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Louco ou visionário? O que é, afinal, um profeta? Este é o sétimo episódio de Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
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Eu sou o Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma.
C
E eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
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Todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, vamos olhar para uma parte da Bíblia e percorrer este livro do início até ao fim. Na semana passada estivemos a falar sobre o cativeiro em Babilónia, o exílio, e sobre a importância desse acontecimento para a construção dos textos da Bíblia. Esta semana chegamos ao fim do Antigo Testamento e vamos falar de profetas. Ora, uma boa parte do Antigo Testamento é composto pelos livros proféticos. São 18 livros, incluindo alguns dos mais extensos, como os livros de Isaías e de Jeremias. E os profetas são, na verdade, figuras centrais na história da Bíblia. Atravessam toda a história do povo de Israel e ajudam a fazer uma leitura religiosa dos acontecimentos de cada mundo. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Ora, entre os 46 livros que compõe o Antigo Testamento, 18 são os chamados livros proféticos. Juntos compõem, na prática, o bloco final do Antigo Testamento e podem dividir-se em dois grupos. Por um lado temos os profetas maiores, São nomes famosos como Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, mas também há os Doze Livros dos Profetas Menores, que são livros mais pequenos e menos citados. Os profetas são, provavelmente, das figuras mais complexas da Bíblia. O profetismo era comum no Antigo Medio Oriente e penso que associamos habitualmente os profetas a duas ideias distintas. Por um lado, a ideia do vidente, ou seja, pessoas que são capazes de prever o futuro e que passam por experiências místicas. Por outro lado, também os associamos à ideia de porta-vozes de Deus, de pessoas que são capazes de compreender as verdades mais profundas vindas diretamente de Deus e depois a quem reconhecemos a autoridade para falar em nome de Deus. Talvez Isaías seja o primeiro nome de um profeta que nos vem à cabeça. É o profeta que é mais vezes citado no Novo Testamento e é também aquele cujas profecias mais vezes surgem como depois tendo sido cumpridas em Jesus, na perspectiva cristã. Enfim, talvez seja o texto do Antigo Testamento que mais ajuda a compreender o Cristianismo. Mas se calhar, Francisco Martins, começamos pelo básico. O que é que é isto de profetas? Quem é que são estes indivíduos que compõem uma parte tão grande da Bíblia?
B
Como disseste, os profetas eram um fenómeno muito comum no Antigo Médio Oriente. Nós temos notícias de profetas praticamente desde o terceiro milénio antes de Cristo, em toda aquela região que hoje em dia nós chamamos Médio Oriente, portanto no fundo Iraque, a zona da Síria, a zona também da Terra Santa. Os profetas são, antes de mais, pessoas que afirmam ter recebido uma mensagem de um deus, não só o deus bíblico, mas outros deuses também daquela região. Podem ser profetas da corte, quase profetas profissionais, ou podem ser indivíduos sem nenhuma afiliação, isto tanto na Bíblia como fora da Bíblia. Podem receber a mensagem, por exemplo, numa visão. E às vezes até visões induzidas num contexto cultual, no templo, por exemplo. Este pequeno detalhe... Há poucos anos, a arqueologia descobriu num templo no sul da Terra Santa, em Arada, canábis que teria sido usado, provavelmente, neste contexto de induzir visões. Mas a profecia também pode ser baseada, por exemplo, num fenómeno natural, deduzir conclusões a partir de um fenómeno natural, um terramoto, uma tempestade, por exemplo.
A
Interprestar ali uma vontade de Deus, por exemplo.
B
Exatamente. No mundo bíblico, os profetas são porta-vozes, ainda ia dizer isto ainda, podem ser mensagens sobre o passado ou sobre o futuro.
A
Mas deixa-me só fazer uma pergunta, muito rapidamente. Eram pessoas a quem genericamente se reconhecia essa veracidade do que diziam? Ou eram mais, tipo, aqueles indivíduos que nós vemos no metro a dizer, arrependam-se, o reino de Deus está perto, etc, que a gente associasse a um profeta louco?
