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O que está por trás da famosa frase ser ou não ser, eis a questão de William Shakespeare. Reportagem de Mônica Vasconcelos, publicada pela BBC News Brasil em janeiro de 2026. Lida pela autora. O ator parece estar sozinho em cena. Recostado contra uma parede, ele tem o ar de quem reflete profundamente. O senho franzido sugere sofrimento. Na voz, angústia. As palavras saem devagar, quase num murmúrio. Ser ou não ser? Eis a questão. É assim que o escocês David Tennant inicia, em versão para TV, filmada pela BBC em 2009, A primeira cena do terceiro ato da peça Hamlet, de William Shakespeare. Fica difícil evitar os superlativos. Esta é a frase mais conhecida da mais famosa obra de William Shakespeare. Ele, por sua vez, o autor de teatro mais celebrado da literatura ocidental. Mas qual é a história por trás dessa frase? E o que faz de Hamlet uma peça tão badalada? Do que ela trata? Por que tantos atores famosos querem fazer o papel de Hamlet? E qual é a relevância dessa peça nos dias de hoje? A BBC News Brasil tentou responder a essas perguntas com a ajuda de especialistas em Shakespeare e da diretora de interpretação teatral da prestigiosa Royal Academy of Dramatic Arts, RADA, Sinead Rush. Trazemos ainda um depoimento de arquivo em que Tennant fala como foi, para ele, interpretar Hamlet e do poder quase transcendental dos textos de Shakespeare. Comecemos por alguns fatos básicos sobre a peça e um resumo da trama. O inglês William Shakespeare, nascido por volta de 1564, morto em 1616, escreveu a tragédia de Hamlet, nome completo da obra, por volta de 1599. Nesse período, ele já era um mestre na arte da dramaturgia, e Hamlet fez sucesso imediatamente. A mais longa peça do Dramaturgo restam dela várias versões. As mais completas ultrapassam quatro horas de duração. Hamlet nos deu, além de Ser ou Não Ser, várias outras frases memoráveis, como Há algo de podre no reino da Dinamarca e Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que as sonhadas por sua filosofia. A história, em linhas gerais, é a seguinte. O fantasma do rei da Dinamarca pede a seu filho, o príncipe Hamlet, que vingue a sua morte. Ele diz a seu filho que quem o matou foi seu próprio irmão, tio de Hamlet, e atual rei, Claudius, agora casado com a mãe de Hamlet, Gertrude. à beira da insanidade ou fingindo estar à beira da insanidade, Hamlet reflete sobre a vida e a morte e planeja matar seu tio. Temendo por sua vida, Claudius também faz planos para matar o sobrinho. A peça culmina em um duelo, ao final do qual Claudius, Gertrude, o oponente de Hamlet e o próprio Hamlet estão mortos. A família real está morta. Entra em cena Fortinbras, o príncipe da Noruega, que agora assumirá o trono e tomará o poder na Dinamarca. O resumo não deixa dúvidas. Hamlet é, entre outras coisas, uma peça sobre vingança, um tema muito popular no teatro na época em que ela foi escrita. Só que Shakespeare fez diferente. Dramaticamente, vingança é um grande tema porque contém ação e reação, e isso dá uma estrutura para a peça, comentou o professor Jonathan Bates, da Oxford University, falando à Rádio 4 da BBC em 2017. Ou seja, assim como nos filmes de ação hoje, as peças de vingança na Inglaterra de Shakespeare eram espetáculos movimentados onde muita coisa acontecia. Mas o que é tão inovador nessa peça é que enquanto versões anteriores de peças de vingança tinham como foco as ações do Vingador, Hamlet para e pensa. Prossegue Bates. Então, a peça tinha mais solilóquios, mais momentos de reflexão anterior, do que todas as peças que tinham vindo antes, diz Bates. Solilóquio é um recurso dramático em que o personagem fala consigo próprio. Em Hamlet, o efeito desse recurso é que o príncipe da Dinamarca não revela a ninguém na corte os seus pensamentos, mas desnuda sua alma para toda a plateia. Ao longo de quatro séculos, grandes atores, homens e mulheres, sim, mulheres também, vêm aproveitando as incríveis falas que Shakespeare colocou na boca de Hamlet para exibir seus talentos dramáticos. No século XX, Laurence Olivier, Ian McKellen, Ralph Fiennes, Keanu Reeves e Kenneth Branagh foram alguns. Já neste século, Benedict Cumberbatch, por exemplo. No Brasil, Wagner Moura e Tiago Lacerda aceitaram o desafio. Em 2008, a convite da companhia de teatro britânica Royal Shakespeare Company, David Tennant ofereceu sua versão do Príncipe Dinamarquês. Em 2023, ele relembrou a experiência em entrevista à BBC. Hamlet é um desses papéis que, quando você estuda teatro, você fantasia um dia interpretar, conta Tennant. Talvez por isso, receber o convite o deixou apavorado, mas ele não podia recusar. Confessa. Você tem consciência da linhagem de atores amados que vieram antes de você. E, claro, é maravilhoso