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A
Melhor
B
é difícil. É um podcast em que Maria João Avilés entrevista portugueses que são exemplos de excelência. São os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.
A
Bem-vindo, Ana Pinho. É um prazer para mim ir conversar consigo. É licenciada em Economia e com estudos universitários em escolas londrinas. Administrou, desde cedo e com aplauso, várias empresas. E, no entanto, dizer o nome de Ana Pinho é talvez evocar, desde logo, intervenção cultural ou lembrar o Museu de Serralves. Pergunto, o interesse e o gosto pela arte estavam já dentro de si. Ou seja, eu posso dizer que a Ana é uma economista do belê de uma mulher de cultura?
B
Boa tarde Maria João, é um gosto muito grande de estar aqui, muito obrigada pelo convite. É de facto muito bom estar a falar consigo, uma pessoa, se me permite começar por isso, alguém porque eu tenho uma admiração enorme, que é um exemplo para todos nós. Uma mulher pioneira. Não, é verdade.
A
Temos pouco tempo, obrigada. Diz-me isso lá fora.
B
Agradeço também por isso. Eu, de facto, acho que desde sempre, desde pequenina, que eu tive uma, enfim, um fascínio talvez pelo Belo no seu sentido mais lato. Sempre fui atenta, curiosa por muita coisa. E nunca estive ligada só a uma coisa. Há pessoas que sabem desde cedo o que é que querem.
A
E não saem de lá, claro.
B
Eu estive até à última para decidir se ia para economia ou arquitetura, depois decidi por economia, talvez pelo meu contexto familiar, embora não tenha tido nenhuma pressão, nem nenhuma influência ativa dos meus pais para o fazer, mas é natural que eu tenha sido influenciada pelo meu contexto familiar, talvez, mas eu lembro que era miúda e fazia, desenhava plantas de casas dos 7, 8 anos. Depois fazia a decoração dos compartimentos, desenhava tudo isso e sempre gostei muito.
A
Mas venceu a economia. Deve ser a arquitetura que engraçava.
B
Eu, aliás, fiz um curso de economia, depois fiz um mestrado em finanças, trabalhei décadas na área financeira, portanto, sim, mas gosto muito da outra parte.
A
Mas depois também passou por estudos de arte.
B
Também, ao mesmo tempo fiz vários cursos pós-laborais em história de arte, em Londres, em Lisboa, no Porto. Sempre tive gosto por isso, sim.
A
Privilégio.
B
Sim, sempre tive gosto por ver coisas distintas.
A
Claro, é curiosidade. Olhe, esteve no Museu de Serralves em vários postos de comando em quais e quantos anos?
B
Estive 15 anos na administração de Serraves. Nos primeiros seis estive no Conselho de Administração, como vogado, e três vezes na Comissão Executiva, desde o momento em que ela foi criada, e depois, durante nove anos, presidi ao Conselho de Administração da Fundação de Serraves, e agora presido ao Conselho de Fundadores, desde o início de 2025.
A
Eu só sei que quando a Ana entrou havia um milhão de euros em caixa e quando saiu deixou 35 depois de tudo pago. Nesse sentido, o seu currículo mostra algo de muito interessante. Nós sabemos que a arte, evidentemente, e a cultura têm que ser muito bem geridas, mas também sabemos que poucas vezes o são e se Ralfes foi Estou-lhe a prestar um tributo.
B
Muito obrigada, mas isso não foi só por mim, mas de facto é fundamental quando nós gerimos qualquer tipo de instituição ou empresa, estarmos atentos à sua sustentabilidade e por isso eu digo que mais ainda, quando o que estamos a falar é uma fundação, que apenas, em parte, consegue gerar receitas próprias para cobrir o seu orçamento. No caso de Serrados é um terço receitas próprias, um terço mecenato e um terço participação do Estado. Portanto, embora eu acho que é durante este período e nos últimos dez anos, de facto, no período em que eu lidei Serrados, houve de facto uma ambição muito grande e fez-se muita coisa, Mas houve sempre a preocupação, mas isso também já existia no passado, de procurar que a ambição nunca pusesse em causa a sustentabilidade da instituição. Isso é uma coisa que para mim é fundamental.
A
Não estou a interrompê-la, mas que é de certo modo uma marca da casa.
