Loading summary
BBC Narrator
Este podcast é apoiado pelas redes sociais do Reino Unido. At the BBC, we go further so you see clearer. Through frontline reporting, global stories and local insights, we bring you closer to the world's news as it happens. And it starts with a subscription to bbc.com. Giving you unlimited articles and videos, ad-free podcasts and the BBC News Channel streaming live 24-7. Subscribe to trusted independent journalism from the BBC. Find out more at bbc.com slash join.
BBC Reader
BBC lê.
Various Experts (Kenner Terra, Alex Nogueira, Tiago Merck, J. Alves, José Luiz Lyra, Jônatas de Matos Leal)
Na Bíblia, os anjos aparecem sempre que há necessidade de narrar alguma comunicação divina ao ser humano. Na tradição popular, cada um tem um seu, como um protetor, uma segurança pessoal. Nas artes, pintores e escritores muitas vezes os retrataram e os incluíram em suas obras. Literalmente, a palavra anjo significa mensageiro. Vem do latim angelus, que, por sua vez, deriva do grego angelos. E esta é a forma helênica usada para traduzir do Antigo Testamento o termo hebraico malak, que significa mensageiro. Explica a BBC News Brasil o teólogo Kenner Terra, pastor da Igreja Batista de Água Branca, doutor em ciências da religião e autor do livro Coragem para Ser. Terra completa que a figura se refere a alguém que transmite algum comunicado. Nas tradições judaica e cristã antigas, anjos são mensageiros e a gente celestial a serviço de Deus, afirma. Nos textos que compõem a Bíblia, esses seres aparecem cumprindo diversas funções. Participam de guerras, integram exércitos celestiais, protegem pessoas e povos. levam mensagens divinas, cumprem os desígnios de Deus, organizam o cosmo e articulam as estações do ano. Os anjos são criaturas puramente espirituais, criadas por Deus, dotadas de inteligência e vontade livre, cuja finalidade é servir ao Senhor, define a BBC News Brasil o teólogo, escritor e padre católico Alex Nogueira, autor do livro Bom Dia, Meu Deus! e reitor do Seminário de Teologia Divino Mestre. Algumas classes de anjos também possuem a especialíssima missão de auxiliar os homens no caminho da salvação. Eles são mensageiros de Deus e, embora invisíveis, estão constantemente presentes na história da salvação desde o Antigo Testamento até a missão de Cristo e da Igreja, diz Nogueira. A figura de alguém que é anunciador e que muitas vezes aparece como provedor está presente em várias outras culturas religiosas, contextualiza a BBC News Brasil o pesquisador de textos sagrados Tiago Merck, associado da Radiography Society dos Estados Unidos. Na tradição cristã, diversos pensadores buscaram teorizar a respeito dos anjos. Existe até um ramo da teologia denominado angeologia. No final do século V ao início do século VI, um filósofo que se identificava pelo pseudônimo de Dionísio, o Aeropagita, em referência a um convertido de Atenas mencionado em texto bíblico do apóstolo Paulo, escreveu obras que se tornaram pilares para o entendimento acerca dessas criaturas. Ele foi um dos pioneiros a propor um sistema, uma hierarquia específica para os anjos, diz Tiago Merck. Sua classificação acabou se tornando a mais conhecida. Dionísio buscou organizar a crença e estabeleceu uma hierarquia divina para os anjos. Segundo seu pensamento, seriam nove as ordens angélicas. No topo estariam os serafins, seguidos pelos querubins e pelos tronos. Então viriam as dominações, as virtudes e as potestades. Por fim, os principados, os arcanjos e os anjos. Ele explicava que essa organização não se referia a uma pretensa superioridade, todos gozariam de igual importância. Essa hierarquia explicava quais estariam mais próximos de Deus. Oficialmente, a Igreja Católica determina que o dia 29 de setembro é o dia dos arcanjos, que seriam três, Gabriel, Miguel e Rafael. No dia 2 de outubro, por sua vez, é a festa dos santos anjos da guarda. A terminologia arcanjo vem do grego e significa anjo principal ou chefe dos anjos, conta a BBC News Brasil o escritor e pesquisador J. Alves, autor do livro Os Santos de Cada Dia. De acordo com ele, os arcanjos seriam os enviados por Deus para cumprir uma missão na história da salvação. Segundo o Evangelho, é Gabriel, por exemplo, que aparece para Maria, anunciando a ela sua gravidez de Jesus. Ao longo dos séculos de cristianismo, teólogos se dedicaram a explicar quais seriam as funções de alguns anjos. Assim, ficou consolidado que Miguel seria o guardião do povo de Deus e guerreiro contra o mal. Gabriel, o mensageiro da força de Deus, aquele que anuncia os mistérios da encarnação. E