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BBC lê. Nós, jovens, precisamos mudar nossas expectativas. O momento econômico perfeito que viveram os boomers nunca mais se repetirá. Reportagem de Cathy Kay, da BBC Work Life, publicada pela BBC News Brasil em 5 de julho de 2025. Lida por Silvia Salek. Eu venho lembrando da minha época de jovem adulta. Eu me formei na universidade em 1988 e saí direto para um emprego com um bom salário. No ano seguinte, eu já tinha economizado o suficiente para dar entrada na minha primeira casa. E antes de completar 30 anos, eu tive meu primeiro filho. Quando eu olho para as experiências dos jovens de hoje, das dificuldades que eles enfrentam para conseguir emprego ou bancar uma moradia própria, às vezes eu acho que eu cresci em outro planeta e não em outra geração. De quem é a culpa por ter ficado tão difícil construir a vida? Eu venho fazendo essa pergunta com frequência e entrei em contato com Kyla Scanlon para ter algumas respostas. Ela é uma escritora americana especializada em economia e criadora de conteúdo com enorme presença nas redes sociais. Ela tem 27 anos de idade e fundou sua própria empresa de educação sobre finanças pessoais chamada Bread. Em 2022, ela conhou o termo Vibe Session, em inglês, para definir o estado da economia americana durante o governo do ex-presidente Joe Biden, de 2021 a 2025. Muitos dos seus seguidores são jovens que buscam respostas sobre suas finanças. Seu livro mais recente é In This Economy, How Money and Markets Really Work. nessa economia, como o dinheiro e os mercados realmente funcionam, em tradução literal. Nossa conversa abordou justamente a questão de como a vida ficou tão insustentável para os jovens, financeiramente falando, especialmente nos Estados Unidos, e se existe uma resposta clara sobre os motivos e o que pode ser feito para resolver essa situação. Ouça essa entrevista. As respostas de Kyla Scanlon são lidas por Laís Alegretti. Vamos começar com o que parece ser uma espécie de tensão entre as pessoas sobre como a economia funciona para cada uma delas. Botando as cartas na mesa, eu tenho 60 anos, você não tem 60 anos. Eu me formei na universidade em 1988 e eu saí direto da universidade para um emprego com um salário razoavelmente bom no serviço público britânico. Com 29 anos eu tive meu primeiro filho. Na época, eu não pensei, meu Deus, eu nunca vou conseguir sustentá-lo. Mas quando eu olho para os meus filhos e para os amigos deles, é quase outro planeta. E você?
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O que você tá contando parece muito distante de mim e das pessoas que eu conheço. Para pessoas com mais idade tinha meio que uma equação a seguir. As casas eram muito baratas, a educação tinha um retorno mais previsível, não era tudo tão caro. É claro que cada geração tem seus próprios desafios, mas a geração mais jovem de agora, com menos de 30 anos, enfrenta uma imensa batalha em termos de comprar uma casa, de economizar do mercado de trabalho, de inflação, de uma pandemia global que prejudicou muitos jovens adultos Por isso, acho que tem sido um desafio.
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E você olha para o que eu tive e pensa, como assim vocês simplesmente ficaram com tudo? Será que nós fomos a geração que tomou tudo para si e meio que deixou vocês sem nada? Nós fizemos algo deliberadamente para prejudicar vocês?
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Essa é uma generalização. 43% dos baby boomers nascidos entre 1946 e 1964 não têm economias para aposentadoria, certo? Se eu chegar e disser, ah, todos os boomers ficaram com todo o dinheiro. Não é verdade. Alguns deles fizeram isso. Eles tiveram uma bela alta no mercado de ações, os custos da moradia provavelmente aumentaram quatro, talvez cinco vezes nas últimas duas décadas, e eles se recusam a vender aquelas casas. A quantidade de bay boomers donos de três quartos é maior que o número de millennials, nascidos entre 1981 e 1995, que tem três quartos. E seria de se imaginar que os millennials fossem donos dessas casas porque eles precisam delas para ter famílias, filhos e espaço Todos vocês também enfrentaram enormes batalhas, mas vocês começaram a vida, basicamente, em uma época perfeita que talvez a gente nunca veja de novo na história Vocês simplesmente tiveram muita, muita sorte Por isso, acho que precisamos mudar nossas expectativas e perceber que aquilo talvez não seja o futuro Não podemos culpar os boomers por terem aproveitado a ocasião Então, a minha.
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Geração é uma anomalia? Aquele período do pós-guerra simplesmente produziu um crescimento extraordinário e nós fomos os beneficiários, seja a geração dos meus pais ou também a minha?
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Sim, e também a mobilidade social ascendente. A economista francesa Stéphanie Stantjeva, em Harvard, fez uma ótima pesquisa sobre a mobilidade ascendente, e ela simplesmente não existe na forma em que costumávamos observar. Esse é o sonho americano. Comprar uma casa, ter filhos, ter um emprego e viver. E acho que isso desapareceu, principalmente porque agora a economia está sofrendo as repercussões reais da expansão do pós-guerra, que beneficiou os Bay Boomers.
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Houve um momento em que tudo começou a piorar? Houve algo que os governantes fizeram ou deixaram de fazer para exacerbar essa mudança?
