Loading summary
A
O nazista que viveu por 20 anos no Brasil e foi executado no Uruguai por agentes do Mossad. Reportagem de André Bernardo, publicada pela BBC News Brasil em 6 de março de 2022. Lida por Thomas Papon. O aviador letão Herbert Cucurs chegou ao Brasil no dia 4 de março de 1946, uma segunda-feira de carnaval, a bordo do vapor espanhol Cabo da Boa Esperança. Vindo de Marsella, na França, onde embarcou em 5 de fevereiro, estava acompanhado da mulher, Milda, de 38 anos, dos três filhos, Gunnar, de 14, Antinea, de 12 e Herbert, de 4, e da sogra, Madi, de 64. Do Cais do Porto, Cucurs e sua família seguiram para um sobrado em São Cristóvão, na zona norte do Rio. Cucurs não entrou no Brasil através das rotas de fuga usada por criminosos nazistas depois da guerra. Entrou legalmente, beneficiado pela política imigratória racista que vigorava em nosso país. Ele era branco, europeu e cristão. Explica o historiador Bruno Leal, professor de História Contemporânea pela Universidade de Brasília, e autor do livro O Homem dos Pedalinhos, Herbert Cucurs, a história de um alegado criminoso nazista no Brasil do pós-guerra, lançado em 2022. Mesmo que o governo brasileiro tivesse feito uma pesquisa mais aprofundada, dificilmente encontraria naquele momento acusações de crimes de guerra contra Cucurs, acrescenta. Para sobreviver no Rio de Janeiro, Kukurs vendeu uma máquina fotográfica da marca Leica para Isaacs Boyarskis, um funcionário da loja de departamentos Mesbla, por 8.500 cruzeiros. O salário mínimo da época era de 380 cruzeiros. Em seu país de origem, era considerado um herói nacional da Força Aérea da Letônia. Experiente, projetava, construía e fazia a manutenção dos aviões que pilotava. Entre outras façanhas, viajou para a Gâmbia, em 1933, e para o Japão, em 1936. No Rio, o suposto refugiado dos horrores da Segunda Guerra ganhou a vida como empresário. Um de seus primeiros empreendimentos foi o aluguel de pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro. Pouco, quase nada, se sabia sobre seu papel na ocupação nazista da Letônia. A permanência de Cucurs no Brasil não teve nada a ver com a ação de redes nazistas secretas, nem com uma política de acobertamento do governo brasileiro, esclarece Bruno Leal. A ideia de que a América do Sul foi um paraíso para nazistas e criminosos nazistas e que os países da região receberam um grande número deles decorre de uma narrativa impressionista, não documentada e, não raro, sensacionalista, difundida por muitos veículos de imprensa e pela cultura de massa. Talvez o grande paraíso nazista no pós-guerra tenha sido a própria Europa, diz o historiador. Em julho de 1949, Cucurs e a família deram entrada no pedido de naturalização brasileira. À época, sua empresa, a Hebert's Companhia Limitada, com sede em Niterói, contabilizava 20 pedalinhos, duas lanchas, cinco caiaques, um barco à vela e um hidroavião, entre outras embarcações. Mas, no dia 30 de junho de 1950, sua vida virou pelo avesso. A Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro, baseada nos depoimentos de cinco sobreviventes do Holocausto, convocou uma coletiva de imprensa para acusar o imigrante letão de criminoso de guerra. Kukurs foi responsabilizado de matar a sangue-frio cerca de 30 mil judeus na Letônia ocupada pelos nazistas. Tiria ainda desapropriado imóveis, profanado cemitérios, incendiado sinagogas. Entre 1940 e 1945, a Letônia foi ocupada duas vezes. A primeira delas, em junho de 1940, pela extinta União Soviética, e a segunda, em julho de 1941, pela Alemanha. Durante a ocupação nazista, Herbert Kukurs integrou o Comando Arais, o principal grupo colaboracionista da Letônia. A Letônia se tornou independente em 1918, mas sua liberdade durou pouco. Em 1941, os soviéticos a invadiram e, um ano depois, os nazistas, afirma a jornalista e escritora Heliette Weizmann, diretora do Museu Judaico do Rio de Janeiro e autora do romance histórico O Cisne e o Aviador. livremente inspirado