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Joana Santos
Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras.
Polícia/Agente de Rádio
South George on air, OK? South George. South George. Hong Kong City response at 10-54 unconscious. 300 West 44th, 300 West 44th, 8th and 9th on the cross. Goodbye stairs at POA location room 3416, 34th floor in the Continental Hotel. I want you to get to location 10-33 Central, OK? Ricardo
Joana Santos
Yanis faz parte da CSU, a Unidade de Investigação de Cenas de Crime da Polícia de Nova Iorque. É detetive e perito forense. Chega ao quarto 3416 do Hotel Intercontinental com outro agente. São 10 e 40 da noite, 17 de janeiro de 2011. É uma sexta-feira. Devia estar a 20 minutos do fim de um túrum de 8 horas. Mas houve um homicídio neste hotel de luxo junto a Times Square. E o cenário dentro do quarto é demasiado caótico. Ricardo e Anis só vai parar de trabalhar dentro de 16 horas, já no início da tarde de sábado. E, entretanto, ainda vai ter de chamar reforços. O detetive veste o fato branco de proteção, de corpo inteiro, calça as luvas e entra na suite. mas não começa imediatamente a recolher, etiquetar e armazenar vestígios e provas. Faz uma inspeção preliminar ao local e, a seguir, registra o que vê na cena do crime. Para evitar erros, é obrigatório fazer isto de três formas diferentes. Primeiro, é preciso fotografar tudo. No interior do quarto e da casa de banho, tira 145 fotografias. São imagens que mostram como os lençóis foram parcialmente arrancados do colchão, como há cartões de crédito e documentos de viagem em cima da cama, e peças de roupa, toalhas e sapatos espalhados por todo o lado. As fotos documentam, uma a uma, as provas que mais tarde hão de ser analisadas e processadas em laboratório. A seguir, é necessário fazer uma digitalização panorâmica. uma espécie de fotografia de 360 graus do local. O objetivo é cristalizar a cena do crime, com uma câmera especial de alta resolução capaz de cobrir todos os ângulos do quarto e da casa de banho e de dar uma visão geral do cenário com que os agentes da polícia de Nova Iorque se depararam. E no final, ainda é preciso traçar à mão um esboço do local, onde serão assinaladas, nos locais certos, e mediante um código numérico, todas as provas recolhidas. O detetive Yannis escreve que o desenho que faz com uma caneta não está à escala. O quarto tem quase 18 metros quadrados, sem contar com a casa de banho. É uma suíte superior no antepenúltimo piso do hotel, com vista para os arranha-céus de Manhattan. Há uma cama de casal, duas mesas de cabeceira, uma poltrona, uma pequena mesa de centro, duas secretárias, um roupeiro e um apoio para depositar a bagagem. O corpo da vítima está caído no chão, de barriga para cima, junto à janela, entre uma das secretárias e a mesa de centro. No esboço há 93 anotações, que correspondem ao número de provas e vestígios recolhidos. Há sangue espalhado por todo o quarto. Só dois dos vestígios não são identificados com as iniciais do detetive Ricardo Ianes e com números. As duas provas mais chocantes daquele ato de violência são assinaladas com um X. Desde que Carlos Castro e Renato Seabra se conheceram e estiveram juntos pela primeira vez num quarto de hotel no Porto, até o momento em que um deles foi encontrado morto num quarto de hotel em Nova Iorque, passaram apenas 85 dias. Menos de três meses completos. Ao longo desse tempo, Carlos e Renato fizeram três viagens ao estrangeiro. As duas primeiras foram mais curtas. Primeiro a Londres, depois a Madri. A última revelou-se longa demais. Este devia ter sido o décimo de 18 dias numa viagem que incluiu a passagem de Anne em Times Square. Mas alguma coisa correu terrivelmente mal. Resta saber como e porquê. Para fazer a reconstituição de tudo o que aconteceu antes, durante e depois do crime, tivemos acesso aos ficheiros do processo judicial aberto pelo Ministério Público de Nova Iorque. São milhares de páginas de notas manuscritas, relatórios policiais, interrogatórios, registros clínicos, mensagens escritas, comunicações de rádio, fotografias e vídeos. e ainda a transcrição integral das sessões do julgamento de Renato de Siabra no final de 2012. Juntos, todos estes ficheiros permitem reconstituir ao detalhe o que aconteceu desde o momento em que Carlos Castro e Renato de Siabra aterraram no aeroporto de Newark, na tarde de dia 29 de dezembro de 2010. permitem também perceber por que motivos o cronista social de 65 anos e o aspirante a modelo de 21 se conheceram e como decidiram estabelecer uma relação. E mostram como Renato Seabra foi julgado num tribunal de júri em Nova Iorque. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação. Os Ficheiros do Caso Carlos Castro. É uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plays do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Episódio 1. Onde está o assassino do quarto 3416?
