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Narrator/Advertiser
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Vera Iaconelli
Ah, isso é tão estranho! Essa app mostra que o meu crédito está bem, mas eu não consegui obter o crédito de carro.
Interviewer/Host
BBC.
Vera Iaconelli
Lê.
Interviewer/Host
Família de sangue nem sempre é o nosso lugar de apoio e confiança, diz a psicanalista Vera Iaconelli Reportagem de Marina Rossi, publicada pela BBC News Brasil em 25 de dezembro de 2025 Lida por Laís Alegretti Isso não é uma sessão de análise. É o nome do podcast da psicanalista e escritora Vera Iaconelli, em que ela alerta seus convidados que o microfone não será um divã. O que, de certa forma, acaba acontecendo. O programa, que estreou em agosto, inicia com uma pergunta que é o fio condutor da entrevista. Qual é sua referência de família? E, muitas vezes, a resposta toma grande parte do tempo do programa. Família não é um grupo de amigos ou um clube que resolveu, por afinidade, se juntar, diz ela em entrevista à BBC News Brasil. A adversidade e a falta de afinidades torna o convívio desafiador. Mas é justamente aí que mora também a beleza. Olha que exercício interessante para você sair do seu clubinho, para você sair só do teu grupo de afinidades e exercitar um pouco essa tolerância à diferença", diz ela. Por isso, no entanto, é preciso baixar as expectativas com as festas e encontros familiares. Por exemplo, no fim de ano. No Natal, ou seja lá qual for o nome da celebração, é preciso deixar de lado as idealizações e a fantasia de que é um momento onde tudo dá certo. A família continua sendo ela, só que em um momento específico de comemoração, diz Veria Conelio. E justamente porque a família de sangue não significa necessariamente afinidades mútuas, e muitas vezes o desafio é maior do que o prazer de se estar junto, é que tantos outros arranjos familiares estão surgindo. Ela diz, a gente vai vendo diferentes formas de conjugalidade, nas quais a premissa é o cuidado e a responsabilização ao longo da vida. Nessa entrevista, Iaconelli fala sobre esses arranjos familiares, mas também sobre a sua própria família, a epidemia de feminicídios e o ódio às mulheres. E sua campanha de encarar o uso das redes sociais como um trabalho. É muito importante a gente escancarar isso. Rede social é trabalho. A gente dá expediente. Fora disso, ela é absolutamente adoecedora. Confira a seguir os principais trechos da entrevista. As respostas são lidas por Silvia Salek. Vou começar fazendo uma pergunta de volta. O que é a sua referência de família?
Vera Iaconelli
Tem o público e o privado. No privado eu tenho uma família que tem um formato X, mas cada vez mais eu tenho me interessado e tenho escutado a nova geração falar de laços de família cada vez menos consanguíneos e cada vez mais ligados ao cuidado e à responsabilização ao longo do tempo. Vão entrando nessas famílias não só configurações diferentes, não necessariamente heterossexuais, cisgênero, mas configurações de amigos que vão se tornando esse núcleo de cuidado mútuo. Amigos que têm filhos e não são um casal. A gente vai vendo diferentes formas de conjugalidade nas quais a premissa é o cuidado e a responsabilização ao longo da vida. No âmbito particular, eu resolvi do meu jeito e acho que não serve de modelo para ninguém e que me é muito confortável, mas cada vez mais eu vou vendo essa mudança de perspectiva no âmbito público, as pessoas fazendo outros modelos bem interessantes.
Interviewer/Host
As festas de fim de ano em que se reúnem as famílias são, em muitas vezes, momentos de tensão. Por que o Natal gera brigas familiares?