B
Há um bocadinho de tudo. a profetismo profissional. Isto é, pessoas que estão junto ao rei, no templo, e que o rei consulta cada vez que quer saber o que fazer a seguir. Vou para uma batalha, consulto o profeta, que me diz o meu Deus está de acordo ou não está de acordo, vai me dar a vitória ou não me vai dar a vitória. Mas também temos casos de profetas que são pessoas que não têm ligação a coisa nenhuma, que sentem que recebem uma mensagem e enviam essa mensagem por intermédio de outras pessoas, ao rei. Temos de tudo. Um bocadinho no antigo Medio Oriente. No mundo bíblico, estes porta-vozes são porta-vozes do Deus bíblico, Yahvé, que anunciam as mensagens aos reis e ao povo. Tendencialmente, e isto talvez seja a marca grande do profetismo na Bíblia, estes profetas aparecem em momentos de crise. E geralmente chamam o rei e o povo à conversão. Por isso é que nós temos um bocadinho aquela ideia na nossa cabeça dos profetas da desgraça. É sempre nos momentos mais difíceis que vem anunciar o castigo ou o que vai suceder a seguir. Porque no mundo bíblico os profetas tendem a surgir nestes momentos de crise.
A
João, e que livros é que são estes na Bíblia? Estamos a falar de textos que foram escritos pelos próprios, por outros em nome deles.
C
É sempre, se calhar quem já ouve o podcast há algum tempo, os nossos ouvintes, já sabe que nós vamos dizer muitas vezes e que temos dito muitas vezes que grande parte dos livros da bíblia foram escritos por pessoas anónimas e muitas vezes por várias pessoas. Um exemplo disso é o Perfeto Isaías, que é um livro que foi escrito não num século por uma só pessoa, mas num livro que foi escrito provavelmente durante seis séculos e, portanto, acho que toda a gente entende onde nos dá a ouvir que não pode ter sido uma só pessoa a escrever durante seis séculos e até uma só linhagem de pessoas, ou seja, aqui uma mundo de evidência diferente e o facto de serem atribuídos historicamente e criticamente a uma pessoa reflete aqui mais um artifício literário que tem a ver mais com uma dimensão também de unidade e de uniformidade do que propriamente uma pessoa que o escreveu, como nós hoje entendemos. Creio que para falarmos de profetas precisámos também de ter aqui um conjunto de nuances e até de distinções. Nós na Bíblia temos o termo profeta, é muito vasto. Tanto dá para chamar a profetas em geral, por exemplo, Moisés e até Abraão surgem na Bíblia denominados como profetas. Nós depois temos nos livros ditos históricos, temos Samuel, outro tipo de profetas, o caso clássico de Samuel, mas também Natan, Elias, até Débora, creio que também é referida como profetiza, de certa maneira. E depois temos aqueles que são as pessoas que escreveram, que associamos claramente a um livro específico. Isaías, Ezequiel, Amós, Oseias. E creio que, embora, como o Francisco já disse, não existia um ambiente puro, esta ideia de que não existia profetismo à volta e que o termo perfeito era unívoco, ou só existiria daquela maneira, naquele espaço, a verdade é que nós temos também ali um percurso interessante que nós vamos acompanhando ao longo dos livros da Bíblia. Nós começamos a ver que os profetas têm uma grande proximidade física com o monarca, mesmo que tendo um distanciamento crítico, têm uma grande proximidade física.
A
Faziam parte ali das aventuras.
C
Depois vão começando a viver fora da corte e aproximam-se do rei só em momentos particulares. e depois acabam por se afastar realmente da corte e aproximarem-se mais do povo. Chegámos ao certo ponto em que nós, no início, temos muita biografia e menos profecia, ao passo em que, por exemplo, no caso de Isaías, nós temos muita profecia, mas acabamos por ter pouca biografia do profeta Isaías, por exemplo.
B
Este é um aspecto, só aqui acrescentar talvez um detalhe, este é um aspecto interessante que o João estava a apontar. Realmente os primeiros profetas, Samuel, que é um profeta essencial no início da monarquia, Natã, igualmente um profeta essencial na época da vida, são profetas que confrontam o rei, mas as suas profecias tendencialmente não são colocadas por escrito. O que começa a acontecer a partir do século VIII com profetas como Isaías, Amós, Oseias, Miqueias e daí para a frente é que estas profecias ganham uma relevância muito superior ao carisma do profeta. A figura de Samuel é um profeta carismático, faz milagres, intervém de forma espantosa, etc. Elias, Eliseu, são profetas que não só fazem milagres, como te confrontam em grandes espetáculos diante no monte de Deus, o rei e o povo. Sob o profeta Isaías não sabemos quase nada. Sob o profeta Emiqueias ainda menos. Amós, Oseias. Ali o essencial são as profecias que eles proferem em nome de Havé.