B
Bem, talvez, mas de facto eu julgo que é o ponto de partida e de chegada, quer dizer, quando nós queremos fazer nós devemos ter, eu acho, devemos ser ambiciosos e fazer coisas novas e fazer coisas grandes se possível, se for o caso, se fizer sentido, mas sempre sempre garantindo que encontramos os mais suficientes para o poder fazer.
A
Para essa ambição.
B
Porque senão podemos estar a pôr em risco o que existe.
A
E entrar-se numa espiral de dívida, de ansiedade.
B
Isso nunca aconteceu em Serraves, isso nesse aspecto sim, eu acho que é exemplar, porque Houve sempre uma preocupação enorme de procurar fontes de financiamento existentes, seja aumentando o mecenato, aumentando a contribuição do Estado, aumentando as receitas próprias, estando sempre atento aos instrumentos que vão surgindo, seja fundos comunitários, fundos de turismo, fundos ambientais, vistos gold, cultura, tem que estar atento ao que existe e tentar maximizar os apoios porque uma instituição cultural como é a Fundação de Serrados e outras, apesar da Fundação de Serrados ter até um nível de receitas próprias superior, percentualmente superior ao normal, mesmo assim tem de facto que encontrar esses apoios.
A
Ana, mas o seu currículo também mostra o seu próprio acerto em lidar com a diversidade. Já falámos há pouco da economia e da cultura. mas olhando para si, conhecendo-a e lendo com atenção a sua caminhada, somam-se cargos de administração na banca ou nas empresas, nacionais ou internacionais, e uma presença ativa na academia, em conselhos culturais, em museus, em fundações, em júries. É interessante porque, já me disse que Sempre foi curiosa e que houve qualquer coisa começou no ambiente familiar. Mas como é que se gera diversidade? É interessante.
B
Eu acho que é um privilégio quando nós podemos estar envolvidos em coisas diferentes. Isso é muito mais enriquecedor quando temos essa possibilidade, mas também temos que ter apetência para isso.
A
Para fazer agulhas. É que eu uma gosto coisa muito,
B
que é não estar... é fantástico. Claro que nós temos sempre uma coisa principal, mas é ótimo estarmos envolvidos em coisas muito diferentes e dá-me um gosto enorme estar participar em alguns júris diversos, são muitas coisas diversas, podem ser ligadas à economia, a cultura, enfim. Mas também estar, como sempre estive, ligada às empresas e depois estar para uma instituição cultural, como Serraves, na academia também.
A
Na academia não, em eficiência católica.
B
No Conselho Superior da Universidade Católica que estou neste momento. Já estive no Conselho de Educação de uma escola. É até interessante. Eu gosto muito dessas experiências diferentes. Acho muito enriquecedor.
A
Mas já agora é um pequeninho parênteses e eu muitas vezes pergunto isto aos meus convidados de Excelência, como é o seu caso. Como é que se gera diariamente, sabendo que haja ou que houver, o dia tem 24 horas, como é que se gera a acumulação de tantas atividades?
B
Eu acho que nós mulheres estamos habituadas a fazer isso quase naturalmente. A Maria João sabe muito melhor que eu o que é que isso significa. Eu acho que temos sempre que dar prioridade ao que consideramos importante. E menos ao que é necessário. Mas claro que isso significa que não vamos a coisas que... Eu muitas vezes não fui a momentos com amigos que queria muito ter ido, mas tinha coisas encerradas, por exemplo, que era impossível eu deixar. E por isso eu sempre dei prioridade. Quando algum de nós aceita um desafio e tem um projeto em mãos, não é só para o que é agradável ou para o que naquele momento temos de facto que fazer tudo o que está presente naquilo que é necessário e fazer tudo o que precisa da nossa presença. Claro que às vezes a família é sacrificada e eu queria dizer que o meu marido é uma pessoa que, de facto, me ajudou muito em todo este período, porque acredita nestes projetos e é uma pessoa, nesse aspecto, que dá um apoio enorme.
A
Claro, foi colaborador, cúmplice, admirador.
B
Muito cúmplice, sim.
A
Mas há pouco dizia que também é uma coisa que tem a ver com a condição feminina e eu também penso que tem, porque a mulher é múltipla e consegue abarcar as pastas, entre aspas, que forem necessárias.
B
É como conseguimos ouvir também várias coisas que conseguimos fazer.
A
Exatamente, ao passo que um homem está mais focado numa coisa que é a sua prioridade, a sua razão de ser, a sua responsabilidade, a sua função. Eu admiro imenso a capacidade de desmultiplicação bem feita numa mulher. É uma coisa que eu sempre admirei.
