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A altura de conhecermos do que vai o José Manoel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira para participar e nos dar a sua opinião, em direto, só tem de ligar 91002 4185 ou então em vernos, a sua mensagem de voz pelo WhatsApp 91002 4185.
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Carla.
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O dia da vitória, o 9 de maio, o dia que Vladimir Putin sempre fez questão de comemorar de modo a restabelecer o orgulho imperial da Rússia, esteve-se tendo uma versão mitigada, sem desfile de armamento pesado e com tropas norte-coreanas a juntarem-se ao cortejo para engrossarem os números. Muitos viram neste encolher da festa mais um sinal das dificuldades do Kremlin e do Vladimir Putin, dificuldades acentuadas numa altura em que a Ucrânia começou a usar armas próprias para ataques no interior da Rússia, a milhares de quilómetros da frente, numa altura em que na frente do Dombássia a dinâmica se inverteu e em abril foram os ucranianos que avançaram no terreno, reconquistando o território. Com mais de quatro anos de combates, a guerra da Ucrânia saiu das manchetes, mas não parou. Pelo que vamos no Contracorrente de hoje, tentar perceber se as novidades das últimas semanas são ou não um sinal de que a Rússia pode ter começado a perder a guerra. Será mesmo isso que está a acontecer, Jean Manuel? Bom dia, ou estamos a confundir desejos com realidades?
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Bom dia, Carla. Olha, se está a acontecer no sentido rigoroso do termo, eu acho que é melhor termos prudência. E acho que é melhor termos prudência porque nós já assistimos nesta guerra a períodos onde parecia que a Ucrânia tinha claramente vantagem. Estou a recordar-me, por exemplo, no final de 2022, quando foi a contra-ofensiva, a reconquista de Carquivo e depois de Kersant, mas depois também vimos como passado uns tempos uma ofensiva longamente preparada fracassou em Zaporídea, não foi possível chegar de novo aos limites da Crimeia e portanto tudo ficou naquela espécie de eterna guerra de trincheiras de que não se sai. Nós estamos num momento crítico, um momento importante, ou melhor, mais do que crítico, importante. Importante, primeiro, porque dentro de exatamente 4 semanas, portanto no dia 12 de junho, daqui por, enfim, é uma sexta-feira também, mas daqui a 4 semanas, a guerra tornar-se-á mais longa do que a Primeira Guerra Mundial. Repara, mais longa do que a Primeira Guerra Mundial.
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A sério? Vai passar provavelmente esse recorde?
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vai passar provavelmente essa fasquia, o que é só em si absolutamente trágico, mas muito revelador. E aquilo que se passou nas últimas semanas também é importante, no mês de Abril, como referiste, o exército ucraniano recuperou o terreno, enfim, este ano praticamente ficou tudo como estava, o avanço russo é quase indesistente nestes dois últimos anos, portanto não é possível só para, digamos, dominar a parte que eles dizem que querem, que é o dom base, seriam preciso anos, ao ritmo atual. E, por outro lado, a utilização pela Ucrânia de novo, de um tipo de ambiente que ela própria desenvolveu, face aos bloqueios, à inoperância, à cobardia dos aliados ocidentais, também lhes está a permitir fazer ataques em profundidade que, digamos, complicam a vida da economia russa e do presidente russo, e Vladimir Putin deu sinais dessa mesma fraqueza neste desfile do dia da vitória, assim como em muitos outros sinais de paranoia, nós recordamos, é o homem que se sentava naquelas mesas gigantescas com medo da Covid, e agora está novamente a viver em búnkeres, portanto são sinais de que se sente fragilizado e para a Rússia podemos estar a nos aproximar de um tempo bastante crítico. Agora, é isto o suficiente? Não creio que seja o suficiente, aquilo que parece neste momento existir no terreno é que nenhum dos lados consegue ganhar. A questão é saber