Narrador Comercial
Conhecer a verdade muda tudo. Muda histórias, muda caminhos. Na estrada, também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade e mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.
Joana Santos
Kia. Movement that inspires.
Repórter de Notícias
Há notícias desesperadas e um assalto brutal e sanguinário dentro de um hotel posh em Times Square. É uma noite muito distorcidora para o guesto ficar aqui no hotel intercontinental atrás de mim. A segurança descobriu que um guesto foi assassinado dentro do quarto andar do hotel e a polícia acredita que foi o homem que estava ficando com a vítima que é responsável.
Joana Santos
Por esta altura, no exterior do hotel intercontinental, a quatro minutos a pé de Times Square, começam a amontoar-se hóspedes em choque. e repórteres prontos para os entrevistar e entrarem direto nos noticiários locais.
Ricky Durães
Eu estou jornalista aqui nos Estados Unidos já há vinte e poucos anos. Houve duas pessoas do nosso relacionamento que tinham estado diretamente com ambos no dia anterior e que notaram até alguns atritos, digamos assim, entre ambos. E, a partir do momento em que é conhecida a situação, pronto, nós, no terreno, entrámos logo imediatamente em contacto e começámos a fazer o acompanhamento direto.
Joana Santos
Riqui Durães é português, mas vive nos Estados Unidos desde 1994. Escreve para o Luso-Americano, o principal jornal da comunidade portuguesa no país. Está em Newark quando houve a notícia e põe-se imediatamente a caminho do hotel intercontinental.
Ricky Durães
Há todos os dias crime em Nova Iorque. Há todos os dias morte em Nova Iorque. Mas não necessariamente acontecem numa área restrita como o Times Square, que é uma área figura, que é uma área onde tudo acontece, mas nada acontece dessa magnitude.
Joana Santos
Um homicídio na zona mais turística e central de Nova Iorque não é habitual. Um crime a envolver portugueses também não. Mas pouco depois de Rique e Durães conseguir chegar ao outro lado do rio Hudson, as autoridades já têm uma certeza. O suspeito da morte do português Carlos Castro é o português Renato Siabra. estavam ambos instalados no quarto 3416 do Intercontinental há 10 dias. Chegaram na tarde de 29 de dezembro. Deviam ficar até dia 15 de janeiro. Nessa noite tinham bilhetes em primeira classe no voo da Continental Airlines para Lisboa. Apuram rapidamente os detetives. Mas por algum motivo, percebem também, essa viagem de regresso foi antecipada. Justamente na manhã do dia do crime. Antes da hora de almoço, o hotel recebeu um e-mail a informar que os hóspedes do 3416 afinal só iam ficar mais duas noites, e não as oito que estavam marcadas. Carlos Castro e Renato Seabra iam voltar para Portugal dentro de dois dias, no domingo. Agora, menos de doze horas depois, Carlos Castro está morto e Renato Seabra desaparecido. A polícia pede para ver as imagens de videovigilância do hotel. As câmaras do lobby apanharam, não às 6h25 da tarde, de fato completo e gravata, a sair calmamente para a rua, onde, entretanto, tinha começado a nevar. Através das portas de vidro, só é possível perceber que vira à direita, em direção à 8ª avenida. Renato tem 21 anos. Carlos tinha feito 65 em outubro. Os tabloides americanos assumem desde as primeiras horas que ambos mantinham uma relação. E utilizam uma expressão que está longe de ser inocente.
Ricky Durães
Um título disso tu estás a perceber. Se eles utilizam a terminologia um crime de onde Nova Iorque, se calhar ninguém liga. O Sugar Daddy, estás a perceber? Toda a gente vai... faz uma conotação.