B
Sim, eu também.
A
Aí estamos, olha, estamos de acordo. Gostaria imenso de irmos agora até ao Museu de Serralves e à marca que lá deixou Não digo que outras pessoas antes de si, depois de si, não venham, não tenham deixado de marca ou não vão deixar uma marca Mas além daquele cofre cheio de que eu já mencionei e de um incontável aumento de visitantes no seu tempo ou a partir do seu tempo Houve muita coisa que a Ana ou fez ou pôs a caminho de ser feito. Começamos por onde? Pela Ala Nova do Cisa Vieira, pela Casa Cinema Manoel de Oliveira? Não quero dizer eu, diga-me lá o que é que...
B
Eu acho que nós, neste período, nós decidimos que a estratégia da Fundação devia passar numa palavra, acho que devia passar pela abertura da Fundação, em vários sentidos. Desde logo, já referimos um pouco, tentando diversificar as fontes de financiamento e aumentando as fontes de financiamento e o valor que se consegue para podermos sustentar o que queremos fazer. Tivemos um enorme aumento de fundadores, 200 novos fundadores, isso significa 20 milhões de euros, é importante, mas aumentamos também os grandes mecenas dessa atividade, os vários fundos que já referi, estamos sempre atentos a novos fundos de financiamento. Aumentamos muito o público, o orçamento passou de 7 milhões e meio de euros para 15, mas o público teve um aumento, esse foi um aumento de 100%, mas houve um aumento de 150% dos visitantes, que passaram de cerca de 500 mil. em 2015 para um milhão duzentos e cinquenta mil no final de 2024. Esse é um número muito interessante a nível internacional. Os números em si não valem, quer dizer, só por um número não significa nada, mas é importante porque significa que A missão da Fundação, que é muito importante, está a chegar a muita gente e houve uma preocupação muito grande de diversificar público, de facto, e isso aconteceu. Por outro lado, o que fizemos foi também aumentar, alargar o âmbito geográfico da atuação, fizemos um programa Desenvolvemos muito um programa de exposições e outras atividades nas autarquias portuguesas por todo o país, não só... Desenvolveram como? Em parceria com as autarquias que são fundadoras de Serravos, portanto, levando a coleção de Serravos, fazendo exposições nessas autarquias, a partir da coleção de Serravos, mas não só, portanto, alargamos também neste período atividades da Casa do Cinema Manel de Oliveira, do Parque, arquitetura, e isso é, eu acho que é fundamental para podermos levar a nossa atividade mais perto das pessoas, estejam elas onde estiverem.
A
Levar o museu para fora dele próprio, do edifício.
B
E nesse período fizemos cerca de 25 iniciativas ou exposições por ano, o que é muito, de facto, fora de portas.
A
Ele tem ideia de quantas autarquias são feitas?
B
Neste momento são, no final de 2024, julgo que tínhamos 45 ou 46, em 2015 eram 14, portanto houve de facto um grande esforço para podermos precisamente fazer este campo. Sim, eu acho que há um cuidado, como lhe digo, as exposições às vezes são sobre biodiversidade, fotografia de biodiversidade local, por exemplo, mas quando são a partir da coleção de arte contemporânea de Serraves, há um esforço para adaptar também a exposição ao público. que vai haver. Há cidades que já estão mais habituadas a ver exposições um pouco mais experimentais. Outras é preciso começar de outra forma. Acho que há um grande cuidado dos curadores de fazerem isso. Portanto, nós fizemos essa investigação geográfica também para fora de Portugal. Fizemos muitas parcerias internacionais, levámos exposições de cerrados a vários países do mundo e isso foi importante.
A
Como é que se começa? Fala-se de um museu, conhece essas direções?
B
Há uma parte que é feita, por exemplo, em coproduções internacionais com outros museus de arte contemporânea. Neste caso, é feito muito. Mas também às vezes levamos, por exemplo, fizemos várias exposições a partir da coleção Miró que entrou em Serrabes e que tem estado presente em vários, em que nós levamos a vários países. Levamos a Nápoles, a Pádua, a Izmir. Portanto, levamos exposições do Sisa a Xangai. Há uma grande vontade em levar Portugal também ao mundo, para além de fazer um mundo, que é isso que nós mostramos em Serrabes, E depois houve também, finalmente, uma abertura em termos de âmbito de atuação, porque deixámos de estar tão concentrados na atividade do museu, embora no museu também tenha havido reforço, porque não começámos, por exemplo, a fazer as grandes, voltámos a fazer, que tinham sido feitas no passado e depois tinham deixado de ser feitas, voltámos a fazer as grandes exposições no parque, que as pessoas têm grande apetência para isso, Mas, a Casa de Serraves voltou, a Casa de Serraves que é um extraordinário... Que era uma
A
casa, mãe, que era a casa que... Exatamente, e como disse, ela foi... Uma arquitetura extraordinária.
