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BBC lê O misterioso cogumelo que faz as pessoas verem pessoinhas. Reportagem de Rachel Neuer, da BBC Future, publicada pela BBC News Brasil em 23 de janeiro de 2026. Lida por Thomas Papon. Todo ano, os médicos de um hospital na província de Yunnan, na China, se preparam para a chegada de um grande número de pacientes com uma queixa atípica. Eles apresentam um sintoma marcante e estranho. Visões de figuras minúsculas, semelhantes a elfos, que passam por baixo de portas, sobem paredes e se penduram em móveis. O hospital atende centenas desses casos todos os anos. Todos têm o mesmo responsável, lamaoa asiática, um tipo de cogumelo que forma relações simbióticas com pinheiros nas florestas da região e é um alimento popular localmente, conhecido pelo sabor intenso e rico em umami, um dos cinco gostos básicos percebidos pelo paladar humano, ao lado de doce, salgado, azedo e amargo. Em Yunnan, o ele asiática é vendido em mercados, aparece em cardápios de restaurantes e é servido em casa durante o auge da temporada de cogumelos entre junho e agosto. Mas é preciso que se cozinhe bem eles, pois caso contrário, podem provocar alucinações. Em um restaurante de hot pot de cogumelos de lá, o atendente acionou um cronômetro de 15 minutos e nos alertou. Não como antes de o tempo acabar, ou vocês podem ver pessoinhas. Diz Colin Domnauer, doutorando em Biologia na Universidade de Utah, nos Estados Unidos, e no Museu de História Natural de Utah, que estuda o L-asiática. Parece ser um conhecimento bastante difundido na cultura local", acrescenta ele. Mas fora de Yunnan e de alguns poucos outros lugares, o estranho cogumelo permanece um enigma. Há muitos relatos sobre a existência desse cogumelo psicodélico. E muitas pessoas procuram por ele, mas nunca conseguem encontrar a espécie, afirma Giuliana Furti, micologista, especialista em fungos e fundadora e diretora executiva da Fungi Foundation, organização sem fins lucrativos dedicada à descoberta, documentação e conservação de fungos. Colin Domnauer, da Universidade de Utah, estuda essa espécie de fungo há anos e tenta identificar o composto ainda desconhecido, responsável por suas alucinações de notável semelhança, além de entender o que ele nos pode ensinar sobre o cérebro humano. Domnauer ainda era estudante de graduação quando ouviu falar pela primeira vez do L. Asiática por meio de seu professor de micologia. Parecia algo tão bizarro a ideia de que possa existir um cogumelo capaz de provocar alucinações dignas de contos de fadas relatados em diferentes culturas e épocas. Eu fiquei intrigado e quis entender isso melhor, diz Domnauer. A literatura acadêmica oferecia poucas pistas sobre esse assunto. Em um estudo publicado em 1991, dois pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências descreveram casos de pessoas na província de Yunnan que haviam ingerido determinado cogumelo e passaram a apresentar alucinações liliputianas, termo psiquiátrico usado para designar a percepção de figuras humanas, animais ou fantásticas em tamanho diminuto. A expressão faz referência aos pequenos habitantes da ilha fictícia de Lilliput, no romance de 1726, As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Segundo os pesquisadores, os pacientes viam essas figuras se movendo por todos os lados. Em geral, havia mais de dez seres minúsculos na cena. Eles os viam sobre as roupas ao se vestir e sobre seus pratos enquanto comiam", acrescentaram os pesquisadores chineses. As visões, relataram, eram ainda mais vívidas quando os olhos estavam fechados. Já na década de 1960, o escritor americano Gordon Wasson e o botânico francês Roger Hain, que levaram ao público ocidental a existência de vários cogumelos com psilocibina, se depararam com algo semelhante em Papua Nova Guiné. Eles procuravam um cogumelo que, segundo uma equipe de missionários que havia visitado a região 30 