Joana Santos
Sugar Daddy. A expressão serve para identificar um homem mais velho, com dinheiro e poder, que mantém uma relação com um parceiro substancialmente mais novo. E paga todas as despesas. O caso é um escândalo instantâneo. E isso vai revelar-se útil para a polícia, que tem de conseguir encontrar Renato Siabra numa cidade com mais de um milhão e meio de pessoas. é urgente apanhá-lo, antes que consiga fugir de Manhattan. Numa comunicação via rádio, um dos agentes no local dá informações à central sobre o caso.
Polícia/Agente de Rádio
No
Joana Santos
código da polícia é um DOA, Dead On Arrival. Foi encontrado um morto à chegada das autoridades. O agente faz a descrição física de um homem que foi visto no hotel. O possível suspeito. Os detalhes são anotados pela telefonista no papel, para depois serem transmitidos a todas as unidades da polícia. É um homem de origem hispânica, possivelmente branco. Chama-se Renato Seabra. Se letra o agente. Usando o alfabeto fonético policial, que usa palavras para identificar letras.
Polícia/Agente de Rádio
Boy Robert Adams.
Joana Santos
Boy Robert Adams. Tem um metro e noventa de altura. E está a usar um fato preto com uma gravata roxa brilhante.
Polícia/Agente de Rádio
Ele tem seis metros e três centímetros. Ele está a usar um vestido preto.
Joana Santos
Um vestido preto.
Polícia/Agente de Rádio
Com um braço azul brilhante.
Joana Santos
Quase ao mesmo tempo, as televisões a emitirem direto à porta do hotel, começam a exibir uma fotografia que a polícia de Nova Iorque retirou do perfil de Facebook de Renato Siabra.
Apresentador de TV
Este é o homem que foi procurado pelo assassinato aqui no Hotel Intercontinental. Este cara aqui é descrito como um modelo masculino. Ele chegou no Hotel Intercontinental em 29 de setembro com um jornalista de 65 anos, um jornalista português muito conhecido. Seu nome é Renato Siabra. Ele é um modelo masculino. Ele é descrito como somente em seus 20 anos. Na última cena, ele está vestindo um suco preto com uma cor verde.
Joana Santos
A polícia faz um póster com a cara de Renato Seabra e a palavra PROCURA-SE. A fotografia é fixada na esquadra de Times Square e enviada para todas as patrulhas na cidade, para a polícia da Autoridade Portuária de Newark e para a alfândega dos Estados Unidos. São analisadas as imagens das câmaras de trânsito. e há agentes à procura do suspeito nas estações de metro e de comboio, nos cais de onde saem os ferres para New Jersey ou Long Island, e até nos hospitais. Mas não há uma única pista. Renato Seabra, um jovem de 21 anos sem cadastro, que nunca antes tinha visitado Nova York e, ao que tudo indica, não tem quaisquer contactos na cidade, conseguiu desaparecer.
Polícia/Agente de Rádio
Não
Joana Santos
havia mulheres assim, ou havia muito poucas mulheres assim em Portugal. Ela era genuinamente uma mulher revoltada.
José Mata
Esta é a história de Vera Lagoa. A mulher mais temida pelos poderosos de todos os regimes. Afrontou Salazar, desafiou os militares de Abril e ridicularizou os que se achavam donos do país.
Joana Santos
Tens medo, antes de voar tens medo. Medo, bem claro, isso é a palavra-chave para me levar para a rua de
Ricky Durães
pedras na mão se for preciso.
Polícia/Agente de Rádio
A
José Mata
Grande Provocadora é uma série para ouvir em cinco episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, com banda sonora original de Molinos. Pode ouvir todos os episódios no site do Observador, nas plataformas de podcast ou no YouTube.
