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Este podcast é apoiado pelas redes sociais do Reino Unido.
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Por que a popularidade de Freud e da psicanálise cresce em épocas de crise e autoritarismo como agora? Artigo de Carolyn Laubender, professora do Departamento de Estudos Psicossociais e Psicoanalíticos da Universidade de Essex, no Reino Unido, para o site The Conversation. Publicado pela BBC News Brasil em 4 de abril de 2026. Lido por Thomas Papon. A psicanálise está em alta. Contas no Instagram dedicadas à teoria freudiana acumulam quase um milhão e meio de seguidores. Programas de TV como o Couples Therapy, terapia de casais de Orna Guralnik, tornaram-se fenômenos. Artigos de opinião em publicações como The New York Times e The Guardian apontam para um renascimento da psicanálise. Para muitos, esse retorno é uma surpresa. Ao longo dos últimos 50 anos, a psicanálise, movimento intelectual e prática terapêutica, criada em 1900 em Viena, na Áustria, por Sigmund Freud, que nasceu em 1856 e morreu em 1939, foi rejeitada e menosprezada em muitos círculos científicos. Especialmente no mundo anglófono, países de língua inglesa, o avanço da psicologia comportamental e a expansão da indústria farmacêutica empurraram terapias baseadas na conversa, como a psicanálise, para as margens. Mas há uma história global mais complexa. Durante a vida de Freud, foram criados 15 institutos psicanalíticos em todo o mundo, incluindo os da Noruega, da Palestina, da África do Sul e do Japão. Em várias partes do planeta, de Paris a Buenos Aires, de São Paulo até Lviv, a psicanálise floresceu ao longo do século XX. Em toda a América do Sul, ela continua a exercer grande influência clínica e cultural. Na Argentina, ela é tão popular que se brinca que não se embarca em um voo para Buenos Aires sem que haja ao menos um psicanalista a bordo. Há várias razões para a psicanálise ter se tornado popular em alguns países e não em outros. Uma delas está ligada à história da diáspora judaica do século XX. Com a expansão do Terceiro Reich, muitos psicanalistas e intelectuais judeus fugiram da Europa Central antes do Holocausto. Cidades como Londres, que acolheu Freud e toda sua família, foram culturalmente transformadas por esse fluxo de refugiados. Mas há outro fator, talvez menos evidente, a ascensão do autoritarismo. A psicanálise pode ter surgido e se difundido no contexto da Europa em guerra, mas sua popularidade cresceu em paralelo a crises políticas. Veja o caso da Argentina. À medida que o peronismo autoritário de esquerda deu lugar a uma guerra suja apoiada pelos Estados Unidos, esquadrões paramilitares sequestraram, mataram ou fizeram desaparecer cerca de 30 mil ativistas, jornalistas, líderes sindicais e dissidentes políticos. Perda, silêncio e medo passaram a marcar o mundo emocional de muitas pessoas. Ao mesmo tempo, porém, a psicanálise, com seu interesse por trauma, repressão, luto e verdade inconsciente, se tornou uma forma significativa de lidar com a opressão. Espaços de escuta e fala sobre trauma e perda passaram a funcionar como uma estratégia de resposta e talvez até de resistência a esse desastre político. Em uma cultura de mentiras de Estado e silêncio imposto, simplesmente dizer a verdade era um ato radical. Muitos dos primeiros seguidores de Freud usaram a psicanálise de maneira semelhante. Diante dos horrores inexplicáveis do fascismo europeu, pensadores como Wilhelm Reich, Otto Fenichel, Theodor Adorno e Erich Fromm viam a psicanálise, frequentemente associada ao marxismo clássico, como uma ferramenta para compreender como se formam e são desejadas personalidades autoritárias. Do outro lado do mundo, na Argélia, o psiquiatra e ativista anticolonial Frantz Fanon recorreu à psicanálise para denunciar os regimes raciais opressivos do colonialismo francês. Para todos esses médicos e filósofos, ela era uma ferramenta essencial de resistência política. Algo semelhante parece estar acontecendo hoje. À medida que novas formas de autoritarismo multinacional emergem, imigrantes são demonizados e genocídios são transmitidos ao vivo, a psicanálise volta a ganhar força. E para alguns neuropsicanalistas como Mark Solms forneceram os elementos necessários para a retomada da psicanálise. Em seu novo livro, The Only Cure, Freud and the Neuroscience of Mental Healing, A Única Cura, Freud e a Neurociência da Cura Mental, em tradução literal, Mark Sonz usa a neurociência, especialmente seu trabalho sobre os sonhos, para argumentar que a teoria freudiana do inconsciente estava correta desde o início. Segundo Sonz, embora possam ser eficazes no curto prazo, medicamentos oferecem apenas soluções temporárias. Somente os tratamentos psicanalíticos, diz ele, proporcionariam efeitos duradouros. Mark Soms faz parte de um grupo crescente de clínicos e intelectuais, cujo trabalho recolocou a