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O que aconteceu do lado político é que os boomers votam. E como tem alta representação na política, eles acabam projetando políticas que beneficiam eles próprios. É simplesmente este ciclo de décadas em que os que estão no poder querem permanecer. E estes são os incentivos colocados à sua frente. Eles vão projetar as coisas para que sejam dessa forma. Eles vão combater a moradia, preços acessíveis, porque não querem que suas casas sejam desvalorizadas de alguma forma. Talvez eles não se aposentem com a idade que esperaríamos para não perder sua posição de liderança. Eles simplesmente vão permanecer e isso cria um elemento de estagnação para quem tenta herdar o que vem depois. Os baby boomers detêm cerca de 73% a 75% de toda a riqueza nos Estados Unidos. Eles simplesmente ainda não passaram bastão. Existem também muitas regulamentações e muitos entraves burocráticos, de forma que não podemos simplesmente colocar a culpa nos boomers por muitas coisas Mas quando você olha para os Estados Unidos e realmente analisa, você vê que esse é o país mais rico do mundo e às vezes ele se recusa a ajudar seus cidadãos De fato, vimos muito apoio durante a pandemia em termos de ajudar as pessoas com tolerância em relação aos aluguéis e suspensão de pagamentos dos empréstimos estudantis Mas nos Estados Unidos, existe uma luta mortal sobre como os cidadãos devem viver E parte disso certamente vem de políticas que foram criadas pela população com mais idade Isso não é causado apenas pelos boomers, mas tem um grande impacto sobre como as pessoas enfrentam a economia Isso faz com que.
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Você e a sua geração queiram rever o sistema? Isso produz um grau de desconfiança que você acha que corre o risco de se tornar permanente?
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Olha, existe uma expressão chamada niilismo financeiro. É a ideia de que as pessoas desistiram totalmente de economizar para a aposentadoria. Elas desistiram de avançar na sua carreira por não acharem que haja um futuro para elas. E isso me preocupa muito. Se a gente perder a esperança, o que vem depois? O que você faz para que as pessoas a recuperem? O que você pode dar a elas para que tenham esperança se o sistema não fornece as oportunidades que elas esperavam? O jornalista e escritor americano David Brooks publicou um ótimo artigo no New York Times sobre a economia da rejeição. A rejeição sem fim, seja nos aplicativos de namoro, nas faculdades e na busca por empregos. Simplesmente a rejeição constante e a carga cognitiva que ela traz. E como ela realmente pode eliminar qualquer sentido de esperança nas pessoas. Eu me preocupo muito com isso.
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Existe algum país no mundo que esteja agindo corretamente ou, pelo menos, lidando melhor com a situação e que a gente poderia usar como exemplo?
B
A gente pode aprender com todo tipo de países. Acho que os Estados Unidos realmente precisam rever sua rede de segurança social, e a Europa é um exemplo relativamente bom nesse campo. Muitos países enfrentam problemas para definir o que fazer com seus jovens porque a população hoje vive por muito mais tempo nos países desenvolvidos. A Áustria fez um trabalho muito bom na construção de moradias. Eles têm moradias sociais, apenas isso. Será que a gente não poderia simplesmente ajudar as pessoas a conseguirem suas casas?
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Quando você examina o que poderia mudar em termos de políticas, o que você indicaria?
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É uma resposta simples, definir zoneamento e habitação. é preciso construir casas. Essa é apenas uma das formas de sairmos disso. Outra questão são os custos das creches, que realmente dispararam nos Estados Unidos. É muito difícil imaginar como cobrir esses custos, mas esse é um ponto importante. Se a gente quiser incentivar as pessoas a ter filhos e continuar construindo suas vidas nos Estados Unidos, a gente precisa resolver a questão dos custos das creches. Outra questão são os custos de assistência aos idosos. Cuidar de uma pessoa idosa nos Estados Unidos custa, em média, eu acho, cerca de 10 mil dólares, cerca de 55 mil reais por mês. Também é muito difícil imaginar como bancar isso. Se a gente pensar simplesmente em meio que estabilizar a população, precisamos dar às pessoas um lugar para morar, ajudá-las a ter filhos e cuidar da nossa população de idosos enquanto as pessoas caminham rumo ao que quer que venha depois disso. Eu me concentraria nesses três pontos.
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Esta foi a escritora americana Kyla Scanlon. E você ouviu a reportagem Nós, jovens, precisamos mudar nossas expectativas. O momento econômico perfeito que viveram os boomers nunca mais se repetirá. Publicada pela BBC News Brasil em 5 de julho de 2025.
Data: 11 de setembro de 2025
Host: BBC Brasil (A – Silvia Salek, lendo reportagem de Cathy Kay)
Entrevistada: Kyla Scanlon (respostas lidas por Laís Alegretti)
Neste episódio do "BBC Lê", é apresentada e debatida uma reportagem de Cathy Kay (BBC Work Life) sobre as grandes diferenças na realidade financeira vivida pelos baby boomers e as gerações mais jovens. A partir do contraste biográfico entre a autora e a economista e criadora de conteúdo Kyla Scanlon, o episódio explora como as expectativas de vida para os jovens mudaram drasticamente — e por quê. São discutidos temas como mobilidade social, dificuldades de acesso à moradia, mudanças estruturais na economia, e as possíveis soluções ou caminhos para lidar com a insustentabilidade financeira enfrentada pelos jovens atualmente.
O episódio evidencia que o cenário econômico e social que beneficiou os baby boomers foi uma exceção histórica, não uma regra. Mudanças estruturais — somadas à persistência de políticas e hábitos desfavoráveis a jovens, barreiras no mercado de trabalho e custos crescentes — demandam o ajuste das expectativas das novas gerações. Ao mesmo tempo, reclama-se por reformas mais robustas em habitação, inclusão social e proteção à família, como já ocorre em algumas nações da Europa. Não cabe a culpa simplista, mas é urgente enfrentar o niilismo financeiro e pressionar por estruturar um novo “acordo geracional”.