segurar aquela tocha por algum tempo. Para um ator, é quase como um evento olímpico. Definitivamente, é o melhor papel do cânone. Ternand prossegue. Como ator, você recebe essas palavras que são um pouco mágicas. e, no início, um pouco difíceis, porque elas têm 400 anos de idade. Elas precisam como que ser decodificadas e não se encaixam imediatamente na sua boca. É preciso traduzi-las, dá um pouco de trabalho. Do ponto de vista da plateia, isso também acontece. Mas tem alguma coisa nessas palavras que, quando você entra nelas, quando você assume o controle delas, quando você sente por um segundo que está dirigindo as palavras e não as palavras dirigindo você, existe algo quase transcendental nelas. Conta Tennant. Entre essas palavras mágicas estão aquelas que dão título a essa reportagem. Ser ou não ser? Eis a questão. A crítica de teatro e tradutora brasileira Bárbara Heliodora, que morreu em 2015, é autora da tradução de Hamlet mais usada no Brasil. Heliodora optou por uma versão mais coloquial da célebre frase. Ser ou não ser, essa é que é a questão, ela propôs. As linhas seguintes ficaram assim. Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna ou tomar armas contra um mar de escolhos e, enfrentando-os, vencer? Segundo o verbete ser ou não ser da enciclopédia britânica, o monólogo expressa a obsessão de Hamlet com uma importante questão moral. É correto que Hamlet vingue a morte de seu pai matando o suspeito pelo assassinato, Cláudius? O monólogo, diz o verbete, também trata da preocupação de Hamlet com os conceitos vida, ser e morte, não ser. Quanto ao significado do monólogo, a enciclopédia cita duas linhas de interpretação. De acordo com a primeira, Hamlet estaria expressando o temor de que, ao matar seu tio Claudius, estaria cometendo um gravíssimo pecado. Como resultado, sua alma seria condenada à danação eterna. A segunda interpretação seria que Hamlet estaria considerando cometer suicídio. Ambas as interpretações têm fortes defensores e detratores, prossegue o verbete na enciclopédia britânica. E as várias nuances no significado do monólogo refletem a complexidade psicológica na construção do personagem. como é para um diretor dirigir essa cena? Foi o que a BBC News Brasil perguntou à irlandesa Sinead Rush, que conversa com a reportagem ao final de um dia de ensaios com a sua própria companhia de teatro para uma montagem experimental de Hamlet em parceria com a Radha. Em sua resposta, às vezes encarnando o personagem e, em outras, falando de Hamlet na terceira pessoa, A diretora vai apresentando uma possível interpretação do monólogo. Rush diz que primeiro é preciso entender a situação em que o personagem se encontra. Ele está sozinho, perdeu o pai, o tio casou com a mãe, a mãe não dá mais atenção a ele. Hamlet também vê uma Dinamarca corrupta, incapaz sequer de seguir o período adequado de luto em respeito ao seu pai morto. Rush descreve o mundo pela ótica de Hamlet. Sem cor, sem vida, cheio de desesperança, corrupto, mal cheiroso. Hamlet está perguntando a si mesmo, vale a pena viver nesse mundo? Diz Rush. Meu sofrimento é tão grande, estou pensando em me retirar desse mundo. Mentalmente, o ator se coloca nesse clima e o monólogo é composto de uma série de perguntas, ela explica. É melhor ficar vivo ou dar fim à minha vida? É mais nobre enfrentar o que a vida coloca no meu caminho ou dar um fim a mim mesmo. Hamlet se imagina morto. Reflete que talvez a morte traga imenso alívio. Talvez ele possa dormir, descansar, sonhar. Mas, e se ele tiver sonhos ruins? Ele se lembra do que o espírito de seu pai lhe disse, que estava preso no purgatório. Se eu me matar, talvez eu vá para o purgatório, talvez eu sofra terrivelmente. Então, Hamlet sente medo, diz Rush. O medo do que está além é tão grande, é por isso que nós não nos matamos. O medo impede que eu tire a minha própria vida e impede que eu faça qualquer coisa. Então, não faço nada." Rush diz que, para ela, o monólogo é interessante por ser uma espécie de carta suicida encenada pelo ator. Uma carta que depois é rasgada, diz a diretora. Quando se trata de encenar Shakespeare, no entanto, decisões do diretor e da produção podem transformar profundamente o sentido dessa cena, e claro, da peça inteira. É o que diz a BBC News Brasil a especialista em Shakespeare Sheila Kavanagh, professora da Emory University em Atlanta, Georgia, Estados Unidos. Uma das grandes questões em Hamlet é se suas faculdades mentais estão mesmo alteradas ou se seria tudo parte de uma estratégia dele, diz Kavanagh. Em produções estreladas por grandes nomes, no entanto, é bem mais comum que Hamlet seja representado como uma figura reservada, enigmática, que não está louca, apenas finge estar, ela explica. Porque quando você tem esses