psicanálise em evidência cultural. Enquanto Soms se aproxima da neurologia, outros, como Jameson Webster, Patricia Girovici, Avgi Seketopoulou e Lara Shih, recolocam a dimensão política da psicanálise no centro do debate. O trabalho deles mostra como conceitos da psicanálise, o inconsciente, a pulsão de morte, a bissexualidade universal, o narcisismo, o ego e a repressão ajudam a interpretar o momento contemporâneo, principalmente quando outras teorias se mostram insuficientes. Em um mundo de crescente mercantilização, a psicanálise resiste a definições comercializadas de valor. Ela valoriza o tempo profundo em um contexto de atenção cada vez mais fragmentada e insiste na importância da criatividade e da conexão humanas em um cenário de saturação por inteligência artificial. A psicanálise também questiona concepções convencionais de gênero e identidade sexual e prioriza as experiências individuais de sofrimento e desejo. As razões para o ressurgimento da psicanálise refletem aquelas que impulsionaram suas ondas anteriores de popularidade. Em momentos de instabilidade política, violência de Estado e traumas coletivos, ela oferece ferramentas para dar sentido ao que parece não ter sentido. A psicanálise fornece um quadro para compreender como impulsos autoritários se enraizam nas subjetividades individuais e se disseminam pelas sociedades. Além disso, em uma era dominada por soluções rápidas e intervenções farmacológicas na saúde mental, a psicanálise insiste no valor de uma atenção prolongada à complexidade humana. Ela se recusa a reduzir o sofrimento psíquico a desequilíbrios químicos no cérebro ou a sintomas a serem apenas controlados. Em vez disso, trata o mundo interno de cada indivíduo como algo digno de exploração profunda. O interesse coletivo renovado pela psicanálise também está levando o próprio campo a se transformar. Suposições antigas, como a ideia de neutralidade do terapeuta ou de que a heterossexualidade é a norma, vêm sendo questionadas. A prática psicanalítica também está sendo repensada em diálogo com diversos movimentos de justiça social e solidariedade. É um momento em que muitos buscam redefinir o que a psicanálise pode ser. Resta saber se esse renascimento vai perdurar, mas por hora, enquanto as crises políticas se intensificam e as abordagens terapêuticas tradicionais parecem insuficientes, as ideias de Freud sobre a psique humana encontram novos públicos ávidos por compreender a obscuridade dos nossos tempos. Você ouviu o artigo Por que a popularidade de Freud e da psicanálise cresce em épocas de crise e autoritarismo como agora, de Carolyn Laubender, professora do Departamento de Estudos Psicossociais e Psicoanalíticos da Universidade de Essex, no Reino Unido, para o site The Conversation, publicado pela BBC News Brasil em 4 de abril de 2026.
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E aí
Host: BBC Brasil
Episódio: Por que a popularidade de Freud e da psicanálise cresce em épocas de crise e autoritarismo como agora
Data: 21 de maio de 2026
Baseado no artigo de: Carolyn Laubender, professora no Departamento de Estudos Psicossociais e Psicoanalíticos da Universidade de Essex
Lido por: Thomas Papon
O episódio examina o ressurgimento da psicanálise e das ideias de Freud em períodos de crises políticas e autoritarismo, relacionando esse fenômeno a contextos históricos e movimentos sociais. Traz exemplos históricos, implicações clínicas e culturais, e reflete sobre o papel da psicanálise como ferramenta de resistência e compreensão diante de traumas coletivos.
“Em uma cultura de mentiras de Estado e silêncio imposto, simplesmente dizer a verdade era um ato radical.”
— Carolyn Laubender (06:20)
"Para todos esses médicos e filósofos, ela era uma ferramenta essencial de resistência política."
— Carolyn Laubender (07:20)
"Somente os tratamentos psicanalíticos, diz ele, proporcionariam efeitos duradouros."
— Sobre Mark Solms (08:10)
"A psicanálise valoriza o tempo profundo em um contexto de atenção cada vez mais fragmentada..."
— Carolyn Laubender (08:40)
O episódio adota uma análise sócio-histórica, acessível e didática, com exemplos históricos, referências acadêmicas e tom reflexivo. Apresenta a psicanálise tanto como prática clínica quanto fenômeno cultural e político, destacando sua relevância para compreender e resistir às crises contemporâneas.
Este episódio mostra como a psicanálise, frequentemente desacreditada em tempos de estabilidade e avanço tecnocientífico, ressurge com força sempre que sociedades são atravessadas por traumas, repressão e autoritarismo. Seja como escuta do trauma, ferramenta de resistência, ou via de compreensão do indizível, as ideias de Freud encontram eco e renovação quando "o mundo parece perder o sentido", desafiando certezas, propondo complexidade e oferecendo esperança de reinscrição do sofrimento humano como experiência digna de compreensão profunda.