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BBC Lê. O antropólogo que percorreu os Estados Unidos para entender as divisões no país. Fui ao encontro de quem não pensa como eu. Reportagem de Cecília Barria, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil em 9 de agosto de 2025. Lida por Silvia Salek. Descendente de uma família indiana, Anand Pandyan nasceu, cresceu e construiu sua carreira nos Estados Unidos. Professor de Antropologia na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, no estado de Maryland, e presidente da Sociedade de Antropologia Cultural, ele percorreu os Estados Unidos durante oito anos para explorar as profundas fissuras que dividem os americanos. Ele estava interessado em conversas informais e íntimas com pessoas comuns que têm uma visão de mundo diferente da dele, para entender as razões que as levam a pensar como pensam. Anan Pandian encontrou muros psicológicos fortemente ancorados em emoções como desconfiança, suspeita, desconforto e ceticismo que tendem a isolar as pessoas. Com base na experiência que ganhou durante as viagens, ele acaba de publicar um livro chamado Something Between Us, The Everyday Walls of American Life and How to Take Them Down. Algo entre nós, os muros cotidianos da vida americana e como derrubá-los, em tradução literal. Confira a entrevista da BBC com Anan Pandian. As respostas serão lidas por Thomas Papon. Nos últimos oito anos, você viajou pelos Estados Unidos como antropólogo tentando entender os muros psicológicos que dividem o seu país. Por quê? Como surgiu essa ideia?
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Nós, antropólogos, prestamos atenção à vida cultural das pessoas, às relações sociais que organizam suas vidas. Queremos entender o contexto histórico, social e cultural que as levam a agir da maneira que agem. Existem muitos tipos de muros, como os muros dos nossos prédios, que nos separam fisicamente, mas também existem muros metafóricos ou psicológicos, como a desconfiança, a suspeita, a sensação de desconforto e ceticismo, que as pessoas geralmente sentem quando ouvem ideias e histórias que soam desconhecidas para elas, que não se encaixam em sua visão da realidade.
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Muros psicológicos, como quando dizemos que os outros vivem em uma bolha e não percebemos que também vivemos em nossa própria bolha.
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Sim, é verdade que vivemos em nossas próprias bolhas. E uma das principais razões pelas quais decidi fazer esse trabalho é porque eu queria pensar e imaginar o país além da minha própria bolha. Quando Donald Trump venceu a eleição de 2016, percebi que havia muitas pessoas que pensavam diferente, que tinham outras posições. E como antropólogo, eu precisava entender como chegamos a essa situação, especialmente na questão da migração. no sentido de saber se realmente há lugar para pessoas de diversas origens. E, ao explorar essas situações, percebi inúmeras vezes o quanto as pessoas estavam se isolando em suas vidas diárias.
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Você poderia me dar um exemplo que represente esse isolamento?
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Eu vi isso nos condomínios fechados, que se tornaram tão comuns nesse país, e em toda a tecnologia de segurança que substitui os encontros cara a cara com estranhos. Campainhas com câmeras como alternativa para simplesmente abrir a porta quando alguém bate. Há hábitos cotidianos que refletem isolamento, como usar menos as ruas e passar mais tempo só com conhecidos ou depender de carros cada vez maiores projetados para proteger contra possíveis perigos. Passei a entender que todos esses hábitos de se proteger, de se separar, de se isolar, têm muito a ver com essas ideias que parecem ter capturado o imaginário de tantos americanos. E é essa história que eu tento contar no livro.
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Durante todos esses anos viajando pelo país, qual foi a experiência mais inesperada? Aquela que teve o maior impacto no nível pessoal, ao interagir com pessoas que têm uma visão de mundo diferente da sua?
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Foi uma experiência muito interessante porque descobri reações muito diferentes entre pessoas com uma visão de mundo diferente da minha, com ideias políticas diferentes das minhas, com maneiras muito distintas de entender o que o país precisa e quem somos como americanos. Fiquei surpreso que algumas pessoas se mostraram muito mais flexíveis do que eu esperava e muito dispostas a conversar comigo. Refleti sobre nossas ideias e explorar as diferenças entre nossas opiniões, às vezes até chegando a um acordo. Penso, por exemplo, em um dos personagens sobre os quais escrevo no livro, Paul, um corretor imobiliário em Dakota do Norte. Ele é um republicano de longa data, profundamente comprometido com as posições do partido. Mas, por um lado, também era um defensor da conservação do solo e da água, e também tinha posições muito diferentes das do seu partido em questões como imigração. Foi uma grata surpresa ver que alguém com quem eu não esperava ter muito em comum, no fim das contas, tinha uma posição muito mais diversificada. Enfim, simplesmente havia muito que conversar.
