
Loading summary
A
Seja muito bem-vindo ao Contracorrente. Hoje vamos olhar, analisar e debater a Semana Política que está a ter um final com muitas votações, rejeições, negociações e desacordos. A não eleição ontem de Tiago Antunes para Provedor de Justiça é apenas um dos últimos assuntos que marca esta Semana Política. Disse cada aqui. A partir de agora com o José Manuel Fernandes, a Helena Matos e muitos convidados que se vão juntar a nós durante as próximas duas horas. Acompanhe também o Contracorrente em vídeo nas redes sociais do Observador com a realização do Bruno Canas. A condução deste Contracorrente está a cargo da Carla Jorge de Carvalho. Bom dia, Carla.
B
Bom dia, Nelson. Tiago Antunes, sim, não conseguiu ser ontem eleito Provedor de Justiça e por uma margem tão grande que é difícil imaginar que não tenha sido sequer apoiado por todos os deputados socialistas. Mesmo assim, o PS não sabe ainda se vai insistir no nome, o mesmo PS onde há desconforto por o Presidente da República estar a querer um acordo na concertação social, o mesmo PS que esta semana também desalinhou com seguro nas prioridades relativamente à recuperação pós-tempestades, O mesmo PS ainda que fala a várias vozes no que respeita às reformas que o governo quer introduzir na contratação pública, numa altura em que o governo dá sinais de querer tomar algumas medidas e onde ainda não é claro como vai ser o relacionamento entre Belém e São Bento, regressamos no contracorrente de hoje à política portuguesa para tentar perceber como se estão a rearrumar as forças políticas e, José Manuel, já disse esta manhã, não ficaste surpreendido com esta não eleição de Tiago Antunes, pois não?
C
Não, não fiquei, porque de alguma forma as indicações iam nesse sentido e porque depois da prestação na comissão onde teve que ser ouvido, como aliás o resto agora recordou Rui Rocha aqui no... Sim,
B
no noticiário agora mesmo.
C
No último noticiário, Tiago Antunes creio que tinha perdido todas as condições para ocupar aquele lugar. Já seria discutível se alguém com aquelas características poderia ocupar aquele lugar, porque nós vamos ver a lista dos anteriores provedores da República e não têm bem aquelas características. a figuras que até podem ter sido ministros, mas já têm o estatuto de senador, ou são pessoas que na academia foram antigos reitores, professores catedráticos, antigos membros do tribunal constitucional, membros de tribunais superiores. Tiago Antunes pode ter aspectos, até na sua carreira académica, muito valorizáveis, tem até uma parte dela que é internacional, esteve já em várias universidades fora do país, mas não é, digamos, não tem a autoridade digamos assim, fora de uma área bastante específica. Quando nós vamos ver, por exemplo, o que é a sua produção científica, ele também tem uma produção científica, é quase toda na mesma área. Portanto, é muito, muito, muito centrada em direito do ambiente, em direito dos resíduos e direito dos consumidores e pouco mais que isso. É importante, não estou a dizer que não seja importante. Agora, não é, quer dizer, não dá aquela coisa, tem um currículo inatacável, do ponto de vista académico. para um lugar daqueles. E depois há sobretudo a questão política. Aqui nós temos hoje uma peça que não sei se ainda está em manchete, mas penso que sim. Ainda está em manchete. A atualidade às vezes é tão rápida.
B
É muito rápida, mas ainda está.
C
sobre o que foi a Câmara Cooperativa e qual foi o apelo...
B
O blog.
C
As pessoas mais novas não se lembrarão, os mais velhos lembram-se muito bem, os que não seguiram a política talvez não estivessem tanto dentro disso, mas houve um tempo antes das redes sociais em que boa parte da guerra política ocorria num espaço chamado blogosfera. E a blogosfera tinha, com características diferentes, algumas das características têm hoje, em termos de agressividade, tipo de linguagem, que têm hoje as redes sociais, e depois tinha também outras coisas que eram boas, eram sólidas e por aí adiante.
B
Não havia limite de caracteres, em primeiro lugar, não é?
C
Não havia limite de caracteres, mas havia muitas coisas que eram apenas duas linhas, ou uma linha. Eu agora, hoje de manhã, tive a tentar e consegui recuperar algumas das coisas que a blogosfera disse sobre mim. A blogosfera não, a Câmara Recuperativa disse sobre mim, porque me recordava de tê-las. Enfim, eu não sou uma pessoa que fica fixa na memória de todas essas coisas, mas tinha uma ideia de que lá tinham acontecido algumas coisas. Pense que o último post que fizeram, já numa fase em que Sócrates nem sequer já era Primeiro-Ministro, trataram-me como rato de esgoto, aquilo verdadeiramente era... Aquilo usava todos os métodos possíveis e imaginários.
D
Deixa-me só acrescentar, era um blog muito focado em dizer mal de pessoas, ou
C
seja, Tinha ataques muito pessoais. Tinha um lado de defender ao transo tudo o que os governos José Sócrates faziam e a seguir tudo o que o José Sócrates fazia e fazia uma espécie de clipping de tudo o que aparecia nos twitters, primeiro na blogosfera, depois quando apareciam redes sociais, para pôr lá tudo aquilo que era algumas defesas do José Sócrates. Nós hoje sabemos, e isso é contado, não vou repetir aqui em detalhe, é contado no texto do Miguel Santos que arrepatou sobre o que é que se passou na comissão e porque é que isso foi tão importante na decisão e o que é que era um pouco essa ligação de Tiago Abrantes com esta, perdão, Tiago Antunes. Miguel Abrantes, Tiago Antunes. Isso não foi um lapso de línguas, não foi por acaso. Com esse blog. Mas eu vou te dizer aqui uma expressão que acho que posso usar outra vez. Tiago Antunes estava naquilo que eu acho que posso dizer hoje que era o coração das trevas do socratismo. que era um núcleo de muito poucas pessoas, muito poucas pessoas, que se mantiveram, inclusive algumas delas, como visitas habituais da Casa de Paris, e até mesmo ao fim. Estou a dizer que o Tiago Antunes lá foi, sobre isso não tenho notícia. Mas, Filipe Batista, que foi o primeiro chefe de gabinete, etc. Inclusive tem um papel que vem muito de trás, é no tempo do Freeport, para mim nunca ficou esclarecido, esse caso morreu e portanto não temos investigação até ao fim. Temos outra figura que é um verdadeiro... Dark Werther, que é o secretário de Estado adjunto a Almeida Ribeiro, que era uma figura absolutamente... até pela sua passagem para os serviços secretos. Temos Pedro Chivaldo Pereira, que inacreditavelmente se manteve à tona até muito recentemente, e que sempre foi completamente instrumental em tudo isto, e que sabia literalmente de tudo. Portanto, e temos no meio deles, enfim, uma posição que não seria a mais destacada, mas que estava lá e colaborava e que seguramente faria aí, talvez num grau mais baixo, era mais novo, tinha menos experiência, aquilo que depois viria a fazer. Enfim, não estou a dizer que com os mesmos objetivos e da mesma forma, no tempo de António Costa, tínhamos aí Tiago Antunes. Portanto, nós estamos a falar de fazer política aguerrida, de argumentar aguerridamente. Estamos a ousar de usar truques baixos, insultos, métodos que a gente está habituado a ver em coisas que não são saudáveis. Colocar alguém com esta passagem por estes meios num lugar daqueles era complicado, mas não fiquei surpreendido que quando isso foi recordado ele tivesse imediatamente caído. As suas ligações mais recentes à Torneio Costa acho que não eram, enfim. Para todos. E o Feito de Carneiro também é um costista, não é? Portanto, também esteve no governo, teve um papel importante, não era só por aí. Estas coisas dos pedronismos e dos costismos, estes ismos todos em que os partidos agora se entretêm muito, não creio que fosse só isso. Portanto, temos aqui uma situação que é um bocadinho mais, como direi, mais delicada. E tem, sobretudo, outro aspecto que para mim é o mais perturbador disto tudo. Porquê que é o António Costa? Eu acho que o António Costa, por causa de um monte de notas, estava escondido no gabinete do seu chefe de gabinete. Ponto, final, parágrafo. Tudo o resto é fóculo. Quer dizer, que ele acabou por... enfim, não vou... isso ainda tem muito caminho para andar, não vou entrar nisso, mas isso era aquilo que tinha tornado impossível ele manter... tornaria sempre impossível ele... é limitir-se. Como isso só soube umas horas depois da frase do Ministério Público, ficou, para muita gente, a ideia que foi o Ministério Público. Eu não acredito. Quer dizer, obviamente eu não acredito, porque nenhum primeiro-ministro resiste a ter, no andar de baixo do seu gabinete, notas escondidas dentro de caixas de vinhos ou livros na biblioteca do seu chefe de gabinete. Ninguém resiste a isso. E, ora, a pessoa que tinha essas notas escondidas era outro membro desse coração das trevas do socratismo, portanto, desse núcleo instrumental que vinha desse tempo. E isso tem muito, muito a ver com aquilo que verdadeiramente o Partido Socialista nunca fez. E nós já falamos aqui inúmeras vezes que foi perceber o que é que lhe aconteceu para, durante sete anos, cinco anos, sete anos ver Sócrates como o seu menino de ouro e depois dar-lhe um piparoto com a ideia de que a justiça ou queda, a justiça ou queda política é passar adiante como se não tivesse acontecido nada. Inclusive recuperar muitas das pessoas que estiveram envolvidas até aos gasganetes nesse processo, alguns deles lhe levando às posições mais altas do Estado, como é o caso de Augusto Santos Silva. Os nomes das coisas para nós não nos esquecermos. E, portanto, sobre isto, nunca houve qualquer esforço da parte do partido para perceber. Quer dizer, um, a sua responsabilidade real na bancarrota, houve correção de rumo. António Costa percebeu que não podia fazer o mesmo. E percebeu isso quando não ganhou as eleições em 2015. E, portanto, corrigiu o rumo a seguir. Podemos discutir, já discutimos muitas vezes a forma como o fez, mas vê-lo. mas nunca o fez dizendo que estava a fazê-lo. Nunca o fez dizendo que o que tinha sido feito antes estava mal. E depois, sobretudo, nunca houve poucos casos em que as pessoas dissessem abertamente aquele tipo de governação e aquela forma de atuar e aquilo que aconteceu em tudo aquilo que a gente tem vindo a saber no processo marquês é intolerável e nós olhamos para o lado, qualquer coisa. Porque, apesar de tudo, houve o que ele tivesse feito. Por acaso, essa pessoa que o fez até está na Presidência da República. Está no sentido de dizer que não colaborou. Mas mesmo com o partido socialista, nunca teve espaço para o fazer porque o partido socialista não o deixou fazer. Eles estavam lá... pendurado por fios, como está agora pendurado por fios o José Luís Carneiro, apesar dos 90% Olha, como está pendurado por fios uma pessoa que eu gosto de ouvir ali na televisão a falar, que é o líder da UGT, que também foi eleito.