A
O que estás a dizer é que Pela primeira vez, com esses profetas, aquilo que eles dizem começa a ser posto por escrito.
B
É isso. No certo sentido, o profeta passa para o banco de trás e a palavra de Deus e a profecia para o banco da frente. Ao contrário do que acontece com Samuel e Natan, etc.
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E estes livros, já agora só para tentar situar, ou seja, na cronologia bíblica, os profetas que surgem na bíblia, surgem por ordem cronológica?
B
Não.
A
Como é que estão organizados?
B
Os livros estão organizados por tamanho, no caso dos profetas. Do maior para o mais pequeno. Do maior a Isaías, que vai aparecer primeiro, e depois daí para a frente. Jeremias, Isquiel, etc, e depois os chamados Pequenos Profetas. Os Pequenos Profetas, que são doze, na prática eram um só livro, e é um só livro no canone judaico.
A
que é o livro dos 12 profetas. E a minha questão é, esses livros podemos dizer que de certa maneira, claro que o João estava a dizer que, por exemplo, um livro de Isaías foi escrito ao longo de muitos séculos, mas são livros que de alguma forma foram contemporâneos daquelas comunidades. Podemos assumir que a generalidade do povo tinha conhecimento do conteúdo daqueles livros, daquelas profecias, das palavras desses profetas que foram importantes em cada momento histórico, em cada momento junto de cada rei, por exemplo?
B
O João já chamou aqui a atenção para o caso do livro do profeta Isaías, que é um livro que muito provavelmente terá 10, 15% de profecias que remontam realmente ao profeta Isaías histórico no século VIII a.C. mas depois as profecias que foram sendo acrescentadas, revistas, atualizadas, correspondem a outros períodos, a outras pessoas, a outros autores, a outros profetas. Talvez um livro como Jeremias esteja mais próximo do tempo de Jeremias e seja mais ligado àquela experiência do exílio e à elaboração imediatamente posterior que é feita. Provavelmente a alguns profetas também menores, o livro quase todo é contemporâneo do profeta. Temos aqui casos muito diferentes.
C
E há aqui, se calhar, também aquela distinção que já falámos várias vezes, que é preciso sempre relembrar que, na Antiguidade, a ideia de que existe uma diferença entre autor e copista, entre texto e comentário, não seria assim. Ou seja, este, por exemplo, o profeta Isaías escreve, num determinado momento, Mas passado alguns anos, dentro daquela tradição, aquele texto que eu escrevi há 200 anos é tão importante que eu vou copiar comentando. E isso mostra que...
A
Atualizando.
C
Atualizando, exatamente.
A
E parece haver uma dicotomia nas palavras dos profetas porque... tanto surgem, por exemplo, a anunciar castigos, como dizia, castigos divinos, como também a prometer a salvação. A minha pergunta, João, é... As palavras dos profetas, que surgem, lá está, em momentos diferentes da história narrada na Bíblia, ajudam ou traduzem também uma leitura religiosa ou espiritual da história? Ou seja, ocorre-me Perguntar se aquelas personagens são vistas, por exemplo, como instrumentos de Deus para corrigir ou afinar o caminho.
C
Eu até pensei que fostes perguntar se existia aqui nos profetas uma dicotomia entre uma dimensão institucional falada ou figurizada. Figurizada não é uma palavra em português, Relativa ao sacerdote e depois o profeta que seria mais carismático. Isto é uma questão muito comum, mas realmente não é bem assim, porque também no mundo antigo as coisas estavam muito mais unidas. mas... Agora, realmente o profeta tem... Se nós formos ouvir ou ler os livros proféticos do início ao fim, nós vamos encontrar contradições, como tu disseste. Ou seja, como é que é possível a pessoa que está a falar que o templo vai ser destruído e que, olha, ainda bem que o templo vai ser destruído, Depois nós encontramos no mesmo cânone profético um profeta que vai dizer, eu gostava era que o templo fosse construído e como o profeta ageu, estas pessoas não estão a despachar-se a construir o templo como deveria ser necessário. Nós gostamos é de ver que os profetas estão ligados também ao tempo em que o texto ou é escrito ou é comentado. E como as vicissitudes históricas e políticas sociais e económicas do tempo vão mudando, Nós temos profetas que tanto falam, por exemplo, sobre a injustiça, por exemplo, nós temos que nos revoltar contra aquele determinado império, aquele determinado tipo de poder, como vamos ter outros vão dizer, se calhar o rei de Jerusalém, em vez de estar a armar-se em chicos perto, se calhar deveria submeter-se a determinado império.