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E como foi a experiência com os mais intransigentes?
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Também conheci pessoas com quem não havia nada que pudéssemos compartilhar. Não conseguimos chegar a nenhum acordo. Não havia como encontrar pontos em comum. E, nesses casos, a esperança era simplesmente entender por que nossas divisões eram tão profundas. Um exemplo disso seria a pessoa que eu chamo de Frank no livro, um pequeno empresário de uma cidade no sul de Michigan. Eu o conheci em uma conferência libertária em Las Vegas. Visitei sua cidade e passei alguns dias lá. Ele me visitou em Baltimore e ficamos em contato por vários anos, durante os quais discutimos muito. especialmente na época da pandemia, sobre temas como vacina, a necessidade de usar máscara ou sobre política, economia, migração e muitas outras coisas. Mas em todos os casos, tínhamos perspectivas radicalmente diferentes. E o que tentam mostrar no livro é como nossos próprios ecossistemas midiáticos, de onde obtemos nossas informações e como desenvolvemos nosso próprio senso de realidade, influenciou bastante a impossibilidade desse entendimento mútuo.
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Falando sobre a dificuldade de chegar a um acordo, como é que foi sua experiência com nacionalistas brancos no Tennessee?
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Eu fui a uma manifestação nacionalista branca em Shelbyville, no Tennessee, onde as pessoas argumentavam que as diferentes raças não podiam, simplesmente não podiam conviver e defendiam a ideia de dividir os Estados Unidos em uma série de étno-estados, onde cada raça teria o seu próprio país.
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E essa foi a visão considerada mais extrema que você encontrou durante as suas viagens?
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Bom, o objetivo do livro não era tanto focar nos extremos, mas ver como as ideias extremas podem ser tão facilmente normalizadas. De certa forma, eu diria que essas forças de isolamento, suspeita, desconfiança e ceticismo na nossa sociedade se integraram à nossa vida cotidiana. Então, de muitas maneiras, o livro trata do que passamos a entender como normal e do que pode acontecer quando as circunstâncias de isolamento e separação radicais se tornam normais para tanta gente. Esse projeto é sobre isolamento e tenta entender porque as políticas isolacionistas se tornaram tão poderosas nesse país, a ponto de as pessoas imaginarem se isolar completamente do resto do mundo e daqueles que não são como elas. E a conclusão a que cheguei é que não podemos entender o isolacionismo político sem analisar o isolamento cotidiano.
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Como o isolamento social e a polarização podem ser reduzidos, especialmente agora que uma narrativa política que divide as pessoas entre aliados e inimigos, que gira em torno do ódio, se espalhou.
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Olha, isso tem a ver com a forma como entendemos os fundamentos da exclusão social e da discriminação. Acho que tendemos a pensar muito no ódio, que é uma emoção muito forte e ativa, e certamente há evidências de ódio nesse país. Mas a indiferença é igualmente perigosa e, em alguns aspectos, ainda mais perigosa, porque é difícil de ver. A indiferença de não se importar com as outras pessoas, de não prestar atenção, de não perceber e, de muitas maneiras, esse é um livro sobre os efeitos da indiferença. Por outro lado, o que aprendi com essa pesquisa é que há uma diferença real entre os muros que rejeitam qualquer relacionamento com as pessoas de fora e os muros mais abertos e porosos que ainda permitem a possibilidade de uma relação com lugares, pessoas e ideias que nos são estranhas. Precisamos desse tipo de abertura se quisermos descobrir como viver juntos no mundo. E é nesse ponto, creio, que essa dimensão psicológica se torna muito importante. Embora tenhamos muitas tendências de isolamento, também temos a experiência de movimentos sociais que se concentraram em unir as pessoas, criar alianças inesperadas e encontrar maneiras de viver juntos.
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Esse foi o antropólogo indiano-americano Anand Pandian. E você ouviu a reportagem, o antropólogo que percorreu os Estados Unidos para entender divisões no país. Fui ao encontro de quem não pensa como eu. Publicada pela BBC News Brasil em 9 de agosto de 2025.
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Date: September 23, 2025
Host: BBC Brasil
Guest: Anand Pandian, Professor de Antropologia na Johns Hopkins University
Reportagem por: Cecília Barria
Leitura: Silvia Salek (Perguntas), Thomas Papon (Respostas do entrevistado)
Transcrito e resumido conforme conteúdo principal; anúncios e outros segmentos omitidos.
