em sociedade. A fala de Vera Iaconelli é lúcida, sensível e provoca desconstruções importantes sobre “família” e sobre “apoio” – mostrando que nem sempre a família de sangue é ou deve ser o principal porto seguro.