E
Mário Mourão.
C
Mário Mourão. Portanto, pessoas que têm falta de autoridade suficiente dentro do seu meio para se imporem. Portanto, não são meninos de ouro. São, às vezes, líderes de passagem, pessoas que estão com dificuldade de afirmação. Apesar de tudo, nós sabemos que, e não vamos agora falar do Presidente da República por outros motivos, que seguro procurou distanciar-se de José Sócrates, ainda no tempo em que José Sócrates era líder, e portanto teve algumas... tentou enrajar o seu espaço dentro do PS, depois... Depois aconteceu-lhe o que aconteceu, não vamos recuperar esse tema. Mas mesmo aí, mais uma vez,
E
a
C
evolução e a ruptura é sempre parcial. Por exemplo, nós agora temos as nomeações para o Conselho de Estado, que é uma das outras decisões de ontem, finalmente temos a eleição feita, não é? os partidos todos elegeram os seus, os partidos elegeram os seus membros, aconteceu o que se esperava, três do PSD, um do Chega, um do PS, portanto aqui não houve surpresas, soubemos também ontem que eram as nomeações do Presidente. Eu devo dizer que Gostei das nomeações dos académicos, acho significativo ter ali, bem, uma não é surpresa nenhuma, ter a sua mandatária nacional, portanto, a cientista que era a sua mandatária nacional. Isabel Capelo Agil, reitora da Universidade Católica, é uma boa, na minha perspectiva, é uma boa surpresa, é uma pessoa que tem outro mundo, vem de outros meios, O académico de Évora, portanto o biogeógrafo, tem um currículo académico, esse sim, incrível, é um dos cientistas portugueses mais citados internacionalmente, portanto é alguém que e trata temas que são muito atuais, está muito bem. As escolhas que ele foi fazer, as pessoas que foi buscar a área do Partido Socialista, eu diria que era tentar evitar. Nós percebemos, por exemplo, que anteriores presidentes nomearam pessoas que tinham sido antigos ministros, que vinham das suas áreas, Recordo, e em alguns casos eu achei mal, por exemplo, achei mal que a FAC Silva tivesse nomeado no seu primeiro Conselho de Estado. Estava a falhar o nome, aquele foi Ministro da Administração Interna. Não me recordo agora. mas ele uniu-se por duas vezes, Manoela Ferreira Leite. Mas Manoela Ferreira Leite era sua amiga, sempre tinha sido, portanto era uma relação pessoal muito próxima. Aqui não há nada de especial. Marcelo Rebelo de Sousa também foi buscar uma ex-ministra ali no Beleza, mas no Beleza, toda a gente sabe, era uma pessoa das suas relações mais pessoais, colega da universidade, que já tinha uma vida completamente feita depois de sair do governo. por outros mundos completamente diferentes, portanto, temos, portanto, agora, quer dizer, Severino Teixeira, até nem, não será o militante do Partido Socialista, Neste momento, eu até diria, é o mais compreensível de todos. Já Alberto Martins...
D
Eu, por acaso, sugiria não deixar a tenda em conta até as circunstâncias de segurança, defesa... Sim, segurança e defesa, eu
C
acho que é uma maniação muito lógica.
A
E o facto de ele estar muito
D
ligado à parte dos militares, eu vejo como...
C
É muito lógico.
B
Alberto Martins terá a ver com aquele passado de resistência? Aquele episódio?
C
Mas ele viveu sempre disso, um bocadinho, mas nunca foi um ministro brilhante.
D
Por acaso, posso só fazer aqui uma intervenção. Eu ouvi várias vezes o som dessa intervenção. É preciso coragem para fazer o que Alberto Martins fez. Mas há uma voz que diz, várias vezes, vai falar o presidente da Associação Académica. essa voz que nunca, que não está identificada, que é certamente do estudante, esse sim foi muito importante porque é ele que consegue parar a sessão e que diz duas ou três vezes com aquela voz de Coimbra, vai falar o presidente, quer dizer, a certa altura a ideia era que não falasse o presidente da associação. Portanto, houve mais protagonistas e depois a história tem outros episódios que ficaram decididamente apagados. Era só para lembrar, houve mais vozes. De toda maneira, isto são coisas de arquivo e, portanto, Alberto Martins, já passaram muitos anos, talvez, se é por isso, vá para o Curador de Museu.
C
Olha, o produto de justiça poderia ser um bom nome. Já no caso de Alberto Martins era um nome que, creio, não levantaria uma pessoa... Acabaste de dar uma ideia.
D
Antes pelo contrário.
C
Antes pelo contrário, é uma pessoa que tem, desse ponto de vista, uma preocupação com temas que seria interessante. Bem, dito isto, nós ontem tivemos, apesar de tudo, um 17 a 1, não é? É uma cabazada. Só estou a dizer isto porque havia 18 votações ontem. 18!
B
Sim, e estamos a falar só de uma, não é?
C
Estamos a falar só de uma. E apesar de todas as outras, 17 correram bem. E as outras 17, eu nem tinha noção que eram tantas. Tive que ir ao site da Assembleia da República ver que, entre outras coisas, até há uma eleição para uma coisa chamada Conselho Pedagógico do Centro de Estudos Judiciários, ou para a Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos, ou enfim... a Comissão Nacional de Proteção de Dados individualmente, a Comissão de Acesso aos Dependentes Administrativos, muita coisa. Mas correu tudo bem, até houve possibilidade
B
de entrar uma pessoa do LIVRE, uma
C
pessoa da Indiciva Liberal para um destes órgãos, por acaso foram os dois para o mesmo, que é o órgão, é o Conselho Superior de Segurança do Ciberespaço, foi um da Indiciva Liberal e um do LIVRE. Essa parte correu bem, a maior parte dos nomes não são muito conhecidos, eu pelo menos não consigo identificá-los pela lista da Assembleia da República, essa parte correu bem. Agora, aquilo que nós percebemos, e ainda hoje nos programas que já tivemos percebemos, Aquilo que eu disse há pouco de José Luís Carneiro ser líder, mas haver alguma dificuldade com ele, não desaparece. Para, estou-nos a seguro, nunca foi completamente aceito no partido, apesar de ter tido sondagens muito melhores que aquelas que agora Carneiro tem. Portanto, estas coisas das sondagens, a meio do caminho, valem relativamente pouco, sobretudo quando estamos numa fase do caminho em que eu até gostava que os governos estivessem com piores sondagens agora, porque era sinal que estava a fazer mais coisas do que está a fazer. Portanto, não é aí que está o ponto. O ponto está em saber se Estes temas de que se fala muito, às vezes de forma porventura, um pouquinho esticada, que é o pedrononismo, o costismo, o socratismo, o que tu quiseres, mais do que isso, eu acho que os partidos precisam tentar, sobretudo estes dois grandes partidos, o PSD e o PS, mas neste caso estamos a falar do PS, de não discutir apenas aquilo pessoas, relações umas com as outras, e perceber para onde é que querem ir. E desse ponto de vista eu sinto que, por exemplo, há dificuldade em fazê-lo no Partido Socialista. Dois temas em concreto. Por exemplo, o Partido Socialista está sempre a falar de habitação. Mas será que é capaz de olhar para aquilo que andou a fazer durante os oito anos que esteve no governo, em que o problema se agravou de forma dramática. Não é só os oito já agora, não é só. É os oito anos de governo e os não sei quantos mais que o António Costa teve à frente da Câmara de Lisboa, que também são significativos do que foi a política de habitação daquela liderança. Foi o período, a década de 2010-2020, é a pior década da história de Lisboa em termos de construção de habitação social. A pior. Desde o tempo, desde os anos 40. E Nara Salazar era viviçeria. Portanto, é catastrófico. E depois temos o pacote de medidas, o último pacote de medidas, que deu cabo de não sei quantas coisas na área da habitação, muitas delas, O Partido Socialista é capaz de olhar para isso e dizer, fizemos mal? O Partido Socialista é capaz de olhar, por exemplo, para o pacote laboral que aprovou sem a aprovação da Constituição Social, ignorando a Constituição Social e dizer, se calhar, bem, isto da Constituição Social é capaz de ser importante, não é só importante quando é o OGT que está a fazer fim capé, é também importante ouvir os outros, não é? Portanto, será que é capaz de olhar para isso de uma forma moderna, em temas como estes, e mesmo numa questão tão simples como, diria eu, a partida, menos ideológica, como esta da... E foi um tema em que o PS foi campeão durante muitos anos, que era desblocatizar, simplificar. Olha aí, foi das poucas coisas onde o Sócrates começou bem. Até começou bem, não é? Já lá vão 20 anos. Será que é capaz de dizer, vamos tomar cuidados, mas o caminho é este? Em vez de estar dividido e estar, se calhar a juntar só chega nas suas dúvidas. Quando tem pessoas como Fernando Medina, como Luísa Salgueiro, como... Pedro Silva Pereira a dizer abertamente... Pedro Silva Vieira. Pedro Silva Vieira. Perdão, não é Pedro Silva Pereira. Pedro Silva Pereira era outro departamento.
D
Literalmente falando.
C
A dizer que é de facto necessário descomplicar. Portanto, acho que há esse problema. Até que nós já percebemos que se calhar o PS tem... Pode ter duas oportunidades, que é, de alguma forma, não desalinhar, quer dizer, não parecer às vezes estar a desalinhar com o Presidente da República. O Presidente da República, pelo menos, está a procurar uma coisa. Não quer dizer que vai fazer tudo bem, não vai fazer de certeza, ninguém faz, mas está a procurar não entrar já em choque com o Governo. E o Presidente da República atravessou-se com uma frase, que eu acho que não foi planeada, mas aconteceu-lhe, sobre a história do pacote laboral... Durante a campanha. durante a campanha e agora está a ver como é que desata esse nó. O PS estar a dizer que não pode haver... no fundo estar a dar a entender, há uma notícia hoje expressa sobre isso, estar a dar a entender que aquilo que são as conversas com o UGT e o próprio presidente tentar reavivar o acordo está a sentir-se incomodado é um péssimo sinal. Péssimo sinal. E por outro lado, há outra... penso que poderia haver outro oponente ao Partido Socialista que é, ao contrário do que muita gente acha, não acho que esteja escrito nas estrelas que o próximo partido que vai ganhar as eleições seja o Chega. E o PS tem, e isso já se percebeu, em alguns limites da própria capacidade do Chega, da sua ventura à dependência, O PS pode ter aqui também um espaço e um espaço que não é andar... O Chega pede que se baixe o IVA na gasolina, o PS... Eu não sei se isso acontece exatamente assim, mas a lógica é esta. Se um PS quiser subir, vou a outro PS que deixa o ISP.
B
Ainda se está aqui a medir muitas forças que não se realinham.