Vera Iaconelli
Acho que não é sempre, mas é 100%, porque tem algo que se trata justamente de uma data, e eu acho importante essas datas, não é só tradição. É importante que a gente tenha uma data na qual a gente seja obrigado a parar e a pensar sobre certas coisas. E o Natal, embora ele cause muito adoecimento, aumento de suicídios, quadros depressivos, doenças psicosomáticas. Essas festas de fim de ano, elas são uma curva de rio na clínica. Muito frequentemente, as pessoas adoecem porque é a hora de fazer uma certa contabilidade, uma certa fotografia, um diagnóstico de como anda a relação com essa família, na história dessa família, mas também pontualmente. Às vezes você tem uma família que funciona super bem o ano inteiro, mas aí morre um ente querido. E aí o Natal, o Hanukkah ou o Dia de Ação de Graças, cada grupo vai ter lá suas datas, acaba sendo um lugar onde você vai ter que se haver com essa falta. Divórcios, mortes de entes queridos, às vezes o nascimento de alguém podem ser muito importantes, no bom sentido ou não. Há rupturas, as polarizações políticas cada vez maiores foram rupturas com as quais a gente ainda está lidando. É muito importante falar sobre Natal, não só porque é uma data, mas porque eu acho que é psiquicamente importante, relevante. E tem outras questões no Natal, além da família, tem a questão do impulso ao consumo, que deixa mais claras as diferenças de classe, a pobreza e a riqueza no nosso país, que é gigantesca, tem uma série de questões.
Interviewer/Host
Quando você diz que no consultório essa época de Natal traz questões psíquicas, doenças, enfim, em ano eleitoral isso é ainda mais latente?
Vera Iaconelli
Nem sempre foi assim. A gente teve uma ruptura de laços a partir da polarização da eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro. porque as pessoas têm escolhas, desejos, fantasias, sonhos, hábitos, costumes, inclinações, mas na família você pode contornar. Um torce para um time, o outro torce para outro time, tem uma religião, o outro tem outra, um é mais conservador, o outro mais liberal, você tem essas coisas. E é muito importante que haja isso porque a família, pela estrutura dela, acaba juntando pessoas muito diferentes. Isso é bom porque é um espaço de reflexão sobre a diferença. É um espaço de tolerância com a polarização que foi muito, muito explorada pelas mídias, pelas redes sociais, muito comercializada, eu diria até, monetizada, o chamado Rage Bait, a isca de raiva, que é o termo para descrever táticas manipuladoras usadas para estimular o engajamento online. Então, a exploração dos nossos afetos. A partir daí, algumas coisas se tornaram inconciliáveis, porque as pessoas, na decisão política que elas iam tomar, iam criar animosidades insustentáveis com alguns integrantes da família. Aí a gente começa a ter um problema muito sério. Famílias que estavam organizadas, bem ou mal, romperam para sempre. Não se falam mais e não falaram mais porque enquanto essas posições estiverem acirradas desse jeito, algumas coisas ficaram reveladas e se tornaram inconciliáveis. Algumas coisas não são para serem toleradas. Se é sempre uma sede natal violenta, Em nome da família, é pavoroso. Às vezes é melhor não ir mesmo. Você faz um grande serviço a si mesmo e à família se você denunciar algumas coisas intoleráveis. Mas são poucas as coisas que são de fato intoleráveis. A gente tem que entrar nesses encontros sabendo por que a gente está indo. Você está indo para marcar sua posição e provar que você está certo? Então, é melhor nem sair de casa. A família se estrutura a partir do encontro de duas pessoas que, por interesse ou amor, resolvem viver juntas. E, a partir desse encontro, elas juntam grupos que não necessariamente comungam da ideia de cada um desses dois. Você tem os parentes de cada um dos lados que vão se tornar parentes comuns, vão criar, não necessariamente, mas eventualmente uma descendência. Essa descendência também vai pensar com a própria cabeça. Não é um grupo de amigos ou um clube que resolveu por afinidade se juntar. Não, é um grupo que provavelmente se juntou por força de uma circunstância de dois. Olha que exercício interessante para você sair do seu clubinho, para você sair só do seu grupo de afinidades e exercitar um pouco essa tolerância à diferença. Mas desde que a gente entre com a bola um pouco mais baixa e esteja aberto a lidar com o contraditório.
Interviewer/Host
No recém-lançado Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, uma das descobertas sobre o perfil do brasileiro é que 96% concordam com a frase, família é a coisa mais importante da vida. Isso é uma característica brasileira ou essa importância dada à família é inerente ao ser humano?