B
Fizemos o projeto de recuperação, mas passámos o ano inteiro a ter exposições na casa, porque antigamente, em 2016, até essa altura, só havia uma exposição em julho, agosto, e o resto do ano a casa estava para alugueres, o que é bom em termos de receita, mas considerámos que ela tem que estar ao serviço de arte. Depois, claro que fizemos a nova ala Álvaro Siza, que é uma ala fundamental para o futuro do museu, porque é uma ala dedicada à coleção.
A
Foi uma ideia sua, não?
B
Sim.
A
Sim, eu gosto de ouvir assim.
B
Isso acho que sim, acho que pode dizer que sim.
A
E o Cisa Vieira gostou muito, muito de ter feito isso.
B
Sim, eu acho que nós temos a sorte, o privilégio gigantesco de termos o Cisa em Serravos todos os dias. Há imensa gente que vai a Serravos para ver o Cisa, que é absolutamente genial. É por muitos considerado o maior arquiteto vivo. Eu acho que às vezes em Portugal não se dá a verdadeira... Mas ele é de facto... Filhos de casa não fazem bilage. Mas também, portanto, não só reforçamos a atividade do museu, mas desenvolvemos, construímos a Casa de Cinema em Manaula e várias desenvolvemos a vertente do cinema, o parque que desde o início da fundação tinha sido um elemento estruturante e fundamental, passou a ser, de facto, a desenvolver muitas atividades, mais atividades de educação ambiental, exposições que as pessoas gostam também muito de ver, exposições de biodiversidade, é uma coisa interessante para o público em geral, e depois a arquitetura, finalmente, que de facto autonomizamos e isso é uma área de enorme crescimento.
A
Eu vou lhe falar da arquitetura já daqui a um bocadinho, com um bocadinho mais de demora e sobretudo ainda também do parque que a Ana tinha dito um dia, nunca mais me esqueci, que o parque em si já rivaliza... É rival, já quase, do resto pela sua importância, pela sua dimensão. Mas temos que fazer aqui uma pequena pausa, muito, muito pequenina. Vou pedir a todos que nos estão a ver ou a ouvir que esperem por nós. Voltamos já, já a seguir. Estávamos a falar de uma ideia que penso que também foi sua, de autonomizar a arquitetura, e também falámos do Parque Jalavô, mas agora gostava de ouvir porque a arquitetura é uma disciplina tão fascinante tão interessante, que a Ana se lembrou que por causa disso mesmo, merecia ser autonomizada. Conte lá um pouco essa história.
B
Isto é uma decisão do Conselho de Administração, evidentemente. A arquitetura é uma área em crescimento em todos os museus do mundo. E nós já verificámos isso em cerrados, quer dizer, constatamos isso todas as vezes que há uma exposição de arquitetura, já antes acontecia, porque começámos a fazer várias a partir de 2016, mas agora temos um espaço para o fazer, porque uma das dos pisos do novo edifício é dedicado, é para arquitetura, tem imensa gente e não só arquitetos, é isso que Serravos tem, porque leva a arquitetura junto do público em geral, mas todas as iniciativas de arquitetura que nós fazemos à volta da arquitetura, conferências, lançamentos de livros, tem sempre imensa gente. Pelo menos no Porto isso é um facto.
A
É muito sedutora A disciplina da arquitetura.
B
E há um grande interesse pela arquitetura e não apenas pelos dois bríticas que nós temos, o Cisa e o Eduardo Sotomura, mas pelos novos arquitetos, nós temos imensos novos arquitetos que estão a trabalhar no mundo.
A
Mas o Porto tem essa marca de uma grande escola de arquitetura.