C
Porque é populismo proposto pelo Chico ou é populismo proposto pelo Partido Socialista? Quer dizer, o próprio Peço não fez isto quando era governo, quando houve um problema de combustíveis parecido com o de hoje, e aliás mais grave do que o de hoje. Ele lembra na altura dos combustíveis terem ultrapassado os 2 euros, ainda não ultrapassaram.
B
Vamos ver, são muitas pontas, não é? Muitas pontas aqui para agarrar e temos connosco, e vão estar connosco neste contracorrente, o André Brandes Amaral, que é colunista do Observador, e o José Ribari Castro, antigo líder do CDS, bem-vindos. José Ribari Castro começava por si e com este ponto que marca o princípio desta análise, que a escolha do nome de Tiago Antunes foi um nome que à partida estava a pedir antes de ver uma situação complicada no Parlamento? E aqui um braço de ferro difícil de ultrapassar.
F
Sim, eu costumo, por norma, achar que os acordos nesta matéria sejam cumpridos. Mas no caso da Tiago Antunes, creio que o Parlamento fez um ato de higiene democrática pela forma como decorreu o processo. Quando apareceu o nome Ele não surgitou uma grande reação, que eu me desse conta disso. Eu devo dizer que não me lembro dele, não me lembrava dele. Foi sendo informado pelo noticiário que foi sendo publicado, nomeadamente relativamente à sua participação no Câmara Corporativa, e que era um blog que, como se hoje se usa, era especialista na linguagem de ódio. a sua grande especialidade era essa e, portanto, aquele comitê de controlo da linguagem de ódio que existe na bancada do PS devia examinar esse caso de partida que é esse bloco. Eu creio, aliás, que o que mais me surpreende nesse grupo é que integra pessoas que passaram pelos governos de Sócrates, enfim, em diferentes posições, e muitas vêm, da minha alma, matar a Faculdade de Direito de Lisboa e professores que ensinam lá. E eu creio que eles todos, vazia um ato de higiene democrática ao país, emitissem uma condenação severa do comportamento de José Sócrates na sua estratégia de defesa. José Sócrates ainda não foi a julgamento. usa todos os meios e mais algum para conseguir evitar alguma vez sentar num julgamento para poder ser apreciado, e portanto ele conduz um ataque ao Estado de Direito e ao funcionamento da Justiça como nós nunca vimos. e, portanto, era bom que pessoas que ensinaram ou ensinam, como é o caso de Tiago Andunes, e também de Pedro Silva Pereira, já aqui referido, e outros, emitissem essa condenação e se demarcassem. O facto de terem estado no seu governo ou terem colaborado não os desqualifica necessariamente, isso são coisas que acontecem, e eu presumo que os crimes de José Sócrates foram cometidos sobretudo por ele, mas se assistem pávidos e serenos, a este ataque feroz feito por José Sócrates, que já está no Tribunal dos Direitos do Homem em Estrasburgo, que usa todos os meios para impedir o funcionamento da Justiça, os qualifica como incapazes de exercer qualquer ação política na área da Justiça, como é o caso do Provador de Justiça.
B
É uma nódua no currículo, que é objetivamente.
F
Exatamente. Ele não tem currículo para esta função, mercê desse passado que não esclarece. Ninguém o contesta do ponto de vista técnico, não vi ninguém o fazer, mas há de facto aqui um traço saliente direcial manódoa, mas é um traçalhante do seu currículo, que o desqualifica para provedor de justiça. Aliás, usa-se muito a expressão ombudsman, é o ombudsman, que vem de uma palavra sueca, não sei exatamente qual é a etimologia da palavra, mas sempre ouvi como um sinal de grávida. Quando se fala de ombudsman, não é um guerrilheiro, não é uma pessoa que anda, como se diz no futebol, à sarrafada, mas é um...
B
Não é um viking.
F
É uma pessoa sábia, prudente e, portanto, particularmente apetrechada para mediar conflitos e não para os provocar. Eu às vezes uso como métrica para a política uma coisa que nos meus 10, 11 anos aparecia nos cadernos de livros quadradinhos do que era o Falcão, e que nos índios havia duas figuras.
C
Eu não me recordo desse Falcão. Eu não me recordo.
F
que era um jovem guerreiro, o Crazy Horse, e o sábio, o ancião, que era o Sitting Bull, o boi sentado. Ora, o provedor de justiça é o boi sentado, sendo um homem prudente e tal, e portanto o Tiago Antunes não tem isso. Enfim, a última provedora de justiça foi a Lúcia Amaral, que embora tenha tido pouca sorte em ter aceito ser Ministra da Emissão Interna, é uma grande senhora, uma pessoa de grande sabedoria, que exerceu exemplarmente o cargo de Provedor de Justiça, pela forma como atendia.
C
Com grande incómodo para os governos, inclusive na primeira fase do governo, depois ela faria parte.
F
Foi uma pessoa de grande isenção, de grande superioridade intelectual e conhecimento, e que usava esse seu capital para servir o Estado. Não se vê que uma pessoa com
B
esse perfil... Neste perfil. Deixa-me passar ao André Abrantes Amaral porque, e de resto a Iniciativa Liberal tem criticado também essa área. Tendo em conta estas dúvidas levantadas pelo perfil de Tiago Antunes, porquê que o PSD alinha neste nome e aceita este nome?
E
Foi muito estranho desde o princípio. Aliás, quem levantou desta questão foi o deputado Rui Rocha, mas também Miguel Mourgado no seu comentário na SIG Notícias. E o que foi curioso, e eu acho interessante que seja Miguel Mourgado a referir isto, porque é uma pessoa ligada ao PSD, é do PSD, Mas é do outro PSD.
B
Ligado a outra ala do PSD.
E
Exatamente.
B
Com o ismo também.
E
Possivelmente a outro tempo, a outra memória. E eu aqui questiono duas coisas. Ou este PSD não viveu aqueles tempos, mas eu sei, até porque tenho pessoas que eu conheço que são atualmente deputados que tiveram na direção de Manoel Ferreira Leite e portanto deviam estar perfeitamente conscientes do que aconteceu naquela altura. Ou então a memória política não é só o povo português que tem parque de memória, também os próprios políticos esquecem com muita facilidade. E cá está, isto não é nada pessoal contra Tiago Antunes, quer dizer, ou de qualquer cargo político, mas era o que estava a dizer José Ribeiro Castro. Na Provedoria da Justiça, que vive muito o prestígio da instituição, da pessoa, é importante que essa pessoa seja o mais imparcial possível. E é preciso também não esquecer que a Provedoria da Justiça é um cargo político, tenha sendo um Conselho de Estado, por exemplo. Não é só o de ser um bom técnico, isso é imprescindível, mas também é importante que tenha créditos políticos ou que pelo menos consiga se impor politicamente, porque aliás é disso que vive a Provedoria, eles não têm um poder de decisão, ninguém ali impõe nada.
B
Também é o poder da palavra.
E
Quer dizer, se a pessoa não tem autoridade, por si só, a palavra perde todo o significado. Relativamente ao PSD, estranhei relativamente ao próprio Chega. Porquê? Porque sempre foi muito vocal nas questões do José Sócrates, mas neste momento, depois, pelo menos não tomou a iniciativa. Verdade seja dita, que puseram-se logo à margem e disseram que não iam votar a favor de Tiago Antunes, mas talvez, porque muitas das pessoas que estão no Chega não terão vivido este período e, portanto, se calhar até desconheciam, vou acreditar nisso.
B
Tinham menos anticorpos.
E
Exatamente, e portanto é perfeitamente possível e aceitável. Mas no PSD, Será o que?
B
Será o cansaço das negociações? Será o cansaço das negociações a sensação dos deputados de que não está a dar uma boa imagem ao país, os partidos não se conseguirem acertar e deixaram o ONU agora para o nome que cabe ao Partido Socialista resolver?
E
Pois, já há tantas, eles indicaram aquele nome e ninguém quis estar a criar problemas porque as negociações já continuavam e estavam sendo, por exemplo, extremamente cansativas. Pode ter sido esse o caso.
F
É preciso dizer isso, até porque há o caso pendente do Tribunal Constitucional. Todas estas juliciações estavam na esteira do arrastado em passe no Tribunal Constitucional.
B
Que ainda não foi votado, que fica adiado para maio.
F
E logo veremos como acaba. Ontem correu bem, em geral, as votações para o Conselho de Estado, quanto à composição nem tanto, no meu entender, mas...
B
Fica claro que Tiago Antunes não vai passar. Mesmo que estejamos nesta fase e ainda o PS hoje explica que estamos na fase em que Tiago Antunes fará a sua reflexão se quer ou não continuar a insistir a ir à votação. Mas fica politicamente claro que não dá.
F
ficaria bem que eu se retirasse, ficaria bem que todas as figuras do PS comprometidas com o socratismo tomem posição pública, e volto com isto, contra a estratégia de defesa dos exócratas, o PS não tenha a mais pequena dúvida. Se o José Sócrates conseguir vencer esta sua luta para conseguir não se sentar no julgamento, isso fica para todo o sempre no rasto e no currículum do Partido Socialista. Os portugueses não se esquecerão que o Partido Socialista terá assistido a este ataque ao Estado de Direito, que é movido pela forma de defesa de José Sócrates, sem dizer uma palavra, sem o condenar.
B
Mesmo que os portugueses, entretanto, já tenham dado uma maioria absoluta ao Partido Socialista.
F
Sim, mas eu acho que os portugueses, em geral, não podem aceitar que haja um antigo Primeiro-Ministro sobre o qual pesam as negociações e que não tenha a oportunidade e também o dever de, num tribunal, perante o público, sem manobras, sem segredos de justiça, provar a sua inocência ou a sua não culpa. ou ser reprovado. Esse momento é o momento fundamental de um estado de direito nisto. E esta última estratégia do carrossel dos advogados oficiosos é uma coisa do arco da velha, como se costuma dizer. E era importante que estas pessoas, todas elas formadas em direito e algumas particularmente qualificadas, condenassem, nos termos mais vigorosos, essa estratégia do seu antigo líder.
B
André Brandes Amaral, há esta perceção ainda, afinal José Sócrates ainda tem efeitos secundários na política portuguesa e no Partido Socialista concretamente.
E
Sim, e é aquela... nós hoje temos... há muita ideia de nós todos de criticar determinadas posições e comportamentos do Chega, de uma certa agressividade no discurso político, mas essa agressividade começou no Partido Socialista com José Sócrates. E não só com José Sócrates, com pessoas que estavam à volta dele, inclusive ministros. Ainda há pouco aqui estávamos a falar do caso de Manuel Pinho, por exemplo, no Parlamento, quando teve determinado tipo de comportamentos.
B
Que levaram à admissão.
E
Claro, certo, mas aí estávamos ainda no princípio, as pessoas ainda chocavam, agora indignam-se, mas às vezes já nem sequer se indignam e sentem que isto não é um fenómeno português, exclusivamente português, nós estamos a ver que não é só aqui. Mas a verdade é que determinado tipo de comportamento... Há uns tempos até ouvi o João
D
Miguel... Desculpe, de repente estava-se normal. E dizia-se isto, como se fosse um elogio. Que ele atirava coisas às paredes.
