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BBC lê Será que a toalha que você usou para se enxugar hoje estava realmente limpa? Reportagem de Grace Tyrell, da BBC Future, publicada pela BBC News Brasil em 16 de janeiro de 2025 Lida por Laís Alegretti Muita gente coloca a toalha na máquina de lavar uma vez por semana Alguns demoram mais Um estudo publicado em 2020, com 100 participantes, apontou que cerca de um terço lavava as toalhas uma vez por mês Em uma pesquisa no Reino Unido, entrevistados chegaram a admitir que só faziam a lavagem uma vez por ano As fibras felpudas podem não necessariamente exibir sinais de sujeira, mas elas são berço de milhões de micróbios. Estudos demonstraram que as toalhas podem ficar rapidamente contaminadas por bactérias, comumente encontradas na pele e até no intestino. Parte dos micro-organismos vem de nós mesmos. Isso porque mesmo depois do banho, o corpo ainda está coberto por micróbios. E alguns deles passam para as toalhas. Fungos e bactérias suspensos no ar também podem chegar às fibras quando a toalha está no varal. E algumas bactérias vêm da água utilizada para a lavagem. No Japão, algumas pessoas chegam a usar a água residual do banho para lavar as roupas no dia seguinte. Um costume que, conforme um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Tokushima, ainda que economize água, pode transferir diversas bactérias presentes na água da banheira para as roupas. A prática de deixar a toalha secando dentro do banheiro também é problemática. Cada vez que a descarga é utilizada, a peça provavelmente vai receber uma leve pulverização de bactérias e partículas de resíduos corporais de quem usa o vaso sanitário. Ao longo do tempo, esses micróbios podem começar a formar biofilmes com capacidade inclusive para alterar a aparência das toalhas. Depois de dois meses, mesmo com lavagem regular, as bactérias presentes nas fibras das toalhas de algodão começaram a tirar o brilho do tecido. Nesse sentido, quanto devemos nos preocupar com as bactérias que vivem nas toalhas? A professora de biologia Elizabeth Scott, uma das diretoras do Centro Universitário Simmons de Higiene e Saúde Doméstica e Comunitária de Boston, nos Estados Unidos, ressalta que nossa própria pele é habitar para mais de mil espécies diferentes de bactérias, ao lado de muitos outros fungos e vírus A maioria, ela acrescenta, faz bem ao organismo, protegendo o corpo contra infecções causadas por outras bactérias, decompondo parte das substâncias com as quais entramos em contato no dia a dia e desempenhando papel importante no desenvolvimento do sistema imunológico. Muitas das bactérias encontradas nas toalhas são das mesmas espécies que encontramos na pele e que habitam os ambientes em que circulamos. Incluem espécies de Staphylococcus e Escherichia coli, frequentemente encontradas no intestino humano, além de Salmonella e Shigella, causadoras comuns de doenças alimentares e diarreia. Algumas são patógenos oportunistas, inócuas, até atingirem um local em que possam causar danos, como um corte. Podem desenvolver a capacidade de produzir certas toxinas ou conseguir infectar pessoas com o sistema imunológico enfraquecido. A pele também é uma barreira natural contra infecções. Ela é a primeira linha de defesa contra bactérias e outros patógenos. Por isso, a transferência de bactérias da toalha para a pele não deveria causar grandes preocupações. Mas existem evidências de que essa função de barreira pode ser comprometida dependendo do contato que o corpo tenha com a toalha. O maior problema talvez ocorra no caso de micróbios potencialmente perigosos chegarem às mãos enquanto nos secamos e, depois, a áreas mais sensíveis ao tocarmos a boca, o nariz ou os olhos. Por isso, as toalhas de rosto, que usamos com mais frequência para enxugar as mãos, merecem maior atenção. Assim como os panos de prato, que podem ser outra fonte de difusão de patógenos alimentares. Infecções gastroentéricas resultantes de salmonela, norovírus e E. coli são transmissíveis pelas toalhas, segundo Elizabeth Scott. Estudos também demonstraram que vírus, como o da covid-19, podem sobreviver sobre algodão por até 24 horas, ainda que a transmissão pelo toque de superfícies contaminadas não seja considerada a principal forma de difusão do vírus. Outros vírus transmitidos pelo contato, como o mpox, podem representar riscos maiores, e as autoridades de saúde recomendam não compartilhar toalhas ou roupas de cama com pessoas infectadas. Pesquisas também demonstraram que papilomavírus humanos, que costumam causar verrugas, também podem ser transmitidos por meio de contato com toalhas compartilhadas com outras pessoas. O risco de transmissão de infecções é um dos motivos que levaram hospitais e banheiros públicos a adotar toalhas de papel descartáveis e secadores a ar. Claramente, quanto mais tempo a toalha for usada e quanto mais tempo ficar úmida, mais acolhedora ela será a micróbios, o que aumenta a possibilidade