Vera Iaconelli
Eu não sei se é uma característica brasileira só, mas eu entendo que é uma característica humana. Eu acho essa frase super real. O problema é que ela embute a ideia de que a gente sabe o que a pessoa está falando quando ela fala em família, porque esse núcleo de referência ao longo da vida transgeracional de cuidado e responsabilização que é um testemunho da minha história, que marca minha origem, que marca minha descendência, eu acho que é fundamental mesmo. A gente não pode estar só com colegas, só com pessoas com quem você pode estar junto ou não. Você precisa desse núcleo duro no qual você se finca.
Interviewer/Host
Por quê?
Vera Iaconelli
Porque somos seres relacionais que precisamos de intimidade. Você pode encontrar milhões de pessoas o dia inteiro, ser super popular, cheio de amigos e não ter intimidade. A gente precisa ter um lugar onde a gente compartilha coisas do sofrimento, onde a gente confia que as pessoas estão lá para a gente, um lugar de lealdade para onde você pode retornar, haja o que houver. Esses lugares são fundamentais, mas não estão necessariamente ligados aos parentes. Quem você chama de família? O que está embaixo desse termo família? Eu imagino que grande parte seja a família convencional, pai, mãe, filhos. Pode ser, mas eu acho que não só.
Interviewer/Host
Você tem uma campanha de que estar nas redes sociais é um trabalho. Por quê?
Vera Iaconelli
Eu não estou falando sozinha quando falo que a rede social é trabalho. Nós estamos trabalhando para as big techs, as grandes empresas de tecnologia. O produto delas somos nós. A gente está trabalhando lá e as pessoas acham que não. que elas são sociais no sentido da vida social e vão se privando da vida social para estar na rede. É muito importante a gente escancarar isso. A rede social é trabalho, a gente dá expediente. Além disso, ela é absolutamente adoecedora. Hoje, as pesquisas mostram os danos terríveis que essas redes têm sobre nós, sobre o psiquismo. Então, precisamos aprender a usá-las. E a única forma de pressionar as redes é, individualmente, a greve das redes. Isso é no nível individual. Coletivamente, a gente tem feito grupos que pagam para estar em espaços nos quais se entra sem celular. Você entra, deixa seu celular, e o que você faz lá dentro? Lê, faz tricô, conversa, bebe, ouve música. E por que funciona? Você poderia fazer isso em qualquer lugar, sem pagar nada. Funciona porque a gente precisa fazer coletivamente. Se todo mundo está sem celular, eu aguento. Mas se só eu estou sem celular, eu tenho a sensação de que eu estou excluído de algo que está acontecendo e só eu não sei. Tem o individual, tem esse coletivo e tem a iniciativa de empresas, instituições, escolas, quando falam que as crianças não vão entrar com o celular, e depois você tem o estado botando regra, regulando essas big techs porque elas nos fazem muito mal. É que nem você parar de fumar, é como qualquer compulsão, só que a gente já sabe que é o vício mais impregnante que a gente tem, dentre todas as drogas, inclusive porque ninguém fica falando pra você, vamos cheirar, vamos cheirar cocaína, você já viu cocaína hoje? Ninguém faz isso. Mas as redes, seu chefe, seu trabalho, a própria rede, seus amigos, estão sempre se referindo a elas. A gente é estimulado, é incentivado a usá-las 24 por 7. Não só ela libera uma dopamina lascada, que é a fonte de prazer que a gente busca nas drogas, como o tempo todo o seu uso é incentivado e ela se torna para algumas pessoas absolutamente obrigatória. Como é que você vai ser um jornalista que não vai estar em contato com as redes? Isso não existe.
Interviewer/Host
Isso vale para o uso do celular em geral, não?
Vera Iaconelli
Mas aí a gente tem que começar realmente uma nova etiqueta, fazer uma barreira bem clara do horário de parar de usar. É chegar na sua casa e falar de tal hora a tal hora, eu não vou entrar na rede. Durante uma refeição, que a pessoa pega o celular, é feio, não pegue o celular, o mundo não vai acabar. Se você está esperando uma ligação muito importante, deixe ele tocar, e você atende se o telefone tocar. Tem uma geração que eu acho super interessante que está falando, nós recusamos esse futuro, nós não compramos esse futuro. A gente tem uma ideia de progresso que tem muito a ver com o consumo, que é muito ruim. Tem coisas que a gente tem que recusar, tem que voltar atrás, tem que fazer diferente. A gente tem que recusar coisas, dizer não, mesmo para supostos progressos.