Joana Santos
Passam alguns minutos das onze da noite, quando as autoridades recebem uma chamada. É um taxista, que diz ter informações sobre o caso do hotel em Times Square. Conta à central da polícia que, por volta das sete da tarde, estava à espera de clientes na fila de táxis junto à Penn Station, a cerca de um quilómetro do hotel intercontinental. Um homem entrou no carro, mas em vez de ocupar o banco traseiro, sentou ao seu lado dele. O taxista estranhou, mas não ficou propriamente incomodado. Conduz táxis em Nova Iorque desde 1988. Trabalha de segunda a sábado em turnos de 12 horas, das 5 às 5. Já viu de tudo. Diz à polícia que o passageiro era um cavalheiro. Estava bem vestido, de fato completo e gravata. Foi educado, mas parecia um pouco nervoso. O taxista reparou que ele tinha sangue seco nas mãos. Conta que lhe pediu que o levasse a um hospital e depois reforçou. A um bom hospital. Nessa altura, o motorista perguntou-lhe se estava tudo bem ou se precisava de uma ambulância. Mas o cavaleiro não respondeu. O taxista decidiu transportá-lo para Roosevelt, na zona oeste da cidade. Eram 15 minutos de caminho. O passageiro, que falava inglês com alguma dificuldade e sotaque estrangeiro, seguiu calado. A dada altura, balbuciou qualquer coisa. O taxista só conseguiu perceber a palavra Mãe. Ao longo da viagem, o passageiro interagiu com ele apenas mais duas vezes. Primeiro, pediu-lhe que sintonizasse as notícias na rádio. Depois, perguntou-lhe onde é que a cidade de Nova Iorque deitava o lixo. O motorista diz que a pergunta lhe pareceu tão estranha e despropositada que lhe respondeu apenas, não sei. Quando chegaram ao destino, o cliente voltou a falar. Disse ao taxista que se entrasse com ele no hospital e o ajudasse, lhe daria mais 100 dólares além do preço da viagem. Agora, ao telefone com a polícia, o taxista conta que recusou o dinheiro e que o acompanhou mesmo assim até ao serviço de urgências. Falou com o segurança e explicou-lhe, este senhor precisa de ajuda. Depois voltou a pegar no carro e continuou a trabalhar. Eram onze horas quando fez uma pausa para jantar e ouviu as notícias do crime. Daí estar a ligar para dar o alerta. Mais ou menos à mesma hora, a central da polícia recebe outra chamada. É uma enfermeira. Explica que esteve até há pouco tempo de turno nas urgências do Hospital Roosevelt. E revela que, por volta das sete e meia da noite, deu entrada no serviço um jovem que corresponde à descrição do suspeito do crime do Hotel Intercontinental. Não tem a certeza se é ele ou não, mas está de fato preto e gravata roxa. Tem sotaque estrangeiro e é lindo. Foi internado com os pulsos cortados. Richard Tirelli está na Brigada de Homicídios de Manhattan, Sul, há pouco mais de seis anos. Mas é polícia há quase 29. e é o detetive encarregado do homicídio no Hotel Intercontinental. Quando o taxista e a enfermeira ligam para a esquadra, o detetive Tirelli já saiu do quarto 3416. Agora está a fazer uma ronda pelos hotéis mais próximos. Mostrou a fotografia de Renato Seabra ao gerente do Milford Plaza, a dois minutos a pé na 8ª avenida. Mas sem sucesso. E também já fez o mesmo no Westin, 140 metros abaixo. O chefe de segurança do hotel também não reconheceu o suspeito. Mas uma busca no sistema revelou que Renato Siabra e Carlos Castro tinham chegado a fazer uma reserva naquele hotel de cinco estrelas. De 30 de dezembro a 3 de janeiro. Depois, cancelaram.
Polícia/Agente de Rádio
Chefe? Impact Sergeant? Claro, Capitão.
Joana Santos
O detetive Tirelli é informado pela esquadra de que receberam um telefonema relevante do Hospital Roosevelt. Um 68, no código policial. O suspeito foi encontrado. Richard Tirelli arranca para o hospital. Por esta altura, Renato se abre já lá está há quase quatro horas. São 7h22 quando é assistido na triagem por uma enfermeira. Percebe-se que tem cortes em ambos os pulsos, recusa dizer o que lhe aconteceu. Não faz sentido quando se fala com ele. Pode ler-se na ficha clínica. Perto das dez da noite, os médicos avançam um primeiro diagnóstico. Os cortes nos pulsos são superficiais e não inspiram cuidados. Mas o paciente está a ter um episódio maníaco agudo e tem de ser encaminhado para o serviço de urgência psiquiátrica.