B
Quem?
E
O Sócrates.
D
Era um sinal da sua liderança. Os dias de fúria, em seu momento,
E
ele atirava coisas às paredes.
D
Estrangeiros ou lá o que era.
E
E também se diz que António Costa perdia as tribeiras com muita facilidade, se irritava e tinha ataques fúrios. Não sei se é verdade ou não, mas quando li isso era como uma coisa, uma pessoa determinada. Como não está muito no meu feitiço, não vejo essas qualidades como sinal de determinação.
D
Até porque a pessoa pode estar sempre no caminho sincero.
E
Pois.
F
E não fumara.
C
Parece que alguns que estiveram. Do cinzeiro, ou do boneco, ou do...
B
Como é que se sai disto, André? É também com outro nome? O PS vai ter que apresentar outro nome?
E
Sim, o PS vai ter que apresentar outro nome, e que desta vez o Partido Social-Democrata pondere mesmo se o nome é aceitável, e essencialmente tenha prestígio. Não acho que seja muito difícil o Partido Socialista encontrar um nome que possa ser consensual. Tem muita gente.
B
A questão é se aquilo que aconteceu ontem quebra algum princípio da confiança entre os dois partidos.
E
A partir de... pois, quer dizer, todas as outras eleições correram bem, não é?
B
Sim.
E
Pronto, a questão aqui é para o Tribunal Constitucional, nomeadamente para aquele acordo que... e, aliás, há uma entrevista de Eurico Brilhante Dias aqui ao Observador, não sei se ontem, e foi antes da votação, em que refere esta ideia de que é o Presidente que vai ser substituído, e há um acordo E até fiquei com a ideia que é o Partido Socialista que indicará essa pessoa com o acordo do PSD. E portanto vamos ver agora.
C
Sim, a ideia é haver uma, em vez de substituir em três, substituir em quatro, a poder entrar dois do PSD, um do Chega e um do PS.
F
Mas esse é um acordo mais complexo, porque o Presidente depois é eleito pelos juízes que lá estão, não é?
C
Os juízes que lá estão, e em princípio será um próximo do PSD. Que é aquilo que diz a tradição, desta vez. Eles não vão nomear o Presidente, porque o que entra novo em princípio não vai lá para o Presidente. Agora há um percurso a ir a fazer.
B
Começam a construir-se aqui mais algumas ideias sobre o que os novos protagonistas vão fazer neste novo ciclo político. Helena Matos, estes resultados de ontem na Assembleia, o que é que mostram? Uma rearrumação da forma como os partidos estão a lidar uns com os outros?
D
Por acaso acho que mostra que há problemas complicados dentro de cada partido, ou seja, é óbvio que dentro do próprio PS, parece-me que o PS terá votado maioritariamente em Tiago Antunes, mas não todo o Partido Socialista. O PS tem neste momento vários problemas complicados lá dentro para resolver, entre os costistas, os socráticos, os seguristas, tudo isto, os carneiristas, o Partido Socialista está ali com várias questões para resolver e muitas vezes, e de alguma forma Tiago Antunes acaba Esta sua não-eleição é o resultado de duas coisas. Uma, claro, que o seu nome gera vários anticorpos dentro do seu próprio partido. E note-se aqui uma coisa, o Professor de Justiça é alguém para cujo exercício do cargo é fundamental o seu prestígio. Porque é um cargo, se nós vamos ver, o Provedor de Justiça não é o Procurador-Geral da República. É um cargo no qual o perfil do próprio Provedor é fundamental para ser ouvido. Porque o Provedor de Justiça pode realizar investigações, pode emitir avisos, mas não pode fazer muito mais do que isso. Portanto, o peso da pessoa que exerce aquele cargo ou que está naquele cargo É fundamental. Daí penso eu que realmente uma pessoa com outro tipo de perfil. Depois há aqui uma outra coisa que se passa. Tiago Antunes acaba por... As coisas acontecem em determinados tempos. O tempo em que as coisas acontecem é muito determinante. Porventura, se ele tivesse sido candidato a Provedor de Justiça aqui há uns anos, nada disto teria ocorrido. Ele teria sido eleito muito facilmente Provedor de Justiça. Olha, é um pouco como aquela discussão entre o Pacheco Pereira e o André Ventura a propósito de preços políticos, quer dizer, há coisas que nós não discutimos no momento. E depois, vários anos depois, a coisa rebenta-nos nas mãos. Porque parece que as pessoas já podem discutir, já querem, não se sentem comprometidas a discutir, porque podem ter tirado benefício, porque podem ter estado de alguma forma, não se quiseram pronunciar no momento. E depois, às vezes, vários anos depois, aquilo que teria passado sem advertência e num momento, torna-se há necessidade de fazer ali quase que um expurgo, por assim dizer. Eu creio que, e aqui o José Ribeiro Icaste referiu isso, que neste momento, em relação ao José Sócrates, é como se tivesse se tornado uma espécie de abscesso. É algo que nos incomoda. Aquele homem, para todos os efeitos, é um antigo Primeiro-Ministro. Milhões de portugueses votaram nele. Enquanto José Socrates anda nesta triste vida, há quase a necessidade de atirar ali umas bolas àquela pessoa que agora surge cometendo este tipo de facto, naquela propaganda, naquelas coisas todas. Pela primeira vez vemos o José Sócrates a tornar-se tóxico.
B
Pela primeira vez. Sim.
E
É preciso referir só um ponto aqui. É que não é fazer parte de um governo. Há pessoas que foram ministros de José Socres, a Secretária de Estado, naturalmente isso não é mancha nenhuma no currículo. Agora, Tiago Antunes esteve no círculo mais próximo.
D
naquele gabinete da propaganda, não é?
E
Exatamente, e a propaganda de José Sócrates não era propriamente simpática.
D
Não era dizer que o governo estava a fazer coisas bonitas. Não, era algo muito diferente. Portanto, é como se realmente aquela toxicidade de José Sócrates agora estivesse a vir ao de cima e acabou por ganhar um rosto. E isso eu acho que também é um sinal dos tempos. Depois acho muito interessante o destaque de Rui Rocha, porque nós vemos a Iniciativa Liberal, que é um partido que tem o seu líder, mas é um partido que tem em grande destaque antigos líderes. Vemos agora aqui Rui Rocha, temos o caso de Carlos Guimarães Pinto, Portanto, também temos o caso do...
B
O João Guterres Figueiredo tem um comentário semanal na televisão.
D
Exatamente, e pronto, ele foi candidato presidencial e não teve um desempenho irrelevante. Portanto, a iniciativa liberal tem a circunstância inversa do Chega.
B
Portanto, chega... Tem figuras a mais.
D
Tem, tem. E isso pode ser muito complicado às vezes, não é? É um caminho que às vezes o CDS também teve. Está aqui o Riberto Castro, não é? Parece que já havia quase mais personalidades do que eleitor. E, portanto, há aqui esta... Aquilo que é neste momento a circunstância da iniciativa liberal, não estou a dizer que seja bom, que seja mau. É algo para o qual devemos olhar com atenção, porque às vezes é como se a sua própria líder fosse a pessoa menos destacada nesta galeria de notáveis que estão vivos e atuantes e faladores. E isso viu-se muito bem agora com esta figura de Rui Rocha. Rui Rocha que, aliás, passou a tirar muito partido das redes sociais. Ele, à partida, podia quase ter secafundido, porque tinha perdido, havia pessoas destacadas, mas começou a usar as redes sociais, por exemplo.
C
Ele sempre foi bom nas redes sociais. Eu penso, aliás, que ele vem da blogosfera.
D
Em parte, sim.
E
E também teve no Twitter.
C
Eu não acompanhei muito, mas sim.
D
Portanto, acho que há aqui esta situação inversa, quando se compara, é como se o Chega precisava de ter estes leques de personalidades, porque na verdade tem uma falta muito grande de figuras. Também não sei se seria compatível com a figura dentro da aventura, mas isso depois é outra questão. Portanto, acho que temos de perceber que os tempos da condenação não são bem aqueles que nós pensamos que deveriam ser em todo este episódio. Com isto tudo, a grande pergunta é o que é que vai acontecer com o Tribunal Constitucional. Porque vimos a eleição ser adiada, não é? Para maio, não se sabe ainda o dia, não?
B
Não, foi adiada para maio.
D
Olha, eu sugiro 13 de maio, que é um dia em Portugal muito associado a milagres.
B
Sabes a que dia calha?
C
Talvez um fim de semana, penso eu.
D
Talvez.
B
Vou confirmar. Dizes qualquer coisa mais sobre o 13 de Maio? É uma segunda, é um lindo dia. Ah não, peço desculpas, estava a ver em Abril. É uma quarta-feira?
C
É uma quarta-feira.
E
É um bom dia.
C
Primeiro de Maio é uma sexta, portanto, 13 de Maio não pode ser.
D
Pois, é um bom dia, portanto, eu acho que talvez 13 de Maio que é um dia com forte tradição em Portugal.
F
13 de Maio é quarta-feira. Eu sei porque o ciclo onde a Helena Matos participa é no dia 12 de maio, que é uma terça.
D
Ah, eu enganei-me a escrever terça, até nas mensagens trocámos. Pronto, portanto, olha, eu acho que será uma boa data. Ou seja, neste momento o que está em cima da mesa é se o PS considera que foi, que deve voltar tudo ao princípio. Note-se que o Chega foi muito mais cauteloso na indicação do nome para o Tribunal Constitucional. Portanto, o nome que foi indicado é o de um juiz face ao qual os demais ouvidos, todos os seus pares, as pessoas que conhecem e que estão no meio, não levantam qualquer tipo de reserva. Portanto, há aqui uma coisa complicada, se neste momento a pessoa indicada pelo Chega não for e lei, tá? Aparece como aquilo que de facto é, que é uma represália pelo assunto Tiago Antunes. Agora, o que nós pensaríamos é que seria, ou chega a indicar alguém com um perfil, não estou a dizer, de ideias, mas com um perfil guerrido como o Tiago Antunes e não foi isso que aconteceu. Portanto, o Che Gueye optou por uma figura consensual e vemos aqui o PS que há de facto esse lado bastante inexplicável porque foi escolhido Tiago Antunes. É como se o PS ainda não tivesse percebido que o tempo mudou. Tanto mais que na entrevista em que o André de Samaral aqui referiu do Eurico Brilhante Dias ao Observador, penso que ficou claro, ou ele diz mesmo, penso que foi nessa entrevista, que era uma escolha do Zé Luís Carneiro.
E
Sim, sim, ele referiu isso, mencionou, sublinhou mesmo, que era um caso contrário e não teria sido apresentado.
