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BBC Lê Por que produtos naturais nem sempre são melhores que sintéticos? Reportagem de Amanda Ruggeri, da BBC Future, publicada pela BBC News Brasil em 25 de fevereiro de 2025 Lida por Laís Alegretti Antes de escrever essa reportagem, marquei horário na cabeleireira. Enquanto ajustava a capa de corte em torno do meu pescoço, ela apontava para o shampoo que ia usar. É uma linha nova, feita com 90% de ingredientes naturais, explicou ela. O folheto anexo continha descrições resumidas de cada um dos produtos da linha. Um dos shampoos continha extrato de figo da Índia e outro usava frutos de açaí. Um terceiro incluía sementes de chia. Assim que entrei em casa, peguei os frascos de xampu que comprei e olhei mais detalhadamente a lista de ingredientes. Álcool cetearílico, glicerina, cloreto de B-entrimônio e miristato de isopropila. Todos são substâncias comuns feitas em laboratório. Nenhum desses ingredientes me preocupava, mas mesmo sendo empregados em quantidades muito maiores do que qualquer um dos extratos de frutas, nenhum deles é destacado nos anúncios da marca. A tática empregada, aparentemente com sucesso no meu caso, existe há séculos. Ela é adotada com frequência nas redes sociais, por marcas e influenciadores, e por políticos de todo o planeta. O chamado apelo à natureza, ou falácia naturalista, é um dos tipos mais comumente observados de falácias lógicas, falhas de raciocínio que podem fazer uma afirmação parecer surpreendentemente convincente. Sempre que você ouvir alguém afirmar que um produto ou prática é superior porque é natural ou que outra é inferior ou até prejudicial porque não é natural, é porque a falácia naturalista está em andamento. Dela surgem os argumentos que defendem que determinado produto segue os padrões da natureza ou que outra substância é ruim especificamente porque é química ou sintética. A natureza é maravilhosa em muitos aspectos e tem muito a nos ensinar. Mas por que não é verdade que algo é melhor por ter vindo da natureza? A resposta é porque a natureza não tem intenções, pelo menos não em um sentido consciente. Ou seja, ela não tem a intenção de fazer o bem ou de ajudar os seres humanos, especificamente falando. Não precisamos filosofar muito para chegar a essa conclusão. Basta considerar algumas das criações da natureza. O arsênio, por exemplo, é um produto natural que pode matar um ser humano adulto com uma dose de apenas 70 miligramas. Outro produto natural é o amianto, que é cancerígeno. O cianeto pode matar com até 1,5 miligrama por quilo de peso do corpo se for ingerido. Ele é uma fitotoxina, produzida naturalmente por mais de duas mil espécies de plantas, incluindo as que dão origem a amêndoas, damascos e pêssegos. Por isso, alguns remédios naturais, frequentemente comercializados, podem na verdade ser perigosos para o consumo, como sementes de damasco moídas. Essa é a questão do uso da palavra natural, tão comum nos anúncios de diversos produtos. Trata-se de um termo mal definido que não significa necessariamente que o produto será melhor ou até mais seguro do que outras opções. Uma pesquisa sobre produtos para dentição de bebês, rotulados como naturais, descobriu, por exemplo, que mais de 370 crianças sofreram efeitos adversos, como convulsões e delírios. Os produtos continham níveis inconsistentes, às vezes elevados, de beladona, uma planta usada na preparação de alguns medicamentos, mas que é tóxica em altas dosagens. É claro que também podemos observar fenômenos naturais, além dos ingredientes empregados em produtos A varíola, por exemplo, chegou a matar uma em cada três pessoas infectadas pela doença Esse vírus de ocorrência natural foi responsável pela morte de uma quantidade surpreendente de pessoas, 300 a 500 milhões somente no século XX, até que foi erradicado graças à vacinação A era venenosa, a poliomielite, os tornados, as picadas de insetos e a eventual e inevitável morte do sol, que um dia irá por fim a toda a vida na Terra, também são eventos naturais Em um ensaio sobre a natureza publicado em 1874, o filósofo britânico John Stuart Mill indicou que esse é um dos principais problemas dos chamados apelos à natureza. Para ele, ou será certo matar, porque a natureza