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O padre que se tornou o primeiro pastor evangélico brasileiro. Reportagem de Edison Veiga, publicada pela BBC News Brasil em 13 de janeiro de 2026. Lida por Thomas Papon. Há 160 anos, pela primeira vez, uma pessoa nascida no Brasil se tornava pastor evangélico. Para além desse marco, o pregador presbiteriano José Manuel da Conceição, nascido em 1822 e morto em 1873, teve uma biografia e tanto. Foi padre católico, passou a ser hostilizado por sua simpatia com o protestantismo e chamado de padre louco e morreu em desgraça no dia de Natal. Hoje Conceição é visto como um símbolo da liberdade de escolha religiosa e a data de sua ordenação como pastor em 1865, 17 de dezembro, tornou-se o dia do pastor presbiteriano. Mas como essa trajetória incomum de padre católico e pastor evangélico começou? José Manuel da Conceição nasceu em uma família católica da cidade de São Paulo. Seu pai era um imigrante português que ganhava vida como pedreiro. Sua mãe era neta de assorianos. Eles se mudaram para Sorocaba, no interior paulista, quando o futuro pastor tinha apenas dois anos. O menino cresceu em ambiente de devoção católica, mas um catolicismo popular, baseado em práticas ritualísticas e não em formação teológica mais profunda, conta a BBC News Brasil o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Conceição tinha um tio-avô que era padre, com quem aprendeu a ler e a escrever, cultivando também o desejo de seguir o sacerdócio. Nos anos 1840, voltou para São Paulo para estudar teologia. Na mesma época, ainda antes de se tornar padre, envolveu-se em atividades católicas na Fazenda Ipanema, área próxima à cidade de Sorocaba, onde funcionava a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, também chamada de Fundição Ipanema, siderúrgica onde trabalhavam diversos imigrantes europeus. Ali acabou conhecendo famílias de fé protestante, na maioria ingleses e alemães, e demonstrou ficar impressionado com a maneira como eles se dedicavam à fé aos domingos e como eram ávidos leitores da Bíblia. Ficou muito amigo de um médico dinamarquês que vivia no povoado e com ele aprendeu geografia, história e alemão. Segundo Gerson Leite de Moraes, provavelmente foi nesse momento, no contato com os europeus, que Conceição começou a se aproximar do protestantismo. Mesmo assim, antes da conversão definitiva, Conceição começou a se formar para ser padre. Mas a historiadora e antropóloga Lidice Meyer afirma que já durante essa preparação para o sacerdócio, Conceição começou a ter questionamentos sobre algumas doutrinas do catolicismo, como o celibato. O contato com estrangeiros de origem protestante o levou a refletir sobre a vivência da religião no protestantismo, com mais leitura e estudo da Bíblia contraposta à religiosidade católica existente no Brasil do século XIX", comenta a historiadora, professora na Universidade Lusófona, em Lisboa. Em 1845, José Manuel da Conceição foi ordenado padre católico. A igreja decidiu enviá-lo, então, para Limeira, no interior paulista. Logo, ele chamou a atenção por sua postura um tanto heterodoxa. O jovem padre não parecia muito preocupado com o rigor dos rituais e era um grande incentivador da leitura bíblica, praxe então vista como o mais comum aos protestantes. Gerson Leite de Moraes conta haver relatos de que certa vez uma paróquia sob comando do padre iria substituir as imagens dos santos E Conceição teria sugerido que as antigas podiam ser quebradas e enterradas, o que foi visto como sinal de desrespeito por católicos mais fervorosos. Passou a ser visto como iconoclasta, aquele que se opõe à veneração de imagens. Na tradição católica, as imagens fazem parte do ambiente religioso, embora se entenda que não se trata de venerá-las, mas sim de utilizá-las como forma de associação às personalidades religiosas que, estas sim, são veneradas. O protestantismo aboliu essa prática e não tem a tradição de representar as figuras consideradas sagradas com imagens. Todo esse quadro fez com que bispos buscassem transferir conceição como forma de abafar o constrangimento social que ele poderia estar causando para a instituição. Por isso, o padre trabalhou em Piracicaba, Monte Imor, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara do Oeste e Brotas, além de Limeira, onde teve duas passagens. Segundo Lídice Maier, Conceição nunca foi bem visto pela hierarquia católica