grandes atores, eles querem parecer estar em controle, Agora, essa é apenas uma interpretação da peça. Outra interpretação é a de que Hamlet está mesmo perturbado mentalmente. Tudo isso é colocado de lado por razões que podem não ter relação com a peça em si. A possibilidade de que a saúde mental de Hamlet esteja afetada talvez dê peso aos argumentos dos que defendem haver conotações suicidas por trás da frase ser ou não ser, eis a questão. Mas deixemos o monólogo de lado para explorar outros grandes temas presentes nessa obra e a relevância de Hamlet hoje. Uma decisão da direção que também altera radicalmente o sentido da peça, prossegue Kavanagh, tem a ver com a inclusão ou não do personagem Fortinbras, cujo pai, rei da Noruega, foi morto pelo pai de Hamlet durante uma batalha. Na versão completa da peça, Fortinbras está a caminho da Dinamarca para vingar a morte de seu pai e recuperar território tomado pela Dinamarca no passado. Nessa versão, Fortinbras chega com seu exército, encontra a família real morta e toma o poder. Quando Fortinbras é cortado, a peça vira uma tragédia doméstica, diz Cavanaugh. Mas isso elimina da história uma dinâmica fundamental, ela explica. O que acontece com a família real tem sérias consequências para o povo dinamarquês. Acho que isso é algo muito importante nessa peça. Esse vai e vem entre indivíduos, seus desejos, seu egoísmo, e a forma como isso afeta todos na sociedade. Sinead Rush diz que Fortinbras não foi cortado de sua versão de Hamlet e que, na sua leitura da peça, existem duas guerras em Hamlet, a externa, entre Dinamarca e Noruega, e a interna, entre Hamlet e Cláudius. Nas interpretações modernas de Hamlet, há uma ênfase em seu luto, diz Rush, na perda de seu pai e no seu relacionamento freudiano-edipiano com a mãe. Rush lembra, no entanto, que Claudius usurpou o trono, quando, na verdade, Hamlet seria o herdeiro legítimo. E a busca fundamental de Hamlet, o seu desejo, é tomar de volta o que é seu, ela argumenta. Não importa se ele está pronto ou se alguém mais acha que ele seria um bom rei. Ele nasceu para ser rei. Na opinião de Rush, temas como esses – invasões, conquistas, território, poder e a noção de que o mais forte vencerá – tornam Hamlet uma história atual. Para mim, tudo isso reverbera agora, politicamente, em termos de Rússia, Israel e Trump nos Estados Unidos, diz Rush. nessa ideia de que quem tem o poder está com a razão. Como é possível para um jovem ator hoje se identificar com a figura de Hamlet? Pergunta a reportagem. A resposta de Rush pode valer também para plateias de todas as idades. Acho interessante pensar em Hamlet como alguém jovem e vulnerável, se conectando com o futuro que ele achava que ia ser de um jeito, mas não será. Ele se sente perdido, em conflito, não sabe o que fazer consigo próprio, se sente inútil, diz Rush. A diretora fala de um outro tema recorrente na peça, o monitoramento. Personagens constantemente vigiam uns aos outros. A corrupção na Dinamarca, a vigilância, a espionagem, todo mundo está sendo observado e controlado. Isso faz com que Hamlet se sinta aprisionado. Ele não pode abandonar a sua vida e escolher um caminho diferente. Essas são questões com as quais jovens podem se identificar, diz. Como é sentir que você não tem nenhuma autonomia? Como é sentir que você foi apagado, que você não conta nesse mundo? Não sei como me encaixar, não sei qual é o meu papel. Hamlet pode ser um príncipe? mas isso não torna sua situação menos difícil existencialmente", conclui Rush. Relevante e atual, a história do atormentado príncipe dinamarquês continua a ser sucesso de bilheteria mundo afora. No segundo semestre de 2025, só em Londres, houve pelo menos duas montagens da peça. uma no National Theatre e a dirigida por Rush, apresentada no teatro George Bernard Shaw, na Royal Academy of Dramatic Arts. Eu pergunto a ela por que alguém deveria sair de casa para assistir Hamlet no teatro. Rush ri com gosto. Talvez porque, para ela, a pergunta pareça quase uma provocação. E tenta explicar qual é, de verdade, o grande barato de Shakespeare. Bem, quando Shakespeare é bem feito e o verso é compreendido e realmente incorporado pelo ator, ele soa tão claro, tão fala de gente, É difícil de acreditar, diz Rush. Ele soa rico, cheio de nuances, engraçado, inteligente e incrivelmente contemporâneo. É como o povo falando. Ela acrescenta. Além disso, tem tantas frases e imagens dessa peça na consciência coletiva. É maravilhoso ouvi-las no seu contexto. Nosso desafio, diz a diretora, é fazer com que elas soem frescas, como se nunca tivessem sido ouvidas antes. Você ouviu a reportagem O que está por trás da famosa frase ser ou não ser, eis a questão de William Shakespeare, publicada pela BBC News Brasil em janeiro.