D
Ainda mais deixa perguntas, porque José Luís Carneiro, esta não é o tipo de situação que o deixa fácil, que o deixa numa situação confortável dentro do partido. Eu acho que o PS ainda não percebeu que as coisas mudaram, e às vezes age, como se não percebesse, tem de ponderar muito mais coisas neste momento. Quando faz propostas, quando faz decisões, quando não sei o quê, o mundo mudou. E, portanto, eu acho que o PS às vezes continua a querer que o mundo volte para trás, ou fazer de conta que se podem ignorar certas alterações. E isso pode passar por deixar que o Chega não ia para terminar com o Chega, aquelas coisas todas, ou por escolher uma pessoa para um cargo em que precisa. de uma maioria qualificada de votos e faz uma escolha que é aparentemente inexplicável, desacertada, azilha. Mas será que é só isso? Eu não faço a menor ideia. Portanto, temos esta circunstância. Eu acho que com isto tudo, e francamente eu acho que entre estas distrações destas coisas nacionais, desta eleição para os órgãos externos, ainda por cima uma pessoa faz uma pesquisa para ver se já houve a eleição para os órgãos externos e aquilo que nos aparece logo de manhã Às seis e meia da manhã, quando uma pessoa faz uma pesquisa para ver se houve eleição para os órgãos externos, é que nos aparecem os órgãos externos do corpo humano. Portanto, isto aconteceu-me hoje, às seis e meia da manhã.
B
Depois a Helena pediu-me ajuda e informação.
D
Não conseguia encontrar referência nenhuma. Depois pedi órgãos externos e depois claro, pronto. Mas temos isto. Depois vemos outro jogo de equilíbrios que também está agora, e hoje ganha particular acutilância, que é a questão da negociação da lei laboral, em que temos por um lado notícias que são objetivamente informações que são feitas chegar a dizer que o Presidente da República está a pressionar muito, muito, muito a UGT, tendo em conta que o Presidente da República ainda não constituiu completamente a sua Casa Civil, será interessante saber ou é a UGT que está a dizer isso? quem é que avisa que o Presidente da República está a fazer muita, muita, muita pressão sobre a UGT, se fosse, às vezes, talvez, quero pensar, se fosse no tempo de Marcial, não estava a dizer. Claro, já há uma fuga de Belém, uma fonte de Belém, aqui não se percebe, mas António José Seguro foi particularmente Eu acho que ele não foi infeliz na campanha eleitoral, eu acho simplesmente como ele não teve de fazer campanha eleitoral, não teve de dizer nada, porque só dizia que os ovos não podiam estar todos no mesmo cesto e não tinha de dizer nada porque os outros candidatos entretinham-se a autodestruir-se com as declarações que fazia e ele ia passando literalmente entre os pingos das campanhas dos outros. Quando foi assim confrontado com umas perguntas mais a sério, está no debate com o André Ventura, o único da segunda volta, e ele diz que não aprovaria a legislação laboral caso a UGT achumbasse, não a aprovasse, o que é uma coisa, quer dizer, o futuro Presidente da República, porque já sabia que ia ser Presidente da República.
C
Ele estava a debater com o André Ventura. Está bem, mas não sabia, não era claro que era ele que passava a 2ª volta.
D
Também era muito escuro achar que ia ser o André Ventura.
C
Não, não, não, não.
B
É o Ernesto que está a referir-se ao debate da 2ª volta, mas na 1ª já se sabe disso.
C
Na 2ª volta ele repete isso, porque ele já tinha dito isso na 1ª, onde ele comete...
D
O Carlos de Melo perguntou-lhe duas vezes.
C
Mas ele faz isso no debate da 2ª volta, mas na 1ª volta é
D
onde ele promete que não pode seguir... Na 1ª até o Marques Mendes disse essas coisas. Quer dizer, o Carlos Daniel pergunta-lhe duas vezes, duas vezes.
C
Sim, mas já viste o que é que ele na altura diz? Eu disse isso na 1ª volta, agora vou-te dizer uma coisa ao contrário. Não pode, não é?
D
mas que usava de ter dito claro, como disse. Ou seja, podia ter começado a arredondar o discurso, acho eu, não é? Mas, ou seja, coloca-se nas mãos de uma central sindical que ainda por cima tem uma expressão de sindicalizados muito baixa e, portanto, ficou ali naquela circunstância. Com isto tudo, eu acho que talvez o grande, grande, grande beneficiado seja Luís Montenegro. porque entra a obsessão trampiana em que está a imprensa portuguesa. E estes acontecimentos, nós, eu acho que estamos a viver um momento de desatenção do que é que o governo está a decidir ou não está a decidir. E isso, para bem e para mal. Para bem e para mal. Portanto, algumas medidas, concordar-se-á, por exemplo, eu penso que o Gonçalo Matias está a tentar fazer ali alguma coisa, mas há medidas que estão a ser tomadas na educação, que estão a ser tomadas na saúde, Os ministros estão discretos, andam lá por baixo e isto está assim. Portanto, eu creio que neste momento o principal beneficiado com isto tudo é Luís Montenegro.
B
André, é, o Luís Montenegro está com a liberdade de conseguir ir governando sem um escrutínio tão aceso.
D
Não, não, eu não disse liberdade, ele está a contar com a desatenção.
B
Ah, pronto. Tem a vantagem de contar com a desatenção.
D
A desatenção.
E
Eu acho que nós temos aqui...
D
Eu devo rezar todas as noites para que o Trump faça um tweet.
E
Eu acho que nós temos aqui atualmente quatro figuras políticas que são as mais influentes. O Presidente da República, António José Seguro, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, André Ventura, por ser o líder do Chega, que é o segundo maior partido, e depois José Luís Carneiro, do Partido Socialista. E eu até fiz aqui um pequeno quadro com os pontos fortes e os fracos que eles têm. E eu julgo que, por exemplo, António José Seguro, o que é o ponto forte que ele tem neste momento, é que ele é o único que está garantido por 5 anos. Ninguém o vai tirar dali. Mas tem pontos fracos. Bastantes. Primeiro, e foi o que a Helena Matos referiu, ele foi o que sobrou. Ele foi o candidato que sobrou. Poucas pessoas terão votado, não digo poucas, mas pronto. Mas, quer dizer, aquelas que votaram não seriam suficientes para que ele vencesse as eleições presidenciais para que fosse eleito. Houve muita gente que lhe deu a eleição que votou nele porque não podia votar em André Ventura. E houve outros que votaram em branco, mas que não votaram também no adversário. Mas depois ele cometeu dois erros, um que a Helena também referiu, que foi relativamente ao pacote laboral. E é engraçado como é que uma pessoa que é politicamente tão experiente comete estes dois erros quando ainda é presidente há tão pouco tempo. O pacote laboral ele pôs-te na mão da UGT e o outro foi, julgo que foi no discurso da tomada de posse, quando diz que afasta por completo, não é completo, mas praticamente isso, a dissolução da Assembleia da República. Ou seja, faz o oposto do que fez Marcial Guilde Sousa. E isto acaba por condicionar, de certa maneira, o funcionamento do Parlamento e dos partidos, e o condiciona-o também. Sinceramente, ninguém está à espera que este governo caia e que o parlamento seja dissolvido porque não haja aprovação, porque o Orçamento de Estado para o próximo ano seja aprovado em novembro de 2026. Isso, parece que não, mas condiciona em muitas negociações o orçamento e o comportamento dos partidos políticos, aliás, de toda a forma, como Luís Montenegro se imagina a governar, porque uma coisa é estarmos em abril Estou-me aqui a pôr no lugar de Luís Montenegro. Será que eu, em outubro, novembro, vou cair ou, eu estou aqui em abril, mas eu sei que até o Natal está e vou passar o ano novo com o Primeiro-Ministro. Isso condiciona muito a governação. Luís Montenegro tem alguns pontos fortes, um deles é que controla a agenda. Eu, por exemplo, acho que ele é muito bom nos debates parlamentares. É de facto muito... Muito também tem essa experiência e tem... Sim, exatamente, tem essa experiência e sai-se muito bem. Agora, ele tem contra ele uma coisa que ele não controla, que é a crise internacional, que é a inflação, e poderá estar, se não apresentar reformas muito rapidamente, e inclusive a Cavaque Silva, e aliás Pedro Passos Coelho, mas também é que a Cavaque Silva já referiu um pouco isso, que é de uma forma não tão assertiva quanto Passos Coelho, que se não apresentar reformas perde o ímpeto e as pessoas deixam de acreditar em Luís Montenegro.
D
Mas as principais críticas a Montenegro vêm
E
do seu próprio... Sim, exatamente, ou seja, está na mão dele mudar, ele pode mudar.
D
Mas quer dizer, o Axilval Passos Coelho não são do PS?
E
Não, não, claro, claro, são próprios, são do próprio partido, portanto, a esfera de partidária, portanto, do Luís Montenegro. André Ventura tem o ponto forte de ser um político extremamente eficaz, fala bastante bem, e essencialmente ele está sempre em cima do momento. Agora, tem alguns problemas, pode cansar, porque é extremamente agressivo e isso pode cansar, mas depois também tem um problema de credibilidade, porque aquilo praticamente é um partido unipessoal. E eu acho que é por isso, e a Helena estava a referir, da indicação dos bichos para o Tribunal Constitucional, porque é que não é um nome que seja muito disruptivo.
D
Aliás, eu acho que ele aceitou o debate com o Pacheco Pereira. Exatamente. Precisava de criar um momento.
E
Exatamente. Eu estou a falar com uma pessoa que... Mas, obviamente, isto... E há outra coisa,
C
ele estava a ter menos protagonismo nas
D
televisões do que... E é nessa medida
E
que ele, de facto, é um político muito eficaz, quer dizer, ele está sempre em cima da onda e sempre em cima do momento. Mas a escolha do juízo nunca seria um nome para o Tribunal Constitucional, nunca será um nome muito disruptivo e ou polémico, porque a André Ventura interessa ter credibilidade e mostrar que é capaz de escolher alguém que seja credível. Depois temos o José Luís Carneiro, que diz o que tem a seu favor, o facto de ser uma pessoa sensata e moderada, mas tem contra si muitos fatores, e isso tem-se visto agora na eleição para os órgãos externos da Assembleia da República. Ele tem um Partido Socialista extremamente dividido, e tem um Partido Socialista que tem um problema, que é... O PS era o Partido de Charneira, de Mário Soares, que dava-se com todos. Depois perdurou-se no Partido de Poder. Só que aquilo durou tanto tempo que é muito difícil de engolir se é o terceiro partido português. O que a Helena estava a referir, o PS tem que compreender que as coisas mudaram. Claro que tem, mas... É difícil, não é? De facto, é muito complicado. E principalmente não é uma pessoa que tem que aceitar. São várias pessoas que têm que aceitar e que têm que mudar todo o seu comportamento.
C
É um grupo parlamentar que não foi feito pelo José Luís Carneiro, não é?