na biografia de Herbert Cucurs. Entre 1941 e 1945, a comunidade de 80 mil judeus letões foi quase extinta. Milhares de judeus alemães e austríacos transportados para Letônia em trens também foram executados, em geral por fuzilamentos em massa. Seus corpos foram jogados em fossas coletivas. Conta. Por ocasião das denúncias da Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro, Kukurs admitiu que colaborou com a ocupação nazista, mas negou as outras acusações. De nada adiantou. Logo, o escândalo ganhou as páginas dos jornais. Famoso matador de gente publicou o jornal Folha do Rio na edição do dia 30 de junho de 1950. Indesejáveis, manchetou o tribuna da imprensa de 13 de julho do mesmo ano. Para o jornal Tribuna da Imprensa, Cucurs virou o nazista dos pedalinhos. Indignada, a população da então capital federal do país pediu a imediata expulsão de Hebert Cucurs do país. Na coletiva da imprensa, compareceram alguns dos repórteres mais importantes da época, como Joel Silveira, do Diário de Notícias, e Austre Gésilo de Ataíde, do Diário da Noite. A Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro distribuiu cópias datilografadas dos depoimentos de quatro sobreviventes, David Fischkin, Maxtu Kassir, Abraham Shapiro e Rafael Schupp. Sob juramento, relataram episódios estarrecedores que eles próprios testemunharam ou sofreram, protagonizados por Kukurs. Fischkin descreveu o letão como um criminoso de guerra que, no dia 30 de novembro de 1941, fuzilou 16 mil judeus, entre homens, mulheres e crianças, na floresta de Bikernieko. Quando uma criança chorou, ele a tirou da mãe e a fuzilou ali mesmo, relatou. Segundo os relatos dos sobreviventes, ele gostava de atirar nos calcanhares de suas vítimas quando elas fugiam. Assim que caíam indefesas, mirava em suas nucas e apertava o gatilho. Toucassier contou que foi levado para o número 19 da rua Valdemar, em Riga, a capital do país. Naquele edifício funcionava o principal centro de interrogatório, prisão e tortura de judeus e oponentes políticos dos nazistas na Letônia. No quartel da Gestapo, como os judeus o chamavam, Toucassier sofreu espancamentos e maus tratos. Recebi golpes horríveis, conta, que fizeram saltar quase todos os meus dentes. Agora uso uma dentadura. Lá dentro, testemunhou incontáveis atrocidades, de trabalhos forçados a execuções sumárias. Quem ousasse chorar ou desmaiar durante uma sessão de tortura era fuzilado. Numa delas, Kukurs obrigou um velho de 60 anos e uma jovem de 20, ambos de origem judaica, a tirarem as roupas e manterem relações sexuais. Durante a recusa do homem, Cucurso o espancou. Abraham Shapiro contou que, na calada da noite, muitos judeus eram retirados de suas celas na Rua Valdemar e levados embora para destino ignorado. Certa vez, quando ousou perguntar a um sentinelo o que estava acontecendo, ouviu uma resposta sarcástica. Foram caçar coelhos. Em outra ocasião, Shapiro fora obrigado a tocar piano a noite toda num apartamento que pertencera aos seus pais, em Riga. Lá pelas tantas, Cucurs e outros oficiais da Polícia de Segurança, já totalmente embriagados, mandaram chamar uma moça judia mantida como prisioneira por várias semanas. Sentado ao piano, foi testemunha ocular de como a moça foi violentada pelos letões, um após outro. Descreve. Um dos depoimentos mais aterradores foi o de Rafael Schub. Contou que na madrugada de 4 de julho de 1941, Kukurz e seus homens encurralaram 300 judeus lituanos que tinham fugido de seu país na sinagoga de Gogolstrasse, em Riga. A princípio, os obrigaram a jogar os pergaminhos sagrados no chão da sinagoga. Como eles se recusaram a cometer tal sacrilégio, Cucurs derramou gasolina e, com granadas de mão, ateou fogo. Correram para as portas e janelas, mas os sentinelas do lado de fora atiraram neles, relatou o sobrevivente. Todos os 300 foram queimados, entre eles muitas crianças. Em outra ocasião, Heberts Kukurs ordenou que 2 mil judeus se afogassem no lago de Venta, em Kuldiga. Os