A
Portanto, também funcionarem ali como críticos... Se
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nós quiséssemos fazer uma coisa muito simples, e claro que isto é um bocado anacrónico, mas os profetas seriam uma espécie de influencers daquele tempo.
A
E na segunda parte já vamos falar um bocadinho melhor sobre essa dimensão dos profetas. Voltamos depois de um curtíssimo intervalo para a segunda parte das histórias da Bíblia. Vamos olhar para alguns exemplos de profetas e perceber como é que eles vão dialogando com a história do cristianismo. Até já.
C
O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá.
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As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato Seabra assassinou Carlos Castro em Nova Iorque.
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Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu.
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Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Os ficheiros do caso Carlos Castro é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte do Spodcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Último episódio. O júri chegou a uma decisão. O Spodcast Plus do Observador tem o apoio da Kia.
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Segunda
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parte de As Histórias da Bíblia com os padres João Basto e Francisco Martins e esta semana estamos a conversar sobre os profetas. Ora, nós ficámos na primeira parte a falar sobre como os profetas eram influencers, na Exatamente. Mas enfim, vamos olhar, como dizia na primeira parte, é possível que Isaías seja o primeiro nome de profeta que nos vem à cabeça e talvez valha a pena, Francisco Martins, tentar perceber quem era este homem. Parece, por exemplo, ser o profeta mais citado no Novo Testamento, portanto, talvez os cristãos ouçam falar muitas vezes do profeta Isaías, não por lerem, se calhar, o livro do Isaías, mas por o verem citado, por exemplo, nos Evangelhos.
B
Sim, é o profeta mais citado. O livro de Isaías é também o maior livro do Antigo Testamento. 66 capítulos. Portanto, é um livro muito grande. O profeta Isaías, que está na origem deste livro, é uma personagem histórica do século VIII a.C. Não sabemos muito sobre ele. Sabemos que ele é casado. Sabemos que tinha acesso facilitado ao templo e, provavelmente, também ao rei. Portanto, não seria alguém exatamente fora dos circuitos de Jerusalém. que vai intervir, no primeiro momento, de crise nacional quando os assírios, este império assírio, de que já falámos aqui noutros episódios, invade a região do Levante, esta região da Terra Santa e, em particular, Judá. O Império Assírio era esta maior... Estamos
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ainda cerca de um século e tal antes do exílio, por exemplo.
B
Sim, dois séculos. Mais dois séculos. Dois séculos antes do exílio. Sim, dois séculos. Um século e vinte anos, para ser preciso. Estamos à volta do ano 701 a.C. O Império Assírio, já dissemos isto aqui também, era uma enorme máquina de guerra. Naquela altura, o primeiro império mundial da história, naquela zona do mundo, com um exército regular, profissional, com técnicas de guerra extremamente avançadas, até de guerra psicológica. Nós vimos isso na Bíblia. A certa altura, os representantes do rei assírio vêm dizer ao povo, a gritar para as muralhas, o melhor é vocês renderem-se, esqueçam a conversa do vosso rei, porque isto aqui vai ser tudo arrasado para o chão. Já arrasámos a cidade A, B, C, D, H e J. Por favor, vejam o resultado do que aqui sucederá. O profeta Isaías, diante disto, diz ao rei Ezequias, confia em Havé. E esta profecia de confiança em Havé, de que ele vai defender Jerusalém, que era absolutamente inacreditável naquela altura, vai-se cumprir. O rei Hacena Caribe, do Império Assírio, a certa altura, levanta o cerco de Jerusalém e vai-se embora. Obviamente isto elevou o estatuto de Isaías e da sua profecia a um nível novo. É muito provável que seja nesta altura que se comece a escrever As profecias. E as profecias em geral. Porque esta profecia foi tão marcante que vamos colocar isto por escrito para não nos esquecermos de como o profeta falou a verdade e o que ele disse cumpriu-se totalmente. Pois o livro continuou a crescer nos séculos seguintes e, como tu dizias muito bem, algumas destas profecias serão usadas e reconhecidas pelos cristãos como falando de Jesus e da experiência da salvação que chega com Jesus muitos, muitos, muitos séculos depois do profeta Isaías.
