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O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota? Reportagem adaptada do programa de rádio Outlook da BBC, publicada pela BBC News Brasil em 9 de agosto de 2025. Lida por Thomas Papon. O frio e a umidade eram extremos. Perto da cabana de madeira compensada e lonas de plástico, só havia quilômetros e quilômetros de árvores, rochas, alguns animais e o mar. Nem uma única pessoa, muito menos um hospital ou clínica dentária. Mas Bob Cull precisava extrair um dente devido a um doloroso abcesso. Ele pensou em ligar para o exército com o telefone via satélite que havia levado consigo. Mas a ajuda não chegaria com rapidez e teria significado o fim da sua missão, viver um ano sozinho em uma ilha remota na Patagônia chilena. Ele decidiu enviar um e-mail para seu contato de emergência, sua amiga Patty, que é enfermeira. A resposta foi taxativa. Ela me disse para amarrar um barbante no meu dente e ir no outro lado a uma porta, fechar essa porta com força e seguir com a vida, relembra Bob Kull. E ela acrescentou dizendo que as pessoas arrancavam seus próprios dentes sozinhas por séculos. Resolva esse problema. A cabana não tinha uma porta pesada que ele pudesse usar, por isso ele tentou fazer o mesmo, mas amarrando o barbante a uma rocha. Mas ele ficou com medo da dor. O que fiz foi amarrar a ponta do barbante à perna da mesa, pregada no chão, e simplesmente arranquei o dente, puxando minha cabeça para trás, contou ele. Doeu, mas doeu muito mais pensar do que fazer, acrescentou. O ano era 2001 e o americano, então com 54 anos de idade, fazia um doutorado na Universidade de Colúmbia Britânica, no Canadá. Como parte de sua tese, Bob Cole viajou até um remoto arquipélago no Chile para pesquisar como seria viver em isolamento em meio ao clima extremo. Sua estadia solitária foi repleta de situações como a do dente doente. É claro que ele não incentiva as pessoas a realizar procedimentos médicos por conta própria, mas, para ele, o caso mostrou como, muitas vezes, ignoramos nosso potencial. Bob Kul afirma que muitas pessoas receiam a solidão porque acham que não podem lidar sozinhas com determinadas coisas. Por isso, essa experiência foi um longo processo de aprendizado, como contou ao programa de rádio Outlook do Serviço Mundial da BBC. Bob Kool cresceu na pobreza, em uma zona rural do sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Sua cama ficava em um corredor da casa, de forma que ele não tinha privacidade alguma. Ele não descreve maus tratos, mas afirma que seus pais o julgavam constantemente. Somente o amor pela natureza unia a família. No verão, fazíamos piquenique todos os domingos à tarde. Era o que nos mantinha unidos, ele conta. E ali também nasceu seu interesse pela busca de solidão. De certa forma, minha infância foi idílica, mas eu absolutamente não entendia isso. Sentia apenas que havia algo errado em mim. Por isso, cruzar a estrada, pular a cerca de arame farpado e desaparecer em um bosque, nos pastos, em um riacho, simplesmente para ficar sozinho, era uma grande bênção para mim, relembra Kool. Era o único lugar onde podia relaxar e ser quem realmente sou. Acredito que foi ali que começou esse amor por ficar sozinho em um mundo não humano. Kool, já adulto, saiu de casa assim que pôde. Ele viajou pelos Estados Unidos e se mudou para o Canadá para evitar ser recrutado para a Guerra do Vietnã, que durou de 1959 a 1975, com participação nos Estados Unidos a partir de 1965. No Canadá, ele teve inúmeros trabalhos no corpo de bombeiro, em uma serraria, em manutenção e na construção civil. Kuhl chegou a fazer um curso de fotografia de dois anos e também enfrentou uma crise existencial. Eu me havia transformado em um homem machista que se embriagava nos bares e estragava tudo