que se recusaram a entrar na água foram fuzilados ali mesmo, na margem do lago. Com a repercussão desfavorável do caso, a Prefeitura do Rio não renovou o alvará de licença dos pedalinhos. O Ministério da Aeronáutica caçou seu brevê de piloto e o da Justiça não deu prosseguimento ao seu pedido de naturalização. Uma multidão, segurando cartazes e gritando palavras de ordem, realizou um protesto na Lagoa Rodrigo de Freitas. Abordado por uma equipe do jornal O Globo, Kukurs preferiu não dar entrevista. Disse apenas que, em breve, provaria sua inocência. Olha para mim, tenho cara de carrasco? Perguntou ao repórter, segundo a edição do dia 25 de julho de 1950. Em 1951, Cucurs e a família se mudaram para Niterói, município vizinho ao Rio. Em 1953, seguiram para Santos e, três anos depois, para São Paulo. Na capital paulista, montou uma empresa de táxi aéreo na represa de Guarapiranga. Um aspecto que contribuiu muito para que Cucurs jamais fosse expulso do país foi a inoperância de determinados governos estrangeiros. O caso mais importante envolve o governo britânico, diz Bruno Leal. Nos anos 1950, a Embaixada Brasileira em Londres contactou o Foreign Office, o Ministério das Relações Exteriores britânico, a fim de checar as acusações contra Cucurs, mas houve grande má vontade da diplomacia britânica. O Foreign Office estava mais preocupado com a Guerra Fria do que com o passado do nazismo, conta o historiador. A vida de Kukurs sofreu nova reviravolta em 23 de maio de 1960, quando Adolf Eichmann, um dos criminosos de guerra mais procurados do mundo, foi capturado na Argentina por agentes do Serviço Secreto Israelense, o Mossad, e levado para Israel, onde foi julgado por sua participação no extermínio de judeus. Considerado culpado, Eichmann foi enforcado no dia 1 de junho de 1962. Com medo de ser o próximo na lista dos israelenses, Kukurs chegou a tirar porte de arma, só andava com uma pistola italiana Beretta, e a pedir proteção policial. Conseguiu ambos, diz Bruno Leal. No dia 12 de setembro de 1964, um suposto empresário austríaco chamado Anton Künstler A procura de novas oportunidades de negócio no ramo de entretenimento entrou em contato com Kukurs. Mal sabia ele que Künstler era, na verdade, o codinome de Jakov Meydad, o agente do Mossad responsável pela captura de Eichmann na Argentina. Em pouco tempo, os dois ficaram amigos, mas Meydad, sob o disfarce de Künstler, ganhou a confiança de Kukurs e o convenceu a expandir seus negócios para o Uruguai. Foi assim que, no dia 23 de fevereiro de 1965, os dois embarcaram para Montevidéu. Lá, Künstler ficou de mostrar para Kukurs a casa que eles alugariam como sede de sua empresa de turismo. Ficava no balneário de Shangri-La, distante 18 quilômetros do centro da capital. Quando Kukurs descobriu que tinha caído numa armadilha, foi tarde demais. O governo brasileiro, embora não tenha expulsado Cucurs, jamais lhe concedeu a naturalização brasileira. Isso o deixou vulnerável à extradição, explica Leal. Acontece que nenhum país nunca a solicitou ao Brasil. A Alemanha tentou, no início dos anos 1960, abrir um processo de extradição, mas a ação acabou demorando muito e Cucurs morreu. Se isso tivesse acontecido com mais antecedência, talvez o desfecho de Cucurs tivesse sido outro, bem diferente. Dentro da casa, quatro agentes do Mossad pularam em cima dele. O plano original era imobilizar o criminoso, ler seu veredicto e, em seguida, executar a sentença. Mas, apesar dos seus 64 anos, Cucurs ofereceu resistência. O medo da morte deu a ele uma força incrível. Lutou como um animal selvagem e ferido". Escreveu Künstler no livro A Execução do Carrasco de Riga, escrito em parceria com o jornalista israelense Gart Shimron. Durante a briga, Cucurs berrou em alemão, deixem-me falar, mas ninguém lhe deu ouvidos. Um dos agentes pegou um martelo e desferiu um golpe tão violento na cabeça de Cucurs que espirrou sangue para todos os lados. Em seguida, outro encostou