mata, torturar, pois a natureza tortura, arruinar e devastar, porque a natureza assim o faz, ou não devemos considerar o que a natureza faz, mas sim fazer aquilo que é bom fazer. Em outras palavras, se a premissa do apelo à natureza for correta e tudo o que for natural deve ser melhor apenas porque é natural, precisaremos também estar dispostos a aceitar tudo o que a natureza traz. Caso contrário, provavelmente não acreditamos, na realidade, que tudo é inerentemente melhor quando é natural. Paralelamente, existem centenas de coisas que podemos considerar não naturais e que, na verdade, melhoraram muito a vida de muitas pessoas. Antes da medicina moderna, mais de uma a cada 100 mulheres morria ao dar à luz Atualmente, nos países ricos industrializados, como o Reino Unido, morria uma mulher a cada 10 mil Antes da difusão global das vacinas, a coqueluche matava uma a cada 10 crianças infectadas Depois da vacinação, as mortes caíram para uma fração, mais especificamente 1,157 avos dos números anteriores Até aqui falamos apenas da medicina, mas basta olhar em volta para observar dezenas de outros exemplos. Usar óculos, refrigerar os alimentos ou ligar o aquecimento no inverno, por exemplo, podem não ser ações naturais. Mas, para muitos de nós, é uma alternativa melhor do que andar por aí sem enxergar direito, deixar a carne estragar ou ter arrepios de frio no inverno. Grande parte dos alimentos que consumimos não chega até nós na mesma forma em que a natureza os apresenta. Nós os processamos e cozinhamos. A colheita, moagem e o processamento dos grãos ajudaram na transição que fez com que a nossa espécie deixasse de ser nômade, caçadora e coletora, passando a ser formada por agricultores estabelecidos, capazes de construir sofisticadas civilizações. Isso também ocorreu com o nosso cultivo e cruzamento das plantas Eles fizeram com que muitos dos alimentos nutritivos que consideramos naturais hoje em dia, desde a cenoura até a banana moderna, tenham aparência e sabor muito diferentes dos seus antepassados silvestres É claro que não estaria certo sugerir que os produtos fabricados pelo homem não nos causam problemas, como no caso da poluição gerada pelos plásticos sintéticos ou do uso de armas explosivas. Isso também não significa que, em muitos casos, a opção mais natural não possa ser a melhor para nós. Mas o fato é que não podemos considerar que a opção mais natural é melhor simplesmente por ser natural, apesar da frequente tendência entre as pessoas de acreditar no contrário. As cenouras podem ser melhores para nós do que os salgadinhos, mas o paracetamol, sintetizado quimicamente, também é melhor que o arsênio, de ocorrência natural. Alguns desses exemplos indicam outro grande problema do apelo à natureza, como determinar o que é natural e o que não é. Afinal, os seres humanos vêm da natureza. Por isso, se algo produzido por um animal ou planta é natural, por que aquilo que os humanos fazem não é? E como ficam as criações, que são misturas do que tradicionalmente chamamos de natural e substâncias ou processos feitos pelo homem? Como ficam as vacinas, que são derivadas de partes de um vírus ou bactéria natural e, quando injetadas, ajudam a ensinar o nosso sistema imunológico a se defender naturalmente do mesmo patógeno no futuro? Como todas as palavras realmente interessantes, natureza tem inúmeros significados, escreve a historiadora de ciência Lorraine Dustin. A palavra pode significar quase tudo, dependendo do contexto. E essa difusão de significados é exatamente o que faz dela um termo tão versátil para a publicidade. E explica por que somos tão facilmente convencidos. Mas existe ainda outro problema. Mesmo se houvesse uma linha divisória clara entre humano e natural, muitas vezes não sabemos ao certo o que realmente é sintético e o que não é. Quando escovamos os dentes, por exemplo, é natural escovar os dentes com um creme dental com flúor? Que tal fazer a escovação com um creme sem flúor? O instinto de muitas pessoas poderá dizer que escovar com flor não é natural, e o creme dental sem flor é natural. Mas o fluoreto é um mineral de ocorrência natural. Ele pode ser encontrado no solo, na água e nas rochas. E uma das alternativas comuns dos cremes dentais naturais é a