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“Dentes de Crocodilo”, terceiro livro do escritor e jornalista Maurício Torres Assumpção, é uma obra que entrelaça ficção contemporânea e literatura histórica, conduzindo o leitor por uma narrativa repleta de mistério, tragédia e música. Ambientado entre o Brasil e a França, o romance, publicado pela editora Leya, é inspirado em pesquisas realizadas pelo autor e resgata figuras históricas importantes, como o compositor Heitor Villa-Lobos e a cantora lírica Elsie Houston. Segundo Maurício, o ponto de partida para o livro veio de sua extensa pesquisa sobre a comunidade brasileira em Paris, realizada para sua primeira obra, “A História do Brasil nas Ruas de Paris”, que deu origem ao podcast de mesmo nome publicado pela RFI Brasil.Outra parte da investigação, relacionada aos barões do café, resultou na segunda obra do escritor carioca, o romance Cafeína, lançado em 2020. O material coletado era tão rico que ele decidiu também aproveitar para seu mais recente trabalho.“Quando escrevi Dentes de Crocodilo, ainda aproveitei muito dessa pesquisa, usando agora a vida do Villa-Lobos e da cantora lírica Elsie Houston”, explica o autor. No entanto, desta vez, Maurício optou por criar um romance, inserindo dois personagens contemporâneos que conectam o presente ao passado e dois países, a França e o Brasil.A trama é narrada por Fernando, que retraça uma amizade de mais de 40 anos com Wagner Krause, um professor brasileiro especializado em Villa-Lobos. “Queria criar um personagem para contar a história do outro. Isso também me permitiu explorar a amizade entre dois homens que se conhecem desde a infância e se reencontram em Paris na maturidade”, revela Maurício. Esse reencontro marca o início de uma jornada que mistura pesquisa acadêmica, paixão e tragédia.Wagner Krause é apresentado como um professor de cultura brasileira no King’s College, na Inglaterra, que viaja à Sorbonne para ministrar palestras sobre Villa-Lobos. Durante sua estadia em Paris, ele se apaixona por uma misteriosa mulher, desencadeando os eventos dramáticos do livro. “Essa paixão é o começo da grande tragédia da história”, adianta o autor.Além da ficção, o livro destaca o papel da música brasileira e resgata a trajetória de Villa-Lobos e também de outra figura histórica importante, mas pouco conhecida do grande público, Elsie Houston.“A parte da pesquisa do Villa-Lobos já estava feita e foi incluída no livro A História do Brasil nas Ruas de Paris. Mas também descobri a existência da Elsie, que foi uma cantora lírica muito importante nos anos 1920”, conta Maurício. O autor destaca a relevância de Elsie, não apenas como cantora, mas também como acadêmica. “Ela chegou a dar palestras na Sorbonne e escreveu um livro sobre música brasileira, publicado nos anos 1930. Eu queria redescobrir e revalorizar a Elsie Houston para que as pessoas a descobrissem e se interessem por sua história”, diz.Maurício também aponta que Elsie Houston foi contemporânea, mas acabou “apagada” pelo brilho de Carmen Miranda. As duas dominaram os palcos da época com estilos semelhantes, mas trajetórias muito diferentes. “A Elsie não teve tanto espaço, mas foi muito importante. Ela não tinha só o lado do espetáculo, tinha o lado cultural também”, afirma.Na entrevista, Maurício Torres Assumpção comentou a evolução de sua escrita, que começou com um livro de reportagem até a passagem para a ficção com “Dentes de Crocodilo”. “Meu primeiro livro foi 100% jornalístico. O segundo livro aproveita a pesquisa do primeiro, mas já faz ficção histórica e esse terceiro livro já é uma ficção contemporânea com elementos históricos, jornalísticos. Eu diria que existe um processo gradual de afastamento do jornalismo rumo à ficção total. Esse é o meu objetivo de ser um autor contemporâneo escrevendo só ficção”, conclui

A justiça francesa condenou à pena máxima, 20 anos de prisão, Dominique Pelicot, o homem que durante mais de 10 anos dopava sua então esposa, Gisèle, para estuprá-la e também a oferecia para outros desconhecidos recrutados pela internet para abusar sexualmente dela. Os outros 50 homens acusados do processo pegaram penas entre 3 e 13 anos, abaixo das penas solicitadas pela Promotoria Pública. Renata Gil, do Conselho Nacional de Justiça e nomeada ouvidora Nacional da Mulher, afirma que, se fosse o Brasil, o caso teria resultado em penas muito mais severas. Entrevista de Patrícia MoribeO drama de Gisèle Pelicot ficou conhecido mundialmente e entrou para a história como um caso emblemático da luta das mulheres contra as agressões sexuais. Mas logo que o veredicto foi anunciado, se multiplicaram os comentários, principalmente de associações de defesa das mulheres, alegando que as penas impostas eram brandas demais diante dos crimes cometidos. “Sinceramente, sinto pena de Gisèle Pelicot, que lutou tanto para que esse julgamento fosse histórico. Na realidade, as sentenças não serão históricas”, lamentou Isabelle Boyer, uma das integrantes do coletivo feminista Les Amazones d'Avignon, que há meses vem colando cartazes contra a violência sexual nos muros da cidade francesa.“A pena máxima foi aplicada, mas ela fica aquém da necessária reparação da barbaridade do crime para a vítima”, concordou Renata Gil. A ouvidora Nacional da Mulher lembra que se trata de um caso de estupro coletivo, repetidamente praticado, o que aumenta a gravidade dos delitos, tanto de Dominique Pelicot, como dos outros 50 acusados. “Eles são pessoas que poderiam ter conhecimento da situação em que a vítima se encontrava”, detalha.Legislação do Brasil mais avançada que na FrançaSegundo ela, se o caso de Gisèle Pelicot tivesse ocorrido no Brasil, as penas seriam certamente mais severas, já que o país “tem uma legislação mais avançada do que a francesa com relação às violências contra a mulher”.Renata Gil lembra que a lei Maria da Penha, que contempla várias circunstâncias específicas ligadas à violência contra a mulher, faz com que o Brasil tenha “a terceira melhor legislação do mundo”.Além disso, ela ressalta que a Justiça brasileira adota um protocolo com perspectiva de gênero que tem um impacto direto nesses casos. “Essa norma – de aplicação obrigatória pelos juízes brasileiros – determina que a palavra da vítima em crimes contra as mulheres tem uma relevância maior. Então, as provas que são cotejadas em casos de crimes comuns, como depoimento testemunhal e gravações, elas não têm tamanha relevância como a palavra da vítima nesses crimes”, exemplifica.Mesmo assim, ela considera o caso francês “emblemático” para que as pessoas saiam do silêncio em situações de agressão, inclusive no Brasil, onde a lei é conta com punições mais severas. “Temos índices alarmantes. O país é o quinto que mais mata mulheres no mundo. Então o fato de Gisèle ter exposto sua intimidade é muito relevante, pois acaba incentivando positivamente as denúncias e as punições”, afirma a ouvidora.

