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Uma noiva, dois noivos. O casamento que agitou as redes sociais na Índia. Reportagem de Saurabh Chauhan, da BBC News Hindi, publicada pela BBC News Brasil em 31 de agosto de 2025. Lida por Silvia Salek. Uma noiva se senta entre dois homens em um pequeno vilarejo indiano no Himalaia e os três sorriem para a câmera. Essa não é uma foto de casamento comum. Ela está sentada entre os dois noivos com quem acabou de se casar. Trata-se de um casamento inusitado em um país onde são ilegais a poligamia e a poliandria, que é a prática de uma mulher ter dois ou mais maridos. As imagens do casamento de Sunita C com os irmãos Kapil N e Pradeep N, no último dia 12 de julho, foram amplamente compartilhadas nas redes sociais, e isso gerou críticas e insultos à família na internet. As imagens despertaram um debate nacional sobre o tema. O trio pertence à comunidade Hathi, um grupo tribal que vive principalmente em algumas regiões dos estados montanhosos de Himachal Pradesh e Uttarakhand, no norte da Índia. Essa comunidade de cerca de 300 mil habitantes está espalhada por 400 aldeias da região. Seu nome deriva da antiga tradição de comercializar verduras, outros produtos agrícolas e lã nos mercados locais conhecidos como Hathis. O grupo prosperou graças aos seus fazendeiros e artesãos que tecem chales de lã e produzem joias de prata há séculos. Em 2023, o governo indiano concedeu aos Hathis o estado de tribo registrada, com direito a diversos programas de bem-estar social, além de cotas, empregos e instituições educacionais. Apesar de serem geralmente identificados como hindus, os Hathis seguem rituais de casamento com diferenças significativas em relação às cerimônias hindus tradicionais. Conhecidos localmente como Jodidara ou Jaida, esses casamentos incluem a troca de votos frente a frente, entre a noiva e o noivo, sem as sete voltas habituais em torno do fogo sagrado, como é a prática nos casamentos hindus. Outra diferença em relação à prática normal do hinduísmo é que a noiva é quem conduz a procissão de casamento para a casa do noivo. Muitas vezes, as relações conjugais nessas uniões são definidas por compromissos de trabalho dos vários membros da família. Antigamente, quando um irmão ficava no pastoreio com os animais por meses, o outro ficava com a noiva e eles faziam turnos para viver com ela. Muitas vezes, as relações conjugais nessas uniões são definidas por compromissos de trabalho dos vários membros da família. Antigamente, quando um irmão ficava no pastoreio com os animais por meses, o outro ficava com a esposa e, ao retornar, eles faziam turnos para viver com ela, explica a BBC o jornalista local Sher Jung Shawan, da comunidade Hathi. Mas no contexto moderno, essas questões são resolvidas por entendimento coletivo na família. Decisões como qual filho levará o nome de qual pai ainda são definidas na família por consenso, por exemplo. Acrescenta. As práticas religiosas dos Hathis misturam o hinduísmo e rituais animistas. Divindades xamânicas locais desempenham um papel central nos seus costumes e no dia a dia. As histórias contadas oralmente nos rats comunitários mantêm vivos os contos sobre suas origens no Himalaia. Trajes tradicionais, especialmente roupas de lã artesanais, agregam cores e brilho à identidade. Eles também afirmam que esse sistema familiar conjunto incentiva a unidade e o compartilhamento de recursos. Antigamente, a comunidade rate incentivava os irmãos da família a assumir uma esposa em conjunto, supostamente para evitar a fragmentação da posse da terra. A terra arável, a escassa na região, e dividir propriedades ancestrais entre diversos irmãos como herança poderia diluir os recursos familiares. A Constituição da Índia permite que comunidades tribais, como os Hathis, preservem seus costumes, a menos que eles sejam especificamente proibidos pelo governo. O acadêmico e primeiro-ministro-chefe do estado de Himachal Pradesh, Yashwant Singh Parmar, escreveu no seu livro, Polyandry in the Himalayas, que a tradição surgiu da realidade hostil da vida na montanha, onde era essencial preservar os limitados recursos da terra. Mas, atualmente, esses casamentos são cada vez mais raros. Especialistas atribuem o aumento dos níveis de alfabetização, o desenvolvimento econômico e a influência da modernização à tendência de declínio. O morador local Kapil Chauan afirma que pelo menos de quatro a seis famílias em cada vilarejo da região ainda praticam a poliandria. É a nossa identidade e uma questão de orgulho, contou ele. Se as famílias envolvidas aceitarem, ninguém mais deveria questionar. O ativista local Hamesh Singhta afirma que a maioria desses casamentos ocorre em sigilo, sem muito alarde. A notícia desse casamento recente, que ganhou manchetes no mundo, gerou um debate mais amplo nas redes sociais da Índia. Muitos consideram que esse tipo de casamento é uma questão de consentimento e escolha pessoal, mas alguns defendem que a prática fere os direitos das mulheres. Já quem apoia defende a tradição jodidara da comunidade rate para preservar a terra e a unidade familiar, enfatizando o consentimento e o patrimônio cultural. Críticos questionam sua relevância na era moderna, sua legalidade com base nas leis indianas e a dinâmica de gênero considerada ultrapassada. Outros apontam como hipocrisia aceitar a poliandria e condenar a poligamia em outras comunidades. A família defendeu a sua