A
Por exemplo, só para termos uma noção...
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O exemplo mais típico é a famosa profecia do Immanuel. Isto é, aquela profecia que Isaías diz, que é uma profecia que tem a ver com o nascimento, historicamente tem a ver com o nascimento do rei Ezequias. É uma profecia ao seu pai, ao rei Acás, a dizer-lhe que Deus vai-te dar um sinal. A virgem ou a jovem donzela vai conceber um filho. E esta profecia, que tem ali um contexto histórico concreto, vai ser relida no seio das primeiras comunidades cristãs como referindo-se a Jesus Cristo, aquele que nasce de uma virgem que com ele chega a salvação.
A
Portanto, no contexto do judaísmo dessa época, desses séculos antes de Cristo, havia, ou seja, no contexto do profetismo dessa época, começava a perspectivar-se a ideia de, no futuro, uma salvação representada num Messias.
B
Este é um aspecto importante. Porque as pessoas podem pensar que os cristãos tomaram este texto de Isaías contra toda a tradição judaica. Não é verdade. Isto é, já ao longo dos séculos seguintes, Muitas destas profecias foram lidas em sentido de apontar para uma salvação que haveria de chegar nesta figura do Messias ou com outro perfil. Mas esta ideia já de uma salvação no final dos tempos não é uma invenção cristã. É uma invenção anterior no interior da tradição judaica dos séculos IV, III, II,
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I a.C. Como dizia o Francisco, o livro de Isaías, ou pelo menos a primeira parte do livro de Isaías, remonta então ao século oitavo antes de Cristo. E nessa altura, como já vimos nos episódios anteriores, aquele reino, aquela monarquia, inicialmente fundada com o rei Saúl, estava já dividida em dois reinos, Israel a norte e Judá a sul. Isaías vivia, se não estou em erro, no Sul, em Judá. E, portanto, muito do livro, João, e como estavas a dizer no final da primeira parte, e queria voltar aqui um bocadinho a este tema, muito do livro de Isaías também passa por uma certa condenação das injustiças, dos abusos de poder, dos abusos no culto religioso, até críticas aos dirigentes políticos. Podemos dizer que os profetas eram críticos sociais da época em que viviam?
C
Sim, a ideia do influencer, documentador, pode induzir isso e de certa maneira sim, mas é preciso ressalvar que a crítica social dos profetas não nasce propriamente de uma ideologia, por exemplo, de classes, como no marxismo, ou seja, A crítica social dos perfetas nasce de uma experiência de Deus e da defesa da aliança de que nós já temos vindo a falar desde a questão do êxodo. Alguns alvos principais desta crítica. Nós temos, por exemplo, a administração da justiça, a denúncia de todos aqueles que aceitam sobornos. e decidem algo contra os pobres. Uma expressão clássica é, por exemplo, a ideia de que transformam o direito em veneno. Uma expressão dos profetas. Por exemplo, uma crítica a tudo o que é economia e comércio, pelo menos a crítica aos comerciantes que falseiam as balanças e exploram as necessidades dos pobres, nomeadamente aumentando os preços. Uma crítica também a uma espécie de acumulação de casas, campos, expulsando os pequenos agricultores das suas terras, mas uma espécie de desrespeito por uma herança ancestral, porque temos aqui, retomar outra vez, o tema da terra, da posse da terra, da terra para todos. Um ataque também não à riqueza em si, mas à riqueza obtida através da opressão, os tesouros de violência e de roubo, que é também uma expressão clássica do tempo dos profetas, a indiferença dos ricos perante a ruína do povo, e também a defesa daqueles que são vendidos e das dívidas irracionais e irrisórias, muitas vezes, até em relação à escravidão, ao salário baixo. O que pode fazer com que o leitor atual olhe para isto como uma espécie de populismo, não é? A ideia de que o profeta está aqui contra uma certa elite, em favor do povo. Mas aquilo que se me é permitido fazer aqui uma distinção... Curiosamente, fazendo parte da elite. Fazendo, em alguns sentidos, parte da elite. Aqui, como às vezes alguns populismos. Mas a questão aqui é, às vezes, o contraste