anos antes, fazia os moradores locais enlouquecerem, condição que um antropólogo mais tarde batizou de Mushroom Madness, Loucura do Cogumelo em tradução literal. O que encontraram soa hoje de forma surpreendentemente semelhante aos relatos atuais da China. Eles coletaram exemplares da espécie suspeita e os enviaram para testes a Albert Hoffman, o químico suíço que descobriu o LSD. Hoffman, no entanto, não conseguiu identificar nenhuma molécula de interesse. A equipe concluiu que as histórias ouvidas em campo deveriam ser relatos culturais, sem base farmacológica e nenhuma pesquisa adicional foi realizada. Só em 2015 é que pesquisadores finalmente descreveram formalmente e nomearam o L-asiática, ainda sem muitos detalhes sobre suas propriedades psicoativas. Assim, o primeiro objetivo de Colin Domnauer, da Universidade de Utah, foi estabelecer com precisão a identidade da espécie. Em 2023, ele viajou a Yunnan durante o auge da temporada de cogumelos no verão. Ele percorreu os extensos mercados de fungos da província e perguntava aos vendedores quais cogumelos fazem você ver gente pequena. Comprou aqueles para os quais os comerciantes, rindo, apontavam e levou os exemplares ao laboratório para tentar sequenciar os genomas. Isso confirmou a identidade do L. asiática, segundo ele. Em uma pesquisa que ainda está sendo preparada para publicação, extratos químicos obtidos de espécimes cultivadas em laboratório produziram em camundongos mudanças comportamentais semelhantes às relatadas em humanos. Após a administração dos extratos do cogumelo, os animais passaram por um período de hiperatividade seguido de um longo estado de torpor no qual os roedores quase não se movimentaram. Domnauer também visitou as Filipinas, onde ouviu relatos sobre um cogumelo que causaria sintomas semelhantes aos descritos em registros históricos da China e de Papua-Nova Guiné. Os exemplares coletados ali tinham uma aparência um pouco diferente. Eram menores e de tom rosa-claro, em contraste com os cogumelos chineses, maiores e mais avermelhados. afirma o pesquisador. No entanto, testes genéticos mostraram que se tratava da mesma espécie. Em dezembro de 2025, a orientadora de Domnauer esteve em Papua Nova Guiné em busca dos cogumelos mencionados nos registros de Wasson e Hein. A equipe não encontrou nenhum exemplar e o mistério permanece. Pode ser a mesma espécie, o que seria surpreendente, já que Papua-Nova Guiné normalmente não compartilha espécies encontradas na China e nas Filipinas, diz Domnauer. Ou pode se tratar de outra espécie, o que seria ainda mais interessante do ponto de vista evolutivo, acrescenta o cientista. Isso significaria que os mesmos efeitos liliputianos teriam evoluído de forma independente em diferentes espécies de cogumelos em partes distintas do mundo. Há precedentes desse tipo de fenômeno na natureza. Cientistas, entre eles alguns que trabalham no mesmo laboratório de Domnauer, descobriram recentemente que a psilocybina, a molécula psicodélica encontrada nos chamados cogumelos mágicos, evoluiu de forma independente em dois tipos de cogumelos com parentesco distante. Mas não é a psilocybina que confere aos cogumelos L-asiática o efeito liliputiano, afirma Domnauer. O pesquisador e sua equipe ainda tentam identificar o composto químico responsável pelas alucinações provocadas pelo L-asiática. Testes atuais indicam que a substância provavelmente não está relacionada a nenhum outro composto psicodélico conhecido. Entre os indícios está a duração incomum das experiências, que geralmente se estendem por 12 a 24 horas e, em alguns casos, chegam a provocar internações hospitalares de até uma semana. Por causa desse tempo extraordinariamente longo e do risco de efeitos colaterais prolongados, como delírio e tontura, Domnauer ainda não experimentou os cogumelos em estado bruto. Essas viagens psicodélicas intensas podem ajudar a explicar porque pessoas na China, nas