O médico Matheus Vieira, natural de Niterói, faz música desde os seis anos de idade, mas era, até há pouco tempo, um diletante. Foi em Paris, onde se estabeleceu há dois anos para cursar um doutorado em Imunologia, que o brasileiro amadureceu a veia artística e criou coragem para se lançar profissionalmente. O resultado é o EP “Moradaramo” que acaba de ser lançado pelo “cientista-artista”. O EP de estreia do cantor, compositor e violonista Matheus Vieira chegou às plataformas digitais em 22 de novembro. “Moradaramo” foi gravado no Brasil, mas foi integralmente composto em Paris. “O desterro da minha casa de Niterói para Paris fez com que as coisas que me atravessam, transbordassem em forma de música, com uma maturidade que eu enfim gostei e quis dar segmento”, conta.O EP, com arranjos e produção do maestro Luiz Potter, tem quatro faixas: “Morada”, “O Corvo e o Assum Preto”, “Casamento de Viúva” e “Nós”. Cada música representa uma estação do ano, espelhando a vivência do artista em Paris. “Viver a marcação das estações foi uma coisa completamente inédita para mim aqui. Eu cheguei no outono e terminei no verão, que já tem sol de novo. Então, eu reencontro esse Sol pessoal”, explica.Cada música também remete a universos distintos da música popular brasileira, como samba ou baião. O compositor diz que a “MPB, que é tão ampla quanto inespecífica”, define o seu estilo musical.Cientista-artistaA trajetória de Matheus Vieira se inscreve na história de outros músicos brasileiros que passaram por Paris desde Heitor Villa-Lobos, nos anos 1920, e construíram pontes entre a França e o Brasil.Ao invés de músico-médico, que não rima, ele se define como um “cientista-artista”, em uma referência ao poeta-diplomata Vinícius de Moraes que serviu muito tempo em Paris.“Ele é uma das referências, inclusive, porque mostrou dentro do meio artístico brasileiro que a gente pode ser várias coisas ao mesmo tempo. Não sou diplomata, talvez um pouco poeta, mas para fazer uma coisa que rime mais, (fica) artista-cientista, que eu acho que dá mais caldo”, aposta.Outra referência almejada é a antropofagia de Oswald de Andrade, que também passou anos importantes em Paris. “A música brasileira é antropofágica por definição”, ressalta o compositor.Leia tambémTom Jobim: 30 anos após sua morte, jornalista francesa relembra entrevista icônica com o músicoPalíndromoO título do EP, “Moradaramo”, é um palíndromo, isto é, um recurso estilístico que pode literalmente ser lido de trás para frente e vice-versa. O nome apareceu de maneira “acidental”, relembra o músico.“Eu fiz a canção ‘Morada’ e a um determinado momento, quando eu estou no final da música, eu repeti a morada, a morada eu vi que (ouvia) ‘dar amor’. E era exatamente isso que eu queria fazer nessa nova fase, nesse capítulo da minha vida”, descreve Matheus Vieira, que vai continuar desenvolvendo paralelamente as duas carreiras, a de médico e a de músico.Nesta quinta-feira (19), ele faz uma primeira apresentação do EP de estreia na Casa de América Latina de Paris.Clique na imagem principal para assistir à entrevista completa.