nano-hidroxiapatita, um componente sintético. E precisamos também considerar que a limpeza dos dentes, certamente com os produtos que usamos hoje em dia, está longe de ser natural. O máximo que os outros primatas fazem para escovar seus dentes é passar fio dental, entre aspas, com o que estiver à mão, como penas de aves. Mesmo se quiséssemos escovar como faziam nossos ancestrais humanos, precisaríamos esfregar os dentes com galhos, pelos de porcos ou até espinhos de porcos espinhos. Outra pergunta, se eu dissesse para você que fiz uma bebida composta por 99% de monóxido de dihidrogênio, você aceitaria? O nome químico parece descrever algo bastante sintético, mas basta pensar um pouco nele. O monóxido de dihidrogênio, naturalmente, é composto por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Sua fórmula química talvez pareça mais familiar, H2O. Sim, estamos falando da água. Por tudo isso, na próxima vez em que você observar o anúncio de um produto baseado na sua origem natural, ou alguém atacando algum produto por ser sintético, vale a pena questionar o que aquilo realmente significa. É possível que seja preciso questionar por que as pessoas responsáveis por aquele produto ou prática estão fazendo uso da falácia do apelo ao natural para convencer o público dos seus valores, em vez de simplesmente apresentar os argumentos lógicos que justificam por que aquela é realmente a melhor opção. Você ouviu a reportagem Por que produtos naturais nem sempre são melhores que sintéticos, publicada pela BBC News Brasil em 25 de fevereiro de 2025. e aí.
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BBC Lê – Por que produtos naturais nem sempre são melhores que sintéticos
Host: BBC Brasil | Reportagem: Amanda Ruggeri, BBC Future | Lida por: Laís Alegretti
Date: 24 January 2026
Neste episódio, a equipe da BBC lê a reportagem “Por que produtos naturais nem sempre são melhores que sintéticos”, escrita por Amanda Ruggeri para a BBC Future e publicada pela BBC News Brasil. O texto aborda a crença popular de que produtos naturais são superiores aos sintéticos, explorando as origens desse pensamento, desmontando a chamada “falácia do apelo à natureza” e questionando a real diferença entre o que consideramos natural e sintético. São apresentados exemplos históricos, científicos e cotidianos para ilustrar que nem sempre “natural” é sinônimo de melhor ou mais seguro.
Explicação e definição (03:13):
Exemplos de perigos naturais (04:25):
“Sempre que você ouvir alguém afirmar que um produto ou prática é superior porque é natural… é porque a falácia naturalista está em andamento.”
— Amanda Ruggeri (03:27)
“O arsênio, por exemplo, é um produto natural que pode matar um ser humano adulto com uma dose de apenas 70 miligramas.”
— Amanda Ruggeri (04:32)
“Ou será certo matar, porque a natureza mata, torturar, pois a natureza tortura, arruinar e devastar, porque a natureza assim o faz, ou não devemos considerar o que a natureza faz, mas sim fazer aquilo que é bom fazer.”
— John Stuart Mill, citado por Amanda Ruggeri (07:10)
“As cenouras podem ser melhores para nós do que os salgadinhos, mas o paracetamol, sintetizado quimicamente, também é melhor que o arsênio, de ocorrência natural.”
— Amanda Ruggeri (09:59)
“Como todas as palavras realmente interessantes, natureza tem inúmeros significados... pode significar quase tudo, dependendo do contexto.”
— Lorraine Dustin, citada por Amanda Ruggeri (10:46)
“Se eu dissesse para você que fiz uma bebida composta por 99% de monóxido de dihidrogênio, você aceitaria?... Sim, estamos falando da água.”
— Amanda Ruggeri (11:16)
O episódio desmonta a ideia de que “natural é sempre melhor”, expondo as ambiguidades do termo e ressaltando que tanto produtos naturais quanto sintéticos têm riscos e benefícios. A reportagem encoraja o pensamento crítico diante de propagandas e discursos que usam o apelo ao “natural”, propondo uma análise baseada em argumentos lógicos, evidências e segurança real, e não apenas no “rótulo verde”.
Mensagem central:
Na próxima vez que ouvir ou ver alguém promover um produto por ser natural — ou demonizar outro por ser sintético —, questione o significado e a intenção por trás dessas alegações, buscando informações reais sobre efetividade e segurança.