de crescimento de organismos nocivos. Scott diz que além de ser um bom hábito, pensar na higiene das toalhas também pode ajudar a combater um dos maiores problemas de saúde hoje no mundo, as bactérias resistentes a antibióticos, como a MRSA, que podem ser transmitidas pelo contato com objetos contaminados O professor de microbiologia farmacêutica Jean-Yves Maillard, da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, destaca que práticas como a lavagem regular das toalhas podem ajudar a reduzir as infecções bacterianas e, consequentemente, diminuir o uso de antibióticos. A higiene doméstica tem tudo a ver com prevenção. E é melhor prevenir do que remediar, diz. Então, de quanto em quanto tempo precisamos lavar nossas toalhas? Elizabeth Scott sugere uma vez por semana, e diz que a recomendação não é uma regra fixa. Se uma pessoa estiver doente, vomitando e com diarreia, ela precisa ter toalhas só para ela, que precisam ser lavadas todos os dias, exemplifica. É o que chamamos de higiene dirigida. Você enfrenta o risco quando ele aparece. A higiene dirigida é uma técnica de gestão de riscos voltada para a higiene desenvolvida por pesquisadores associados ao Conselho Global de Higiene e ao Fórum Científico Internacional sobre Higiene Doméstica. A higiene importante deve ser considerada todo o tempo, mas a higiene dirigida se concentra nos momentos e locais onde essas práticas são fundamentais. Scott indica que as toalhas exigem lavagem mais longa e mais quente, 40 a 60 graus Celsius, do que a maioria dos tecidos, e que muitas vezes é preciso acrescentar detergentes antimicrobianos. Mas é preciso lembrar que a lavagem frequente sob altas temperaturas também traz custos para o meio ambiente. Para a lavagem sob temperaturas mais baixas, aplicar enzimas ou alvejante pode ajudar a combater os microbes das toalhas. Um estudo realizado na Índia concluiu que lavar as toalhas com detergente, aplicar desinfetante durante o enxágue e secá-las ao sol, em combinação, reduzem a carga fúngica e bacteriana com mais eficácia. Scott considera que a higiene doméstica é uma forma de altruísmo muito parecida com a vacinação. Cada pequena prática para se proteger vai também proteger as pessoas à sua volta. Chamamos esse modelo de queijo suíço, ela diz. Pensamos em todos os componentes como a sobreposição de fatias diferentes de um queijo suíço. Eles vão ter buracos em lugares diferentes e, assim, cada fatia acaba cobrindo os buracos da outra. Nesse modelo, reduzimos o risco de movimentação de patógenos através deles. As toalhas são um componente relativamente pequeno, mas elas certamente trazem riscos e é fácil lidar com eles. Conclui. Você ouviu a reportagem Será que a toalha que você usou para se enxugar hoje estava realmente limpa? publicada pela BBC News Brasil em 16 de janeiro de 2025.
BBC Brasil | Episódio publicado em 27 de março de 2025
Neste episódio do “BBC Lê”, Laís Alegretti lê a reportagem de Grace Tyrell, originalmente publicada pela BBC Future. O tema central é a frequência ideal para lavar toalhas e os riscos microbiológicos associados ao uso e à reutilização inadequada deste item doméstico cotidiano. O episódio esclarece a verdadeira dimensão da contaminação em toalhas, explica o papel das bactérias e fungos, traz recomendações de especialistas e orienta sobre boas práticas de higiene, contrapondo questões de saúde pública, economia e meio ambiente.
“As fibras felpudas podem não necessariamente exibir sinais de sujeira, mas elas são berço de milhões de micróbios.” — Narradora (00:25)
“A maioria [das bactérias], ela acrescenta, faz bem ao organismo… protegendo o corpo contra infecções causadas por outras bactérias... e desempenhando papel importante no desenvolvimento do sistema imunológico.”
— Dra. Elizabeth Scott (02:45)
“Infecções gastroentéricas resultantes de salmonela, norovírus e E. coli são transmissíveis pelas toalhas.”
— Dra. Elizabeth Scott (04:45)
“A higiene doméstica tem tudo a ver com prevenção. E é melhor prevenir do que remediar.”
— Prof. Jean-Yves Maillard (06:50)
“É o que chamamos de higiene dirigida. Você enfrenta o risco quando ele aparece.”
— Dra. Elizabeth Scott (08:20)
“Eles vão ter buracos em lugares diferentes e... cada fatia acaba cobrindo os buracos da outra. Nesse modelo, reduzimos o risco de movimentação de patógenos.”
— Dra. Elizabeth Scott (09:50)
O episódio destrincha mitos sobre a limpeza das toalhas, mostra os perigos do uso prolongado sem lavagem e sugere práticas inteligentes de higiene que equilibram saúde e sustentabilidade. Especialistas evidenciam a função das toalhas na cadeia de transmissão de micro-organismos — sejam inofensivos ou patogênicos — e oferecem recomendações claras e práticas para proteger não só você, mas toda sua casa.
Dica-Prática:
Lave suas toalhas ao menos uma vez por semana, prefira temperaturas mais altas, use detergente adequado e, se possível, seque-as ao sol. Redobre os cuidados se houver doença em casa.