O empreendedor brasileiro Ezequiel Vedana da Rosa, criador do produto inovador “Piipee”, foi um dos 13 vencedores do programa internacional “Líderes do Futuro”, promovido este ano pela Fundação Príncipe Albert II de Mônaco. Em entrevista à RFI, Ezequiel compartilhou sua trajetória e destacou como sua invenção, um spray que substitui a descarga do vaso sanitário, pode economizar milhões de litros de água potável e conscientizar sobre a importância de preservar recursos hídricos. A ideia do “Piipee” surgiu como um insight. Em 2010, o empreendedor brasileiro, hoje com 36 anos, acordou se perguntando “por que gastamos tanta água para eliminar urina no vaso sanitário?”. Ele lembra que cada pessoa gasta em média de 8 a 12 litros por descarga. No Brasil, isso representa cerca de 40 litros por dia e por pessoa. Ezequiel Vedana da Rosa, que não é químico de formação, levou cinco anos e meio de pesquisa e desenvolvimento para transformar essa ideia em produto e lançar sua startup. A comercialização começou em 2015.O “Piipee” funciona como uma alternativa à descarga do “xixi”, responsável por 80% do consumo de água nos vasos sanitários. Segundo Ezequiel, o spray neutraliza os componentes da urina, composta de 95% de água e 5% de sais e minerais, entre eles a ureia. Ele garante que o produto não faz mal à saúde nem ao meio ambiente.“É como trazer uma estação de tratamento para dentro do sanitário da sua casa”, disse, destacando que, além de economizar água, a inovação higieniza, altera a coloração e perfuma. Concretamente, o usuário pulverizaria o vaso a cada ida ao banheiro. Mas, como o nome indica, o spray só substitui a descarga do “xixi”.SustentabilidadeEzequiel, claro, visa vender seu produto, mas seu foco também é a sustentabilidade, tentando influenciar hábitos para proteger um recurso que é finito e que cujo acesso está cada vez mais difícil.Atualmente, os principais clientes do Piipee são grandes empresas e indústrias, que conseguem reduzir em até 40% os custos mensais com água. O produto também é adotado por particulares que, em alguns casos, reduzem pela metade suas contas. “Não é só economia financeira; é um processo de reeducação sobre nosso impacto no planeta”, diz.Um dos principais desafios para a aceitação do Piipee é cultural. O hábito de acionar a descarga está fortemente associado à higiene e à saúde pública. “Independentemente da cultura, as pessoas não refletem sobre esse ato diário”. Em todo o mundo, ele indica que “7 bilhões de pessoas acionam a descarga todos os dias” sem pensar no desperdício de água que esse ato representa.Ezequiel Vedana ressalta que temos “a falsa sensação” de que só porque acionamos a descarga, limpamos o vaso sanitário. “A gente toma banho, lava nossas roupas, nossas louças, só com água?”, questiona.Crises hídricasCenários de crise hídrica, como o que está previsto em Barcelona novamente em 2025, “ajudam a quebrar essas barreiras e abrir portas para soluções como a nossa”, afirmou. Diante do racionamento de água inevitável, sem água para fazer comida, para tomar banho, para limpar pelo menos uma vez por semana a casa, a população veria a inovação como uma boa alternativa, defende o empresário.Apesar de o Brasil possuir grande disponibilidade de água, Ezequiel alerta para os riscos das mudanças climáticas. Ele mencionou as secas históricas recentes na Amazônia como um indicativo de que situações semelhantes se repetirão. “A temperatura global está subindo além do esperado, e muitas metas para 2030 não serão alcançadas. Precisamos criar métodos que prolonguem nossa sobrevivência no planeta”, destacou.O reconhecimento internacional não é novidade para o empreendedor. Além do prêmio da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco, o Piipee já recebeu mais de 35 premiações, incluindo um selo da ONU como uma das soluções mais inovadoras para combater as mudanças climáticas até 2030. Para ele, esses prêmios são essenciais para legitimar a proposta. “Não é só um maluco do Brasil com uma ideia mirabolante. Quando organizações como a ONU e prefeituras de grandes cidades apoiam, isso valida nosso trabalho.”Atualmente, Ezequiel busca expandir a atuação do Piipee na Europa, e principalmente na França, onde reside atualmente a convite da Prefeitura de Paris. Para ele, a consciência ambiental e os desafios hídricos são mais evidentes no velho continente. Ele concluiu a entrevista reafirmando que sua inovação busca não apenas revolucionar a gestão de águas residuais, mas também promover um debate urgente sobre o uso consciente dos recursos naturais e a preservação do planeta.