uma arma em sua cabeça e efetuou dois disparos. As duas balas acabaram com a vida de Cucurs. Era terça-feira, 23 de fevereiro de 1965, meio-dia e meia", concluiu. O corpo de Herbert Cucurs foi encontrado por Alejandro Otero, comissário de polícia de Montevidéu, no dia 6 de março de 1965. Estava dentro de um baú de madeira em avançado estado de decomposição. Otero tinha recebido uma denúncia anônima. Sobre o cadáver estava uma nota que dizia, considerando a gravidade dos crimes de que é acusado Herbert Cucurs, especialmente a sua responsabilidade no assassinato de 30 mil homens, mulheres e crianças, nós o condenamos à morte. O grupo que assinou o bilhete se autodenominava Aqueles que Não Esquecerão. Até hoje, o modo como Herbert Kukurs foi morto é lamentado por gente como Efraim Zuroff, diretor do Centro Simon Wiesenthal nos Estados Unidos, pondera a jornalista e escritora Eliette Weitzman. Segundo Zuroff, julgamentos em tribunais são mais úteis à história e à justiça do que execuções sumárias. Se o piloto tivesse sido julgado e se evidências tivessem sido produzidas, isso teria dificultado as elegações de inocência que seus defensores insistem em fazer. Em 2011, nacionalistas letões reivindicaram a inclusão de Herbert Cucurs no Panteão dos Heróis Nacionais. Acrescenta. Você ouviu a reportagem. O nazista que viveu por 20 anos no Brasil e foi executado no Uruguai por agentes do Mossad, publicada pela BBC News Brasil em 6 de março de 2022.
B
Brasileiros inocentes são pegos com uma tonelada de cocaína em um veleiro. Depois que eles são presos, o dono do barco, um inglês, nunca mais dá notícia. São anos sem que ninguém no Brasil saiba o paradeiro dele. Até agora. Está estacionando. Vai sair do carro agora. A Raposa é um podcast investigativo da BBC News Brasil, disponível em todas as plataformas de áudio.
O episódio narra a trajetória de Herbert Cucurs, o aviador letão supostamente responsável por crimes de guerra durante a ocupação nazista da Letônia, que viveu por 20 anos no Brasil sob identidade legal, antes de ser assassinado no Uruguai em 1965 durante uma operação do Mossad. A reportagem, assinada por André Bernardo e lida por Thomas Papon, examina em detalhes sua vida no exílio, as acusações, o impacto social e histórico de sua presença no Brasil e sua morte.
Historiador Bruno Leal (01:20):
“Cucurs não entrou no Brasil através das rotas de fuga usadas por criminosos nazistas depois da guerra. Entrou legalmente, beneficiado pela política imigratória racista que vigorava em nosso país.”
Jornalista Heliette Weizmann (06:00):
“Entre 1941 e 1945, a comunidade de 80 mil judeus letões foi quase extinta. Milhares de judeus alemães e austríacos transportados para Letônia em trens também foram executados, em geral por fuzilamentos em massa.”
Sobre Eichmann e medo de ser o próximo (12:10):
“Com medo de ser o próximo na lista dos israelenses, Kukurs chegou a tirar porte de arma, só andava com uma pistola italiana Beretta, e a pedir proteção policial.”
Descrição da execução por Künstler (14:25):
“O medo da morte deu a ele uma força incrível. Lutou como um animal selvagem e ferido.”
Efraim Zuroff, Centro Simon Wiesenthal (15:50):
“Julgamentos em tribunais são mais úteis à história e à justiça do que execuções sumárias. Se o piloto tivesse sido julgado e se evidências tivessem sido produzidas, isso teria dificultado as elegações de inocência que seus defensores insistem em fazer.”
O episódio oferece um olhar detalhado tanto sobre a pessoa de Herbert Cucurs quanto sobre aspectos mais amplos – como a recepção de criminosos de guerra na América do Sul, as hesitações políticas de governos estrangeiros em perseguir tais figuras, e a ação direta de Israel através do Mossad. A narração articula, com tom jornalístico e investigativo, as nuances morais e históricas acerca do caso, os limites da justiça, e a memória coletiva do Holocausto. É uma peça essencial para o debate sobre impunidade e justiça no pós-guerra.