Interviewer/Host
Você disse que escrever sobre seu pai no livro Análise foi vê-lo como um homem e não só como seu pai. Você conseguiu fazer isso com a sua mãe?
Vera Iaconelli
Acho que sim, um tanto. Acho que não é um processo acabado. Colocar os pais em um lugar de exceção, não inteiramente homem e mulher, mas outra coisa, uma espécie de ente, isso nos apazigua profundamente. Enquanto eles estão vivos, é como se a gente nunca fosse morrer. porque é como se a gente só pudesse ir depois deles. E eles foram, ao longo de toda a nossa existência, os fiadores de tudo. Por exemplo, você tem uma mãe de 80 anos que não consegue usar o celular, que não consegue usar o computador. Você pode ficar irritado com ela. Por quê? Porque ela deveria saber tudo. Essas são fantasias que reaparecem. Ver o adoecimento dos pais, por mais óbvio que seja, Ver eles perdendo as capacidades pode dar raiva, tristeza, depressão. Por quê? Porque é uma notícia de que eles não vão estar aqui mais para nós. Eu andei um percurso importante escrevendo esse livro para vê-los mais como pessoas falíveis e humanas, mas isso não encerra a questão. Não há análise que encerre nossas questões, mas isso me deu uma possibilidade de lidar com o que é potente em mim, muito maior do que quando eu suponho que o outro é meu fiador. É um processo. A análise não acaba com as nossas questões, mas ela dá lugares mais confortáveis para essas questões.
Interviewer/Host
Eu pergunto da mãe porque a mãe é muito menos humanizada, é sempre mãe, nunca mulher. E uma vez você falou da mãe narcisista, dizendo que isso é julgamento moral. Uma mãe que cuida da carreira, que cuida de si mesma, que vive a mesma vida, mais parecida com a do pai, o que essa mãe causa nos filhos?
Vera Iaconelli
As demandas para pai e mãe são um pouco distintas, embora tenham que ser pensadas singularmente cada caso. Está suposto que a mãe, acima de tudo, ama os filhos, põe tudo em segundo lugar pelos filhos, o amor dela é incondicional e, no final, se ela tiver que escolher entre a carreira e o filho adulto, se ela tiver que escolher entre a sexualidade e estar com o filho, ela sempre vai escolher o filho. do pai não se espera isso, ao contrário, é esperado que ele tenha uma carreira, até que ele tenha uma sexualidade, mas que ele seja um eterno fiador, caso o filho precise justamente de alguma garantia financeira. São demandas diferentes para cada figura, mas que os dois, a qualquer momento que você precisar, venham em seu socorro, venham garantir alguma coisa. Mas para as mulheres o peso é maior por conta desse mito da origem. A mulher saberia de onde viemos, para onde vamos. A mulher não sabe nada, obviamente, desse corpo que se ofereceu inteiramente para que a gente possa existir. Então, são equívocos diferentes que cobram contas diferentes. Quem hoje quer, por exemplo, uma mãe que no fim da vida dependa do filho para se sustentar, infeliz porque não conseguiu realizar seus sonhos, são contas que chegam numa certa hora que os filhos também hoje não querem. Eu acho que é super possível para uma criança se orgulhar e para um filho ao longo da vida se orgulhar da carreira de uma mãe, do fato dela ter conseguido bancar suas contas.
Interviewer/Host
E como é a Vera mãe? Você é bonita, inteligente, uma figura pública, realizada. Eu fico imaginando como é ter uma mãe assim. Você fala muito sobre a Vera filha, mas como é a Vera mãe?