escolha, destacando sua felicidade também nos aspectos tradicionais da União. O político local e ministro da indústria do Estado Harshvardhan Chauhan acredita na antiga tradição. Mantendo essa prática viva, os noivos honraram sua herança cultural, disse a BBC. Muitos questionam se esse costume traz alguma melhoria para a posição das mulheres nas famílias. Essa prática incentiva a exploração das mulheres e viola seus direitos fundamentais, afirma a secretária-geral da Associação Democrática das Mulheres da Índia, Maryam Dalvali. Ela afirmou à BBC que ter dois maridos também pode aumentar as pressões para que a mulher tenha mais filhos. Mas acha deve? Uma mulher que é parte de uma união desse tipo defende que a tradição não compromete a liberdade da mulher. Ao contrário do que muitos pensam, as mulheres têm todo o direito de recusar ou abandonar esses casamentos se assim desejarem, contou Deve. E ninguém é forçado a entrar em um jodidara, nem os homens, nem as mulheres, acrescenta. Nesse caso, a noiva e os noivos não vivem uma vida totalmente tradicional. Sunita é técnica formada em um instituto de treinamento industrial, Pradip é funcionário público estadual e Kapil trabalha no setor de hospedagem no exterior. A noiva contou aos jornalistas que se casou por vontade própria. A decisão foi minha, declarou ela. Adotei a antiga tradição. E seus dois maridos compartilham do mesmo sentimento. Esse relacionamento reflete nossa fé na tradição e a responsabilidade compartilhada de cuidar uns dos outros, declarou Pradip, a imprensa indiana. Todos os três prometeram amor e estabilidade na sua rara união. Embora seja rara, a poliandria também é praticada entre comunidades tribais como os Kinauris, no Himalaia, e os Todas, no sul da Índia. Existem também casos em comunidades de outras partes do mundo. Eles incluem os casamentos andantes do povo chinês Mozu, em que os homens visitam as mulheres à noite e depois retornam para a casa dos pais, e a poliandria fraterna, em que dois ou mais irmãos se casam com a mesma mulher no Tibete. Existem também práticas similares entre os irígvis da Nigéria e em tribos amazônicas como os bororos. A poliandria também é encontrada entre os maçais do leste africano, mas muitas dessas tradições desapareceram ou foram consideradas ilegais. Você ouviu a reportagem Uma noiva, dois noivos, o casamento que agitou as redes sociais na Índia, publicada pela BBC News Brasil em 31 de agosto de 2025.
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Olá, sou Ray Winstone. Estou aqui para lhes contar sobre o meu podcast na BBC Rádio 4, História's Toughest Heroes. Eu tenho histórias sobre os pioneiros, os rebeldes, os outcastes que definem o difícil. E essa foi a primeira vez que alguém correu tão rápido sem pneus. É quase como se seus olhos estivessem saindo da sua cabeça. Difícil o suficiente para você? Se inscreva no History's Toughest Heroes, onde quer que você encontre seu podcast.
Podcast: BBC Lê
Episódio: Uma noiva, dois noivos: o casamento que agitou as redes sociais na Índia
Publicação: 14 de outubro de 2025
Reportagem: Saurabh Chauhan, BBC News Hindi (publicada pela BBC News Brasil em 31/08/2025)
Leitura: Silvia Salek
O episódio explora o caso de um casamento raro na Índia, onde uma mulher, Sunita C, casou-se com dois irmãos, Kapil N e Pradeep N, da comunidade Hathi na região do Himalaia. As fotos e vídeos do casamento viralizaram na internet, gerando debates acalorados e polêmicas nas redes sociais indianas sobre tradições, direitos das mulheres e conservação cultural. O episódio mergulha no contexto histórico, cultural e social da poliandria entre os Hathis e outras comunidades, destacando os contrastes entre tradição e sociedade moderna.
"Essa não é uma foto de casamento comum. Ela está sentada entre os dois noivos com quem acabou de se casar." (00:58)
"Antigamente, quando um irmão ficava no pastoreio com os animais por meses, o outro ficava com a noiva e eles faziam turnos para viver com ela." — Sher Jung Shawan, jornalista local da comunidade Hathi (03:50)
"Supostamente para evitar a fragmentação da posse da terra. A terra arável é escassa na região, e dividir propriedades ancestrais entre diversos irmãos... poderia diluir os recursos familiares." (05:40)
"A decisão foi minha, declarei ela. Adotei a antiga tradição." — Sunita C (09:50)
Sobre autonomia feminina:
“Ao contrário do que muitos pensam, as mulheres têm todo o direito de recusar ou abandonar esses casamentos se assim desejarem.” – Deve, mulher da comunidade, defendendo a tradição (09:30)
Consenso familiar:
“Esse relacionamento reflete nossa fé na tradição e a responsabilidade compartilhada de cuidar uns dos outros.” – Pradeep N, marido de Sunita (10:00)
Identidade cultural:
“É a nossa identidade e uma questão de orgulho... Se as famílias envolvidas aceitarem, ninguém mais deveria questionar.” – Kapil Chauan, morador local (07:05)
Crítica feminista:
“Essa prática incentiva a exploração das mulheres e viola seus direitos fundamentais.” – Maryam Dalvali, secretária-geral da Associação Democrática das Mulheres da Índia (09:00)
O episódio oferece olhar profundo sobre a tradição da poliandria entre os Hathis, destacando os dilemas entre identidade cultural, mudanças sociais e debates sobre direitos humanos. A rara união de Sunita, Kapil e Pradeep serve como ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre autonomia, tradição e a dinâmica de gênero no século XXI.