E
E isto... faz com que Joel Alísio Carneiro, por exemplo, até tenha terminado a estratégia, mas outros, ou porque não aceitam a nova realidade, ou porque não concordam com a sua postura mais moderada, porque, de facto, há fortes divisões, não são de agora, vêm de há muito tempo, são feridas que se abriram, e eu julgo que até começaram com José Sócrates, E isso acaba por lhe tirar... Fragilizar um pouco.
B
José Ribeiro Castro, estamos de facto aqui e o André fez um retrato muito interessante de quatro grandes focos. Estamos à procura... Há um jogo de equilíbrios, claramente, que está a acontecer neste momento, até com a escolha de nomes não só para os órgãos externos, mas para o Conselho de Estado, que hoje vão tomar posse.
F
Sim, mas a situação está bastante a patinar e a ver o que é que isto vai dar. Os próximos meses talvez nos tragam isso. Quanto aos órgãos externos, eu creio que isto é uma prova importante dos partidos, e nomeadamente dos novos partidos ou dos novos deputados dos partidos, uma prova de decência e uma prova de maturidade. E acho que os portugueses, independentemente de torcerem por um ou por outro, exigem à Assembleia da República que se desencumba bem da sua responsabilidade de designar estas pessoas. E, portanto, é bom que este processo termine bem. Porque se terminar mal, isso é mal para o prestígio de todos os partidos. Como a Helena Matos já referiu, e eu gostaria de sublinhar, eu consideraria desastroso que a designação dos juízes para o Tribunal Constitucional encalhe outra vez. Nós andamos há meses à espera disto. É um órgão de importância fundamental para o funcionamento do Estado de Direito. E o Chega desincumbiu-se muito bem da responsabilidade de indicar um candidato, como o PS não se desincumbiu da escolha do candidato a Produto de Justiça. Se houvesse aí um impasse determinado por uma votação secreta na Assembleia da República, isso seria uma ofensa aos meus trados judiciais em geral, porque é um desembargador pacífico, bem considerado, na classe, respeitado. e com uma vendetta partidária, verdadeiramente vilhaca, que não estaria ao nível, quer do prestígio do órgão Tribunal Constitucional, quer do perfil objectivo das pessoas que são candidatas. Portanto, eu desejo que isso corra bem. E também será importante que, para que isso corra bem, se resolve, entretanto, esta pendência do Poder de Justiça que ficou, e que eu creio que é da responsabilidade, sobretudo, do Partido Socialista. O Partido Socialista não tem mais maioria absoluta, está numa situação de minoria absoluta, é preciso que se lembre disso, e quer chegar a maiorias maiores, mas para isso tem que apresentar candidatos que mereçam respeito, consideração e tal, e tem nas suas hostes pessoas suficientes para isso. No Conselho de Estado, e isso tem a ver, há dois sinais agora aqui importantes do Presidente da República, a escolha que se fez para o Conselho de Estado e a negociação do Código de Trabalho. Eu não tenho nenhuma reserva aos nomes que o Presidente da República escolheu, acho que todos eles têm perfis e estatutos e currículum para ser o Conselho de Estado. Todavia há uma nota política que eu não posso deixar de sublinhar. Ele indicou dois membros com perfil político, com passado político, e António José Segura regressou à primeira volta. Portanto, ele fez as suas escolhas todas no quadro da primeira volta. Ora, ele na primeira volta não foi eleito. Ele foi eleito na segunda volta. Seria importante que ele indicasse conselheiros de Estado que não vinham das trincheiras, mas que vinham da grande planície. E não indicou ninguém da grande planície. Mas é interessante que tenha escutido três figuras de carreiras científicas e académicas. Eu acho que é pouco divulgado que nós temos cientistas notáveis, aliás muitas mulheres também, e isso é um sinal importante que ele já procurou dar na designação da mandatária e que agora reforça na composição do Conselho de Estado E essa é uma linha que, em geral, faz parte da nossa autoestima e do nosso sobrio, que nos conheçamos também como uma pátria de ciência, e isso seja conhecido. Quanto à concertação social, é um jogo decisivo, pode ser um jogo decisivo. Será um grande êxito de António José Seguro, se fizer o consenso e com a influência dele. Mostrará a sua utilidade e a sua capacidade. E também para o Governo, porque descalça uma bota e mostra que tem, afinal, condições para fazer, com alguma ousadia, reformas que depois acerta na concertação política.
B
E fortalece a relação entre Governo e Presidência.
F
Sim, e Presidência, e também com o Partido Socialista, portanto o Partido Socialista obviamente também é uma peça importante deste desenlace final. Portanto, também desejo que este dossiê, que começou bastante tremido e que termine bem, e portanto desejo esse êxito para as instituições políticas portuguesas. Ah, na AD, uma nota para a AD. Hoje sai uma sondagem, Duas.
B
Aqui há duas.
F
Eu só vi uma. Não sei se a segunda...
C
Não sei qual é que está a referir. Há uma do Correio da Manhã ou de onde é?
F
É, do Correio da Manhã que vi. E que dava o PS à frente.
B
Sim, as duas apontam no mesmo sentido, sim.
F
Então, confirmo. Portanto, isso significa o quê? Não há grandes variações relativamente ao resultado das eleições. Ainda tudo ali nos vinte e picos. Continuam ali os três partidos muito taco-taco. Mas a verdade é que a ADN não levanta voo. Esse é que é o problema, não é? E, portanto, eu acho que esse é o... é preocupante, é um sinal a meio da viagem, ou no princípio da viagem. Mas é importante que a AD levante a voo. É importante que entusiasme os portugueses, que os motive, que tenha uma dimensão de sonho, que tenha alma, que mostre não é essa agenda transformadora, dita com um tom tecnocrático, que mobiliza quem quer que seja. Portanto, é importante que o governo e os partidos pensem sobre isso. Os dois partidos, o PSD e o CDS, vão ter agora congressos em breve e esse é um tema importante. que convençam as pessoas. Portanto, há aqui alguma coisa que está a falhar. Na imagem do governo, na mensagem do governo, que, eu diria, a AD devia estar na casa dos 30. Não há razão para não estar.
C
Se estivesse a tomar algumas medidas, devia tomar, se calhar devia estar na casa dos 20.
F
Pois, não se não sabe. Não, mas por isso é preciso um embrulho. Voltemos ao tempo de Pedro Passos Coelho. Governou num ambiente Tremendo, não é? Mas, apesar de tudo, manteve-se sempre um score ainda crítico.
C
Teve muitos momentos em que teve quase cêpadas do PES.
F
Sim, mas isso é natural. Mas as medidas que tomou seriam de queda imediata. Mas, apesar de tudo, havia ali uma almofada de patriotismo que aguentava as pessoas, não é? E que, digamos, era o contra-vapor a medidas muito duras para salvar o país das consequências lá dos Estados José Sócrates. que falámos há bocado, não é? Ele é que colocou o país naquele buraco. E, portanto, estas questões do patriotismo, do desígnio, do futuro, qual é o sentido das fórumas que estão a ser feitas na educação, e, portanto, vamos caminhar para os lugares da frente do Pisa, quer dizer, esse tipo, digamos, de mensagem... Que ainda não vê. que não vejo e acho que se reflete nestas sondagens. Acho que isto é fraco discurso, portanto, há aqui qualquer problema que tem que ser visto.
B
O Miguel Santos, que arrepatou-se, também já está aqui no contra-corrente, Miguel. Estas sondagens chegam, e de facto são as duas favoráveis ao Partido Socialista, mas chegam num momento em que o episódio de ontem no Parlamento é incómodo para o Partido Socialista.
G
Sim, mas acho que as duas realidades não devem ser necessariamente... Uma não anula a outra. Sim, acho que de facto, vou dizer uma banalidade, é sempre melhor ter boas sondagens do que mais sondagens. Mas as sondagens a este tempo, ou neste tempo, valem o que valem, quer dizer, não há eleições no horizonte, não há sequer essa perspectiva de crise política no horizonte. Há, e acho que isso também é uma evidência, um descontentamento crescente em relação à falta de respostas, de algumas respostas do governo Luís Montenegro. Sabemos todos o impacto que a crise internacional está a ter no bolso dos portugueses. Sabemos que o governo tem tentado gerir com alguma cautela a resposta a essa crise inflacionista, que já vai ensaiando um discurso que eu acho interessante do ponto de vista de estratégia política, que é insistir muito no fantasma de José Sócrates, na crise que o então Primeiro-Ministro Socialista conduziu o país, para alertar e para dizer que não podemos acudir a todos os problemas sob pena, sob risco de entrarmos numa situação de descontrole. Portanto, estamos a ver já o Governo a fazer essa contenção de danos, mas temos alguns sinais que nos devem preocupar. Quando temos o Ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, a admitir o risco de haver um déficit, isso pode, mais à frente, trazer problemas ao Governo. E traz também uma tensão, que é, e uma tensão entre o Ministério das Finanças e o Primeiro-Ministro, que é até que ponto Luís Montenegro conseguirá ou não impor-se ao seu Ministro das Finanças, ou o contrário, e tomar ou não medidas de resposta à crise. Isso é um plano que eu acho que devemos acompanhar nos próximos meses e que pode, isso sim, impactar na popularidade do governo. Quanto ao episódio que envolveu o Partido Socialista e a votação de Tiago Antunes, acho que é mais ou menos fácil de explicar, o nome de Tiago Antunes não colhia de todo simpatia no PSD e também não colhia simpatia entre alguns deputados do Partido Socialista. Tive a oportunidade de ouvir Pedro Algado Alves aqui na Rádio Observador a duvidar da existência dessas pessoas. Bom, a inteligência artificial faz muita coisa mas ainda não inventa deputados de carne e osso. Eu, enquanto autor da peça, falei com gente do Partido Socialista que me disse que não gostava do nome e que ia votar contra o nome de Tiago Antunes. Depois também ouvi... quer dizer, é um bocadinho difícil explicar o porquê desta escolha. E isso até agora nem gente no PSD, nem gente no Partido Socialista conseguiu fazê-lo. É verdade que Tiago Antunes tem um currículo interessante, mas a ideia de que não é militante socialista e portanto seria um nome à prova de bala, quer dizer, isso é uma desculpa, é um argumento que não faz qualquer sentido. Antiago Antunes, com toda a legitimidade, esteve no centro de resposta do governo de António Costa, era o braço direito de António Costa. Portanto, um perfil tão politizado e tão partidarizado, é difícil de explicar num contexto em que qualquer escolha seria analisada ao milímetro e em que os equilíbrios entre Partido Socialista e PSD chega-se a ser
D
muito... Acho que pesou mais a sua ligação a António Costa do que a sua ligação a José Sócrates.