Um romance biográfico para contar a história de um dos maiores instrumentistas do Brasil. “Hermeto Campeão, os pensamentos de Pascoal” em tradução livre, foi publicado na França pela editora L’Harmattan. O livro escrito por Pierre Sicsic, um engenheiro francês apaixonado pelo Brasil, explora com riqueza de detalhes a cultura, as tradições e o folclore brasileiros, tendo como pano de fundo a vida de Hermeto Pascoal. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Da infância em Lagoa da Canoa, no interior de Alagoas, até se tornar um ícone da música brasileira. A trajetória de Hermeto Pascoal na música começa muito cedo, quando ele “se comunicava e compunha com os animais, com a natureza, os sapos, as formigas, as cigarras”. Ele era um garoto especial, que ao mesmo tempo que tinha dificuldades na escola por não conseguir ler, tinha um ouvido afinado. “Ele sempre soube que nasceu músico. Talvez por causa do albinismo, já que ele nasceu no campo, mas não podia acompanhar o pai na roça por causa do sol, ele ficava na sombra, perto da água, perto das árvores, perto dos pássaros, e ele aprendeu a música com isso tudo”, contextualiza o autor. Filho do seu Pascoal, que tocava acordeão nas festas do vilarejo, Hermeto e o irmão, Zé Neto, roubaram o instrumento do pai para aprender sozinhos. Autodidata, primeiro no acordeão, depois no pandeiro e no piano, todos logo perceberiam que o lugar dele era no palco. Os dois irmãos fugiram ainda adolescentes para o Recife, onde arrumaram o primeiro emprego na rádio. “Os músicos com quem ele trabalhava viram que Hermeto era muito mais do que um simples tocador de sanfona. Ele toca forró, ele toca a música popular, foi assim que ele começou. Mas todo mundo viu que ele ia muito mais longe”, completa o autor. No livro, dois personagens, Antoine e Chiara, levam o leitor a descobrir a vida de Hermeto Pascoal, nascido em 1936, e que ainda hoje, aos 88 anos, enche salas de concerto pelo mundo. Mas por que um romance biográfico e não uma biografia? “A escolha do romance veio depois de uma conversa com Cacau (Cláudio Cacau de Queiroz), músico que tocou com o Hermeto e que fez o prefácio do livro, ele me falou que realmente o Hermeto merecia um romance, porque a vida dele é um romance”, avalia. Os detalhes do albinismo e como Hermeto Pascoal sempre enfrentou com determinação o preconceito. O amor de uma vida inteira pela esposa Ilza. A amizade com Sivuca. O cabelo comprido e a barba longa, que Hermeto Pascoal adquiriu nos Estados Unidos, entre os anos 1970-1972, onde tocou com grandes nomes da música americana. Tudo isso está exposto ao longo de mais de 300 páginas. Ficção e realidadePierre Sicsic afirma que os dois personagens principais são frutos de ficção, ainda que Antoine “seja um pouco autobiográfico”. “Tem coisas da minha vida e coisas que imaginei e que inventei para a vida do Antoine”, completa o autor, que incluiu cenas passadas na França. “Eu quis mostrar a diferença entre dois caminhos: o do Hermeto, que é uma linha reta, pois ele sempre fez o que queria fazer, sem compromisso nenhum, enquanto a trajetória do Antoine é diferente. Ele é um técnico, mas também músico amador, até que as duas trajetórias vão se juntar”, explica. O personagem Antoine embarca em uma viagem pela América do Sul, passando pela Bolívia, Peru e Equador, em busca do que acreditava ser a música original, autêntica. Mas ele não encontra nada disso antes de chegar ao Brasil, país do qual não sabia nada, antes de entrar de ônibus, chegando do Paraguai. Foi exatamente a sensação de Pierre ao visitar o Brasil pela primeira vez, no fim dos anos 1970. “Eu não sabia nada de samba, nada de futebol ou das imagens populares do Brasil no mundo”, diz. “Não me interessava. Eu descobri o Brasil primeiro no Rio de Janeiro, depois na Bahia, no momento em que havia essa explosão da MPB, da música popular brasileira, com todos os músicos Chico, Caetano, Gil, etc. Então, fiquei apaixonado por essa música e o que eu buscava estava no Brasil”, afirma. Hermeto Pascoal conheceu o jazz quando chegou ao Recife, cidade portuária do Nordeste onde havia uma base militar americana e os marinheiros costumavam tocar nos bares. “Isso foi talvez a primeira abertura para ele fora da música regional. Ele tocava nas festas populares, lá em Pernambuco, com forró, frevo, maracatu, etc. E é aí que ele saiu desse âmbito para coisas mais abertas, mais exóticas”, comenta o autor. O autor visitou a região de Lagoa da Canoa, terra natal de Hermeto, onde encontrou com a família do músico, seus primos e primas, que são agricultores. “Era importante para mim fazer essa relação entre a história do Hermeto e a história do país, porque tem a ver com os acontecimentos políticos no Brasil, que têm uma influência na história do Hermeto também”, observa Pierre Sicsic. Perguntado se Hermeto Pascoal tem o reconhecimento que deveria, Sicsic acredita que não. “Eu acho que ele não tem o reconhecimento que merece, pois ele é muito conhecido dos músicos, tem um público aqui na Europa, talvez mais que no Brasil, mas fica restrito aos amantes da música”, diz. “O objetivo do livro é fazer conhecer mais essa música, que não é fácil na primeira escuta e que pode ser difícil para alguns”, conclui. O livro, publicado para o público francês, tem um glossário no final com expressões regionais como acarajé, afoxé, atabaque... um mergulho na Bahia, onde o personagem desembarcou para conhecer, primeiro, o carnaval. O próximo passo será traduzir a obra para português. “A primeira coisa que tenho que fazer, depois da publicação em francês, é publicar no Brasil. Vou ter que encontrar uma editora no Brasil e fazer a tradução. Já começamos o trabalho com um amigo em Curitiba, pois esse livro é também para o Brasil”, convida. O lançamento com sessão de autógrafos em Paris será no sábado (14), às 15h na livraria Aux Quatre Vents. O endereço é 21 rue des Écoles, em Paris.