Vera Iaconelli
Eu sou uma mãe muito apaixonada pela maternidade e muito encantada pelas minhas filhas. porque elas me trazem essa nova geração. E elas me apoiam muito com o meu trabalho, elas se encantam quando eu conquisto as coisas. Elas também me acham muito bonita, embora eu ache isso engraçado, porque elas são moças lindas, jovens, mas essa coisa da beleza tem a ver com gostar de mim, gostar do jeito que eu sou. Temos milhões de questões que a gente debate, pensa e se critica mutuamente. Eu falho em várias coisas, elas também falham comigo, mas tem uma confiança mútua muito grande de que eu não vou retaliar se elas vierem se queixar e que elas também não vão me retaliar, que a gente pode se escutar e superar momentos difíceis. Durante esses 30 anos de clínica, às vezes vinha uma mãe no consultório muito destruída, com muitas limitações, uma mãe que odiava o filho, e as pessoas perguntavam, mas como é que você aguenta atender uma mulher que é uma péssima mãe? Eu sempre pensava, eu tenho tanta compaixão porque ela não sabe o que está perdendo. O que será que prejudicou a possibilidade dela ter uma relação com o filho, que é uma coisa tão bacana? Eu sempre tive muita compaixão por esses desencontros, porque quando é bom é muito, muito bom. Eu tenho muita afinidade com a escuta de pessoas que não tiveram maternidades legais. A maternidade sempre é um pouco sofrida na nossa cultura, mas eu sempre me compadecei muito. Todo mundo tem direito a ter uma maternidade bacana. Enfim, eu acho que eu sou uma mãe esforçada.
Interviewer/Host
No fim de 2025, saíram muitas notícias sobre feminicídio no Brasil, com manifestações em várias cidades contra a violência contra as mulheres. A gente está vivendo uma epidemia de ódio às mulheres?
Vera Iaconelli
Eu acho que sim. Principalmente o feminicídio de mulheres negras e o abuso às mulheres negras, mas às brancas também. O corte de raça e de classe é muito importante aí. E de gênero também, quando você tem mulheres trans. Mas todo esse grupo do feminino, das mulheres, está sofrendo mais violência porque o pacto se rompeu. Tem várias questões, não uma só, mas uma delas é que o pacto de silêncio, de tolerância, se rompeu. Quando você olha para os casos de feminicídio, na maioria das vezes, são mulheres que disseram não para o desejo de um homem. São mulheres que quiseram se separar, que romperam namoros, que decidiram que não iam ficar com aquele cara e o cara não se conforma. Os caras não se conformam com os nãos que até então não vinham sendo sustentados. As mulheres toleram cada vez menos. exigem cada vez mais e eles respondem com assassinatos, torturas e abusos. O que está em jogo aqui é a própria identidade, uma certa identidade do masculino que só se fia na subalternidade da mulher. Quando a mulher diz não, o cara tem que refazer a própria prova de que ele é homem e ele só sabe fazer isso com violência. E tem as redes sociais fomentando, acobertando, estimulando para vender tempo de atenção, para vender produtos. Essas redes sociais não só fazem isso com essa rage bait, a isca de ódio, mas elas também conseguem juntar, para o bem e para o mal, grupos que até então não se encontrariam. Falar de coisas antirracistas, de amor, de bem comum, de cuidado, não dá muito engajamento. Falar de ódio, de destruição, imagens de mulheres apanhando, tem toda uma estética da violência que as pessoas gostam de ver e isso dá mais engajamento. Estamos em um momento de virada muito importante, até então a gente estava se defendendo, Estava acusando os homens. Hoje eu acho que a pauta é a seguinte, você tem que ser anti-machista. Os homens vão ter que se posicionar perante os outros homens. Os homens vão ter que provar e comprar essa briga perante os seus pares. A gente quer nota de corte. Com quem você anda? Com quem você fala? Que piada você faz na presença dos seus amigos? A gente tem que chamar os ditos bons homens à fala. E eu estou vendo isso acontecer. Já é outro passo do feminismo.
Interviewer/Host
E diante dessa discussão, também veja um discurso no sentido de que a gente precisa educar os meninos. Mas isso não é colocar mais uma responsabilidade sobre a mulher?