Podcast: BBC Lê
Host: BBC Brasil
Episode: ‘Ser ou não ser: eis a questão’: o que está por trás da famosa frase de Shakespeare?
Date: January 29, 2026
Article/Report: Por Mônica Vasconcelos
Este episódio oferece uma profunda análise sobre a origem, os múltiplos sentidos e a relevância atemporal da célebre frase “Ser ou não ser, eis a questão”, retirado do monólogo mais famoso da peça “Hamlet”, de William Shakespeare. Com base em reportagem especial da BBC News Brasil, atores renomados e estudiosos discutem tanto o texto quanto a complexidade do personagem Hamlet, além do impacto da peça ao longo dos séculos e nas montagens contemporâneas.
Mudança no gênero vingança: Diferentemente de outras peças do gênero, Hamlet para e pensa antes de agir, introduzindo momentos reflexivos inéditos até então.
"Dramaticamente, vingança é um grande tema porque contém ação e reação... O que é tão inovador nessa peça é que Hamlet para e pensa... A peça tinha mais solilóquios, mais momentos de reflexão anterior, do que todas as peças que tinham vindo antes.” (06:34)
Solilóquio como recurso: Permite ao público acessar pensamentos íntimos do protagonista em vez de suas ações.
“Hamlet é um desses papéis que, quando você estuda teatro, fantasia um dia interpretar... Para um ator, é quase como um evento olímpico. Definitivamente, é o melhor papel do cânone.” (09:17)
“Como ator, você recebe essas palavras que são um pouco mágicas... dá um pouco de trabalho... Mas tem alguma coisa nessas palavras que, quando você entra nelas... existe algo quase transcendental nelas.” (09:50)
“Ser ou não ser, essa é que é a questão.”
"O que acontece com a família real tem sérias consequências para o povo dinamarquês. Esse vai e vem entre indivíduos, seus desejos, seu egoísmo, e a forma como isso afeta todos na sociedade." (18:33)
“Acho interessante pensar em Hamlet como alguém jovem e vulnerável, se conectando com o futuro que ele achava que ia ser de um jeito, mas não será...” (21:57)
“Ele [Shakespeare] soa rico, cheio de nuances, engraçado, inteligente e incrivelmente contemporâneo. É como o povo falando.” (24:15)
"Hamlet para e pensa. Prossegue Bates. Então, a peça tinha mais solilóquios, mais momentos de reflexão anterior, do que todas as peças que tinham vindo antes."
“Para um ator, é quase como um evento olímpico. Definitivamente, é o melhor papel do cânone.”
“O monólogo é interessante por ser uma espécie de carta suicida encenada pelo ator. Uma carta que depois é rasgada.”
“O que acontece com a família real tem sérias consequências para o povo dinamarquês. Acho que isso é algo muito importante nessa peça.”
“É difícil de acreditar... Ele soa rico, cheio de nuances, engraçado, inteligente e incrivelmente contemporâneo.”
O episódio revela as múltiplas camadas do famoso monólogo de Hamlet e discute por que ele permanece tão vital, instigante e aberto a interpretações. “Ser ou não ser” é mais do que uma questão existencial; é um convite a mergulhar na complexidade da mente humana, dos jogos de poder e dos limites da linguagem dramática. O programa deixa claro que, mais de quatro séculos depois, Shakespeare continua a dialogar com o presente — no palco, na sociedade e na experiência individual.