B
Sim, mas eu acho mesmo que esse é um fenómeno a nível global, talvez mais que há, de facto, nós a nível da arquitetura, eu acho que a arquitetura portuguesa tem uma presença, uma importância internacional maior, em termos relativos, maior do que a do país, digamos assim, se eu posso dizer isso. E, portanto, para mim é lógico que isso seja uma linha de atuação e uma linha estratégica, mas isso é uma coisa que acontece no mundo todo. Mas, em Cerrados, isso não é uma coisa que eu tenha... Sim, essa foi uma ideia, mas porque a missão de Serraves não é só aumentar o conhecimento à volta da arte contemporânea. É multidisciplinar. É a arte contemporânea, a arquitetura, o cinema, o ambiente, a paisagem. Portanto, foi isso que nós tentámos fazer, foi puxar por todas essas vertentes da missão de Serraves.
A
Esta série chama-se Melhor é Difícil. É difícil haver, enfim, difícil não será, mas em Portugal, melhor é difícil que Serralves.
B
Eu não posso dizer isso, mas é assim. Posso, posso. Posso, agora já não, agora já posso.
A
Posso, pode.
B
E não fui eu que, quer dizer, eu acho que Serralves é uma história Uma história feliz desde antes, até antes da Fundação ser criada. A Fundação foi criada por pessoas que tinham uma grande missão e uma grande visão. De facto, foi ali uma junção e uma parceria entre o Estado e privados que decidiram criar ali aquele que foi o primeiro museu de arte contemporânea do país. mas também não só criar uma instituição que se dedique à cultura contemporânea em sentido lado, não apenas à arte contemporânea, mas lá está, por exemplo, o Parque, que foi desde sempre, foi muito inovador nos programas de educação ambiental, que agora toda a gente faz, mas há 37 anos atrás não era bem assim. E, portanto, houve sempre uma ambição internacional sempre grande, O primeiro diretor do Museu de Serravos foi um espanhol, o Vicente Tadoli, que depois foi para a Tate Modern a seguir. Não estou com isto a dizer que há diretores portugueses e corretores portugueses, mas houve sempre uma vontade em que a instituição se internacionalizasse também. E o facto de, desde o princípio, no que respeita, por exemplo, ao museu, aquilo que se exibe é arte. internacional é portuguesa e não portuguesa, estrangeira. E isso é a forma como se coleciona e a forma como se exibe. Sejam exposições de grupo, sejam exposições monográficas. E isso é importante porque é uma forma de colocar também os artistas portugueses em contexto internacional. Eu acho que isso é muito risco.
A
Em contexto internacional, sim, claro.
B
E é, de facto, trazer os estrangeiros para que os portugueses os vejam portugueses e não portugueses, porque há muitos estrangeiros que vão ao Cerrado também, mas levar também os portugueses, mostrá-los ao lado dos outros.
A
Já vou voltar a isso, no dar a ver arte, mas ainda sobre o parque. Vocês têm a noção, por exemplo, que há pessoas para quem o parque é um tal atrativo que lhes chega e não entram nos edifícios? porque se satisfazem com o prazer de passear por aquele parque, os jardins, os canteiros, o passadiço, etc. Ou normalmente há uma interação sempre entre o edifício e o parque, para os visitantes.
B
Não, eu acho que o parque é a coisa talvez mais extraordinária.
A
É extraordinário, extraordinário.
B
É o ponto de partida, é a base de tudo. É um parque que é considerado um jardim, que é considerado um dos mais bonitos do mundo, um parque classificado, felizmente. Portanto, temos de ter sempre muito cuidado, há muito trabalho de fazer qualquer coisa. A nova aula deu muito trabalho para ser aprovada, mas é fundamental que isso assim seja. Mas, de facto, mesmo, seja o público em geral, como disse, porque Serralves tem essa vantagem. Nós fizemos muito também nos últimos tempos para usar o parque para atrair pessoas, para que ali venham e depois vejam outras coisas também. Mas o parque é o ponto de partida. Mesmo os artistas, que vêm do mundo inteiro, consideram o parque absolutamente extraordinário. E houve uma grande preocupação, de facto, nos últimos anos e fizemos um restauro de todas do parque, de todas as áreas do parque.
A
Que interessante a ideia de um restauro de um parque. Sim.
B
O Rosaral, o Jardim das Aromáticas, a Horta, a Estufa, a Mata, depois de construímos o Trick Top.
A
Eu chamo-me Passadiço, não sei se é assim. É o Passadiço, sim, o Passadiço. Foi uma ideia sua? Isto não sei mesmo.