Vera Iaconelli
Vamos fazer um exercício. Você tem um menino e uma menina. A sua filha quer ir no dia da fantasia vestida de cowboy. Ninguém vai falar nada. O seu filho quer ir vestido de fadinha. Alguma chance de que seu filho vá de fadinha? Não. A sua filha brinca com todos os brinquedos. O seu filho brinca com a bonequinha cor-de-rosa, o fogãozinho? Não. A sua filha veste uma roupinha que mal dá pra se mexer, porque é um vestido cheio de babado. O seu filho tá de short, camiseta, que é pra pular. Tem uma série de coisas que a gente nem percebe, que a gente faz e que são difíceis de você se opor, porque toda a família tá olhando. A escola está olhando, os amigos estão olhando, os vizinhos estão olhando, estão apontando. Por que esse menino veio de fadinha? Pelo amor de Deus. Por que essa menina veio de cowboy? Ninguém quer saber. Veio de jogador de futebol? Ninguém quer saber. Inclusive, as meninas podem fazer tudo isso, podem jogar futebol, podem fazer tudo. Então, botar no plano privado, individual, de uma mãe e seu filho é uma loucura, porque a pressão social é gigantesca. Os meninos não são autorizados a cuidar, pegar uma boneca no colo. Essas brincadeiras estão interditadas do lado dos meninos. E há uma pressão muito grande sobre homens e mulheres que sentem que se deixarem os meninos fazer isso, vão criar o grande fantasma do menino gay. As meninas podem até ser lésbicas. Isso não fere tanto porque as pessoas nem levam muito a sério as lésbicas. Tem uma negação total da homossexualidade feminina. Do lado dos meninos, não. Eles têm que dar provas da masculinidade deles dia e noite. Os meninos são realmente massacrados nesse lugar. Eles ficam extremamente inseguros porque a identidade deles está em jogo. Isso não é uma coisa que uma mãe faz sozinha, ela não peita isso sozinha, isso é uma mudança de mentalidade. Diria mais, a gente precisa parar com essa tecla de que um menino para ser legal, ser aceito pelo feminismo, ele tem que ser feminino, no sentido de pintar a unha, deixar o cabelo crescer, isso não interessa em nada. Um homem para ser legal, ele pode ter todas as prerrogativas masculinas, barba na cara, futebol, cerveja com os amigos. Não é isso que a gente está discutindo. A gente quer homens decentes, homens que não associem a masculinidade à violência. Homens que não tenham medo da sua própria sexualidade, não tenham medo de ser amigos de outros homens, de serem íntimos, que não tenham medo de cuidar, de ter intimidade, de falar de si. Isso não tem nada a ver com os hábitos dos homens. Continuem sendo masculinos, mas aprendam a cuidar de si e do outro. Aprendam a amar.
Interviewer/Host
Essa foi a entrevista com a psicanalista e autora Vera Iaconelli, lida por Silvia Salek. Você ouviu a reportagem. Família de sangue nem sempre é o nosso lugar de apoio e confiança, diz a psicanalista Vera Iaconelli. Publicada pela BBC News Brasil em 25 de dezembro de 2025.
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Vera Iaconelli
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Podcast: BBC Lê
Host/Interviewer: BBC Brasil
Guest: Vera Iaconelli (psicanalista e escritora, respostas lidas por Silvia Salek)
Date: 7 February 2026
Reportagem: Marina Rossi
Leitura: Laís Alegretti
Este episódio, fundamentado na reportagem de Marina Rossi e na entrevista com a psicanalista Vera Iaconelli, explora de maneira franca e sensível o papel da família, os desafios das relações familiares em datas comemorativas, as transformações nos tipos de arranjos familiares e a sobrecarga nas mulheres e mães. Vera também aborda temas como o impacto das redes sociais, o aumento do feminicídio e a importância da mudança de mentalidade sobre masculinidade. A conversa tem um tom reflexivo, empático e, ao mesmo tempo, crítico quanto às idealizações sociais e culturais.
Transformação dos laços familiares
Família não é clube de amigos
Desafios dos encontros festivos
Polarizações políticas e rupturas
Família como referência universal
A importância da intimidade
Redes sociais como trabalho e vício
Propostas práticas
Desromantizando a figura dos pais
O peso da idealização da mãe
Feminicídio em pauta
Novo papel dos homens no combate ao machismo
Pressões sociais sobre gênero
Ser homem não é não ser feminino
Este episódio é valioso para quem busca refletir sobre os desafios contemporâneos das relações familiares, o papel das redes sociais, os dilemas de gênero e a reconstrução dos papéis de pais, mães e homens em sociedade. A fala de Vera Iaconelli é lúcida, sensível e provoca desconstruções importantes sobre “família” e sobre “apoio” – mostrando que nem sempre a família de sangue é ou deve ser o principal porto seguro.