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BBC lê. Os trens da felicidade que levaram 70 mil crianças pobres para viver com famílias mais abastadas na Itália. Reportagem adaptada do programa de rádio Witness History da BBC. Publicada pela BBC News Brasil em 31 de agosto de 2025. Lida por Silvia Salek. Foi um dia de desespero para as crianças e para as mães. É dessa forma que Bianca Daniello lembra o momento em que, com dez anos de idade, ela embarcou em um dos chamados trens da felicidade. O ano era 1947. Eram evidentes os estragos na Itália causados pela Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, durante o regime fascista de Benito Mussolini. A pobreza se intensificava, principalmente no sul do país, em pleno período de pós-guerra. E os trens da felicidade surgiram como uma tentativa de melhorar a situação de crianças que viviam literalmente na miséria. Bianca e outras 70 mil crianças pobres atravessaram o país de trem entre 1945 e 1952. Elas iriam passar uma temporada com famílias em melhor situação financeira, que pudessem dar a elas uma vida melhor, ainda que por um período de apenas alguns meses. O projeto ficou conhecido na Itália como Treni della Felicità, organizado pela União das Mulheres Italianas e pelo Partido Comunista do país. Bianca Daniello não sabia, mas aquela viagem no Tren da Felicidade mudaria sua vida para sempre. Ela foi criada na cidade de Salerno, a 55 quilômetros da sudeste de Nápoles, na Itália. Aquela foi uma das regiões mais afetadas pela Segunda Guerra Mundial. Agora com 88 anos, ela afirma que quando pensa naquela época, surgem recordações de sujeira e miséria. Não tínhamos água nem mesmo para beber, muito menos para tomar banho, lembra? Em todas as famílias, não havia o que comer. Eu quase morri. Meus pulmões ficavam doentes porque não comíamos o suficiente. Não havia nada e as crianças contraíam tuberculose com facilidade. Recorda ela em entrevista ao programa de rádio Witness History do Serviço Mundial da BBC. O pai de Bianca morreu com 40 anos de idade, deixando sua mãe viúva, com ela e mais sete filhos para criar. Ninguém ganhava salário em casa. Nos cuidávamos como podíamos. No pior dos casos, você só esperava a morte. E, na época, muitas mães achavam que seus filhos mortos, pelo menos, não sofreriam mais. Acrescenta. A fome era uma presença constante. Bianca Daniello conta que, antes do fim da guerra, as crianças chegaram a comer grama quando podiam encontrá-la. Havia um governo fascista na época de Mussolini e cada família, conforme a quantidade de filhos que tivesse, recebia um pedaço de pão. Um carro distribuía cupões e você ia até a loja e conforme os cupões que tivesse, eles te davam uma fatia de pão. Quando havia água naquela época, as crianças corriam até a fonte, já que o pão embebido em água se expandia. Prossegue. Essa miséria foi além da queda do regime Até que o médico da cidade, Mário del Santo, trouxe a boa notícia Havia a possibilidade de uma viagem que poderia retirar as crianças de sua precária situação Eles só precisariam pegar um determinado trem em direção ao norte do país Teresa Notti foi uma das líderes do Partido Comunista Italiano e uma das promotoras dessa campanha de solidariedade Os pedidos chegavam de toda parte, contou ela sobre o projeto segundo a revista italiana Il Mulino. Havia muitas crianças famintas, o clima estava ficando frio, úmido e não havia carvão. Havia muitíssimos casos lamentáveis. As crianças dormiam em caixas de serragem para se aquecer, sem lençóis nem cobertores. Crianças sujas, cheias de crostas e piolhos, descreveu. Foi assim que nasceu em Milão, no norte da Itália, a ideia dos trens da felicidade. Nas mãos de Notte e da União das Mulheres Italianas, se tornou realidade com o apoio de pessoas de diferentes lugares, que se dispuseram a receber milhares de crianças. A cidade de Reggio Emilia foi a primeira a se oferecer a acolher duas mil crianças, logo seguida por Parma, Piacenza, Modena, Bologna e Ravenna. O primeiro trem, com 1.800 crianças, saiu em 16 de dezembro de 1945, de Milão para Rédio Emília. Seria o primeiro de muitos. Nos anos que se seguiram, a ajuda conjunta de diferentes organizações civis e políticas fez com que a iniciativa se ampliasse por toda a Itália, com especial ênfase no sul, onde vivia Bianca Daniello. Como muitas outras, a mãe de Bianca viu nos trens da felicidade uma oportunidade de oferecer uma vida melhor para seus filhos. E um dia, no ano de 1947, ela preparou para a viagem a menina e sua irmã menor, Ana Maria. Minha mãe me mandou fazer um vestidinho, lembra Bianca Daniello, e eu levava sandálias feitas de papelão. Ela conta que, na estação de trem, as crianças e suas mães sofriam com a despedida. Os próprios funcionários do trem choravam porque as crianças não queriam se separar de suas mães, mas as mães as deixavam partir com a esperança de um futuro melhor, de uma realidade diferente para elas. Conta. e ela recorda a viagem de trem. Pela primeira vez, eu vi árvores, casas, vilarejos que passavam com rapidez. Nunca tinha visto um trem, eu fiquei encantada. Agora, octogenária, ela conta que seu rosto e o de sua irmã ficaram pretos com a fuligem que entrava pela janela, da qual não conseguiam tirar os olhos. Mas logo, ocorreu algo inesperado. Trinta crianças desceram em Beluno e não percebi que minha irmã era uma delas. Quando Bianca Daniela acordou, percebeu que sua irmã não estava mais a seu lado. Eu