que é preciso fazer entre uma espécie de turista e de profeta. Vamos, por exemplo, imaginar o tempo. Aquilo que o turista olha e vê como um tempo muito bem ornamentado, O profeta vê como um lugar também de exploração, cheio de violência e de rapineira. Mais ou menos aquilo que de certa maneira o José Saramago faz quando ele conta o memorial do convento. e mostra que o convento de Máfra, muito embora toda a dimensão gloriosa que tem até arquitetónica, tem sobre si uma certa camada de exploração. Se nós quisermos aplicar até a dois grandes profetas, como a Moz e a Oseias, Nós vemos, por exemplo, como a MOJ se foca na exploração económica, na certa ideia de luxo, quando fala das vaquias de vazar e que pedem bebidas aos maridos quando oprimem os pobres, por exemplo. Quando o Amores, por exemplo, inverte a perspectiva do Dia do Senhor em favor de o povo e fala até de uma certa... enquanto o povo achava que o Dia do Senhor tinha a ver com uma espécie de vitória militar, Amores diz que isso será um dia de castigo e de trevas. Mas também temos o Oseias, que talvez seja a raiz mais profunda da crítica social, quando ele fala e critica a confiança nas alianças políticas e no militarismo. Portanto, nós temos aqui várias pessoas, mas se calhar, focando em Amós e em Oseias, vemos também aqui uma espécie de grande constelação da crítica social que os profetas desenvolvem nos seus livros.
A
Se calhar, hoje em dia, um profeta, mais do que ser um louco no metro com um cartaz, era até mais um colonista de um jornal, por exemplo, um comentador televisivo, a analisar a realidade política...
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Os comentadores têm má fama, pá.
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Não sei se seria ou um influencer, como sugeriu o João Basto, que depois recuou para a comentadora. Eu acho que os profetas têm perfis muito diferentes. Um profeta isquiel é um profeta que tem, sobretudo, visões. Algumas visões gloriosas e difícil de interpretação. O mesmo se diga de Daniel. Outros profetas, como Jeremias, viveram num tempo onde a corrupção generalizada e esta guerra que ia destruir o povo reclamava um género de visão crítica um bocadinho diferente, até quase geopolítica. O que diz Jeremias ao rei é, atenção, tu estás a tentar salvar a tua pele, mas tu a tentar salvares a tua pele vais condenar Jerusalém e o povo. Portanto, entrega-te, entrega-te ao rei de Babilónia e salva a cidade. E nós sabemos que ele não fez isso e o que aconteceu foi a destruição de Jerusalém.
A
Lá está, o livro de Jeremias acaba por ser uma fonte importante para conhecermos, por exemplo, a história do exílio, do cativeiro em Babilónia. É curioso o que dizias, ou seja, Jeremias, quando dá esse conselho, parece contraditório com... Confia no Senhor.
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Jeremias viveu num tempo muito difícil, impossível. Jeremias viveu numa situação impossível, nesse sentido. Nós atribuímos a Jeremias as lamentações, porque no próprio livro de Jeremias, Há uma espécie de lamentação do profeta que não quer ser profeta. Deus enviou-lhe dizer que prefere não fazer isto. Porque esta mensagem de destruição ao povo e de estar aqui entre a prisão e o rei a ser confrontado por este povo não me agrada nada. Tem uma mensagem muito desagradável para dar. É curioso, contudo, que o próprio Jeremias também tem uma dimensão de esperança interessante. Desde a certa altura, é uma passagem que eu gosto muito dela, diz a Jeremias, vai comprar um campo. É um gesto profético. Deus diz-lhe, tu agora, amanhã, pega em dinheiro e vai comprar um campo. Quando o povo já se estava a preparar para ser deportado e perder tudo, Deus diz ao profeta Jeremias vai comprar um campo porque haveremos de regressar e ter este campo.
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Portanto, lá está a ideia de profetizar o regresso, a salvação no fim da agrura, da opressão.
B
Mesmo o profeta como Jeremias, que foi chamado sobretudo a profetizar problemas e castigo, até este profeta, tem uma dimensão de esperança, de olhar para o futuro.