romana. De acordo com uma publicação datada de 1900 do jornal presbiteriano O Puritano, que circulou no Rio de Janeiro entre 1899 e 1953, portanto após a morte de Conceição, o religioso teria comentado sua inadequação perante o catolicismo. Eu estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com os protestantes me tornaram um mau candidato e depois um pobre, muito pobre padre católico romano. Todos os outros padres, exceto o bispo, chamavam-me padre protestante, teria dito Conceição. O então padre realmente manteve contato com pastores e leigos protestantes. Alguns emprestavam a ele obras de teologia reformista. Gradualmente, José Manuel da Conceição via que tinha mais afinidade com uma vertente não católica do cristianismo. A essa altura, ele já era chamado pelo povo de padre louco ou de padre protestante. A jornalista Magali do Nascimento Cunha, autora do livro Do Púlpito às Mídias Sociais, relata que Conceição debatia consigo mesmo e falava sozinha nas pregações. Ainda de acordo com ela, o padre tinha uma postura confrontadora. Questionava muito a Igreja Católica, não se conformava com algumas posições sobre a salvação e se identificava com perspectivas dos protestantes. Resume Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião e integrante do Grupo de Estudos em Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Conceição comungava da ideia protestante histórica de que só a fé bastava para salvar os pecadores. Já o catolicismo tem consolidado a tese de que é necessário praticar boas ações. Outro ponto advogado por Conceição, consonante com a fé protestante e dissonante da doutrina católica, era que os pecados poderiam ser confessados diretamente a Deus, sem a necessidade de um padre como intermediário. Gerson Leite de Moraes afirma que o padre também não tinha paciência para as burocracias institucionais e se incomodava em ter de seguir protocolos. Em 1864, Conceição largou a batina e rompeu definitivamente com o catolicismo. Apresentou renúncia ao bispo em setembro daquele ano. No mês seguinte, quando o pastor norte-americano Alexander Latimer Blackford, nascido em 1829 e morto em 1890, pioneiro da implantação da igreja presbiteriana no Brasil, visitou Brotas, Conceição se converteu publicamente a essa denominação, sendo batizado. Ele havia conhecido Blackford na cidade de Rio Claro, quando ainda atuava como padre. Magali Cunha explica que os presbiterianos são considerados a primeira grande igreja protestante estabelecida no Brasil, porque chegaram ao país no século XIX com uma grande estrutura e número de missionários, expandindo-se bastante, sobretudo no interior de São Paulo. O primeiro templo dessa denominação foi inaugurado no Rio em 1862. A conversão de Conceição insere-se nesse contexto. Em 17 de dezembro de 1865, um ano depois da sua conversão, Conceição foi ordenado pastor evangélico, o primeiro nascido no Brasil. Um feito notável, em parte porque os poucos clérigos de outras igrejas evangélicas eram missionários estrangeiros. Além disso, era a época de catolicismo oficial. Os sacerdotes católicos recebiam remunerações do governo, já que vigorava o regime do padroado. Este era baseado em um acordo no qual a Igreja Católica concedia ao rei o controle burocrático e administrativo da Igreja sob seus domínios. Com a independência do Brasil, o padroado acabou mantido, o regime só foi extinto com a República. O rompimento de conceição com a Igreja Católica não foi fácil. No seu livro Profissão de Fé Evangélica, o próprio religioso cita que sofria perseguições devido à sua conversão ao presbiterianismo, dizendo ter sido alvo de violência física incitada por padres. Magali Cunha afirma que era comum na época uma postura violenta de católicos contra missionários protestantes. Gerson Litty de Moraes ratifica que o ex-padre sofreu preconceitos por parte da igreja católica que ele abandonou. Romper com o catolicismo daquela maneira era abrir mão de uma carreira estável e aderir a uma fé que era demonizada. A sociedade recebeu a notícia como uma coisa ruim. Muitas pessoas passaram a olhar para ele com desconfiança, afirma o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Segundo o teólogo, alguns protestantes passam a ver em José Manuel da Conceição um certo exagero, uma espécie de versão brasileira de reformadores históricos como o alemão Martinho Lutero, o francês Jean Calvino e o suíço Ulrich Zwingliu. Gerson