Polícia/Agente de Rádio
O
Joana Santos
relatório assinado por um dos médicos assistentes às 21h55 descreve O paciente insiste em tocar nos funcionários do serviço de urgência psiquiátrica, dizendo que pode mudar as pessoas ao tocá-las. Mas tirando isso, não demonstra comportamento violento. Dá para perceber que Renato Seabra compreende e é capaz de comunicar em inglês. Aliás, é em inglês que anuncia ter poderes sobrenaturais. Mas questionado pelos médicos, recusa colaborar. Perguntam-lhe como chegou ao hospital e se já esteve internado noutras ocasiões. Perguntam-lhe como fez aqueles cortes nos pulsos. Perguntam-lhe com quem vive. E perguntam-lhe se tem família em Nova Iorque. Renato Seabra não diz uma palavra. Nem mesmo quando os médicos conseguem encontrar alguém que fale português. Ao telefone, o tradutor improvisado repete as perguntas dos médicos. Mas o resultado é o mesmo. Renato Seabra, lesso no relatório, continua inquieto, agitado e excitado. Acusa os médicos de o estarem a tentar controlar. E não responde a uma única pergunta. Os testes a álcool e drogas são negativos. A decisão do corpo clínico está tomada. O doente encontra-se atualmente demasiado desorganizado para funcionar de forma adequada ou cuidar de si próprio se estiver alta, pelo que necessita de internamento involuntário e de estabilização psiquiátrica aguda. Renato Seabra vai ter de ser internado e vai ter de ser medicado. O tradutor informa-o disso mesmo e dá-lhe duas opções. Pode aceitar a decisão dos médicos e tomar os comprimidos. Ou pode recusar. E aí, vai ter de ser medicado à força. Renato Seabra não aceita. Minutos depois, é injetado por via intramuscular com três substâncias diferentes. um antipsicótico, um ansiolítico e ainda um antihistamínico, que cumpre uma dupla função. Reforça o efeito da sedação e previne os efeitos secundários provocados pelos outros dois medicamentos. E, finalmente, a calma. À meia-noite e 45, quando o médico responsável preenche um novo relatório, o detetive Tirelli já está no hospital. explica que Renato Seabra é o principal suspeito de um brutal crime de homicídio e exige. Tem de o interrogar imediatamente. O pessoal do hospital responde-lhe que não é possível. O paciente foi sedado e está em observação. Não tem condições para falar com ninguém. E há mais. Quando deu entrada nas urgências, Renato Seabra estava numa crise de mania. O médico de serviço acaba de o diagnosticar com um transtorno bipolar, uma doença psiquiátrica que se caracteriza por variações acentuadas de humor. Está prestes a ser transferido para outro hospital. Em Lisboa, a referência é o Júlio de Matos. No Porto, o Magalhães Lemos. E em Manhattan, o Bellevue.
Ricky Durães
É um hospital aqui, no centro de Nova Iorque, onde todos os doentes ou presos com qualquer possibilidade de associação ou foro psiquiátrico eram levados.
Joana Santos
Para além de ser o hospital público mais antigo dos Estados Unidos, para os nova iorquinos, explica o jornalista Ricky Durans, Bellevue é sinónimo de hospital psiquiátrico. E, nesta altura, é também a única unidade em toda a cidade com uma ala prisional para reclusos do sexo masculino.
Ricky Durães
Não sei se é prática comum neste momento, na altura, há 15 anos atrás, portanto, qualquer crime cometido por alguém com conexões de forma psiquiátrica, era o Bellevue, que era o hospital que normalmente era a receber esse tipo de detidos, doentes, como queira chamar.