C
Acho que aqui pode-se também acrescentar um ponto que é, realmente os profetas não estão a fazer esta crítica, e vamos aqui ao bocadinho da crítica social, para arrebentar isto tudo, para desmoronar isto tudo e construir algo novo, não é, nesse sentido. O que eles querem mostrar é que quando a relação com Deus se corrompe, a sociedade desmorona sem violência. É por isso que eles, por exemplo, dizem que, no caso dos sacerdotes, existem aqueles sacerdotes que se alimentam do pecado e do povo e lucram com a corrupção e, ao mesmo tempo, e por isso não ensinam a lei, mas também é por isso que a morte o exemplo que dei anterior era de Oseias, diz que quando se rejeita o culto, esse dia de trevas e de castigo há de aparecer, ou seja, há uma forma de chamar a atenção para, de novo, não uma espécie de crítica pela ideologia de classes ou por um certo programa político, mas é para chamar à fidelidade e dar a atenção e, de certa maneira, o foco de que quando não há a fidelidade de Deus e a aliança, essa aliança cai, a sociedade desmorona e virá claramente violência.
A
Nós na próxima semana vamos entrar no Novo Testamento e parece-me interessante tocarmos já ligeiramente nesse tema, uma vez que o conjunto dos livros proféticos, portanto os seis livros dos profetas maiores e depois o tal livro dos doze profetas menores, encerra o Antigo Testamento. E, de certa maneira, um aspecto dos livros proféticos e do profetismo no geral é a ideia de apontar para um futuro, para um cumprimento futuro de uma promessa. Talvez por essa razão os livros proféticos sejam tão citados depois do Novo Testamento. João, como é que os livros proféticos, lá está quem encerra o Antigo Testamento, depois também dialogam com o Novo Testamento e com a ideia de que, como dizia o Francisco Martins num dos episódios anteriores, sublinhava a ideia de que no cânone dos cristãos, no cânone da Bíblia Católica, um leitor acaba o livro do profeta Malaquias já com a expectativa de que agora vai acontecer qualquer coisa e, portanto, vira a página e tem o evangelho com o nascimento de Jesus. Como é que os livros proféticos também nos transportam para esse diálogo?
C
Este diálogo acontece, antes de mais, porque eles são citados no Novo Testamento. Mesmo que em alguns contextos seja, não, através de um objeto que não falamos aqui, que não é propriamente a Bíblia Hebraica, mas é a Bíblia traduzida do Hebraico para o Grego, que é curiosamente a Bíblia que o professor Federico de Lourenço traduziu para Português, que nós chamámos de Acepto Adjinka. que é a Bíblia dos 70, a versão dos 70, que tem a ver com a relação posterior a este tempo entre a comunidade judaica e a comunidade grega, depois a expansão do império grego e das comunidades gregas, e da relação da comunidade judaica com o império grego. Mesmo que seja através dessa versão, existem muitas vezes citações dos profetas no Novo Testamento, Mas se nós queremos um exemplo assim clássico, até porque já falámos em episódios anteriores da relação que hoje se tem até na Igreja com estes textos, se nós pensarmos que no tempo de Advento, que é o tempo que na Igreja Católica e nas Igrejas Cristais antecipa e prepara o Natal, que nesse tempo, nas missas semanais, dominicais um bocadinho diferente, mas nas missas semanais, Nós lemos, na primeira leitura, naquele esquema, primeira leitura, Salmo, Evangelho, lemos maioritariamente, até a um certo ponto, o livro de Isaías, principalmente as profecias ligadas à ideia de uma certa libertação, de um nascimento do Immanuel, mas também a ideia de que Deus vem trazer um designio de paz, de consolação. Se nós pensarmos que são essas profecias que são lidas no contexto da preparação do Natal, nós vamos entender como hoje em dia o livro de Isaías e os profetas são importantíssimos para nós termos uma gramática capaz de receber depois a ideia de Jesus Cristo enquanto Messias, enquanto Filho de Deus, e até da própria igreja e de algumas críticas, até São Paulo, depois Fará e até os apóstolos no Apocalipse surgirão, sobre as críticas que se colocam às comunidades, ou seja, que muitas vezes ressoam as próprias críticas que surgem nos livros proféticos.
A
E uma questão, o tempo dos profetas acaba com o Novo Testamento, acaba com Jesus. Por exemplo, os muçulmanos até olham para Jesus também como um profeta e depois acreditam na existência de profetas a seguir. Para os judeus que não veem Jesus como Messias, Como é que é? A idade dos profetas, a era dos profetas acaba ali?