Leite de Moraes ressalta que esse tipo de conversão de padre para pastor era típico, mas facilitava, já que a base teológica comum fazia com que o religioso pudesse exercer o novo ofício de fé sem muita necessidade de novos estudos ou uma nova formação. Para Lydie C. Meyer, a conversão de Conceição estabeleceu um precedente e levou outros padres a seguirem o mesmo caminho. Entre os exemplos mais ilustres estão os casos de Hipólito de Oliveira Cassiano, Manuel Vicente Ferreira e Aníbal Nora, ex-padres que também se tornaram pastores. Antes de Conceição, todos os missionários protestantes no Brasil, do século XVI ao XIX, eram oriundos de outros países, majoritariamente França e Estados Unidos, diz Maier. Embora já houvesse a presença de pastores luteranos e anglicanos, estes não se voltavam à pregação aos brasileiros, mas sim a atender aos imigrantes de fala alemã e inglesa acrescenta. Segundo a especialista, relatos de quem assistiu às pregações protestantes de Conceição destacavam como qualidade o diferencial de ele ser brasileiro e, assim, conseguir se comunicar de maneira mais direta com seus ouvintes. A personalidade do religioso seguiria exótica dentro da nova instituição. Ao contrário do que costuma acontecer, ele não quis ser nomeado para atuar em uma jurisdição. Inquieto, preferiu tornar-se um pregador itinerante. Quase sempre se deslocando a pé, como andarilho, atuou como missionário em boa parte do interior paulista, no sul de Minas Gerais e também no Rio de Janeiro. Era pastor conversionista, viajava pelas cidades pregando e convertendo pessoas, explica Magali Cunha. Conceição visitou diversas comunidades católicas, onde antes havia celebrado missas como padre. Com isso, acabaria convertendo católicos, que o admiravam, para a igreja presbiteriana. Segundo Moraes, ele era um evangelista nato e um homem muito abnegado. Distribuía edições da Bíblia por onde passava e também foi vítima de preconceitos, desconfiança pública e, em alguns casos, violência física. Aos 50 anos, o pastor tinha a saúde debilitada, o que atribuía as andanças como pregador itinerante que era. Seus últimos dias foram de infortúnio. Na semana do Natal de 1873, ele seguia ao Rio de Janeiro a convite de Alexander Blackford. A ideia era descansar um pouco. Tarde da noite, precisou se abrigar na estação de trem do bairro do Campinho, no que é hoje a capital fluminense. Vendo-o, um policial o tomou por um mendigo devido à pobreza de suas roupas, relata Lidice Meyer. Ele foi preso, enquadrado por vadiagem, como era praxe na época. Ficou detido por três dias até que confirmou sua identidade. Posto em liberdade, sem dinheiro para uma passagem de trem, pôs-se a viajar a pé, mas acabou por desmaiar próximo a um armazém, conta a professora da Universidade Lusófona. Um soldado o levou para uma enfermaria em Campinho, onde ele foi tratado como indigente, morrendo no mesmo dia. O ex-padre e pastor morreu em 25 de dezembro, dia de Natal. Lídice Meyer afirma que provavelmente José Manuel da Conceição faleceu devido à fraqueza e às condições de sua prisão, talvez propiciando uma pneumonia. Gerson Leite de Moraes acrescenta que, segundo alguns relatos, o pastor teve em seus momentos finais problemas mentais, falando coisas desconexas. Uma morte muito triste, como um mal trapilho, um sujeito que foi visto como um sem-teto, um preguiçoso, alguma coisa assim, preso por vadiagem, não foi reconhecido, diz o professor. Para a história do cristianismo no país, José Manuel da Conceição é um marco da diversidade. Sua trajetória revela o nascimento do pluralismo religioso no Brasil, avalia morais, carrega a ideia da liberdade de mudança de religião e também o fim do monopólio católico na administração dos bens de salvação, acrescenta, destacando que o pastor teve um impacto muito grande no protestantismo brasileiro. Para Lidice Meyer, a história de Conceição é emblemática por mostrar a capacidade de um indivíduo de romper com as estruturas convencionais a partir de sua própria escolha. Hoje, a liberdade de escolha da religião, assim como o grande trânsito religioso que existe no Brasil, não deixa de ser uma herança de alguns revolucionários como José Manuel da Conceição, que ousaram desafiar as normas pré-estabelecidas, argumenta ela. Você ouviu a reportagem, o padre que se tornou o primeiro pastor evangélico brasileiro, publicada pela BBC News Brasil em 13 de janeiro de 2026.