G
Honestamente, acho que sim. Claro que é evidente e foi sendo recuperada esta ligação aos governos dos ex-Sócrates, mas Diego Antunes era de facto o braço direito de António Costa. Esteve muito no centro das decisões desses governos. E para termos uma ideia, PS e PSD juntos, lá está pela nova circunstância em que nos encontramos, não conseguiriam aprovar o nome de Tiago Antunes. É preciso uma maioria de dois terços. E mesmo que contassem com os votos do LIVRE, num cenário perfeito, quase todos os deputados do PS e do LIVRE tinham que ir votar para garantir esta eleição. Estamos a falar de um ou dois deputados que falhando fariam a diferença, portanto faz-me E acho que ainda não foi explicado o porquê de uma escolha tão arriscada, falo arriscada não em relação ao currículo, mas à ligação partidária e efetiva de Tiago Antunes.
B
Há a avaliação política que lhe afeta.
G
Porque esta ideia de que era militante, que não sendo militante o colocava acima ou lhe dava um carimbo de independência, como eu disse, não faz qualquer sentido. E se olharmos para os anteriores provedores não se encontra paralelo nesse tipo de perfil. Maria Lúcia Amaral tinha estado no Tribunal Constitucional, é certo que depois foi Ministra do Governo de Luís Montenegro, depois de passar na Provedoria de Justiça. Mas era, tinha uma passagem pelo Tribunal Constitucional, e era tão ligada, ou estava tão ligada ao Governo de Luís Montenegro, que foi rapidamente sacrificada. José Faria de Costa era um nome da academia. Alfredo José de Souza também tinha passado pelo Tribunal de Contas, tinha sido presidente do Tribunal de Contas. É preciso recuar a Enrique Nascimento Rodrigues para se encontrar alguém que tenha sido ministro de um governo. E foi ministro de um governo de... foi ministro de governo de Francisco Pinto Balsamão, portanto.
D
Mas ele tinha um prestígio próprio.
G
Não há nenhum paralelo. Tiago Antunes tem um perfil completamente político e partidário. Os seus antecessores não tinham sequer estas características.
B
E foi, Miguel, já falámos aqui sobre isto, foi uma escolha pessoal dos Jogos de Carneiro.
G
Isso é que faz... isso é que é difícil de explicar, eu ontem falava com um importante...
D
O José Ribeiro e Castro diz um nome que ajuda a explicar.
G
Pois, era a suspeita de um influente deputado do PSD que me dizia, não percebo porque é que José Luís Carneiro insistiu neste nome, sabia que ia ser muito difícil aprová-lo no Parlamento, não há uma explicação objetiva para esta escolha, porque até, tendo em conta o percurso político de Tiago Antunes, que já aqui foi recuperado, primeiro com José Sócrates, depois com Pedro Silva Pereira, finalmente com António Costa, Não há sequer uma relação ao Partido Socialista anterior, o de Pedro Nuno de Santos, nem ao atual, do Zé Luís Carneiro. E já agora, também não há relação, e posso dizê-lo, não foi particularmente vista com bons olhos esta escolha, por muitas das pessoas que apoiam António José Segura, ou que apoiaram António José Segura. Portanto, os seguristas também estavam muito incomodados com esta escolha, por entenderem, lá está, que era, ou que resultava de uma influência que eles consideram excessiva. Não digo pessoalmente da António Costa, mas do Costismo, que ainda existe, e que ainda existe no PS.
D
Desculpa, reparto que dizes, ainda existe. Sim, claro que existe. Estou a perguntar se ainda existe ou se Está mesmo a existir, não é? Não é uma espécie em vias de extinção.
G
Eu diria que é uma espécie em viagem de extinção e foi muito curioso que no último congresso do Partido Socialista em Viseu só duas pessoas defenderam o legado de António Costa. Só duas pessoas fizeram referência a António Costa.
C
Quem foram que eu não segui com atenção isso?
G
Ana Catarina Mendes, que fez um discurso onde disse que não devíamos... O Partido Socialista não devia ter vergonha do legado de António Costa e Mariana Vieira da Silva, que é aliás muito próxima da Tiago Antunes. E que continua como deputada na Assembleia da República.
C
E que escreve hoje um texto revelador, não se parece?
G
Portanto, o costismo existe... Revelador da posição
C
do PS relativamente à questão do pacote laboral.
G
Exatamente, exatamente.
C
Um texto entrincheirado.
G
Exatamente. Onde pressionava, basicamente... Mas aí até creio que o Partido Socialista, e do Zé Luís Carneiro, está muito alinhado nessa questão.
C
Sim, ontem em entrevista aqui com o Euríque Pernambuco, acho que foi muito nesse sentido.
G
Acho que o Partido Socialista, nessa questão, quer mesmo...
C
A linguagem é que não é exatamente aquela.
G
que a UGT se coloque fora do acordo e que António José Seguro vete o diploma. Mas este núcleo do que resta do cautismo existe e Tiago Antunes, não digo isto de forma desrespeituosa, mas Tiago Antunes era de facto uma extensão do cautismo, era um elemento muito importante desse governo, isso é factual, não está aqui em causa nenhum tipo de subjetividade. e, portanto, mais difícil se torna explicar que José Luís Carneiro, que não tem relação, apesar de embora ter sido ministro da António Costa, mas nunca pertenceu à tribo dos costistas, muito pelo contrário, era um segurista convicto até se mudar para a equipa da António Costa, portanto, não há uma explicação evidente para esta escolha que, mais uma vez, insisto, não tem paralelo em relação aos antecessores. Nunca Nenhum candidato aprovador de justiça teve as características e o percurso político e partidário, mesmo sendo formalmente não militante do PS, do que Tiago Antunes. Numa eleição tão difícil, insistir ou... Ou
B
levar até ao fim.
G
Ou levar até ao fim esta votação, produziu o resultado que acabou por acontecer. Quer dizer, o PS teve que pôr-se de fora e algumas pessoas do Partido Socialista também, sendo que chega a iniciativa liberal, já tinham anunciado voto contra.
B
E António José Seguro, Miguel, como é que ele está a gerir este primeiro mês e pouco de presidência? Ao pouco vamos sabendo algumas informações, vamos tendo algumas pistas do que é que é a forma como o Seguro encara o mandato, agora com a escolha dos conselheiros, e a forma como usa a palavra, de forma muito diferente do anterior.
G
Eu acho que falta ainda o teste de algodão de António José Seguro. António José Seguro, Zé Guilherme Castro recordava isso mesmo, houve duas eleições, uma primeira em que teve a votação das pessoas que de facto o consideraram o melhor candidato a Presidente da República e uma segunda votação em que muitas das pessoas votaram contra André Ventura depositando o seu voto em António José Seguro. E, portanto, terá agora um teste, para mim, são dois testes muito importantes. O que vai fazer em relação à lei da nacionalidade. O Partido Socialista, aparentemente, segundo o Expresso, antecipou-se ao Presidente da República e vai pedir a fiscalização preventiva, libertando, em parte, António José Segura de uma decisão, que terá de a tomar mais à frente, seguramente. E um segundo momento que é o que vai fazer com o diploma ou a reforma laboral. António Jéssico tem dado todos os sinais de que vai ser coerente, aliás disse-o de viva voz, vai ser coerente com aquilo que tinha dito durante a campanha e se vetar essa reforma laboral, que ainda terá de passar pelo Parlamento, enfim, uma série de alterações que terão de ser feitas, vai, de alguma forma, escolher um lado, isso é assim mesmo, e vai fazê-lo de forma legítima. Isso vai retirar já uma parte, uma fatia importante dos eleitores que votaram em António José Seguro, muitos deles centro-direita, muitos deles da área da AD, mesmo da iniciativa liberal, e portanto vai começar a delapidar algum do seu foco de popularidade que conseguiu reunir nas eleições presidenciais. Ainda assim, e sobre a questão da lei laboral, também cito um texto do Expresso que me parece interessante, assinado pela Rita Diniz, que já passou por esta casa, em que se sugere que o Partido Socialista e a UGT estão de alguma forma incomodados com a pressão que António José Seguro tem feito nos bastidores e em público para que seja possível um acordo em sede de concertação social. É interessante que António José Seguro, e eu acho que isso vai ser muito importante para avaliar o que será o mandato do Presidente da República, é interessante que António José Seguro esteja a procurar ter uma agenda própria e a demarcar-se, tanto quanto pode, da agenda do Partido Socialista. Havia esse risco, muito se discutiu se António José Seguro seria ou não refém do Partido Socialista, parece-me, pelos sinais que vamos tendo, que António José Seguro não quer ir por aí.
C
E o Partido Socialista? está a tentar, de alguma forma, perceber o caminho. É que estes sinais de incomodidade com a história do pacote do Alvaro parecem ser o contrário. Já na segunda-feira tínhamos falado daquela primeira audiência.
G
Sim, sim. O Partido Socialista também podia ter essa tentação, e acho que o José Luis Carneiro nesse aspecto está a ser inteligente, que é preservar o espaço do Presidente da República e tentar na medida do possível emancipar-se e ter uma voz própria em relação a António José Segura. A forma como criticou a exigência de António José Segura de mais um relatório para apurar as responsabilidades nas ocorrências da tempestade, quando José Luís Carneiro diz que não é preciso mais relatórios, é preciso é acudir às pessoas, parece-me que foi uma oportunidade bem conseguida e bem aproveitada por José Luís Carneiro para se emancipar de António José Segura. O PS também corre esse risco, nós já vimos isso acontecer no passado, quando um Presidente da República esvazia o partido de origem no seu papel de oposição. E se então José Seguro começar a ser muito vigilante, muito crítico, muito assertivo para com o Governo, torna-se difícil, até do ponto de vista da agenda mediática e política, olharmos para o que diz José Luís Carneiro. Portanto, é importante que José Luís Carneiro não perca a sua voz, sob pena do Partido Socialista ficar numa posição ainda mais difícil, sendo que agora nem sequer é líder da oposição. O verdadeiro líder da oposição, factualmente e virtualmente, é André Ventura.
B
Como? Ah, estava a recordar a Constância. Vítora Constância.
G
Mesmo António Guterres teve muitos desculpados, como a Mária Soares.
D
A vida é difícil. A oposição, quando se estava em segundo lugar, quanto mais interessante.
B
Vai ser importante, André, estas duas decisões que o Presidente da República vai tomar, a Lei Laboral e a Lei da Nacionalidade.
E
Sim, sim, vão ser importantes. Gente que eu, relativamente à Lei Laboral, acho que já referi há pouco, cometeu aqui o erro de se antecipar e pôr-se muito na mão da UGT. Mas, quer dizer, foi uma altura em que foi durante a campanha, a Helena referiu isso, e nessa...
B
Necessitava de dizer qualquer coisa de esquerda.