chorei muito por Ana Maria, porque minha mãe me havia confiado seus cuidados, mas eu também era pequena. Lamenta. Elas ficariam sem se ver por muitos anos. Depois de percorrerem mais de 700 quilômetros, Bianca Daniello e outras dezenas de crianças chegaram à cidade italiana de Mestre, perto de Veneza, onde foram recebidas pela chuva. A água deixou suas sandálias de papelão em pedaços, e a noite não havia sido fácil nem para ela, nem para os outros pequenos que viajavam no mesmo trem. Todas aquelas crianças passaram a noite no trem sem seus pais, com medo de que os comunistas fossem comer suas mãos, porque o padre da minha cidade nos dizia, vocês não devem ir para mestre porque os comunistas comem as mãos das crianças. As cuidadoras que viajavam no trem deram a elas uma bebida quente quando chegaram, enquanto começavam a surgir as famílias que haviam decidido adotar as crianças. Não eram necessariamente famílias ricas. Especialistas que estudaram o assunto indicam que as famílias que acolheram as crianças, em sua maioria, eram da classe trabalhadora. É claro que a situação delas era melhor do que a dos camponeses do sul, mas elas também não tinham dinheiro de sobra. Uma senhora chamada Rosa se aproximou de mim e me disse, que menina bonita, como você se chama? Ela tentou ser doce e amável para que eu não tivesse medo e me perguntou, você quer vir comigo? Temos animaizinhos, patos, um gato, um cachorro, e me pegou pela mão. A menina começou então a viagem para sua nova casa com Rosa e Luigi, que Bianca começou a chamar de tia e tio. Ao chegar, ela percebeu que eles haviam falado a verdade. Havia um cachorro, um gato e coelhinhos recém-nascidos. Todas essas distrações fizeram bem para mim, porque assim eu não pensava em mais nada. Eu vi aquela casa limpa, bonita, com água na mesa, polenta, pão, guardanapos, coisas que eu nunca havia visto na vida. Eu comi muitíssimo, comi demais. Bianca passou quatro meses com Rosa e Luide, mas o tempo passou voando e chegou a hora de voltar. Eu chorava, chorava, gritava, eu não queria voltar para minha mãe. Eu precisava regressar porque a regra era que depois de quatro meses precisávamos voltar para nossas famílias, mas eu não queria voltar. E não era só eu, todas as crianças choravam porque não queriam voltar para Salerno. Bianca Daniello não era a única a resistir a sua partida. Rosa e Luide também se apegaram a ela, a ponto de não quererem deixá-la ir. Mas a menina voltou para sua mãe. Não passaria muito tempo até que Luide tomasse a decisão de ir buscá-la e fazer o possível para que a mãe de Bianca permitisse sua adoção. Quando vi Luide, eu o agarrei pela mão e não soltei. Não soltei aquela mão até voltarmos para a mestre. Bianca viveu uma vida totalmente diferente da que tinha em Salerno. Ela ficou na casa dos seus novos pais até completar 21 anos de idade quando se casou. Diversos livros e pesquisas resgataram a história dos trens da felicidade. O romance da escritora italiana Viola Ardoni, Crianças da Guerra, A História sobre o Trem Italiano da Felicidade, conta a história de um menino que, como ela, foi acolhido por outra família. Em 2024, a Netflix produziu um filme baseado no livro de Ardoni chamado O Trem Italiano da Felicidade. Você ouviu a reportagem Os trens da felicidade que levaram 70 mil crianças pobres para viver com famílias mais abastadas na Itália, publicada pela BBC News Brasil em 31 de agosto de 2025.
Date: October 9, 2025
Host: Silvia Salek (BBC Brasil)
Based on: Report from Witness History, BBC & BBC News Brasil
This episode of BBC Lê presents a powerful retelling of Italy's "Treni della Felicità" ("Trains of Happiness") a humanitarian initiative that, between 1945 and 1952, transported around 70,000 impoverished children from the post-war south to more prosperous families in the north. Through first-hand memories, most notably from Bianca Daniello, the episode examines the motivation, execution, and legacy of the program, painting an intimate portrait of hope, trauma, and enduring change during Italy's difficult post-WWII years.
On Childhood Despair
“No pior dos casos, você só esperava a morte. E, na época, muitas mães achavam que seus filhos mortos, pelo menos, não sofreriam mais.”
— Bianca Daniello [05:00]
On Hunger and Survival
“Antes do fim da guerra, as crianças chegaram a comer grama quando podiam encontrá-la.”
— Bianca Daniello [04:00]
On the Pain of Parting
“Os próprios funcionários do trem choravam porque as crianças não queriam se separar de suas mães, mas as mães as deixavam partir com a esperança de um futuro melhor...”
— Bianca Daniello [09:15]
On Arrival and Kindness
“Ela tentou ser doce e amável para que eu não tivesse medo e me perguntou, você quer vir comigo? Temos animaizinhos, patos, um gato, um cachorro...”
— Bianca Daniello [15:00]
On Adapting to a New Life
“Eu vi aquela casa limpa, bonita, com água na mesa, polenta, pão, guardanapos, coisas que eu nunca havia visto na vida. Eu comi muitíssimo, comi demais.”
— Bianca Daniello [16:15]
This episode delivers a poignant, deeply human account of the Trens da Felicidade, reinforced by Bianca Daniello’s moving testimony. The history serves as a reminder of the resilience of children and families in the face of unimaginable adversity, and the lasting impact of acts of solidarity in rebuilding lives.
Recommended for: Listeners interested in post-war European history, humanitarian stories, and Italian social history.