B
Eu acho que é uma estrutura que é extraordinária para podermos atrair pessoas. Nós temos que conseguir chamar a atenção das pessoas e temos que lhes dar instrumentos para elas quererem vir. Hoje em dia as pessoas têm muita coisa. Tem muitos sítios onde podem ir e nós não podemos ficar parados. O Cerrado é lindíssimo, o Parque é lindíssimo, mas isso foi uma ideia para melhor levarmos os programas de educação ambiental às pessoas, nomeadamente às escolas. Tem um pequeno auditório exterior onde ali quem está a falar para as escolas. fala num contexto no meio da natureza, é extraordinário fazê-lo, ao nível da Copa das Aves.
A
Temos que dizer que o passadizo vai, o nível do passadizo é ao nível da Copa das Aves. Isso é que é uma ideia genial.
B
E é totalmente horizontal, porque não há muitas estruturas destas no mundo, mas várias delas têm que subir e descer. Ali ela chega a ter 25 metros, nem sei, agora sim, 25 metros, julgo eu, no ponto mais alto, mas é sempre horizontal porque aproveitou-se o declive da mata para poder fazer essa estrutura. E isso é fundamental, sim, para chamar mais pessoas, como também é fundamental os grandes eventos que são abertos e gratuitos e há muita gente que vai pela primeira vez a Serraves nessa altura. e depois torna-se público regular. E há pessoas, mas tem razão, há pessoas que vão e veem tudo, há pessoas que vão e só querem visitar o parque, outras só querem visitar o museu, enfim, tudo isto nós temos é que ter capacidade de atração de públicos diferentes.
A
Faz um friso muito enriquecedor e muito desafiante para quem está ao leme da instituição. Portanto, se bem posso resumir o que a Ana tem dito até agora, Houve o que a Ana quis quando, enfim, era a responsável principal pela boa saúde da Fundação e do Museu. Quis uma permanente dinâmica de abertura. assente na sustentabilidade das contas, evidentemente, e com vantagens competitivas, mas abrir, levar o museu, como disse, exposições das autarquias, tornar ele próprio, trazer o mundo para o museu através de tudo aquilo que temos estado a falar. Há pouco, quando falou das exposições e da arte contemporânea, os tempos mudam, os museus também, a arte também. a criatividade ou a criação também, como é que se dá a ver arte hoje? Como é que se deve? Como é que se faz?
B
Bem, eu acho que temos primeiro que ter muita preocupação em comunicar e em chegar às pessoas antes de elas lá estarem. Temos que fazer com que elas queiram vir. Portanto, a comunicação numa instituição como esta, a área da comunicação é fundamental porque Eu, se calhar, vou aqui falar uma imagem que é como se nós estivéssemos numa fábrica de sapatos e fizéssemos sapatos extraordinários, lindíssimos, com enorme qualidade, mas depois ninguém os fosse vender. Aqui não é exatamente assim, mas é quase. Nós temos exposições de grande qualidade. Temos programas no parque que apelam a muita gente. Temos ciclos de cinema extraordinários. Temos uma conversa sobre arquitetura extraordinária, mas as pessoas não sabem que isso existe. Ninguém lá vai. Mas, o que é que eu diria, depois de irem, o que é que nós temos que também... Depois de irem, mas também para as levar lá, o que nós temos que fazer é ter sempre alguma coisa que as atrai, nomeadamente se falarmos das exposições, mas não é só exposições, temos uma exposição âncora com a qual nós conseguimos atrair não apenas as pessoas que já gostam de ir a museus ou especialistas da arte contemporânea, no caso do museu, por exemplo, mas levar outras pessoas que se calhar entram ali pela primeira vez ou que entram menos vezes, mas quando vão ver essa exposição também vêem outras coisas que nós queremos que elas vejam. E esse é que eu acho que
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é um ponto que não tem... E depois querem voltar.
B
Exatamente.
A
A Ana é uma grande adepta de pareceres e concretizóas, e já agora aqui explicou. Pergunto-lhe o seguinte. para tudo é preciso equipas, mas eu acho que a Ana gosta muito do trabalho de equipe, que fez essas equipes, que escolheu-as bem, mas gosta sobretudo de as liderar, ou não? Tenho a ideia que o fator liderança em si é um impulso, não diria uma necessidade, mas é um impulso, é uma coisa que gosta, que acha que pode fazer bem. É isto.