Host: BBC Brasil
Episode Date: 31 de janeiro de 2026
Narrator: Thomas Papon
Reportagem de: Edison Veiga
Tema central: Trajetória de José Manuel da Conceição, ex-padre católico, pioneiro como primeiro pastor evangélico brasileiro, e seu impacto no pluralismo religioso do Brasil.
Este episódio apresenta a história de José Manuel da Conceição, o primeiro brasileiro a se tornar pastor evangélico. A reportagem aprofunda sua infância, formação religiosa, as razões de sua conversão do catolicismo ao presbiterianismo, o contexto histórico do Brasil do século XIX e o legado que deixou para a liberdade religiosa no país.
“Ficou muito amigo de um médico dinamarquês... e com ele aprendeu geografia, história e alemão.” — Narrador/Reportagem (05:20)
“O jovem padre não parecia muito preocupado com o rigor dos rituais e era um grande incentivador da leitura bíblica, praxe então vista como o mais comum aos protestantes.” (07:10)
“Eu estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com os protestantes me tornaram um mau candidato e depois um pobre, muito pobre padre católico romano.” — José Manuel da Conceição, citado em O Puritano (10:40)
“Romper com o catolicismo daquela maneira era abrir mão de uma carreira estável e aderir a uma fé que era demonizada.” — Gerson Leite de Moraes, Universidade Presbiteriana Mackenzie (17:30)
“Morreu no dia 25 de dezembro, dia de Natal...” (26:40)
“Hoje, a liberdade de escolha da religião... é uma herança de alguns revolucionários como José Manuel da Conceição, que ousaram desafiar as normas pré-estabelecidas.” — Lidice Meyer, Universidade Lusófona (29:45)
Sobre seu desconforto na Igreja Católica:
“Todos os outros padres, exceto o bispo, chamavam-me padre protestante.” — José Manuel da Conceição, citado em O Puritano (10:40)
Sobre a reação social à sua conversão:
“A sociedade recebeu a notícia como uma coisa ruim. Muitas pessoas passaram a olhar para ele com desconfiança.” — Gerson Leite de Moraes (17:35)
Sobre seu legado para o país:
“Sua trajetória revela o nascimento do pluralismo religioso no Brasil... e também o fim do monopólio católico na administração dos bens de salvação.” — Gerson Leite de Moraes (28:10)
Sobre o simbolismo de sua história:
“A história de Conceição é emblemática por mostrar a capacidade de um indivíduo de romper com as estruturas convencionais a partir de sua própria escolha.” — Lidice Meyer (29:45)
A vida de José Manuel da Conceição, narrada nesta reportagem lida, revela não apenas a história de um homem que rompeu com a tradição dominante, mas também um símbolo precoce do pluralismo e da liberdade religiosa no Brasil. Sua luta pessoal contra estruturas estabelecidas abriu caminho para uma diversidade religiosa que caracteriza o país atualmente.