Grande observador do mundo, de suas movimentações políticas e ambientais, o geógrafo Hervé Théry começou a pesquisar a Amazônia há exatos 50 anos. Em seu novo livro, “Amazone, um monde en partage”, lançado na França, ele traça um panorama da região e discute desafios de sustentabilidade da maior floresta tropical do planeta. Pesquisador emérito do Centro Nacional de Pesquisas Cientificas (CNRS), da França, e professor do Departamento de Geografia da USP, Hervé Théry tem sido uma testemunha das mudanças na Amazônia desde que fez sua primeira viagem de pesquisa ao Brasil, em fevereiro de 1974.Uma tradução literal do livro que Théry está lançando seria “Amazônia, um mundo compartilhado”. Ele explica: “Ela foi inicialmente compartilhada no Tratado de Tordesilhas entre espanhóis e portugueses, isso no início da chegada dos europeus. Mas ao chegarem, os europeus tiveram que compartilhar com quem estava lá, com os autóctones, os indígenas. Depois teve de ser compartilhada entre os países que se tornaram independentes e cada um ficou com um pedaço da Amazônia. ” Ele cita ainda a expressão francesa “recevoir en partage”, que significa “receber de herança”. “Ou seja, trata-se de uma herança que a humanidade recebeu e que deveria ser bem cuidada”, explica.O livro expõe uma visão abrangente e reflexiva sobre a Amazônia, desde aspectos geográficos e históricos, até chegar ao que ele chama de “xis da questão”, que são os desafios de políticas públicas para um planejamento sustentável. Para ele, proteger por proteger não adianta, é preciso dar condições de vida aos habitantes do mundo rural, seja os que vão desmatar ou não, colocando em prática culturas mais eficientes e menos destrutivas, por exemplo.Preservar e desenvolverNos anos 1990 e 2000, Théry participou Comitê Científico do PPG7, um programa-piloto do G7 para a Amazônia, quando presenciou a tensão entre os que defendiam a preservação, de um lado, e do outro, o desenvolvimento. “Mas a Amazônia é tão imensa. Eu sou geógrafo, sensível às questões espaciais. Tem espaço de sobra para todo mundo. Se for decidido que metade da Amazônia é intocável e que com 50% dá para fazer agronegócio, pequena agricultura, pecuária, tem espaço para isso. Só que as duas partes são extremistas e não queriam. É preciso achar políticas que sejam capazes de preservar e dar, ao mesmo tempo, possibilidades para os habitantes de lá ou para gente que queira ir viver lá”.“Às vezes eu tenho discussões bem fortes com os habitantes de lá. ‘Quem são vocês, europeus, para dizer para não desmatar? Vocês desmataram tudo.’ Eu digo sim, é verdade. Principalmente no século XIII. Só que desde então temos uma agricultura estável. Então, em francês não se fala de sustentável, se fala durável. De uma coisa que dura oito séculos”. O mais importante, ele ressalta, é “dar possibilidade de as pessoas viverem bem e preservar o estado da floresta. Porque dependem disso. ”Pulmão do mundoThéry contesta a expressão de que a Amazônia é o pulmão do mundo. “O pulmão absorve o oxigênio e produz CO2. Exatamente o contrário do que a gente quer”, explica. “Já a floresta faz o mesmo, mas também transforma o CO2 em oxigênio pela fotossíntese. Mas, no momento, o balanço da Amazônia, que absorvia carbono e devolvia oxigênio, está começando a fraquejar por conta do desmatamento”.Ele também refuta outra ideia pré-concebida da “floresta virgem, onde não tem ninguém a não ser poucos índios”. São mais de 20 milhões de habitantes na Amazônia brasileira e mais de 30 milhões na região toda. “Ou seja, é uma região já ocupada”, diz, citando a geógrafa brasileira Bertha Becker, que usava o termo “selva urbanizada”.Centro do continentePara escrever o livro, Théry teve de pesquisar sobre a Amazônia de outros países e isso o levou a constatar a comunicação ativa entre todas as áreas.“A Amazônia, hoje uma região, não é mais o fundo de quintal dos nove países, mas um lugar topograficamente no centro do continente”, diz. “Em termos de conexão também. Você pode pegar ônibus em São Paulo e ir para Lima ou para Caracas. Você já tem conexões fluviais rodoviárias que recolocam a Amazônia no centro do continente.

A queda do regime de Bashar al-Assad abriu um novo capítulo na história da Síria e representa um grande desafio para a estabilização do país. A ascensão do grupo rebelde Hayat Tahrir al-Sham (HTS), liderado por Abu Mohamed al-Jolani, trouxe alívio para os opositores do regime, mas também alimenta preocupações sobre o futuro político, social e econômico da Síria. Para o presidente da Comissão Independente de Investigação sobre a Síria da ONU, Paulo Sérgio Pinheiro, nenhum "astrólogo" pode prever o que vai acontecer no país, assim como é difícil acreditar na possibilidade de ver Assad responder pelos crimes cometidos durante seus quase 25 anos no poder. “A primeira constatação é a alegria da população das principais cidades, especialmente em Damasco, de ver os presos libertados. As famílias vão, afinal, saber quem está vivo, quem não está. Muitos presos, com mais de 10 anos de prisão, foram torturados barbaramente. Todos os horrores vem à tona, isso é positivo", afirma Paulo Sérgio Pinheiro, que preside a Comissão desde 2011 e já visitou várias vezes o país durante o processo de investigação.Ele destacou que o regime de Assad marcou, além de um período de repressão brutal, um colapso econômico e social, com 90% da população vivendo abaixo da linha da pobreza.Pinheiro enfatizou que 16 milhões de sírios ainda necessitam de assistência básica. "Infelizmente, apenas 23% do financiamento humanitário necessário foi atendido pelos doadores internacionais. A ajuda está fraquíssima. Então, a situação tanto social quanto econômica é desastrosa, e como na geopolítica, é extremamente confusa", ressalta Pinheiro.Solução por via diplomáticaA presença de bases militares da Rússia, juntamente com milícias iraquianas e iranianas em território sírio tornam as negociações ainda mais complexas para as novas lideranças do país. No entanto, o presidente da Comissão independente da ONU para a Síria destaca que, como tem insistido nos últimos anos com as instâncias internacionais, a solução passa por canais diplomáticos. Sobre a possibilidade de diálogo com o HTS, grupo com origens em organizações terroristas como a Al-Qaeda, Pinheiro foi enfático: "A diplomacia precisa falar com todos. Não há solução militar para a Síria, apenas uma solução política e diplomática."Embora o HTS, do líder al-Jolani, tenha histórico ligado a grupos extremistas como Al-Qaeda e Estado Islâmico, e também de muitas violações de direitos humanos, denunciados pela própria Comissão, Pinheiro reconheceu avanços sob sua administração em Idlib, como melhorias no fornecimento de serviços essenciais.Apesar de terem cometido violações, tortura, assassinatos, prisões arbitrárias, silenciamento das críticas da oposição, por outro lado, eles conseguiram institucionalizar, quer dizer, o lixo, água, eletricidade, que é importante para a população. E uma certa tolerância com outras crenças. Então, de uma certa maneira, o discurso de (al-Jolani) é de um líder moderado”, afirma Paulo Sérgio Pinheiro.Habilidade de líder rebeldeApesar dos discursos moderados da nova liderança, que promete não retaliar aliados do regime de Assad, Pinheiro foi cauteloso ao prever estabilidade a curto prazo. "O cenário é extremamente incerto, com desafios econômicos, sociais e políticos massivos. Mesmo com um líder habilidoso como Jolani, resta saber se ele conseguirá concretizar suas promessas. Poucas vezes eu ouvi de um líder de uma revolução um discurso tão articulado e moderado. Então é um cara hábil. Agora, se essa habilidade dele vai ser concretizada nos fatos, ninguém sabe. Nem um astrólogo pode prever."Sobre a possibilidade do ditador Bashar al-Assad responder pelos crimes cometidos durante seu regime, Paulo Sérgio Pinheiro é pouco otimista. “O Assad está ótimo na Rússia. Ele nunca vai ser pego pelo Tribunal Penal Internacional, porque primeiro, a Síria nem faz parte do tratado, e mesmo que venha a ser parte, a Rússia vai mantê-lo escondido. Ele deve estar em Vladivostok, ou na Sibéria, em algum lugar bem tranquilo. Enquanto eu estiver vivo não vou vê-lo processado”, afirma Pinheiro.Segundo ele, a ONU tem um papel limitado na transição política da Síria. "Nosso trabalho é documentar e investigar as violações de direitos humanos. Não estamos envolvidos em negociações políticas, mas continuaremos colaborando com processos judiciais em países com jurisdições independentes. Nosso trabalho é documentar. E o que a gente está fazendo até agora, vamos fazer depois dessa transição que eu espero que possa ser tão logo quanto possível", ressalta.