B
Eu gosto, embora eu esteja também em outras, também tenho outros projetos, outras situações, outras empresas em que não sou eu que lidero e eu participo com muito gosto. Mas claro que tenho um imenso gosto em liderar equipas. O que eu acho que é fundamental é nós conseguirmos entusiasmar as pessoas para num determinado projeto, enfim, naquilo que queremos fazer, porque nunca ninguém consegue. As equipas são absolutamente fundamentais para levar a cabo. Nós podemos ter um enorme sonho e é ótimo poder concretizá-lo, mas só conseguimos concretizar se conseguirmos entusiasmar à nossa volta muita gente, as equipas que trabalham, as pessoas que vão que trabalham no projeto, as pessoas que vão apoiar. É muito bom quando nós próprios, e eu vejo sempre isso assim, acho muito difícil alguém conseguir fazer alguma coisa por a qual não tenha uma paixão ou entusiasmo, porque não conseguimos transmitir aos outros esse entusiasmo. Quando isso existe e quando o projeto é bom e nós temos entusiasmo, quem o transmite tem entusiasmo, eu acho que nós conseguimos falar com muita gente.
A
É contagiante. É o fator contagiante. O dar a ver à arte, além desse entusiasmo, pode obedecer a alguma coisa ditada pelo hoje, pelos tempos que estamos a viver, no sentido que agora não é como foi em 1950, ou no século passado, ou que daqui a 30 anos podemos estar preocupados ou convocados para como é que eu vou mostrar isto.
B
Sim, em especial, neste caso, num museu de arte contemporânea.
A
Exatamente.
B
Mas quer dizer também no cinema, nós temos que estar atentos às novas tecnologias e temos que, e neste caso são os diretores que propõem o Conselho de Administração, mas estrategicamente têm que seguir Enfim, aquilo que é definido estrategicamente e depois em concreto são evidentemente as direções que propõe e que decidem o que vão propor, mas se nós temos hoje, quando vamos a um museu de arte contemporânea, vemos muito mais instalações, vídeo, já temos obras de inteligência artificial, mas ao mesmo tempo as pessoas continuam a querer ver e é isso que devemos também tentar fazer sempre. Continuam a querer ver pintura. A pintura pode ser diferente hoje em dia, mas continuam a ver... Uma tela.
A
É preciso uma tela. É preciso referências, é isso. É preciso haver uma referência. Eu estou a pôr no que uma pessoa pode pensar, não estou a falar de mim. A pessoa pode querer ter a vontade ou o reencontro com uma tela ao fim de ver dessas exposições de instalações. ou devido, não é?
B
E é nisso que está a riqueza e que está o truque, digamos assim, se se pode considerar isso um truque, mas é a forma de atrair o interesse de pessoas diferentes e de gostos diferentes. Mas aquilo que disse é interessante e é verdade. As referências continuam a existir e são importantes sempre. Por exemplo, quando nós ficámos com a coleção Miró em depósito, o eixo temporal é pós anos 60, digamos assim. Mas, de facto, nós pensámos nisso, mas o Miró, para já, trabalhou até 83, até morrer. Portanto, ainda tem 20 anos de período que encaixa no que faz Serrabes. Mas, ele é absolutamente uma referência para os artistas que trabalham hoje em dia e, por isso, para nós foi, e na altura, a diretora do museu de então, a Suzane Cotter, com quem eu conversei imediatamente quando essa possibilidade surgiu, Desde logo foi adepta a que de facto nós aceitássemos em depósito essa coleção e desenvolvessemos um programa à volta dela, que é o que tem sido feito, porque faz todo o sentido em todo o resto que o museu faz.
A
Encaixa, eu não gosto nada da palavra, não é nada bonita, mas parece quase feito de propósito.
B
Foi quase um milagre.
A
Faz sentido. Faz muito sentido. Olha, agora como de maneira nenhuma a sua vida, eu estava apenas a falar de uma grande marca que é a Joense Ralves, mas eu sei que a Ana toca outras, não é outras teclas do mesmo piano, é outros instrumentos. Eu gostaria de falar um bocadinho do que é que... De que é que conserva uma melhor recordação do tempo em que lidou com as finanças e com as empresas? O que é que a atraía? O que é que gostava de fazer? O que é que deixava por si?
B
Eu sempre gostei muito do contacto com as pessoas e isso gosto muito. Eu lembro-me quando eu comecei, eu trabalhei primeiro no Porto, três anos, mas depois fiz um mestrado em Londres e depois trabalhei em Londres num banco e fazia research de ações e tinha que viajar pelo mundo, enfim, Europa e Estados Unidos. em que ia visitar vários investidores e gostava muito disso. Eu gostava muito de conversar com eles, também gostava de escrever os relatórios, mas gostava mais de conversar com eles. É interessante também fazer isso. Gostava de lhes explicar o que é que nós estávamos ali a propor. Essa fase foi interessante, mas não consigo dizer...