que tocava, segundo ele. Eu sentia um vazio, minha vida estava simplesmente vazia. Eu precisava passar tempo comigo mesmo. Bob Cool decidiu, então, passar por um primeiro longo período de solidão em meio à natureza no norte do Canadá. Por três meses, ele pescou e caçou em um bosque na província da Colômbia Britânica. Em um desses dias, perto de uma praia, ele viu pegadas de urso. Sua aventura passou a ser uma experiência apavorante. Ele precisava decidir entre enfrentar seu medo ou retornar à vida em sociedade. E optou pela primeira opção. Uma noite, deixei a fogueira para trás, caminhei até o bosque e me deitei no solo, em meio à escuridão, ele conta. Fiquei ali por algum tempo e ouvi um urso vir na minha direção. Eu fiquei com medo, cheguei à beira do pânico. Kul se manteve imóvel, afinal, ante a presença de um animal selvagem, qualquer passo imfalso poderia ter significado sua morte. Sem nenhum propósito, já que não tinha ninguém por perto, ele começou a pedir ajuda, até que se rendeu. Se um urso precisar me comer, que assim seja, pensou ele. O urso não chegou perto, e até hoje ele não sabe se era real. Essa experiência marcou profundamente a sua vida. Ele entendeu que havia atingido algo essencial, a rendição espiritual que o conectou a algo maior que ele. Eu tinha a fantasia de que assim seria minha vida, repleta de luz e assombro, explica ele. Era o que eu vinha buscando, uma sensação de presença espiritual. Depois dessa experiência na natureza, Kuhl continuou viajando e chegou a oferecer um curso de vela e mergulho na República Dominicana. Um dia, ele foi atropelado por um motorista embriagado. Kuh passou um ano no hospital em Montreal, no Canadá, e teve uma perna amputada. Essa dolorosa vivência o levou a estudar Biologia, Meio Ambiente e Psicologia na Universidade McGill, no Canadá, aos 40 anos de idade. E quando chegou ao doutorado, seus interesses deram uma reviravolta. Em vez de estudar o mundo que o rodeava, ele começou a analisar a si mesmo. Percebi que o animal que eu realmente queria estudar era eu próprio", destaca ele. Surgiu então a ideia de ir até Última Esperança, um arquipélago no sul do Chile, longe não só de turistas, mas das pessoas em geral. Como alertou o governo chileno, um lugar feroz e extremo. Eu disse aos chilenos que conhecia o frio, pois havia morado no oeste de Vancouver, no Canadá, relembra Kool. Mas eu realmente não tinha ideia do que é o clima frio. Aquele lugar no Chile é onde mais venta na terra. Ele se estabeleceu em uma pequena ilha que não tinha nem nome. Não havia nenhuma pessoa a dezenas de quilômetros de distância. A marinha chilena ajudou Bob Cool a chegar ao arquipélago com todo o seu equipamento. Ele levou consigo uma longa lista de materiais, comida, ferramentas, materiais de construção, uma vara de pesca, um caiaque e um bote inflável, propano, estufa e equipamentos de comunicação. E levou também um gato, que o ajudaria a identificar se seus peixes ainda estavam frescos. Mas ele se transformou em um mimado acompanhante de Cool em sua aventura. Os primeiros meses foram bem difíceis. Bob Cool dormia em uma tenda de campanha. Certa noite, ela ficou inundada pela maré. Isso o obrigou a começar a construir uma cabana com chão erguido sobre postes para evitar o solo úmido. As paredes eram de lona pregada em postes de madeira. Meus dedos estavam rachados pelo frio. Eu não parava de me martelar e praguejar", contou. No seu lar improvisado, Kool conseguiu enfrentar um pouco melhor as duras condições da Patagônia. O vento forte e a umidade castigavam duramente a casinha de madeira em lona. Por isso, Kool passava os dias ocupado com consertos. Eu simplesmente vivia um dia após o outro, mas fiquei bastante ocupado, pois sempre precisava fazer reparos", relembra. E, além disso, também precisava