Joana Santos
Em vez de levarem o detetive Tirelli ao quarto do português, os funcionários do Hospital Roosevelt entregam-lhe dois grandes sacos de plástico. Naquela noite, estes dois sacos são tudo aquilo que a polícia de Nova Iorque vai ter de Renato Seabra. Dentro deles estão os objetos pessoais do suspeito do homicídio de Carlos Castro. No primeiro há uma carteira preta, um molho de chaves e uma série de documentos. Passaporte, carta de condução, cartões da universidade, do basquetebol, da piscina municipal, o multibanco e o passe. Tudo em nome de Renato Seabra. E ainda uma quantia considerável de dinheiro, 1647 dólares e 85 euros, que terão sido retirados da carteira de Carlos Castro após o crime. No outro saco estão as roupas de Renato Siabra, entretanto, trocadas por uma bata de hospital. Um casaco, um par de calças e uma camisa, os três pretos, os três da marca Versace Collection. E uma gravata roxa, um cinto preto, uns boxers Calvin Klein, um par de ténis, também Versace, e um sobretudo cinzento, marca Purificación García. A investigação há de revelar que todas estas peças, no valor de milhares de euros, foram presentes oferecidos ao suspeito pela vítima. O sobretudo cinzento, bem quente, que Renato usou durante toda a viagem a Nova Iorque, foi comprado em Madrid, um mês antes do crime. E o fato preto que o suspeito estava a usar quando deu entrada no hospital, só foi posto na mala de viagem por influência de Carlos Castro. O Carlos disse-me para trazer um fato para uma ocasião especial e eu ainda não o tinha usado. Há de contar o próprio Renato Seabra ao psiquiatra contratado pela defesa. Para depois concluir. Esta era uma ocasião especial. Passava pouco das três da madrugada quando Renato Seabras chegou ao hospital de Bellevue. Por essa altura, os detalhes do homicídio de Carlos Castro já tinham sido tornados públicos. Mas a autópsia só vai acontecer durante a manhã deste sábado. A médica legista responsável pelo exame não esteve na cena do crime. Tem 10 anos de experiência no Gabinete de Medicina Legal de Nova Iorque. Está preparada. Teve acesso a um relatório de uma especialista, onde se lê que a vítima foi mutilada e, muito provavelmente, teve o olho esquerdo arrancado. Quando abre o saco onde está o corpo, a primeira coisa que lhe capta a atenção é uma quantidade enorme de pedaços de vidro. A vítima tem face, pescoço, axilas, braços, peito e tronco cobertos e cravados de fragmentos. Há pedaços de vidro manchados de sangue que chegam aos 5 cm e outros mais pequenos. Recolhe alguns, para mais tarde enviar para o laboratório e depois passa para a análise das inúmeras lesões internas e externas que o cadáver apresenta. Quando, horas mais tarde, escrever o relatório da autópsia, a médica legista vai concluir que Carlos Castro terá morrido perto das cinco e meia da tarde, de 7 de janeiro de 2011, e vai determinar a causa da morte. lesões por impacto contundente na cabeça e compressões no pescoço. O cronista social foi brutalmente agredido. Com um monitor de computador, daí os fragmentos de vidro, com uma garrafa de vinho e com pelo menos dois pares de ténis diferentes. O que resultou num traumatismo craniano grave. Lhe fraturou o nariz e deixou com vários cortes, escoriações, edemas e hemorragias na face e na cabeça. tem os olhos muito inchados e traumatizados. Mas ao contrário do que a médica legista enviada à cena do crime chegou a pensar, o olho esquerdo não foi arrancado. A responsável pela autópsia confirma que Carlos Castro foi mutilado, sim, mas não na face. Os testículos da vítima foram removidos com um saco a rolhas metálico. Foram encontrados em dois sítios diferentes no chão do quarto. são as duas provas que o detetive Richard Tirelli identificou com a letra X no esboço da cena do crime. Quando essa mutilação aconteceu, a sinal à especialista no relatório, ainda havia circulação sanguínea no corpo, o que significa que a vítima muito provavelmente estaria inconsciente, mas viva. Inevitavelmente, a morte de Carlos Castro é classificada como homicídio. Às 11h30 da noite de sábado, dia 8 de janeiro de 2011, Renato Siabra é acusado do crime de homicídio em segundo grau. Fica detido no 19º piso do Hospital de Bellevue, numa unidade psiquiátrica de internamento de segurança máxima. O advogado que a família de Renato Seabra contrata para o defender chama-se David Tugar. É conhecido por defender causas perdidas e aceitar casos difíceis. É sócio de um escritório com sede em Manhattan e tem fama de ser um litigante duro. No site da Peluso em Tugar, lê-se que já representou clientes acusados de um vasto espectro de conduta criminal, incluindo pessoas acusadas de crimes de colorim branco, crimes de rua violentos e conspirações envolvendo narcóticos. Nos primeiros quatro anos de carreira, fez trabalho para o Bono. Agora, escreve a imprensa, cobrará 750 dólares por hora. É David Tugar quem vai falar em nome do Argoído, na primeira audiência no Supremo Tribunal de Manhattan, em fevereiro de 2011. A sessão serve para a leitura e formalização da acusação. Renato Seabra está sentado ao lado do advogado, algemado e vestido com o fato macaco laranja, que é usado por todos os prisioneiros. Mantém sempre a cabeça baixa. O juiz pergunta como se declara o réu. O advogado David Tugar levanta-se da cadeira e responde. Not guilty. O réu declara-se inocente. Renato Seabra é imediatamente levado de volta ao hospital. Nos dias seguintes, vai falar recorrentemente sobre a homossexualidade como demónio. vai dizer que é um mensageiro de Deus e que tem poderes especiais. E vai jurar que pode curar as pessoas com sida apenas com um toque. Mas essa é uma história para o próximo episódio. O observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado e com o próprio Renato Seabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. no próximo episódio.