Rafael, o médico e consolador, expressão da misericórdia divina. Apesar de ser uma crença muito forte no meio cristão, sobretudo no católico, não são figuras que nasceram nessa religião e não são exclusividade da fé de seus praticantes. A crença na existência dos anjos é comum, mas a dimensão litúrgica e devocional, como festas próprias, orações específicas e invocação dos arcanjos, é muito mais característica do catolicismo", situa Nogueira. Mas começou muito antes. No judaísmo antigo, eles aparecem em visões proféticas e foram influenciados pela angeologia persa após o exílio babilônico, comenta J. Alves. Culturas mesopotâmicas e egípcias também falavam em seres mensageiros e guardiões. A crença em seres celestiais a serviço dos deuses ou de uma estrutura hierárquica no ambiente divino tem paralelos em outras culturas para além do mundo bíblico", complementa Kenner Terra. Na cultura persa, especialmente no zoroastrismo, por exemplo, não se fala exatamente em anjos como no judaísmo e no cristianismo, mas encontramos seres espirituais intermediários entre Ahura Mazda, o deus supremo, e os seres humanos, os quais são classificados também em hierarquias. Essa tradição influenciou profundamente a tradição bíblica e as crenças do judaísmo do segundo templo, diz ele. É uma visão comum aos outros especialistas. A crença em seres espirituais mensageiros já existe em culturas antigas, confirma o padre Nogueira. Povos mesopotâmicos, egípcios e persas falavam de espíritos intermediários entre o divino e os homens. Ele pondera, contudo, que a fé católica não seria derivada dessas tradições, mas da revelação de Deus ao povo de Israel registrada nas Escrituras. A fé cristã bebe sobretudo do judaísmo, do qual herda elementos da vasta tradição rabínica sobre anjos e arcanjos", salienta J. Alves. Os anjos são anteriores à Bíblia e aparecem, por exemplo, na Mesopotâmia e no Egito. Eles não tinham os nomes de anjos, mas tinham as mesmas funções dos anjos, conta a BBC News Brasil o agiólogo José Luiz Lyra, professor na Universidade Estadual do Vale do Acaraú e fundador da Academia Brasileira de Agiologia. Nas chamadas tradições abrahâmicas, ou seja, o conjunto de crenças abarcado pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islamismo, há mais semelhanças que diferenças entre o significado desses seres místicos. No islamismo, inclusive, o arcanjo Gabriel teria aparecido ao profeta Maomé, o fundador do Islã, ressalta Lira. Padre Nogueira contextualiza que no judaísmo eles costumam ser considerados servos e mensageiros de Deus. No cristianismo, além disso, participam do mistério da salvação em Cristo e no islamismo desempenham funções semelhantes, como Gabriel que transmite a revelação a Maomé. O teólogo Jônatas de Matos Leal, doutor pela Andrews University em Michigan, nos Estados Unidos, e reitor no Seminário Adventista Latinoamericano de Teologia, conta, por exemplo, que o Islã menciona quatro arcanjos, Israel, Mikael, Israfil e Jibrael, Esse último é o equivalente a Gabriel, e lembra que a ideia de seres celestiais que atuam como intermediários aparece além do Zoroatrismo também em mitologias ancestrais babilônicas, romanas e gregas. Se as teologias e as diversas religiosidades institucionais trataram de sistematizar e normatizar as funções e os papéis dos anjos, as tradições populares trataram de transformar a figura em um simpático faz-tudo. De guarda-costas particular a auxiliador para tudo. A religiosidade popular costuma traduzir ideias a partir de necessidades e práticas cotidianas, comenta Kenner Terra. A crença em anjo da guarda, por exemplo, tem suas raízes no evangelho de Mateus, no qual Jesus diz que os pequeninos têm anjos que contemplam a face do pai. Esse é o principal texto para defender a ideia do anjo da guarda, acrescenta Kenner Terra. Ele lembra que pensadores cristãos antigos como Gregório de Niça, Basílio de Cesareia e Tomás de Aquino também defenderam a existência de anjos que cuidam de maneira particular de cada pessoa. Padre Nogueira afirma que a devoção ao anjo da guarda é o melhor exemplo da presença da figura no meio popular. A igreja ensina que cada pessoa possui um anjo designado por Deus para proteger e guiar. Isso dê origem a orações simples, difundidas entre crianças, mas também a uma confiança cotidiana dos fiéis em sua proteção. Contextualiza ele. Na cultura popular, surgiram expressões e analogias para se chegar ao sagrado. A célebre discussão medieval sobre quantos anjos cabem na ponta de uma agulha não era, de fato, uma questão literal, mas um modo filosófico de refletir sobre