ir pescar, buscar lenha com a motosserra e cortar madeira para o fogo. Kuhl também manteve sua prática de meditação em horários estabelecidos. Os domingos eram meus dias de descanso. Naquele dia da semana eu não fazia nada estruturado, nem mesmo meditar, só ficava ali. E aquele dia da semana era exatamente o mais difícil. Kuhl pensava que durante seu ano na Patagônia ele se sentiria como nos três meses que passou no bosque canadense entrelaçado com o mundo. De fato, havia momentos como aquele, mas depois, principalmente aos domingos, ele caía em profunda depressão, ira, sensação de solidão e alienação. Mas a solidão o ajudou a descobrir seu potencial, como aconteceu quando arrancou o dente, e a se entregar ao momento. E também ofereceu um terceiro grande ensinamento, a aceitação. Acredito que a lição mais importante que aprendi foi a equanimidade, a arte de se manter estável em situações boas ou ruins, descreve ele. Aceitar as coisas como elas são. Essa ideia veio a ele quando visitava uma geleira que havia observado nos seus mapas da Patagônia. Kul ficou ainda mais isolado, longe da sua pequena cabana e do gato que lhe fazia companhia. Na mesma forma que não consigo controlar o clima exterior, mas posso aprender a viver com ele e não me sentir tão mal quando faz frio ou chove, posso fazer o mesmo com o clima interior. Às vezes, dentro de nós, faz sol e calor", ele conta. Às vezes a névoa e às vezes a tormenta. Parece bobagem, não é verdade? A afirmação de que as coisas são como são é algo tão básico. Mesmo assim, dedicamos muito tempo e energia a negar a realidade, a negar que as coisas sejam assim, ou a lutar contra a realidade, diz ele. Kull passou pouco mais de um ano na Patagônia até que sua amiga Patti chegou com a marinha chilena para buscá-lo. Ele afirma que já estava acostumado com a solidão e não tinha pressa para finalizar sua aventura. Quando o barco da marinha veio me buscar, fui até a popa e simplesmente me sentei e observei como a ilha desaparecia à distância, recorda ele. Bob Kull comenta que última esperança havia se transformado, afinal, em um lar. Atualmente, ele mora em Vancouver, no Canadá, e ainda tem momentos de total solidão. Ainda passa um mês acampando sozinho, ele conta. Dirijo até o norte e, dali, pago um piloto para me levar a um lago remoto com seu hidroavião e me deixar ali. Onde fica esse lago? Kool se nega a dizer. Ele não quer que ninguém interrompa sua solidão. Você ouviu a reportagem O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota, publicada pela BBC News Brasil em 9 de agosto de 2025.
Episode Date: September 9, 2025
Narrator: Thomas Papon
Source: Reportagem publicada pela BBC News Brasil, baseada no programa de rádio Outlook (BBC World Service)
This episode presents the remarkable story of Bob Kull, an American who spent a year in extreme isolation on a remote island in Patagonia, Chile, accompanied only by a cat. The piece explores his motivations, trials, memorable experiences—including self-extraction of a tooth—personal background, and the life lessons learned through solitude and exposure to the relentless Patagonian elements.
Setting:
Self-Sufficiency in Adversity:
Meditation and Routine:
Childhood Roots:
Adult Life and Search for Self:
Adaptation to Harsh Climates:
Daily Survival:
The Role of the Cat:
Emotional Highs and Lows:
Self-Discovery and Equanimity:
The End of the Experiment:
Lasting Impact:
This episode illuminates the profound psychological and spiritual insights Bob Kull found in extreme isolation. It takes listeners through harrowing self-sufficiency, raw moments of existential crisis, and the solace of finding equanimity in both the wild environment and one’s inner weather. Kull’s experience is a testament to human resilience and the transformative power of solitude.