Comentador/Opinião
Havia opiniões completamente dispostas. Havia quem viesse à praça pública a dizer que o Carlos Castro era uma vibra e foi ele que provocou tudo isto. Havia quem viesse a dizer o contrário. O Renato queria aproveitar-se ao máximo e quando percebeu que não dava perdeu a cabeça e não era gay e foi neste caminho.
Joana Santos
O doente apresentou comportamento inadequado, perguntando aos profissionais se podia tocar-lhes. Mais tarde, saiu do quarto de despido, apesar das tentativas de orientação.
Ricky Durães
Apenas um em cada mil casos recorre a esta defesa. E desses, apenas um em cada quatro é bem-sucedido. Ou seja, aproximadamente um em cada quatro mil casos.
Joana Santos
Os ficheiros do caso de Carlos Castro. É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Feraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. O podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.
Narrador Comercial
Os podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
Podcast: Eu estive lá – Observador
Data: 6 de abril de 2026
Host/Narradora: Joana Santos
No episódio de estreia da série documental “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, Joana Santos reconstrói, com base em ficheiros do processo judicial, relatórios policiais e entrevistas, os acontecimentos que rodearam o assassínio do cronista social Carlos Castro em Nova Iorque. Este primeiro episódio mergulha na descoberta do crime, na investigação policial, na busca pelo suspeito Renato Seabra, e nos desdobramentos imediatos do caso, desde o caos no quarto 3416 até a primeira acusação formal. O podcast destaca o choque mediático, a tensão da investigação e os detalhes inéditos do processo.
| Minuto | Assunto | |------------|-----------------------------------------------------------------------| | 00:07–03:50| Descrição do quarto e investigação inicial | | 08:15–10:23| Reação mediática e contexto policial | | 12:43–15:26| Divulgação de Renato como suspeito & “Sugar Daddy” | | 18:10–21:30| Testemunho do taxista e ida ao hospital | | 24:17–29:06| Relatórios médicos, avaliação psiquiátrica e recolha de pertenças | | 31:57–35:00| Resultados da autópsia: lesões e mutilação | | 37:43–38:24| Divisão de opiniões públicas e questões de defesa psiquiátrica |
O episódio é tenso, factual e minuciosamente documentado, equilibrando detalhes forenses com emoção humana — sem sensacionalismo, mas sem perder a gravidade dos acontecimentos. A narração de Joana Santos é sóbria, detalhada e empática, remetendo constantemente à complexidade psicossocial do caso e aos seus ecos mediáticos e judiciais.
Este episódio serve como uma reconstrução detalhada do início de um dos crimes mais mediáticos da história recente portuguesa, articulando rigor jornalístico, relato documental e análise policial. Traz o clima de urgência da investigação, exposição mediática inédita (especialmente nos EUA para uma questão da comunidade portuguesa), e inquietantes pormenores que lançam ganchos para aprofundar as questões psicológicas e jurídicas do julgamento de Renato Seabra.