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Num certo sentido, cada comunidade define um bocadinho o fim da era profética. O judaísmo entende que logo a seguir ao regresso do exílio acaba a profecia. Portanto, Ageu e Zacarias são os últimos profetas, anunciam o regresso e a partir desse momento cessa a profecia e começa uma outra dinâmica ligada aos rabinos, à transmissão da palavra, ao comentário, etc. Para nós cristãos, o último profeta é João Batista, que é o novo Elias, aquele que foi anunciado pelo profeta Malaquias, de quem falavas, e que prepara a chegada do Messias. No Islão, a dinâmica ainda é outra, portanto, eu creio que essa questão aparece nas diferentes tradições religiosas de forma diferente.
C
Eu acho que este pormenor é interessante focar, que é, nós estamos a falar de tempos, ou seja, o tempo dos profetas, embora nós não possamos dizer que não existam profetas ainda hoje, no sentido no geral do termo, não é? Aquilo de colunista, aquela pessoa é um profeta porque vê... Aliás, antigamente dizia-se, por exemplo, o Vasco Pídulo vai-lhe entrar alguém, um profeta, na medida em que via para lá da espuma dos dias, dizemos nós, hoje em dia.
A
Ou pelo menos usa-se muito o adjetivo profético, não é?
C
Sim, isto já foi profético. Ou, por exemplo, quando Fernando Santos, no Europeu 2016, diz que vamos ganhar e que foi profético, aquela gesta de 7.
A
O professor do Instituto Bíblico, Francisco Martins,
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está agora a coçar-se com a referência pop.
C
Mas, na verdade, nós estamos a falar de alturas diferentes e de valorização de figuras totalmente diferentes que depois, como o Francisco disse, entra outra época mais ligada ao comentário, aos rabinos e também um estabelecimento mais fixo daquilo que é o canon da Bíblia e o que não é e, portanto, já não se está disponível para acrescentar aqui mais um livro de alguém que pode ser muito importante mas que não está dentro do canon da Bíblia.
A
Mas, numa frase final, se para os cristãos muito daquilo que os profetas falam se concretiza em Jesus, Para os judeus, quer dizer que os profetas falam de alguma coisa que ainda está para acontecer.
B
Tem que criar expectativas diferentes, mas também o lugar da profecia no judaísmo não é exatamente o mesmo que é no cristianismo. A profecia é mais comentário e extensão da Torá do que propriamente anúncio do Messias. Portanto, isso é um aspecto importante. Nós lemos a Torá, os profetas comentam a Torá e preparam-na para que nós a possamos cumprir ainda melhor.
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Bem, chegamos ao final do sétimo episódio das histórias da Bíblia. Nestes primeiros sete episódios estivemos a explorar ao detalhe os livros do Antigo Testamento, desde a criação do mundo até aos profetas em Israel, passando pela fuga do Egito, pela monarquia, pelo exílio em Babilónia, até pela poesia que encontramos na Bíblia. Na próxima semana, vamos começar a olhar para o Novo Testamento. Vamos tentar perceber como é que Jesus aparece no meio de toda esta história e se, como famosamente se diz, se o Deus castigador do Antigo Testamento é o mesmo Deus misericordioso do Novo Testamento. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.
Date: March 29, 2026
Host: João Francisco Gomes
Guests: Francisco Martins (padre jesuíta, professor no Instituto Bíblico de Roma), João Basto (padre, colunista do Observador)
Episode Theme: The role, meaning, and evolution of prophets in the Bible – Are prophets madmen, visionaries, or something else entirely?
In this seventh episode of "As Histórias da Bíblia," the panel delves into the complex figure of the prophet: central characters in the Old Testament, spanning from visionaries and critics of their time to the influences their words had through history, both within Judaism and Christianity. The conversation explores the origin, types, social and spiritual roles, writings, and the legacy of prophetic figures, culminating in a reflection on how prophecies bridge the Old and New Testaments.
This episode offers a rich, accessible journey through the biblical, historical, and spiritual figure of the prophet. With academic but inviting dialogue, the hosts demystify the prophetic books, showing their complexity, evolution, and continued relevance – both in religious tradition and as a window into ancient (and modern) social critique. The episode effectively bridges the world of the Old Testament prophets with the New Testament and present-day reflections, preparing listeners for the next chapter: the emergence of Jesus within biblical history.