O Papa Francisco nomeou, neste sábado (7), 21 novos cardeais. Entre eles, está o brasileiro Dom Jaime Spengler. O franciscano de 64 anos, recebeu o barrete vermelho na cerimônia na Basílica de São Pedro, durante o Consistório Ordinário Público. O arcebispo de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, nasceu em Gaspar, no estado de Santa Catarina. Ordenado padre em 1990, o prelado se junta ao grupo de sete brasileiros que compõe o Colégio Cardinalício. Atualmente Spengler é também presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam). Gina Marques, de Roma,Na cerimônia do Consistório, o Papa Francisco disse aos novos cardeais que a missão deles é a construção da unidade e que não cedam à “competição corrosiva”, nem se deslumbrem com prestígio, poder e aparência.O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, veio a Roma para acompanhar a solenidade. Além de um breve encontro com o pontífice, o político (PSB) se reuniu com o novo cardeal brasileiro.Antes da cerimônia no Vaticano presidida pelo Papa Francisco, os novos cardeais encontraram os jornalistas na Sala de Imprensa da Santa Sé, ocasião para Dom Jaime Spengler comentar a importância de sua nova designação. “Eu diria que a importância talvez seja uma espécie de reconhecimento pelo trabalho que estamos tentando desenvolver ao nível continental. Por outro lado, a importância aponta para o chamado a uma cooperação ainda mais intensa na promoção daquilo que é a missão da própria Igreja no contexto universal, ou seja, de promover a comunhão entre os povos, de anunciar o evangelho onde ela se faz presente.”Segundo o cardeal, atualmente um dos maiores desafios da Igreja talvez seja a transmissão da fé com uma linguagem adequada às novas gerações. “Talvez a linguagem que hoje nós usamos encontre dificuldade na sua receptividade, sobretudo pelos adolescentes e jovens. Esse é um aspecto. O segundo aspecto, que eu creio nos desafie, é tornar conhecida aquilo que é a doutrina social da Igreja nos diversos ambientes. Não só intra, mas também extra eclesiais. A Igreja possui um tesouro que pode ir ao encontro de tantos desafios que a sociedade globalizada hoje deve afrontar.” afirmou.A Igreja vive uma crise de vocações e o problema não é de hoje. Cada vez menos jovens seguem o chamado sacerdotal. Dom Spengler admite que o declínio vocacional, vivenciado intensamente na Europa, começa também a se sentir no contexto brasileiro e latino-americano. “Como fazer frente a isto? Eu gosto sempre de recordar uma expressão de São Paulo VI, que está num texto dos anos 70 chamado Evangelii Nuntiandi, onde ele dizia que o ser humano hoje ouve com muito mais atenção as testemunhas que os mestres. Eu creio que para fazer frente, por exemplo, aos desafios vocacionais hoje, a grande exigência é (ter) testemunhas críveis.” frisou.Guerras pelo mundoAtualmente muitas guerras assolam o mundo. O Papa Francisco incansavelmente faz diversos apelos pela paz. O cardeal ressaltou que aqueles que mais sofrem com os conflitos armados são os pobres.“Atualmente, se não me falha a memória, nós temos 59 conflitos armados acontecendo mundo afora. Para nós cristãos e católicos não podemos esquecer algo que é fundamental: Cristo é a nossa paz. A referência ao foco não pode deixar de ser o Cristo. Portanto, resgatar ou promover um olhar focado para Ele, que de alguma forma é uma referência para nossa cultura, não só ocidental, se torna decisivo para fazer frente as realidades conflitivas que tantos sofrem as consequências. Quem mais sofre com as guerras, com os conflitos, são os pobres. A Igreja estará sempre ao lado dos pobres.” destacou.Durante a entrevista à RFI, o arcebispo de Porto Alegre, emocionado, enviou uma mensagem de solidariedade à população do Rio Grande do Sul que este ano sofreu com a devastação provocada por enchentes. A catástrofe deixou 183 mortos e 27 desaparecidos. Na época, o Vaticano doou quase meio milhão de reais ao estado. “Não percamos a esperança e continuemos alimentando entre nós aquilo que a tragédia fez vir à tona de uma forma toda especial, não só no Rio Grande do Sul, mas em todo o Brasil e além das fronteiras também, a solidariedade. Foi talvez a maior onda de solidariedade que tivemos na história do nosso Brasil. Isso diz que o nosso povo é bom, que existe gente boa demais. Esta bondade, esse jeito de ser solidário, precisa não só ser reconhecido, mas promovido. Que Deus nos conceda graça de continuar alimentando entre nós a solidariedade.” salientou. Os desafios climáticos estiveram no centro das preocupações do Papa Francisco ao escrever a encíclica Laudado Si' que aborda, entre outros temas, a questão ambiental. O Sumo Pontífice também mostrou seu comprometimento com o meio ambiente ao promover o Sínodo da Amazônia no Vaticano.