a natureza incorpórea dos anjos, reflete o padre. Outras tradições, como representá-los com asas ou em formas infantis, os anjinhos, refletem tanto influências artísticas quanto a imaginação popular que buscava tornar visível o invisível. Acrescenta. O teólogo Jônatas Leal ressalta que a Bíblia não menciona explicitamente a ideia de que cada pessoa tem um anjo-guardião. Contudo, há diversas ocasiões em que pessoas são livradas pessoalmente através da operação de anjos protetores, pondera. O envolvimento pessoal de anjos no Novo Testamento está implícito em diversas passagens. Biblicamente falando, a possibilidade de cada pessoa ter um anjo guardião está aberta, embora não seja afirmada", conclui ele. Os anjinhos estão nas imagens de Nossa Senhora e até aos recém-nascidos falecidos ou aqueles que morrem no ventre da mãe. Se costuma dizer que é um anjo que foi direto ao céu, comenta o ageólogo José Luís Lira. J. Alves acrescenta que o acolhimento aos anjos na religiosidade popular foi um fenômeno que ocorreu com grande afeto. A devoção ao anjo da guarda remonta à Idade Média, diz o pesquisador, frisando que foi oficializada uma festa litúrgica dedicada à figura em 1608. A figura passou a ser uma constante em produções artísticas, compondo telas e afrescos e integrando narrativas literárias. Há uma tradição muito grande na iconografia, na pintura, de retratar o anjo sempre envolto por luminosidade e com asas." Nota Tiago Merck. A figura do anjo da guarda está presente. A arte cristã difundiu amplamente sua imagem, moldando o imaginário popular, ilustra J. Alves. Os anjos entraram também na linguagem comum, em expressões como foi salvo por um anjo e parece um anjo, e em anedotas como a expressão sexo dos anjos, que ironiza as discussões bizantinas sobre sua natureza espiritual, diz Alves. No mundo contemporâneo, ganhou também a cultura pop. Não há brasileiro das últimas décadas, por exemplo, que não conheça o personagem Anjinho, que tenta defender, sobretudo, o Cebolinha em suas aventuras atrapalhadas no universo da Turma da Mônica, criado pelo quadrinista Maurício de Souza. Você ouviu a reportagem Miguel, Rafael e Gabriel, os anjos que são reverenciados em três diferentes religiões, publicada pela BBC News Brasil em 29 de setembro de 2025.
BBC Narrator
No BBC, nós vamos mais longe para que você veja mais claramente. Com uma inscrição no bbc.com, você recebe artigos e vídeos ilimitados, centenas de podcasts gratuitos e o canal da BBC News, que está ao vivo 24 horas por dia. De menos de um dólar por semana para o seu primeiro ano, leia, assista e escute jornalismo independente e narrativa confiável. Tudo começa com uma inscrição no bbc.com. Encontre mais no bbc.com.
Podcast: BBC Lê
Data: 16 de outubro de 2025
Equipe BBC Brasil / Diversos especialistas
O episódio explora como as figuras dos arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel são veneradas em diferentes religiões — especialmente no cristianismo, judaísmo e islamismo. Por meio de entrevistas com teólogos, padres, pesquisadores e especialistas em religiões comparadas, a reportagem investiga as origens, funções e transformações dos anjos na teologia formal e no imaginário popular, traçando paralelos históricos, culturais e artísticos.
Anjo como Mensageiro:
Funções dos Anjos nas Escrituras:
Sistematização Teológica:
Funções Específicas dos Arcanjos:
Origens Multiculturais:
Semelhanças e Diferenças:
Religiosidade Popular:
Expressões e Imaginário:
Arte e Iconografia:
Cultura Pop:
| Tópico | Timestamps | |--------------------------------------------------------------------|--------------| | Definição e funções dos anjos | 01:00–03:35 | | Sistematização e hierarquia | 03:35–06:20 | | Origem nas religiões abrahâmicas e influências culturais antigas | 06:20–08:45 | | O anjo da guarda e devoção popular | 08:45–11:30 | | Arte, iconografia, expressões populares e cultura pop | 11:30–13:10 |
O episódio mantém um tom didático e acessível, intercalando explicações técnicas de especialistas com observações sobre o cotidiano e manifestações culturais. Prevalece uma abordagem respeitosa às diferentes tradições religiosas, mantendo o foco no valor simbólico, histórico e afetivo dos anjos ao longo do tempo.
Este episódio traça um panorama multifacetado dos anjos Miguel, Rafael e Gabriel, mostrando como sua veneração permeia diversas religiões e culturas. Ao combinar perspectivas acadêmicas, históricas e populares, a reportagem mostra a perene fascinação por esses seres espirituais — que continuam a povoar tanto a fé quanto a imaginação coletiva mundial.