Filipinas e em Papua-Nova Guiné não parecem ter uma tradição de buscar deliberadamente o L asiática por seus efeitos psicoativos, segundo as conclusões de Domnauer. Ele sempre foi consumido apenas como alimento, diz o pesquisador, com as alucinações surgindo como um efeito colateral inesperado. Há ainda outro fator curioso. Outros compostos psicodélicos conhecidos costumam produzir experiências idiosincráticas que variam não apenas de pessoa para pessoa, mas também de uma vivência para outra no mesmo indivíduo. No caso do L-asiática, porém, a percepção de pequenas pessoas é relatada de forma muito confiável e repetida, afirma Domnauer. Não conheço nada que produza alucinações tão consistentes, acrescenta. Compreender esse cogumelo não será tarefa simples, diz o pesquisador, mas assim como ocorre em estudos sobre outros compostos psicodélicos, a pesquisa científica resultante pode acabar tocando em questões mais profundas sobre consciência e a relação entre mente e realidade. O estudo também pode fornecer pistas importantes sobre o que provoca alucinações liliputianas espontâneas em indivíduos que não consomem o L-asiática. A condição é rara e, até 2021, apenas 226 casos não relacionados ao consumo de cogumelos haviam sido registrados desde que as alucinações liliputianas foram descritas pela primeira vez em 1909. Para esse grupo relativamente pequeno de pessoas, porém, o desfecho pode ser grave. Um terço dos pacientes com casos não relacionados a cogumelos não se recuperou completamente. O estudo do L-asiática pode ajudar os cientistas a compreender melhor os mecanismos cerebrais por trás dessas visões liliputianas que surgem de forma natural, talvez até levando ao desenvolvimento de novos tratamentos para pessoas que desenvolvem a condição neurológica, diz Domnauer. Agora talvez possamos entender onde as alucinações liliputianas se originam no cérebro, afirma Dennis McKenna, etnofarmacologista e diretor da McKenna Academy of Natural Philosophy, centro educacional sem fins lucrativos na Califórnia. Ele concorda que compreender os compostos do cogumelo pode levar à descoberta de novos medicamentos. Há uma aplicação terapêutica? Ainda é cedo para dizer, afirma McKenna. Pesquisadores estimam que menos de 5% das espécies de fungos do mundo tenham sido descritas, de modo que os achados também destacam o enorme potencial para descobertas nos ecossistemas globais que vêm encolhendo rapidamente, diz Giuliana Furti, da Fungi Foundation, cujo trabalho se concentra na exploração do reino dos fungos. Os fungos abrigam uma biblioteca bioquímica e farmacológica muito ampla, que estamos apenas começando a acessar, afirma Furti. Ainda há um mundo de descobertas a ser feito. Você ouviu a reportagem O Misterioso Cogumelo que Faz as Pessoas Verem Peçoinhas, publicada pela BBC News Brasil em 23 de janeiro de 2026.
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Data: 5 de março de 2026
Equipe: BBC Brasil
Reportagem: Rachel Neuer, lida por Thomas Papon
Este episódio de "BBC Lê" apresenta uma reportagem fascinante sobre o cogumelo "L. asiática", conhecido por provocar nas pessoas visões vívidas de figuras minúsculas (“pessoinhas” ou “alucinações liliputianas”) após o consumo inadequado. O podcast explora os relatos culturais e científicos sobre esse fenômeno, as tentativas de identificar o composto responsável pelas alucinações e o potencial para estudos sobre consciência e tratamentos neurológicos.
O episódio revela um fascinante cruzamento entre ciência, cultura local e fenômenos neurológicos, centrando-se na busca pelo entendimento do cogumelo L. asiática e seus efeitos únicos nas percepções humanas. Apesar de sua notoriedade regional, o cogumelo permanece um mistério para a ciência internacional, ilustrando não só a riqueza do conhecimento popular, mas também o vasto território inexplorado da micologia e das possibilidades terapêuticas no estudo dos fungos.