“A casa comum pede de socorro. No fundo, o Sínodo da Amazônia como também a encíclica Laudato Si' e a Exortação Apostólica Laudate Deum de alguma forma nos recordam a necessidade, a urgência, por assim dizer, de cuidado em relação à casa comum.” disse o cardeal.Do Jaime Spengler também lembrou que o Papa Francisco escreveu outro documento recentemente que alerta para a necessidade de maior solidariedade no mundo. “Nesta outra encíclica, que não tem feito muita notícia, a Dilexit Nos, o Papa trata da questão do coração. Quando nós perdemos talvez a dimensão do coração, da sensibilidade humana, as tragédias se fazem presentes. Certamente a casa comum sofre, como vimos no Rio Grande do Sul, no centro-oeste do Brasil, estamos assistindo agora na Amazônia, além da Ásia. Essa semana tivemos situações muito delicadas em outros contextos. A partir da sensibilidade humana, precisamos nos abrir para o cuidado em relação a esse tesouro, do qual depende não só a nossa sobrevivência, mas a sobrevivência de todo o planeta que é a casa comum.” ressaltou.Cardeais eleitoresO Consistório de sábado foi o décimo do Papa Francisco. Dos 21 novos cardeais, apenas um não poderá votar para eleger o próximo pontífice em um eventual conclave, o ex-núncio Angelo Acerbi, que tem 99 anos. Só os cardeais que não ultrapassem os 80 anos de idade são eleitores em conclaves.Atualmente são 140 os cardeias que têm direito de voto, o número mais elevado registrado desde que Paulo VI estabeleceu em 120 o número máximo de purpurados com menos de 80 anos, embora em 2025 catorze prelados completarão esta idade.Há onze novos cardeais europeus, dos quais cinco italianos; seis do continente americano, dos quais cinco sul-americanos, três asiáticos e um africano. Atualmente o Colégio Cardinalício é composto por 253 membros, dos quais 140 eleitores e 113 não eleitores.O papa anunciou a nomeação de novos cardeais em 6 de outubro, mas um dos nomeados recusou o cardinalato, fato raro entre os religiosos. Trata-se do franciscano Paskalis Bruno Syukur, bispo de Bogor, na Indonésia. Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, a recusa dele foi para continuar seu crescimento “no serviço à Igreja e ao povo de Deus”.No entanto, segundo o jornal italiano, La Repubblica, na diocese de bispo Syukur há denúncias de casos de abuso sexual contra menores. O jornal levantou a hipótese que talvez teria sido este o motivo da recusa ao barrete vermelho.Após a decisão do bispo indonésio, o papa incluiu o arcebispo de Nápoles, dom Domenico Battaglia, na lista dos novos cardeais.

Neste domingo, 8 de dezembro, completam-se 30 anos da morte de Antônio Carlos Jobim, um dos maiores nomes da música brasileira. Para marcar a data, o programa RFI Convida conversou com a jornalista francesa Annie Gasnier, que relembrou momentos marcantes de sua entrevista com o cantor, compositor e maestro em 1994, pouco antes de sua morte. Ela compartilhou detalhes dos bastidores da conversa, incluindo o ambiente descontraído na casa do artista, as lembranças do encontro dele com o parceiro Vinícius de Moraes e a confissão feita por Jobim de uma de suas versões preferidas de "Garota de Ipanema".Annie Gasnier descreveu com emoção como foi recebida na casa de Tom Jobim, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, um espaço que refletia a harmonia entre modernidade e natureza, característica muito presente nas composições do artista.“Era uma casa muito bonita, aberta sobre a natureza, com flores e muito verde. Estavam lá a mulher dele, Ana, a filha, Maria Luísa, e os cachorros. Foi perto do piano, tomando café, um momento muito tocante para mim” lembrou.A jornalista destacou a descontração de Tom Jobim durante a entrevista e o tom de bate-papo usado pelo maestro ao comentar os assuntos, variados, desde suas lembranças de Ipanema, até a parceria com Vinícius de Moraes, e a história por trás de uma das canções que o tornaram mundialmente conhecido: "Garota de Ipanema". “O mais interessante é que em Ipanema ainda existe esse bar onde eles escreveram essa canção, onde passava essa garota, que hoje todos sabem que é a Helô Pinheiro. Na época se chamava Bar Veloso, mas que virou Garota de Ipanema. Acho que o Brasil também entrou nos Estados Unidos graças também a essa música”, comentou.Questionado por Annie Gasnier sobre as diversas versões da famosa canção, Tom Jobim respondeu primeiramente ter perdido a conta, mas estimava em mais de 500 versões e traduções para o clássico, que segundo disse na entrevista, era uma "música local que se tornou universal". Depois, ao lado do piano, Tom Jobim confessou à jornalista que uma de suas interpretações favoritas era da cantora de jazz americana, Ella Fitzgerald.“Tom Jobim estava tocando algumas notas no piano e depois disse: ‘acho que uma das versões que mais me tocou e emocionou foi a de Ella Fitzgerald. Ela colocou uma emoção diferente, coisa de mulher', ele disse”, lembrou Annie Gasnier.Relação com a FrançaA gravação mantida pela jornalista mostra ainda que durante toda a entrevista, Tom Jobim se esforçava em introduzir palavras em francês nas respostas. “Faltava prática. Ele era daquela burguesia do Rio de Janeiro que falava francês. O pai dele tinha sido diplomata na França em 1940. Ele morou algum tempo, e também viajava bastante para a França por causa do trabalho, mas também porque gostava”, conta Annie Gasnier.Outra lembrança marcante para Tom Jobim com a França, registrada na entrevista, foi sobre a conquista da Palma de Ouro do Festival de Cannes do filme Orfeu Negro, dirigido por Marcel Camus baseado na obra Orfeu da Conceição de Vinícius de Moraes.Tom Jobim compôs com o parceiro várias músicas para a trilha sonora do premiado longa, entre elas, “A Felicidade”. “Pela primeira vez meu nome com o do Vinícius apareceu em Paris e tudo mais com as músicas do Orfeu”, disse Jobim à jornalista.