qual deles está disponível para um acordo que permita acabar com a guerra, mesmo que não seja satisfatório para qualquer das partes, e isso está em cima da mesa. Creio que temos agora a viver um período em que estamos mais focados noutra guerra, a guerra do Meio Oriente, E muito porventura, enquanto essa guerra não estiver resolvida, ou pelo menos minimamente resolvida, não vai haver atenção à guerra da Ucrânia, para a qual já não há atenção há bastante tempo. Mas vale a pena tentar perceber isso, porque para todos os efeitos, aquilo que a Ucrânia conseguiu nestes 4 anos, é absolutamente notável, apesar das muitas dificuldades e também dos muitos erros para todos os efeitos. Esta semana também foi acusado alguém que até há pouco tempo era quase o numbrador do regime, o chefe-cabinete de Zelensky, mas isso também é um sinal, é um sinal de que o presidente, o poder máximo, deixa cair os seus mais próximos a partir do momento em que há sinais realmente de corrupção, o que é toda uma diferença relativamente à Rússia e a outros regimes. Vamos falar um pouco disto tudo, tentar perceber melhor o que se está a passar e que influência também pode ter o que se passou nestes dois últimos dias em Pequim, com Xi Jinping e Donald Trump, o que pode ou não significar o que se passa também nesta frente europeia, já que também já percebemos a capacidade que a Europa tem ou não tem de influenciar o curso de acontecimentos tem-se revelado cada vez menor.
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Vai ser. Até já então, José Manuel.
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Até já.
Podcast: Eu estive lá
Host: Observador
Date: 15 de maio de 2026
Convidado principal: José Manuel Fernandes
Tema: Um debate sobre os mais recentes desenvolvimentos na guerra na Ucrânia e a possibilidade da Rússia estar finalmente a perder o conflito, analisando sinais políticos, militares e sociais.
Este episódio do "Contra-Corrente" foca-se na análise dos sinais recentes vindos da guerra na Ucrânia, que chegou a ultrapassar a duração da Primeira Guerra Mundial. José Manuel Fernandes discute se há fundamento em afirmar que a Rússia começou, de facto, a perder a guerra e explora os fatores militares, simbólicos e políticos mais relevantes das últimas semanas.
Sobre a duração do conflito
"A guerra tornar-se-á mais longa do que a Primeira Guerra Mundial... o que é só em si absolutamente trágico, mas muito revelador."
— José Manuel Fernandes [01:23]
Sobre o impacto das armas ucranianas autóctones:
"...a utilização pela Ucrânia de novo, de um tipo de armamento que ela própria desenvolveu, face aos bloqueios, à inoperância, à cobardia dos aliados ocidentais, também lhes está a permitir fazer ataques em profundidade..."
— José Manuel Fernandes [02:45]
Sobre os sinais de fraqueza de Putin:
"...agora está novamente a viver em búnqueres, portanto são sinais de que se sente fragilizado..."
— José Manuel Fernandes [03:10]
Sobre a persistência do impasse:
"... nenhum dos lados consegue ganhar. A questão é saber qual deles está disponível para um acordo que permita acabar com a guerra, mesmo que não seja satisfatório para qualquer das partes..."
— José Manuel Fernandes [03:40]
O tom deste episódio é reflexivo, cauteloso e analítico, mostrando preocupação com projeções precipitadas e sublinhando a complexidade do conflito e dos contextos internacional e interno de Rússia e Ucrânia.
Apesar de novos sinais de fragilidade no Kremlin e do relativo sucesso ucraniano com armas próprias e táticas de ataque em profundidade, José Manuel Fernandes adverte para a necessidade de prudência ao definir quem está efetivamente a "ganhar" a guerra. A resistência ucraniana é notável frente às adversidades, mas a estagnação do conflito e a distração da atenção mundial, sobretudo com crises no Médio Oriente, tornam o desfecho ainda mais imprevisível. Enquanto as condições para uma paz real não se materializarem, o impasse permanecerá — e o mundo terá que decidir até que ponto irá, ou não, influenciar o rumo da história nesta guerra.