Neste episódio do BBC Lê, ouvimos a reportagem sobre Anand Pandian, um antropólogo indiano-americano da Johns Hopkins University. Pandian dedicou oito anos a percorrer os Estados Unidos em busca de compreender os “muros psicológicos” que dividem o país – fissuras construídas por desconfiança, isolamento e polarização cotidiana. Ele explora esses temas em seu livro recém-lançado Something Between Us: The Everyday Walls of American Life and How to Take Them Down. O episódio mergulha em suas experiências de campo, aprendizados sobre isolamento social e sugestões para superar divisões extremas.
Contexto: Antropólogos buscam entender como relações sociais, história e cultura moldam o comportamento das pessoas.
Conceito de muros: Não só físicos, mas também psicológicos — “desconfiança, suspeita, desconforto e ceticismo.”
“Existem muitos tipos de muros... mas também existem muros metafóricos ou psicológicos, como a desconfiança, a suspeita, a sensação de desconforto e ceticismo...” — Anand Pandian [03:15]
Motivação do projeto: Refletir sobre a própria bolha social, especialmente após a vitória de Donald Trump em 2016, e investigar se há espaço real para diversidade nos EUA.
“Quando Donald Trump venceu a eleição de 2016, percebi que havia muitas pessoas que pensavam diferente... E como antropólogo, eu precisava entender como chegamos a essa situação...” [04:05]
Observações empíricas: Pandian cita condomínios fechados, tecnologias de segurança (campainhas com câmeras), uso menor das ruas, carros maiores — tudo reforçando a separação entre as pessoas.
“Há hábitos cotidianos que refletem isolamento, como usar menos as ruas e passar mais tempo só com conhecidos...” — Anand Pandian [04:53]
Causa e efeito: Esses hábitos alimentam ideias de separação e permeiam o imaginário coletivo americano.
Surpresas positivas: Muitas pessoas, politicamente diferentes dele, mostraram disposição ao diálogo e flexibilidade — como Paul, corretor imobiliário republicano, conservacionista e aberto sobre temas de imigração.
“Fiquei surpreso que algumas pessoas se mostraram muito mais flexíveis do que eu esperava e muito dispostas a conversar comigo.” — Anand Pandian [05:57]
Limites do diálogo: Outras, como “Frank”, empresário de Michigan, permaneciam inflexíveis, mostrando como bolhas de informação e mídia reforçam divisões.
“Em todos os casos, tínhamos perspectivas radicalmente diferentes. E o que tento mostrar no livro é como nossos próprios ecossistemas midiáticos... influenciaram bastante a impossibilidade desse entendimento mútuo.” [07:15]
Experiência marcante: Pandian relata presença em manifestação nacionalista branca no Tennessee, onde defendiam concretamente a separação racial.
“As pessoas argumentavam que as diferentes raças não podiam, simplesmente não podiam conviver...” — Anand Pandian [08:32]
Reflexão sobre radicalização: O livro destaca que o perigo maior é a normalização de ideias extremas e de políticas de separação.
“O livro trata do que passamos a entender como normal e do que pode acontecer quando as circunstâncias de isolamento e separação radicais se tornam normais...” [09:00]
Ódio vs. Indiferença: Pandian argumenta que, se o ódio é perigoso, a indiferença pode ser ainda mais destrutiva — pois ela passa despercebida.
“A indiferença é igualmente perigosa e, em alguns aspectos, ainda mais perigosa, porque é difícil de ver.” — Anand Pandian [10:14]
Muros abertos e porosos: Propõe a necessidade de muros mais “abertos”, que permitam trocas e relações com o diferente, resgatando o potencial de convivência e aliança inesperada de movimentos sociais.
“O que aprendi com essa pesquisa é que há uma diferença real entre os muros que rejeitam qualquer relacionamento... e os muros mais abertos e porosos...” [10:14]
O tom da entrevista é reflexivo, analítico e empático, evitando julgamentos fáceis. Anand Pandian enfatiza curiosidade, abertura ao diálogo e autocrítica. A linguagem alterna entre observações técnicas de antropólogo e relatos pessoais, tornando os conceitos acessíveis ao público leigo.
O episódio destaca a importância de reconhecer e questionar os “muros” que construímos em nossas relações diárias, enfatizando que combater o isolamento e a polarização requer mais que combater o ódio — demanda vencer a indiferença e criar estruturas sociais mais abertas ao outro. Pandian defende que só assim é possível imaginar um caminho coletivo viável nos Estados Unidos contemporâneos e, por extensão, em outras sociedades polarizadas.