O escritor carioca Marco Guimarães é autor de 12 romances, alguns deles traduzidos e publicados não só no Brasil, mas em países como Angola, Croácia, Itália e França. Radicado em Paris, ele acaba de lançar o terceiro livro publicado em francês, L’étrange miroir du Quartier Latin (O estranho espelho do Quartier Latin, em tradução livre), que sobrevoa um universo anteriormente já abordado pelo autor: o antigo bairro do Quartier Latin, povoado desde a Idade Média por "fantasmas", "mitos" e "espelhos". Em seus Diários, o escritor argentino Ricardo Piglia costumava dizer que o lugar de onde se escreve determina de alguma forma a escrita. Mas, para o escritor carioca Marco Guimarães, o processo é um pouco mais complexo que uma referência ou transposição geográfica. "De qualquer forma, não é bem isso", diz o autor, radicado há 14 anos na capital francesa. "Nós precisamos pensar o seguinte: há uma ativação inconsciente de uma imagem arquetípica que modula e transforma nossa obra. Acredito que isso está ligado a um inconsciente coletivo que acabamos acessando", afirma."Trabalhei bastante sobre isso, talvez haja uma relação entre esse inconsciente coletivo, essas imagens arquetípicas e minha escolha por Paris. Essa escolha, talvez, esteja ancorada em simbolismos presentes na vivência na cidade e na própria história dela. Acho que isso pode fazer sentido", admite. "O universo dos escritores latino-americanos que ocasionalmente escreveram em Paris ou sobre Paris, como outro argentino, Julio Cortázar, autor do monumental O Jogo da Amarelinha, clássico da literatura mundial escrito na capital francesa, é extenso. Cortázar costumava dizer que "Paris é uma imensa metáfora" e que "caminhar por Paris significa avançar até mim". "Para mim, esse conceito vai ainda mais longe", afirma Guimarães. "A linguagem da literatura é, essencialmente, metafórica. E a mesma metáfora que usamos para escrever é também usada pelo leitor para interpretar o texto", argumenta.Os "mistérios" do Quartier LatinMas se o argentino Cortázar fala sobre "constelações mentais e sentimentais" em suas flâneries pela capital francesa, Guimarães traz o leitor de volta em seu novo livro ao velho bairro do Quartier Latin, na rive gauche de Paris, bairro que começou a ser densamente povoado ainda no século 13, na época medieval, um lugar cheio de "fantasmas" e "espelhos"."O Quartier Latin é conhecido como o bairro das 'sorcières', das bruxas, há até histórias e livros publicados sobre isso. Acho que o local tem uma espécie de magia. Pude sentir isso quando cheguei a Paris há 14 anos. Fui muito bem recebido pela comunidade da Rue Mouffetard, onde morei por muito tempo", conta o escritor. "É também uma das áreas mais antigas, porque, na época romana, era um dos caminhos que levavam a Roma. Tudo isso me faz voltar ao tema do inconsciente coletivo e das imagens arquetípicas. A Rue Mouffetard, com seus mistérios e simbolismos, sem dúvida, faz parte da minha trajetória literária", descreve o autor. "Esse livro aborda a história de um suicídio que ocorre em Paris", relata Guimarães. "É difícil classificá-lo em um gênero específico. Ele se insere no realismo fantástico, mas também apresenta elementos do polar [romance policial]. No entanto, não é um policial clássico, porque, nesse gênero tradicional, a narrativa é geralmente muito centrada em um detetive ou policial que investiga e resolve um crime. Não é o caso aqui", avalia. A morte como referência literária"Esse livro, como muitos outros da minha trajetória literária, traz a morte como um elemento recorrente. A morte está sempre presente. Isso é algo que aparece ao longo de várias obras, e não é diferente nesta. Mas, além disso, você vai notar referências literárias, como O Retrato de Dorian Gray, de [Oscar] Wilde, Madame Bovary, de [Gustave] Flaubert, Os Sofrimentos do Jovem Werther, de [Johann Wolfgang von] Goethe, ou A Morte de Ivan Ilitch, de [Liev] Tolstói", diz. "A morte é um tema universal, presente na literatura de forma marcante. É curioso, porque a ficção, ao mesmo tempo em que nos dá vida, também carrega essa força simbólica da morte", afirma Marco Guimarães.O livro L'étrange mirroir du Quartier Latin, publicado pela Amazon Europa, se encontra disponível em distribuição pela internet.