E
Ele tinha que dizer, aliás, ele foi praticamente encostado aí à parede, não é? Ele não tinha outra hipótese, porque ele já era acusado de ser um candidato do PS à direita. Depois teve que dizer que não, que ele era socialista, sempre tinha sido socialista, como se as pessoas estivessem esquecido. E depois, naturalmente, se ele dissesse que não vetaria uma lei sem o acordo da central sindical, da UGT, próxima do PS, muito provavelmente não teria conseguido passar à segunda volta. Só que isso acaba por o condicionar numa matéria bastante importante. levanta-lhe um problema, que o Miguel estava aqui a referir, que é se vetar esta lei e entrar em confronto com o Partido Social Democrático, com Luís Montenegro, vamos ver como é que o PSD reage, ou melhor, como é que o governo reage, a partida também não terá muito interesse em terem... Hostilizar. Ou poderá ter, quer dizer, como o Miguel estava a referir, tudo isto depende muito, não é? Luís Montenegro é o primeiro-ministro, quem é que ele prefere que seja o líder da oposição? O Presidente da República? ou André Ventura ou Joel Luís Carneiro, se calhar porque é que seja o Presidente da República. E isto, quer dizer, a tática, não é tática, mas acabou por ser, o Mário Soares fez isso muito com o Cavaco Silva, Cavaco Silva também usou isso, e agora vamos ver como é que eles vão funcionar no futuro e como é que Joel Luís Carneiro e até o próprio André Ventura vai conseguir mexer-se porque existe aqui a perceção que... É como... Outro dia estive a estudar isso e, portanto, estive a ler isso por outras questões. O Hitler, quando dominou a França, ficou de certa maneira, perante aquela vitória estonteante, perdido. O André Ventura também parece um pouco, não é? Quer dizer, teve este resultado fantástico, chegou à segunda volta das presidenciais, teve um milhão e setecentos mil votos, e há um bocado esta sensação.
D
É como o Napoleão entrar na Rússia para não irmos a uma conferência autocomplicada.
E
Eu estava a referir a questão do Hitler porque ele tinha muitas opções, e como André Ventura, agora o que é que eu vou fazer? E isto é muito complicado. E eu olho para... Pois, se calhar, é exato como o Zé Manuel estava a referir, para ganhar um certo protagonismo. Mas o que é que vai fazer? Não sei. Sente que também há um certo cansaço com sempre estes pequenos truques, não é? Mas pronto, o futuro dirá.
B
O futuro dirá. O José Ribeiro Castro já recordava aqui na escolha dos conselheiros de Estado que seguro não considerou toda a gama de eleitores que o elegeram. Espero que seguro tenha essa consideração quando olhar para a lei laboral e para a lei da nacionalidade.
F
Não sei se será a área mais fácil para o fazer, não é? Isso muitas vezes tem a ver com a escolha de pessoas, eventualmente na composição da Casa Civil, pode dar algum sinal, não sei. Ou noutros órgãos que tenham para fazer, portanto as pessoas transportam às vezes consigo uma carga simbólica que as pessoas... Aí é mais uma questão política. Eu também acho que ele está a meter-se por terrenos que são difíceis e perigosos. E avançou para um terreno de concertação que eu não me recordo de presidentes anteriores o terem feito. E, portanto, também se pode chamuscar por tentar fazer um acordo que depois não consegue. E, portanto, será também um dos derrotados do processo. Mas essa ousadia deve-se cumprimentar se tiver sucesso. Ele não pode recuar. Ele agora não pode recuar face às pressões do PS. Não pode. Tem que levar até o limite para poder dizer com sinceridade que fiz tudo o possível para...
B
Mal comparado é quando Marcel diz que dissolveria a Assembleia da República se o Orçamento do Estado não fosse aprovado. Pois tem que cumprir a palavra.
F
Ele aqui, o Andrão José Segura, procura mostrar que tem uma capacidade de mediador e de fazer pontos. para além de qualquer outro presidente conseguiu. Muitas vezes os presidentes destacavam antes desta fase e deixavam essas concertações diretamente para os partidos e retiravam-se. Mas, enfim, um Código de Trabalho é uma lei muito importante. Eu até diria, talvez à cabeça, talvez não fosse a reforma prioritária, mas necessária, mas foi aquela que ganhou a galeria de uma reforma económica ou social importante. E, portanto, o que for o seu final terá influências, quer para o Presidente, quer para o Governo. E eu gostaria, dada a minha área política, que corresse bem. Isso obviamente o Governo terá que fazer cedência, isso faz parte de um processo negocial, mas seria melhor que isto corresse bem do que corresse mal. Portanto, provavelmente teria efeitos a nível do Governo muito severos. E acho que seria bom para o futuro. O António José Segura também apresentou uma agenda para a saúde. Essa diz mais às pessoas. Esta seria uma boa antecâmara para a mediação que ele conseguisse fazer, juntando espíritos desaventos em torno de reformas para o Sistema Nacional de Saúde. Se não, todas essas influências ficarão comprometidas e ele ficará com o território clássico, aberto por Mário Soares, das presidências abertas, de enviar os recados. Quanto aos chega que o André aqui referiu?
B
Brevemente.
F
Muito rapidamente. Eu acho que o André Aventura fez um grande erro no discurso no dia 2 de Abril. Não por conta de Yúdia, porque deu o debate com o Peixeco Pereira, mas aquele era um discurso em que ele... Aquele discurso, aquela bravata, completamente a despropósito, contra os idosos dos estatos constituintes, com uma falta de respeito pelas pessoas de todo tamanho. Bom, isso pôs em crise várias coisas. Ele na Vespa tinha feito um acordo para a lei da nacionalidade, portanto um sinal de responsabilidade. Não é tudo o que nós queremos, mas não sei o quê. Bom, essa é a linha que o Chega tem de fazer. mostrar a importância da sua assinatura. Não é partir a louça. Para partir a louça não está lá a fazer nada. Há tantas as pessoas... Quando há um elefante na loja de louça, melhor é tirar o elefante. E, portanto, essa linha está um bocadinho esgotada. Um partido que galgou para 60 deputados tem que mostrar a utilidade dessa representação parlamentar, pelas suas propostas políticas, pelo que consegue, pela mensagem que passa, ou seja, por um toque de responsabilidade. E ele tem lá pessoas para isso, não é? Olha, um que está no Parlamento Europeu, que é o Tiago Moreira de Sá, que é deputado do PSD, e há mais naquela bancada. É uma questão de arranjar esse contributo de forma diferente. E esse é o seu grande desafio. Se não, correrá outra vez na mesma próxima legislativa e, sobretudo, não acrescenta nada.
B
Estivemos aqui nestas duas horas a traçar ainda muitos cenários. Está tudo ainda muito embrionário. José Ribeiro e Castro, André Brandes, Amaral, Miguel Santos, que repartiu-se. Obrigada por terem vindo aqui. Não temos mais tempo.
C
Não temos mais tempo, eu sei, eu sei.
B
O Encontro Corrente volta para a semana. Bom fim de semana.
Podcast: Eu Estive Lá
Episódio: Contra-Corrente. PS "sabota" eleição do Provedor de Justiça? — Debate
Data: 17 de abril de 2026
Host: Observador (Carla Jorge de Carvalho, José Manuel Fernandes, Helena Matos)
Convidados: José Ribeiro e Castro (ex-líder CDS), André Abrantes Amaral (colunista Observador), Miguel Santos, entre outros
O episódio analisa a tumultuada semana política em Portugal, marcada pela não eleição de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. O debate gira em torno das negociações falhadas, das divisões internas do Partido Socialista (PS), da influência dos diferentes "ismos" dentro dos principais partidos, da atualidade do legado de José Sócrates, e dos desafios do novo ciclo político.
A conversa interliga a escolha do Provedor à necessidade de autorreforma dos partidos — especialmente o PS — e falha em construir pontes de confiança com o PSD, projetando consequências para as restantes nomeações institucionais e a governação futura.
[00:42–03:34, 24:53–28:10]
“Colocar alguém com esta passagem por estes meios num lugar daqueles era complicado.”
— José Manuel Fernandes, [07:02]
[12:09–24:04, 38:40–42:29]
“O Partido Socialista está ali com várias questões para resolver, (...) muitas vezes, e de alguma forma Tiago Antunes acaba... Esta sua não-eleição é o resultado de duas coisas. Uma, claro, que o seu nome gera vários anticorpos dentro do seu próprio partido.”
— Helena Matos, [38:40]
[24:53–37:06, 56:40–60:02]
“A Provedoria da Justiça, que vive muito do prestígio da instituição, da pessoa, é importante que essa pessoa seja o mais imparcial possível.”
— André Abrantes Amaral, [31:29]
[27:23–37:00, 42:09–43:13]
“Pela primeira vez, vemos o José Sócrates a tornar-se tóxico.”
— Helena Matos, [42:08]
[12:55–18:03, 46:04–49:37, 60:02–66:10]
[78:39–87:23]
“Ele agora não pode recuar face às pressões do PS. Não pode. Tem que levar até o limite para poder dizer com sinceridade que fiz tudo o possível, para...”
— José Ribeiro e Castro, [87:23]
“O Parlamento fez um ato de higiene democrática ao recusar Tiago Antunes.”
— José Ribeiro e Castro, [24:53]
“Tiago Antunes estava naquilo que eu acho que posso dizer hoje que era o coração das trevas do socratismo.”
— José Manuel Fernandes, [07:02]
“Pela primeira vez vemos o José Sócrates a tornar-se tóxico.”
— Helena Matos, [42:08]
“A Provedoria da Justiça... é importante que essa pessoa seja o mais imparcial possível.”
— André Abrantes Amaral, [31:29]
“O Partido Socialista não tem mais maioria absoluta, está numa situação de minoria absoluta, é preciso que se lembre disso...”
— José Ribeiro e Castro, [62:08]
| Segmento | Timestamps | | --------------------------------------------------------------- | --------------- | | Introdução e contextualização | 00:09–01:38 | | Debate dos critérios para o cargo de Provedor de Justiça | 01:38–07:02 | | Câmara Corporativa e rede socrática | 03:34–07:02 | | Conselho de Estado e nomeações institucionais | 12:55–18:03 | | Repercussões internas no PS e outros partidos | 24:04–24:53 | | Intervenção de José Ribeiro e Castro | 24:53–28:10 | | Críticas ao “socratismo” e toxicidade política | 38:40–43:13 | | Oposição e novos equilíbrios políticos | 53:19–62:08 | | Sondagens e legitimidade dos novos protagonistas | 64:48–67:44 | | Reflexão sobre futuro do PS, da oposição e do sistema político | 78:39–87:23 |
O episódio retrata uma semana política intensa e reveladora da fragilidade das alianças parlamentares e da dificuldade do Partido Socialista em digerir o próprio passado. O fracasso na eleição de Tiago Antunes é analisado como sintoma das dificuldades de renovação e de autocrítica e serve de alerta para futuros processos de nomeação e para a reconstrução de confiança entre partidos. Com discussões francas, humor ácido e análise minuciosa das movimentações políticas, o episódio aprofunda o papel dos protagonistas atuais — Luís Montenegro, António José Seguro, André Ventura — e antecipa os desafios que se adivinham na governação e oposição durante este novo ciclo político.
Para saber mais:
Acompanhe episódios futuros do Contra-Corrente e outros programas do Observador para continuar a seguir o “desenlace” destas batalhas institucionais e políticas cruciais para o país.