A
Eu não lhe peço que escolha, era só...
B
Eu depois tive uma longa carreira na banca de investimentos, na área de... capital markets, que é levar empresas ao mercado, fazer operações de fusões e aquisições, enfim, dívida, emissão de dívida. E eu, lá está, também gostei disso porque era bastante diversificado e, finalmente, também tive uma parte em que estive a montar um banco. Eu trabalhava num banco que é um dos maiores bancos do mundo e decidiram ter um banco em Portugal. O OBS é um banco suíço. E, de facto, decidiram fazer uma estrutura local na área do Wealth Management, do Private Banking, e eu liderei esse projeto para abrir aqui um banco. E, de facto, foi muito diversificada a minha vida na área financeira, embora eu goste mais da economia real. Eu gosto mais da vida das empresas. A economia real, que interessante. Eu gosto da área financeira. e não, quer dizer, é muito tempo para isso.
A
Está com o peixe na água financeira
B
e na cultura é tão interessante. Sim, mas também gosto da economia real. Enfim, gosto de muitas coisas.
A
Ai que bom, que bom que é gostar de muitas coisas e sabe que quem é curioso não envelhece. Não envelhece mesmo, não envelhece mesmo. Queria agora perguntar-lhe, agora está um pouco mais livre, não é? em que já dissemos que está na academia, em júrias, em aconselhamento cultural, nas empresas, etc. Mas tem algum projeto que está já a começar ou que gostaria de começar uma vez que está um pouco mais livre?
B
eu estou um pouco mais livre, embora eu seja daquelas pessoas que se ocupa sempre.
A
Não, eu sei.
B
Deve saber.
A
Sim, claro. O que é que eu quero dizer? Também sei, sim.
B
Mas eu, deliberadamente, o ano passado, quis mesmo não me meter assim em muitas coisas, porque tinha imensa coisa que eu tinha que tratar. E, francamente, a este período eu quero também ter mais tempo e tenho tido durante o último ano. para estar com a minha família, estar com os meus pais, que eu tenho o enorme privilégio de poder estar com eles e, por isso, tenho feito isso. Mas, claro que estou também a fazer mais coisas ligadas à minha família e vou, com certeza, acho eu, concretizar meus projetos.
A
só mais um minutinho ou dois, não nos pode dizer onde é que a vamos ver, ou ouvir, ou saber que está, ou saber que está a liderar?
B
Não, não tenho nada de concreto para dizer, mas tenho vontade de fazer novas coisas.
A
Fazer novas coisas. E quando não faz nem novas nem velhas coisas, o que é que faz? Viaja, não é?
B
Gosto de viajar, gosto de estar em casa. Gosto de estar com os amigos, gosto muito de estar com a minha família, gosto de visitar instituições culturais e gosto muito da vida.
A
Se eu disser energia e inovação, estou bem a defini-la, não estou?
B
Não sei, energia sim, acho que sim.
A
Eu assumo a criatividade e a inovação. Ana Pinho, foi um gosto enorme falar consigo. Muito obrigada por ter vindo aqui. O melhor é difícil e também deve ser difícil ser melhor que a Ana Pinho. Obrigada.
Podcast: Eu estive lá
Host: Maria João Avillez (Observador)
Episode: Melhor é Difícil. Ana Pinho: “O que procuro sempre é conseguir entusiasmar as pessoas”
Date: April 17, 2026
In this episode, Maria João Avillez interviews Ana Pinho, a renowned figure in both the financial and cultural sectors in Portugal, with a particular emphasis on her leadership at the Serralves Foundation. The conversation centers around Ana’s multifaceted career, her approach to leadership and sustainability, the transformative work at Serralves, and the dynamic intersection of economy and culture. The episode radiates admiration for Ana's achievements as she discusses her philosophy, challenges, and aspirations.
The conversation is rich, respectful, and inspiring, marked by mutual admiration, personal anecdotes, and an in-depth look at the art of leadership—both in culture and business. Ana’s warmth, curiosity, and drive are palpable, making her philosophy and achievements relatable and motivating.
This summary provides a comprehensive look for listeners interested in leadership, cultural management, and the dynamic ties between economy and art, as illuminated by Ana Pinho’s extraordinary career.